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Capítulo 34 de 47

Paz E Ventura — parte 10 de 13

A Volta de Jesus Cristo · Osvaldo Polidoro

medida de ordem técnica, deixamos para os encarnados o direito de conceituar como complexidade, precisamente aquilo que dizemos simplicidade. Os encarnados partem de premissas um tanto contrárias, partem dos fenômenos e dos conceitos materiais, dos escolasticismos, da terminologia científica ou pseudocientífica, dos efeitos para as causas, enquanto nós aprendemos e bem depressa a começar do começo, de Deus e das leis causais. Sendo assim, quando os conceitos de algum encarnado chegam aqui, todos sob medidas formais, escolásticas, lastreados pelos importantes — Fulano disse, etc. —, nós vamos às verdades-chave, ao centro de gravidade, aos princípios. E podemos, então, de dentro de nossa crassa ignorância, compreender e sentir que a realidade tabelada pelos encarnados fica muito melhor quando livre das tabelas... E quando as tabelinhas vêm dos quadros religiosistas, temos por obrigação tomar medidas imediatas, porque as tabelinhas que na crosta funcionam em nome de Deus, da Verdade, do Amor e da Virtude, ou do Cristo Verbo que a tudo isso representa, verdadeiramente funcionam em benefício de grupos que tais, de súcias mercantilistas e politiqueiras, na maioria das vezes. Porque outras vezes funcionam em nome de simples fanatismos sectários, porém puros de intenção, o que já representa uma boa quantia de valores dirimentes. Dito isso, vamos ao fato. William, o pastor, saíra da carne embalado e forrado pelos conceitos luteranistas; e tinha seus grandes méritos! Porém, tinha horror a respeito de muitíssimas leis ou verdades que jamais poderiam ser de fabricação humana. Mudaria Deus ou mudaria o ex-pastor William? Por causa disso é que a Mensageiria Divina funcionou, enviando o homem cheio de boas prendas, de modo encantador; ele veio como que do Céu, através de graciosa faixa de luzes, onde se misturavam três cores, o verde brilhante, o azul-prateado brilhante e o lilás muito claro e também brilhante. Um presente do Céu, diremos, que ficaria ao nosso encargo entregar a um novo instrumento carnal, para os devidos efeitos progressivos. Pisou o solo do nosso jardim, todo sorridente, trazendo na mão direita um bilhetinho. Entregou-o ao chefe dos serviços e este leu aquilo que está encimando o capítulo. Diante do irmão assim afeito aos tratos bíblicos, o chefe indagou: — Fomos avisados de sua vinda; mas, perguntamos, que gostaria de fazer, até a hora de tomar conta de novo fardamento carnal? Sem perder tempo, respondeu: — Estar sempre em contato com o mundo carnal, pois durante a vida cometi o erro de condenar a Revelação. — Entretanto, irmão William, veio muito bem, pois não? — Sim, porque o Senhor Deus, nosso Pai, observa as obras e não as manias sectárias de Seus filhos. — Que mais o encantou no mundo espiritual, assim que chegou? — Antes já de abandonar de vez o corpo, vi ao redor do chamado leito de morte, dezenas de irmãos conhecidos, que haviam partido antes de mim, estando entre eles alguns desconhecidos, deslumbrantes de luz, que me convidavam a acompanhá-los. Isso foi, para mim, uma graça de Deus que jamais teria esperado. Depois de estar por aqui, a maior graça foi ter visto Jesus Cristo, de muito longe, tendo ouvido Dele algumas palavras... Só Deus sabe como me senti!...

— Que lhe disse Ele? – perguntou-lhe o chefe, curioso. — Ouvi-O dizer perfeitamente: “Tu estremeces diante da minha visão. Todavia, terás que ser como eu sou... Volta ao mundo carnal, sê um verdadeiro profeta, progride e faz progredir a teus irmãos...” O chefe disse-lhe: — Reencarnar é por nossa conta, como já sabe; entretanto, como pensa que se sairá, no mundo? William meditou um pouco e respondeu: — Isso depende de vários fatores... Se Deus me conceder faculdades psíquicas, e se eu vier a ter em Deus e em Jesus Cristo a fé que já tive, tenho certeza de que regressarei, um dia, com os meus deveres fielmente cumpridos. — Dentre as faculdades, qual a que mais lhe agradaria possuir? Prontamente respondeu: — Gostaria de ser um bom clarividente! — Por quê? – perguntou-lhe o chefe. — Quem tem a visão do mundo espiritual, certamente pensa, sente e age com mais elevação de caráter. Lendo após a morte o Evangelho, tive oportunidade de apreciar muitas particularidades. Jesus, que tinha os anjos subindo e descendo sobre a Sua cabeça, tendo tudo isso diante de Sua visão psíquica, ou de quem tinha o Espírito de Dons e Sinais sem medida, não teria encontrado nessa maravilhosa faculdade a Sua maior força? Está escrito, também, que Ele tinha, diante de Si, os céus abertos; e podemos aquilatar, mais uma vez, o que isso pode significar, como fonte de coragem e resignação. O chefe apontou para um dos presentes, dizendo: — Você vai hospedar William, até o dia em que deva reencarnar; e, lembre-se, ele tomará parte em quantos trabalhos quiser, mormente aqueles que tenham de ser feitos junto aos encarnados, para se ir ambientando. Cada qual foi para seus destinos; e no dia seguinte, à tarde, havendo sessão em determinada residência terrestre, lá estava o grupo todo, inclusive ele, o irmão William, que revelava bastante curiosidade. Nem poderia ser de menos, porque os encarnados eram poucos, menos de quinze ao entrarmos, porém dotados de intenções mui nobres, sendo que alguns eram dotados de poderosa clarividência, razão por que foram avisando da chegada dos mentores espirituais, com uma precisão encantadora. Mal sabia ele, William, que ao iniciar-se o trabalho, vários daqueles encarnados poderiam deixar seus corpos, invadir o mundo espiritual, trabalhar ao nosso lado e estarem dando todas as informações aos demais componentes do ambiente. Outra realidade, para ele maravilhosa, é que estando o grupo de encarnados mui ligado aos trabalhos da Grande Mãe, por fatores históricos e laços de sangue nas encarnações pretéritas, para aquele humilde ambiente viriam, logo mais, elementos de alta hierarquia, para comandar serviços em lugares tenebrosos, isto é, socorrer criaturas que muito desceram, por muito terem errado. E lá pelas tantas, com os serviços em curso, na hora de suspender legiões de abismos horripilantes, quando a Grande Mãe, do alto da espiral luminosa invocou os poderes de Jesus Cristo, enviando aos altos uma faixa de luz dourada; e quando, das alturas cintilantes agora, foi aparecendo o Sol Divino, que chegando mais perto revelou o semblante do Divino Mestre, William atirou-se ao chão e desandou a chorar convulsivamente, dizendo-se indigno de ver o Mestre.

Quem poderia limitar os poderes de Jesus Cristo? Quem está apto a negar que Ele, que pode o máximo, não pode o mínimo? Quem é mais do que Deus, para dizer que em essência somos iguais, havendo apenas diferenças hierárquicas entre uns e outros de Seus filhos? O Sol Divino foi descendo, descendo, reduzindo o Seu brilho cada vez mais e chegou bem perto de todos nós; era Ele, o Divino Mestre, tal e qual como vivera há dois mil anos quase, que estava à nossa frente. Apesar de reduzido a um homem, Sua Presença causava um não-sei-quê de celestial, impunha um respeito inexplicável, diria divinamente terrificante, porque nos fazia pensar e sentir numa convergência infinitamente absorvente, como se o próprio Deus, o Ser Infinito, ali estivesse, reduzido a um simples homem, para testemunhar que é o Pai de todos. Chegou-Se, colocou as mãos alvinitentes sobre a cabeça de William e chamou-o pelo nome, com uma voz que parecia feita de carinho celestial. William levantou a cabeça, viu-O, estremeceu e caiu a Seus pés, dizendo palavras sem nexo, derramando lágrimas abundantes. Jesus foi subindo, subindo, endereçando olhar magnânimo a toda aquela multidão maravilhada; quando parou, a grande altura, as três Marias maiores também subiram, tendo aparecido alguns grandes espíritos mais perto, e multidões de seres a se estenderem pelo espaço esplendente de Luz e de Glória. Antes de sumir na profundeza do espaço, enviou a mensagem seguinte, que ecoou pela imensidão, parecendo a mim que tinha o poder de se fazer ouvir até pelas águas, flores, chãos e tudo quanto havia por ali, emanado por Deus: “Nunca estive longe de minhas ovelhas e peço que nenhuma esteja longe de mim. É da vontade de nosso Pai, que nos amemos como verdadeiros irmãos, os maiores e os menores, até chegar a hora de formarmos uma só Unidade.” Quem foi colocar as mãos na cabeça de William foi uma jovem, um espírito encarnado, que estava trabalhando fora do corpo em plena consciência, e enviando à mesa de trabalhos os informes que achava mais proveitosos. Terminado aquele serviço, a comitiva de encarnados e desencarnados voltou ao recinto da sessão, tendo William visto, ao redor da mesa, uma jovem igual àquela que o erguera. — E aquela, tão igual, meu anjo querido? – perguntou ele, comovido. — Aquele é meu corpo, apenas, meu irmão – respondeu sorrindo. William ficou mudo, pensativo, triste e alegre ao mesmo tempo; mas quando a jovem disse que ia tomar conta do corpo, havendo-lhe estendido a mão, para a despedida formal, tal como fazem os encarnados, ele segurou-a com muito respeito, osculou-a e gaguejando disse-lhe: — Diga aos irmãos encarnados, minha querida irmã, que Jesus Cristo é quem tem a inteira razão... E diga, também, que a razão de Jesus não é aquela que os religiosos da crosta usam ou afirmam diante da humanidade. Depois que ela havia tomado conta do corpo, mas permanecendo em plena clarividência, disse-lhe o mentor da sessão: — Não te preocupes, que essa irmã desceu de grandes alturas, para reencarnar, estando freqüentemente em contato com o seu plano de vida espiritual. Ela é mensageira superior e, apesar de encarnada, não perdeu a função, porque o seu coração funciona paralelo com o coração amantíssimo do Cristo Planetário. William encolheu os ombros, abraçou fortemente o guia da sessão e disse:

— Nada mais direi das graças de Deus, que fluem sobre Seus filhos através de Jesus Cristo, neste Planeta. Quero começar a pensar de outro modo, para não estar levantando fronteiras e barreiras entre o Poder Divino e os Seus filhos, como fazem as religiões... Sendo Deus Onipresente, Onisciente e Onipotente, por que devemos pensar em separações e distâncias incomensuráveis? Por quê?!... Tarimbado, falou o mentor da sessão: — A Terra ainda é um mundo infantil; só as crianças, como nós, pensam que o Pai usa os nossos conceitos. Por isso mesmo, irmão, não pense que descobriu essa verdadezinha elementar, pois já a descobriram, antes de você, milhões, bilhões ou trilhões de outros irmãos nossos. Mas, e aqui está a complicação, assim que voltam às plagas terrestres, voltam logo ao estado de burrice anterior, recomeçando as práticas ignorantes, erradas e até mesmo criminosas. William fitou-o bem e depois baixou a cabeça, entristecido; mas o mentor da sessão falou-lhe, confidencialmente: — Este seu amigo é useiro e vezeiro nessas faltas, compreende? — Também foi pastor protestante? – perguntou William, curioso. O mentor sorriu alto, bem a seu gosto, rematando: — Já negociei em todas as espécies de balcões religiosistas... Já pratiquei, em nome de Deus, todas as formas de asneiras, compreende? E é por isso que ainda estou trabalhando rente ao chão terreno!... — Rente ao chão terreno!... – comentou William, pensativo. E o mentor, fitando-o bem, explicou: — Todos os Planetas são apenas casas cósmicas, nada mais, onde humanidades fazem sua evolução. Portanto, têm eles a parte interior ou subcrostiniana, a parte que é a crosta, onde vivem os encarnados e aqueles que ficam ligados a eles por vários motivos, e as partes exteriores. Quanto à Terra, tem ela uma faixa umbrosa de mil e duzentos e tantos quilômetros, ao redor, começando depois as faixas de luz. Ora, ninguém atinge o extremo exterior, a zona crística, enquanto arrastar consigo falta de Verdade, de Amor e de Virtude, entendeu? William disse que sim, que havia visto o mapa diagramático do Planeta logo que deixara a carne; e o mentor da sessão falou-lhe: — Muito bem! Então você já sabe que o Reino de Deus é uma questão de Verdade, Amor e Virtude, e não uma questão de fanatismos religiosistas. Eu também sei disso e muita gente o sabe! Mas, infelizmente, quando se toma um novo corpo, a fim de conseguir mais libertação espiritual, os estreitismos humanos, sectários e outros, fazem o serviço do cupim, isto é, minam a planta pela raiz! E voltamos do mundo cheios de rótulos, porém vazios de verdades libertadoras... William perguntou ao mentor da sessão: — Já teve alguma visão do Divino Mestre? — Claro! O Divino Mestre nunca deixou de vir a nós, de modos os mais diferentes. Sua Presença, no Planeta, é um fato e não uma lenda. Mas, caro irmão, também aí as coisas se passam de modo menos feliz, pois endereçamos os fatos ao rol da exaltação, enquanto Ele, o Divino Amigo, quer apenas imitação e realização, de nossa parte, do Cristo que em nós aguarda manifestação. Nós, todavia, mal instruídos pelas ditas religiões, pensamos em programas de reverência e adulação, com fitos muitas vezes de comércio ou meio de vida para determinadas súcias, e os convites do Grande Amigo ficam para trás... Isto é, nós ficamos para trás, porque ao fim de milhares de anos e de encarnações, estamos ainda rentes ao chão terrícola...

William assentiu com breve sinal de cabeça, balbuciando: — Há muito vasilhame e bem pouca essência, na Terra, em matéria espiritual! O mentor ventilou, de pronto: — Veja o seu caso, por exemplo: não é certo que, como pastor protestante pensava ter engolido a Verdade? Não é certo que, trepado na sua importância interpretativa, até ao próprio Deus seria capaz de impor seus pontos de vista? E no entretanto, em quantos assuntos, e bem relativos, veio a compreender que estava bem errado? William baixou a cabeça, entristecido, e o mentor comentou, com muito carinho em suas expressões: — Tu és como nós todos somos, irmão William!... E assim como te atiraste ao chão, na presença do Irmão Maior, assim todos temos feito, contrariando a Sua Vontade... Ele quer que vejamos Nele o Grau Crístico, a que todos devemos atingir... Ele não quer de nós exaltações nem traumatismos terrificantes, porque o ponto atingido por Ele, é o mesmo que deve ser atingido por todos os filhos do mesmo Pai Divino. William levantou a cabeça, menos embaraçado, argumentando: — Bem, a Igreja do Caminho está restaurada... A Lei de Deus e o Divino Exemplo do Cristo estão de novo no mundo, límpidos e fulgurantes, convocando os homens ao Divino Banquete da Fraternidade, tendo na Revelação, no serviço da Mensageiria Divina, o traço de união entre os filhos do mesmo Deus. Portanto... O Mentor sorriu bem expressivamente, interrompendo-o: — Portanto, o quê, irmão William?... Pensa que os homens vão deixar assim a boca torta pelo cachimbo?... Ora! Ora!... Lembre-se de que, sob pretextos vários, hão de levantar novas clerezias, com menos fantasias, talvez, porém tão criminosas quanto aquelas que, após as Grandes Revelações, sempre levantaram no mundo. Começam falando em organização, direção, cimentação, pureza doutrinária, necessidade de movimentação coletiva, etc., etc. Mas, no fundo de tudo, não é o exemplo de boas obras que os domina, porém os vaticanismos e papismos que arrastam no arcabouço cármico; é o desejo de serem juízes e fiscais dos irmãos, a mania de quererem ser os donos da consciência alheia, querendo olhar de cima para baixo os seus irmãos, porque julgam que o Bom Deus os fez especialmente para dominar os outros! Puro regime de falsa observação doutrinária, pura mistificação na ordem dos deveres fraternais! Assim começaram todos os vaticanismos e papismos e assim o Consolador restaurado também correrá o mesmo risco, se não é que já está bastante minado pela praga dos mandonismos ditos especializados. — Então – perguntou William – em que vamos confiar?!... Desaprovante, o mentor respondeu: — Essa pergunta não se faz, irmão William! — Por quê?... — Porque a Verdade nunca será engolida por ninguém! Porque a Doutrina do Caminho é em si mesma igual para todos os filhos de Deus! E porque as instituições e os estatutos pernósticos e prepotentes, que certos homens possam inventar, jamais controlarão as mediunidades e o movimento dos espíritos mensageiros! A vastíssima assembléia prorrompeu em aplausos, gritando alguns o seu “VIVA!” à Excelsa Doutrina do Caminho, que jamais será escrava de preconceitos humanos quaisquer. E ali findou a sessão, tendo nós visto que das alturas, uma Grande Amiga

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