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Capítulo 30 de 47
Paz E Ventura — parte 6 de 13
A Volta de Jesus Cristo · Osvaldo Polidoro
Entretanto, vamos ao caso de Noêmia, que afinal de contas não trocou a primogenitura do espírito pelo prato de lentilhas, como fazem muitos daqueles que pretendem passar por sábios e poderosos do mundo. Se Noêmia sempre fora dócil aos preceitos do Céu, a meu ver, enquanto estava eu encarnado, muito mais disso me convenci, depois de haver desencarnado. E com a minha desencarnação, tendo ela procurado a velha lavadeira, tudo subiu de monta, pois começou a distribuir dádivas aos pobrezinhos, como melhor podia, mesmo enfrentando a má vontade dos parentes, que a chamavam de discípula do Diabo, instigados pelo novo padre. Foi em frente, ouviu o Consolador que adverte, ilustra e consola, tendo atingido a hora final rodeada de muito carinho de ambos os lados da vida. Espírito bastante tarimbado, tendo tido vidas em companhia da Grande Mãe Maria, ela sonhava com Maria freqüentemente, assim dizia. O certo é que trabalhava sob a sua orientação, como acontece com muitos milhares de seres encarnados, pois a Grande Mãe, como a denominam por aqui, comanda as legiões que socorrem nas trevas, usa bastante os fluidos humanos para fins de serviço nos lugares tenebrosos. Fui ao encontro de minha esposa, mas a princípio fiquei acanhado, porque suas companhias espirituais, que vieram beirar o leito dito de Morte, embora reduzidas em suas luzes e maravilhas espirituais, deixavam muito longe a minha pobreza de espírito. Mas como o Reino do Céu vai em Medidas de Amor para muito além das concepções que dele fazemos, eis que me vejo, num repente, envolvido pelas comandadas de Maria. A simplicidade gloriosa dos espíritos maiores é impossível de ser descrita, mas é fácil observar que a grandeza de luzes e graças corresponde ao montante de simplicidade com que se portam. Quando tudo parecia transpor os limites de minhas idéias, pois eu todo fremia de envolvimentos celestiais indizíveis, o Céu vem sobre mim na pessoa maternal de Maria, com os braços estendidos, os olhos feitos de amor e o sorriso de Mãe a convidar para o banquete das harmonias que somente as minhas lágrimas traduziam, e os meus joelhos prontos a se curvarem, o que não fizeram porque ela ordenou em contrário, dizendo: — Filho meu querido... Todos somos iguais perante o Pai Divino e a Divina Direção Planetária do Cristo... Uns teremos avançado mais, outros menos, porém a Origem é a mesma, o Processo Evolutivo é o mesmo e a mesma é a Sagrada Finalidade de todos os filhos do Pai Amantíssimo... Queremos amor e não exaltação... Desejamos chegar, mas vocês nos repelem, julgando-nos filhos especiais do Pai... Eu queria falar, mas as palavras não saíam, tal a profundidade da emoção que a sua maternal presença me causava; e foi ela quem apanhou a minha direita, dizendo: — Vai tirá-la do cárcere, meu filho... Eu quero que sejas tu o libertador de Noêmia... Ela fez tudo, eu nada fiz, pois estava aturdido, inundado de amor, as faces regadas de lágrimas quentes, escaldantes, ferventes. E quando menos esperava, tive Noêmia nos braços, mas não a Noêmia da encarnação, a Noêmia da carne e ossos densos, porém uma Noêmia angélica, feita de luz e deslumbrantes graças. A caravana partiu, subiu, entre cânticos de boas-vindas e alegrias inenarráveis. Subi com aquela embalagem celestial, aquele ouro e azul divinos, sem saber ao certo como. Foram depositar Noêmia na presença de um Grande Mestre, Imediato do Cristo, que lhe passou as palavras do mesmo Cristo, felicitando-a pela vitória e prometendo Sua visita, assim que estivesse refeita das emoções do momento. E a Grande Mãe veio a mim outra vez, singela e gloriosa, para informar: — Noêmia vai dormir um pouco, muito pouco, meu querido filho; e tu a esperarás algumas horas. Vai e trabalha, faze o que podes pelos pequeninos, pois o Pai assim
quer e nós só podemos crescer quando realmente fazemos pelo crescimento de nossos irmãos... Ainda assim, assaltado pela emoção divinal, não pude falar, não pude agradecer. Ela chegou-se, beijou-me a testa e admoestou, com aquela carícia vocal que parecia um dilúvio de amor maternal: — Quero que me ames, filho, pois é da Vontade de Jesus, o Verbo do Pai neste Planeta, que eu represente nele a Gloriosa Maternidade; mas não deves portar-te assim, exaltando-me desse modo... Virei a ti dentro de poucos dias, mas espero que te portes como filho do Pai Único, vendo em mim a irmã, apenas a irmã que evoluiu mais, sem ter porém, afora isso, nada mais do que todos os filhos d'Ele. E podes estar certo, também, que o mesmo é o pensamento e a palavra de Jesus, o nosso Diretor. Qualquer outra consideração, portanto, será de ordem hierárquica e administrativa, mas fundamentalmente somos todos irmãos, filhos Daquele Pai que a ninguém emanou especialmente. Procura amar bastante, filho, mas deixa a exaltação de lado, que ela muito nos separa, e isso muito prejudica... Creio que vi uma réstia de tristeza em seu meigo olhar, naquele momento, e a prova tive-a na sua palavra, pois ela afirmou, em seguida: — O amor aproxima e a exaltação separa, filho meu... Dize a todos os filhos do Pai Divino, a todos os comandados de Jesus, que a ordem é muito amor e nenhuma exaltação... Onde quer que alguns já estejam, na hierarquia planetária, para ali todos terão que ir, porque essa é a lei. Vai, filho, e espera trabalhando o bom trabalho, que dentro em breve irei ao teu encontro e ao encontro de todos aqueles que desejarem a minha companhia... Já foi dito que as Glórias Divinas são manifestadas pelos Espíritos Divinizados; é o que podemos reafirmar, e reafirmando queremos respeitar o fator hierarquia sem, de modo algum, julgar que o Pai Divino tenha emanado filhos especiais. A emoção que tive de enfrentar, muitíssimos já enfrentaram e todos os espíritos em processo evolutivo a enfrentarão, porque as luzes espirituais são como forças tremendas, potencialidades energéticas que parecem transformar-se em amor, mas em amor divinizado, que só se pode reconhecer o que seja ao senti-lo. E assim mesmo ressalvamos que o sentir depende do grau de penetração de cada um. Quem não sintoniza não sente, e ninguém sintoniza com o que quer, porém com o que pode, conforme o seu grau de evolução íntima. E esta, bem ao contrário do que afirmam os negocistas do religiosismo terrícola, retrato fiel do paganismo retrógrado, filho retardado das eras primevas, só se consegue com as boas obras, só se adquire com o bom procedimento social, que é como o afirmam a Lei de Deus e o Divino Exemplo do Cristo. Ao retornar aos meus afazeres, deslumbrado por tamanhos acontecimentos, sentia em mim estranhos sentimentos; é que vivia em um plano intermediário, tendo os filhos na crosta e a esposa em planos muito superiores. Dentro de mim havia como que uma estação telefônica, com suas ligações diametralmente opostas, porém controladas por uma central poderosa, que era representada por um amor maciço, poderoso, confiante e capaz de remover montanhas. — Isso é normal – disse-me Silvestre, quando lhe contei o que vinha acontecendo nos meus domínios emocionais. E entrou em detalhes: — Afinal, Artur, é fácil observar a Sabedoria de Deus nisso tudo, pois estando ligado para baixo e para cima, pelos laços de família, está apenas dando seguimento ao Plano Divino, que misturando maiores e menores, favorece a uns e a outros, uns crescendo pelo fato de ensinarem, e outros tendo com quem aprender. É o maravilhoso mecanismo da lei que, sem falar alto, pois Deus não faz discursos, a todos envolve e favorece com as sagradas oportunidades da vida, da grande mestra.
Depois de considerar bem a questão, comentei: — Se os homens soubessem como tudo é divinamente simples! Ao que Silvestre aduziu: — Enquanto a Verdade Única força à união, os homens se dividem por causa de múltiplos interesses subalternos... Enquanto a Moral, o Amor, a Revelação, a Sabedoria e a Virtude conclamam à unidade, o Bolso, o Estômago, o Sexo, o Orgulho e o Egoísmo proclamam as separações... São cinco contra cinco, que a evolução há de obrigar ao entendimento, para funcionarem a bem do espírito, pois os fatores positivos e os negativos, conjuntamente, ou bem usados, terão que produzir todas as vantagens imorredouras dos filhos de Deus. Isto porque, entenda bem, nenhuma força deve ser destruída, mas sim bem orientada! Aquele, pois, que mais depressa transformar a fase negativa de uma lei em fase positiva, esse torna-se maior. A grande questão não é apenas jogar, mas sim jogar bem! E nos despedimos, porque tínhamos o que fazer, em setores diferentes na aparência, mas iguais na realidade, porque ambos lidávamos com irmãos sofredores, uns de certo modo, outros de outros modos, porém todos eles por causa de íntimas desarmonias, de marcantes desajustes em face da Lei de Deus. * * * Em face da Lei de Deus não quer dizer em virtude de ter um credo religioso ou deixar de tê-lo; e isso se verá adiante, através de fatos, mas de fatos inapeláveis, apresentados diante da Justiça Divina, nestas plagas de Luz e Realidade, onde as burlas do mundo não podem influir. Silvestre convidou-nos, dias depois, para auxiliar no recolhimento de um irmão, que se encontrava a quinze anos e poucos meses nos umbrais, para onde se baldeara pelas obras que praticara. A partida do grupo deu-se entre alegrias, até atingirmos a fronteira das trevas, a algumas centenas de quilômetros da crosta, para fora da crosta. Ali foi colocada, na boca de um dos cães amestrados, uma peça de roupa, a parte astral, do irmão a ser de lá retirado. E a descida foi sendo feita, com aquela prudência que caracteriza os trabalhos em tais lugares. Uma vez soltos os três cães, no lugar adequado, imediatamente tomaram direção a uma vala escura, muito mais escura do que o normal do ambiente, e que além de mais escura, emitia uivos e fumaças mal cheirosas. Dentro em pouco vinham os cães arrastando um fardo, uma carga esfarrapada e mal cheirosa; era o tal irmão, ex-funcionário de rendas públicas, que em companhia de outros, um grupo coeso, traficava com a função, vendia o dever, etc., se bem que fosse categórico afirmador das verdades espíritas. Depois de conduzi-lo a lugar melhor, claro mas não muito, de dar-lhe banho e roupas limpas, fomos com ele ao Centro Espírita onde ainda, muito velhinha, funcionava a velha lavadeira. Embora quase centenária, estava bastante forte e suas maravilhosas faculdades em plena ação. E ao seu redor, como que agrupadas por mãos celestiais, pessoas de bom quilate moral e esplêndidas faculdades também. Assim que demos entrada, não no local material, a sala muito pobre, mas sim no ambiente psíquico, luminoso e serviçal, alguns videntes anunciaram a presença de todos nós, “conduzindo um irmão que tinha tudo de muito sofredor”. E sobre a Mesa Astral, farta em apetrechos e instrumentos socorristas, como sói acontecer nos bons Centros Espíritas, foi colocado o irmão sofredor, deitado em branco
lençol também astral, ou feito de nossa matéria. Após, o Guia do Centro retirou dos corpos três espíritos, pô-los ao redor e comandou: — Vocês já sabem que os espíritos encarnados, onde quer que vão, fornecem elementos fluídicos animais, altamente magnetizados, mormente quando devidamente comportados perante o Senhor Deus. Vocês, felizmente, estão de boa conduta perante a Lei... Portanto, uma vez mais, estendam as mãos na direção da cabeça desse precisado filho de Deus, nosso irmão. Dos componentes da Mesa saía uma faixa nebulosa, onde se misturavam o azul, o verde e o vermelho vivo, que atravessando os três corpos, vinham também passar pelos respectivos espíritos ou seus corpos perispiritais, saindo pelas pontas de seus dedos, em forma de jorro avermelhado brilhante, que essa é a cor do fluido vital. E entrando pela cabeça do irmão, se distribuía pelo corpo todo, vendo nós que atingia as células mínimas, como se fosse vida, algo por demais fluídico para ser considerado como matéria fluídica. O ambiente todo, o astral, era uma poderosa oração endereçada ao Senhor do Infinito, por isso mesmo que sendo Onipresente, Onisciente e Onipotente dá a cada um segundo as obras e o merecimento. — Basta! – comandou o Guia do Centro, a certa altura. Todos desviaram as atenções, os três encarnados retornaram aos respectivos corpos e o irmão foi por nós retirado, havendo-nos retirado também, depois de agradecer ao Guia do Centro a cooperação. Silvestre foi até a velhinha, envolveu-a com as mãos luzentes e beijou-lhe a testa enrugada, com uma ternura que não se pode descrever. E ela, que via tudo, com outros que também viam tudo, rendia graças a Deus, a Jesus e a Maria, por tamanhas e “imerecidas alegrias”. Observando aquilo tudo, lembrei-me de Jesus, quando louvou a Deus pelo fato de revelar as grandezas do Céu aos simples e humildes, escondendo-as aos que se julgam grandes. Aquela pretinha encarquilhada por fora, brilhava por dentro e por fora, revelava um coração imenso que se desfazia em ondas multicores, enquanto que, feliz ou infelizmente, temos visto os rotulados do mundo, os que se presumem donos da Verdade, porque levantam paramentosas instituições e encarapitam sobre elas rompantes estatutos, temo-los visto, repito, fardados de cores escuras e acompanhados de menos felizes companhias espirituais. O Reino do Céu continua e eternamente continuará a pertencer ao Amor; e quando os homens, que se acreditam sábios, reconhecerem que a sabedoria do homem é de fato estultícia perante Deus, como ensina a Escritura, então tratarão de tomar o rumo certo. Mas, ao chegarem tardiamente ao Templo do Amor, lá encontrarão aquelas crianças de que falou Jesus, e aqueles simples e humildes a quem o Pai Divino desde muito revelara Suas Glórias, Glórias que não respeitam os tratados humanos, empanturrados de mil e um pernosticismos terminológicos, com os quais tudo fazem para acobertar a falta de Amor, do Amor Vertical de Deus, que desconhece as rompâncias dos preconceitos humanos. Quando saímos com o irmão socorrido, fomos colocá-lo à beira de maravilhoso lago; e Silvestre fê-lo dormir, aplicando-lhe passes magnéticos. — Quando acordar – disse – terá a impressão de ser outro, tal o estado de saúde em que se irá encontrar. — E deverá sentir-se feliz! – exclamei, julgando a coisa a meu modo. Silvestre abanou a cabeça e observou:
— Isso é outro problema, pois ele terá que se lembrar, enquanto não reencarnar de novo, que foi um funcionário altamente corrupto... E o fará, ainda, sob a noção de que conhecia as verdades espíritas... Compungido, fiquei olhando para Silvestre, e foi ele mesmo quem, ponderoso e sentido, comentou: — O Espiritismo é a Igreja do Caminho restaurada, que montada sobre a Revelação generalizada por Jesus, adverte, ilustra e consola. Isso, apenas isso, nada fora disso! — Realmente, irmão Silvestre – concordei. Algo severo, erguendo a mão direita em sinal de alerta, volveu: — Lá está afirmado, no capítulo final do Apocalipse, que a cada um será dado segundo as obras que praticar; e como mais será exigido daquele a quem mais haja sido dado, bem podemos saber que somos obrigados a ser juízes de nós mesmos, através de nossas mesmas obras. Portanto, a saúde foi devolvida ao nosso irmão, mas a saúde exterior... A saúde do espírito, da consciência, ele terá que arranjá-la à custa de trabalhos ressarcitivos, no Espaço e no Tempo! — Bem compreendo agora, irmão Silvestre, que andar em dia com as letras bíblicas, apenas em teoria, nada mais representa do que aumento de responsabilidade. Ainda sob forte impressão, Silvestre acrescentou: — Sim, buscar a Verdade que livra, na expressão do Cristo, não é procurar o exterior da Verdade; porque ela, apenas conhecida, já meteu, mete e meterá muita gente nas trevas exteriores, muitos espíritas também, pois a Justiça Divina é acima de sectarismos quaisquer. E como viessem ao encontro dois guardas da campina, fomos andando com os mesmos, aproveitando eu para aspirar aquele ar maravilhoso. Demos, após, com as vistas numa estela alvíssima, plantada entre rosas e lírios, brancos e rosa em suas cores, emprestando ao local um sentido superior, um misto de mais beleza ambiente e mais um toque de espiritualidade. — Leia a inscrição – disse-me Silvestre. Em letras douradas, ressaltando do branco alvíssimo do material de que era feita a estela, estava lembrada a sentença do Cristo:
“E o que quereis que vos façam a vós os homens, isso mesmo fazei-o vós a eles”
Silvestre acompanhou o meu gesto, observou a minha reação e ficou aguardando a minha opinião; como me calasse, perguntou: — Que mais te impressiona nessa recomendação do Cristo? Pensei e respondi, sem ter a pretensão de analisar totalmente o seu sentido: — O sentido de Justiça Universal, irmão Silvestre. Ele assentiu com um movimento de cabeça, acrescentando: — Sim, sim... Fala ao sábio e ao ignorante com a mesma absoluta regularidade, lembrando a obrigação de exercitar a Justiça Elementar, que a todos atinge e responsabiliza, menos aos mentecaptos ou dementados. E fazendo silêncio, encarou-me com agudeza, indagando:
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.