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Capítulo 28 de 47
Paz E Ventura — parte 4 de 13
A Volta de Jesus Cristo · Osvaldo Polidoro
— E não morreu de fome, pelo fato de lhe tirarem o trabalho, quando disse a verdade que devia dizer, pois não? Antônio volveu a mim, perguntando: — Como é isso, Artur? — Poucos dias depois da sua passagem, disse ela, em casa, que te via constantemente correndo do cemitério para a igreja, e da igreja para o cemitério; e como a nossa gente pensasse de outro modo, puseram-na fora de casa, com ordem de nunca mais aparecer, nem mesmo para pedir esmola, se viesse a precisar. Antônio enterneceu-se, murmurando: — Quem pode lá saber, onde o Bom Deus semeou as Suas Graças?... Ela deu-me à luz da realidade, quando a hora chegou... Que o Bom Deus a recompense e perdoe os nossos parentes, porque se a ignorância é pecado, muitos deles têm eles para arrastar pelos dias afora, como eu arrastei!... — Você falou em parentes... Alguém nosso foi visitar a lavadeira? — Noêmia... A minha irmã e sua esposa... A nossa compreensiva Noêmia foi a ela, no seu Centro Espírita, pois agora é um Centro, com o intuito de saber de você, e soube de mim, também, porque o Bom Deus determinou que fosse instruído, tratado e recolhido a este lugar, de onde deverei em breve sair, para reencarnar. — Soube disso, Antônio, da parte de Silvestre; convidou-me para a aula, com o intuito de nos prodigalizar encontro. E quanto a mim, saiba, nada tive e nada tenho contra pessoas da família, pois vivia minha vida como melhor pude, procurando fazer o Bem, tal e qual como por lá podia entendê-lo. Creio que para um advogado é bastante, não acha? Antônio assentiu com a cabeça, com ar muito pensativo, para depois comentar: — Para um advogado é bastante!... Mas para um padre, que pretendia vender o Céu a peso e a retalho, que representa ficar dezenas de anos em tal estado, correndo entre a igreja e o cemitério, como uma tempestade em forma de homem, nada podendo fazer por si e muito menos pelos outros? — Você ouviu bem a lição de hoje, Antônio? — Não ouvi, apenas... Devorei o quanto pude!... — Eu também... Nunca pensei que em tão poucas palavras coubessem tamanhas lições! Tinha a impressão que Deus falava pelo velho ex-padre Fabiano! — Foi um homem de elevada moral e rico em piedosas qualidades; não foi a religião do mundo quem lhe deu o que tem, que poderia guindá-lo às mais altas esferas, mas sim a Moral e o Amor, essas armas contra quem as trevas jamais poderão triunfar. — Eu também estou aprendendo outras lições... — Aqui a gente sente a Presença de Deus e se entrega à simplicidade... Lá na carne a gente sente os ímpetos do bolso, do estômago, do sexo, do orgulho, de uma caudal intérmina de animalismos desbragados, que parecem querer devorar até os mais recônditos pensamentos de Bondade, já não digo de Verdade, porque a Verdade é muito mais, é tudo quanto há de Divina Realidade! — Bem, Antônio, a vida é Eterna e a Evolução é lenta, sendo a Sagrada Finalidade um fato garantido por Deus. Ainda que errando, que descendo aos rincões de pranto e ranger dos dentes, de lá se sairá, para a marcha em busca do Reino de Deus, que temos dentro de nós mesmos. — Você viu como as coisas se passaram, durante a oração?
— Vi muito pouco... — Por quê, Antônio?!... — Porque Fabiano disse que cada um tem a visão da Verdade, assim como merece ou faz por merecer... Eu vi apenas o Divino Mestre, que representa a Verdade, pendurado no lenho, no alto do Calvário... E creio que é muito... Tornamos a derramar lágrimas, pois a situação de Antônio era mentalmente dolorosa, e eu dela participava, e com muito gosto, pois sentia que éramos irmãos, não apenas cunhados. Basta que seja um plano de Luz, Paz e Ventura, para se ter vibrante a mais intensa sensação de irmandade; e isto força a tomar parte nos fados ditos alheios. Bem pelas tantas nos recolhemos, se formos atender aos fatores geográficos do mundo. E devemos assim fazer, porque no Céu em que me encontro, e em sua subfaixa, as condições são muito ligadas ao Planeta sólido. Apesar de tamanhas considerações, lágrimas e tudo mais, a despedida momentânea foi em termos de alegria e de vigorosas esperanças de melhora. Afinal, consideramos, a vida é Eterna. No dia seguinte, portanto, encontrando Silvestre e Solano juntos, perguntei: — Por que meu cunhado viu aquela gloriosa visão de modo diferente? Silvestre comentou: — Qual de nós está, aqui, vendo a total Presença de Deus? Entretanto, lembremos, se Jesus Cristo aqui estivesse, poderia dizer da Presença Divina aquilo que para nós seria impossível, talvez, até mesmo conceber. Assim sendo, consideremos que o modo geral é esse, e que nas especificações, os acontecimentos tendem a observar essa diretriz. Portanto, cada um viu segundo diferentes dimensões vibratórias, como é de lei. E colocando as mãos no meu ombro, avisou-me: — Vá perguntando sempre... Mas vá raciocinando sobre os fatos, porque nunca encontrará mistérios e milagres pela frente, na Ordem Divina. Tudo é segundo leis eternas, perfeitas e imutáveis, e com elas temos que harmonizar, se quisermos progredir na escala hierárquica, isto é, se quisermos fazer crescer o Reino de Deus que temos dentro de nós mesmos, como o Cristo deixou avisado. — Então – comentei – as religiões terrícolas andam todas fora de esquadro, longe de interpretar a Soberana Vontade de Deus. Solano interveio, ponderoso: — A Soberana Vontade de Deus é no sentido de que Seus filhos conheçam e ensinem, uns aos outros, aquelas Verdades Fundamentais que forem podendo conhecer, e isto sem o caráter de trustes religiosistas, sem os feios e degradantes interesses subalternos de grupos comercialistas e politiqueiros. Entretanto, considerando a lentíssima evolução de qualquer agrupamento humano, temos que por em evidência toda a prudência possível, para não arriscar a perda dos tentos conquistados a custo nos milênios anteriores. — Não entendi bem... Quer trocar isso em miúdos? – roguei. Solano fitou-me bem e começou: — Você se esforçou para se formar em Direito? — Sim, o quanto pude – respondi. — E se esforçou para conhecer verdades espirituais fundamentais?
— Bem, sempre achei que essa parte era com os padres, que deviam fazer por nós o trabalho de salvação. Agora sei que andei errado, e que a humanidade terrícola anda errada, mas por lá, assim foi que andei pensando e agindo. Solano fez um gesto de desalento, retornando à fala: — Lembre-se pois, que antes da ida ao mundo do Cristo Planetário, para deixar todos os exemplos de Verdade, Amor e Virtude em termos de realidade simples, duzentos e quarenta mil anos de ensinos já haviam sido entregues à humanidade terrestre; Budas, Vedas, Zoroastros, Moisés e Hermes, Profetas e Pitágoras, e tantos outros grandes vultos andaram semeando verdades básicas, e, depois disso tudo, um homem culto, um advogado, passou pelo mundo e não se interessou por aquilo que é e será sempre o mais importante a saber, que são as verdades sobre a Origem Divina do espírito, o Processo Evolutivo a que está sujeito e a Sagrada Finalidade, que por seus esforços deverá atingir. Observe, portanto, que se o número de descuidados é grande entre os analfabetos, também não é pequeno entre aqueles que ostentam títulos doutorísticos. Bastante encabulado, murmurei: — O problema do Céu é muito grave! Solano acrescentou, pesaroso: — Não acusamos ninguém, porque somos igualmente errados; mas enquanto uns erram porque fazem das coisas do espírito uma quitanda como outra qualquer, outros erram porque abandonam o magno problema aos cuidados de homens fantasiados, fetiches, rituais, ginásticas, exteriorismos e altas negociatas idólatras em geral, inclusive a sujeição das supremas realidades do espírito, aos manobrismos de natureza politiqueira, colocando o Reino do Céu debaixo dos tacões do reino do mundo. Silvestre comentou, sorrindo: — E vivemos dizendo que foi um único Esaú que trocou, a primogenitura do espírito por um prato de lentilhas!... Solano considerou: — Bem, estamos em pleno século vinte, com o Caminho do Senhor reposto no lugar, graças ao trabalho de Elias, que, consoante a profecia do Senhor, cumpriu a parte que lhe tocou. O Espiritismo adverte, ilustra e consola, mas não pode forçar. O sagrado relativo direito de livre arbítrio, bem sabemos, é outorga do Pai a Seus filhos. Portanto, aguardemos que o Tempo faça com que os filhos do Pai se convençam, que devam ser iguais para com Ele, assim como Ele é igual para eles. Eu tinha que cuidar de meus deveres, que consistiam em conversar com alguns recém-recolhidos, e no curso da conversa, sem parecer, dar alguns esclarecimentos da nova condição de vida. E foi por isso que os deixei, visto que tinha perguntas muitas a fazer. E ainda assim acontece, pois se a Verdade Genérica é já bem fácil de conceber, porque a colocamos acima de análises humanas ou tão relativas, as verdadezinhas em que ela se manifesta são tantas, mas tantas, que por todos os lados as encontramos, chamando a nossa atenção, reclamando o nosso raciocínio, desejando a cooperação do nosso esforço individual, para assim nos forçar ao crescimento intelecto-moral, chave de todos os demais crescimentos. * * * Jesus ensinou que a fé remove montanhas? Sim, Ele ensinou, dando provas disso com a Renúncia que pôs em prática, indo ao encontro da cruz, pelo fato de saber que além dela estava a Liberdade, porque o mundo e a carne serão, para os espíritos, as grandes montanhas que devem ser removidas.
Porém as coisas se passaram de modo diferente nos ouvidos humanos, desde então para cá, pois os homens só pensam em montanhas exteriores, deixando o grande problema das montanhas interiores para mais tarde ou para os outros resolverem. Tudo materialmente se defronta! O homem arranja elementos para descer terra adentro, subir aos ares, penetrar socavões submarinos, esfarelar a matéria, etc., etc. Mas quando chega a hora de mudar um conceito, avançar na direção da Verdade que livra e sondar os recônditos de si mesmo, então as coisas terão que ser coadas pelo prisma das superstições, das manias religiosistas, dos fanatismos sectários, dos estreitismos conceptivos. Meu trabalho, que servia para entrar em contato com o meio e sondar os complexos da alma humana, de fato tudo isso ensejava, fazendo com que pudesse ver em homens e mulheres encanecidos, fartos indícios de infantilidade espiritual. Um deles assentava nos conceitos religiosos, e ainda assenta, pois se de lá saí faz muito tempo, tudo por lá continua na mesma e a humanidade, que fornece mortos ao plano da vida, continua cultivando suas manias, seus vícios sectários, ou idólatras, em lugar de procurar aquela Verdade Absoluta, que jamais poderia ser escrava de cacoetes tão pueris, ela que é bastante acima de tudo quanto o homem pode conceber, até esta etapa cíclicoevolutiva. Para que façam uma idéia da ordem natural do meio ambiente, basta saber que para este lugar não podem vir os ruins, os maldosos, pois isso jamais a lei do peso específico, de ordem vibratória, o permitiria; só uma certa dose de Bondade, e Bondade aplicada durante a existência carnal, é que determina a vinda para este lugar ou quaisquer outros correspondentes; mas, note-se, os efeitos de certas doenças, as preocupações mentais, os complexos religiosos, e até mesmo as mais singelas questiúnculas familiares, tudo para aqui vem, tudo pode acompanhar o recém-chegado, fazendo defrontar a situação e dando muitas vezes não pouco trabalho aos servidores do local. E como é regra geral que o doente porta-se como doente, e é devido respeitar a situação, porque o problema é de esclarecimento e não de força bruta a ser empregada, fácil é conceber o quanto pode dar de trabalho, para muitas vezes render pouco ou quase nada. Em tais casos, quando o paciente é teimoso, primeiro se lhe diz que a Morte não volta atrás, depois que a Ordem Divina jamais se modificará segundo os nossos caprichos, e, se ainda perdurar a teimosia, pode-se garantir ao teimoso que os reinos de treva, pranto e ranger dos dentes não existem por acaso, porque afora os que por lá já estão, outros lhes podem ter que fazer companhia, caso teimem em pretender ensinar a Deus, essa feia coisa que quase todos os religiosistas gostam realmente de pretender fazer. Convém saber que isso tudo, ou muito disso não acontece com os melhores elementos, porque o poder das afinidades é como por força de magias brancas, parece encantamento divinal; estes, que mais tendem para os planos mais elevados do que para os inferiores, logo se importam com o trabalho amoroso e útil, disso fazem a religião e o devotamento, e o mais tudo, que corre mesmo por conta de Deus, se encarrega de torná-los felizes, produtivos e progressistas. Estes tais são quase sempre aqueles que não passaram a vida discutindo teologias e teodicéias, porque o cumprimento do dever não lhes fez sobrar tempo; e não tendo enchido a cabeça de pernosticismos, viveram simplesmente e simplesmente vieram ter a estes planos, o que muito lhes valeu. Reconhecem que o Plano Geral a Deus pertence, e que fazendo os Seus filhos todo o Bem possível, uma Divina Justiça deles cuidará, jamais permitindo que as trevas possam contra eles arremeter seus dardos traiçoeiros. Sem nenhum esforço podemos compreender, depois de deixar a vida transcorrer por conta de Deus, através de Suas leis, que o problema do Amor é para ser aplicado por parte de Seus filhos, e não discutido. E como tal, perguntando a muitos sobre o fator
religião, em essência, ninguém conseguiu dizer mais e melhor, resumindo, do que afirmando que fora dos atos de Bondade ele não existe ou não fornece elemento algum realmente produtivo, simplesmente celestializável. O fato principal, segundo o nosso entender, ou daqueles que singram o mar da vida espiritual na nossa região ou no nosso nível vibratório, é que ninguém pode melhorar bem e depressa, tão facilmente como quando procura sintonizar com o Deus ou Pai que traz no seu íntimo. Quem sente que tem o Pai em si e que está mesmo a Ele ligado fundamentalmente, e que Ele nada mais pede aos filhos do que Verdade, Amor e Virtude, esse é o que mais consegue em Paz e Ventura. E se não foi outra a lição do Cristo de Deus, não adianta querer, em muitos casos, fazer compreender essa realidade feliz, aos que trouxeram do mundo suas enraizadas concepções sectárias, suas pretensas infalíveis tabelinhas salvadoras. Naquela manhã, o primeiro a ser atendido no Departamento Inicial, uma escola de iniciação à reintegração na vida espiritual, foi um israelita. O seu problema eram a bebida e os charutos, pois havendo-os proibido terminantemente o médico, ele passara para este lado com os seus desejos em dia, e, nos primeiros momentos e sintomas reacionais, reclamava-os, berrando para que a esposa os trouxesse. Delirava primeiro, revoltado e inconsciente dos fatos, para se acalmar depois, quando de tudo era servido, pois só não temos o que não queremos ter, ou aquilo que por determinação superior nos é proibido ter. Logo após, entrava a doutrinação, fazendo ver que há importância em lutar contra todo e qualquer vício, por menos prejudicial que pareça ser, em primeiro lugar porque o Pai nos quer ver Espírito e Verdade, assim como Ele é, e em segundo lugar, porque regalias muito maiores estão ao dispor dos Seus filhos, regalias de todo espirituais, acima de vícios quaisquer. Passado esse período, que a grande maioria tinha que passar, pelos lastros oriundos da carne, vinham as questões mais difíceis, aquelas de ordem passional e as de posse, pairando alto e prejudicialmente as de caráter religioso, as manias ou os vícios sectários. Com esse israelita tudo tornou-se fácil, pois tendo a concepção do Deus Informe ou IÉVÉ, e de que a Lei de Deus não manda observar cerimoniais exteriorísticos, presto colocou-se face a face com a idéia do Infinito em Tempo e Espaço, situando o sentimento de Amor no topo de todas as cogitações. A separação dos entes queridos é uma das torturas de muitos espíritos, porém a noção de que ninguém morre e todos devem retornar à Pátria Espiritual, conforta e condiciona logo mais ao ideal, favorecendo a normalização da mente. Bem bom é reconhecer, ainda na carne, que o importante é o bem espiritual, o bem da entidade imortal, que deve prosseguir em demanda à Sagrada Finalidade, deixando quaisquer outras circunstâncias abaixo dessa. Ademais, quem pode fazer que as leis de Deus deixem de ter andamento normal? E uma vez reconhecido isso, há como que um mundo de Paz e Ventura à disposição do espírito que mereceu recolhimento, e coisa essa que deve aumentar ao Infinito, respeitando a lei de progresso lento, com o ir e vir da encarnação, tantas quantas vezes sejam necessárias, para dar-se o despertar integral da centelha espiritual. — Então – perguntou o israelita satisfeito – o Reino de Deus a ser desabrochado no íntimo de cada um depende da Verdade, do Amor e da Virtude praticados, postos em função na vida social, acima de conceitos e de preconceitos humanos? — Exatamente! – foi-lhe respondido. Sorriu, gozou qualquer coisa que lhe ia no coração e comentou: — Estou muito satisfeito! Ninguém sendo proprietário particular da Verdade, do Amor e da Virtude, algum dia os religiosismos terão fim e os homens compreenderão o sentido messiânico de Israel, apresentando Jesus Cristo ao mundo, como Divino Modelo
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