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Capítulo 31 de 47

Paz E Ventura — parte 7 de 13

A Volta de Jesus Cristo · Osvaldo Polidoro

— Quem colocou isso aí e por quê, Artur? — Não sei, irmão Silvestre. Abraçou-me, com emoção profunda, informando a seguir: — Fomos nós dois, faz alguns séculos! Essa estela marca o nosso reencontro com a Paz e a Ventura, irmão Artur. Foi aqui, nos Céus do Brasil, que dois juízes venais, vindos da Europa, tornaram a ver as benditas claridades e se rearmonizaram com a Paz de Deus! E o irmão que recolhemos hoje, Artur, é um dos comparsas de velhos crimes, que ainda não está melhor recuperado... Foi então meu pai carnal e teu tio... E eu desejo que ele também venha a ter em grande conta este marco plantado no seio desta campina florida! Estava com o rosto banhado, em sua testa vincos profundos se mostravam, mas o semblante, em seu todo, era de muita alegria; ele sentia que mais uma vez estava festejando o reencontro com a Lei de Deus, que não faz discursos nem inventa rituais, porque é acima de ginásticas humanas. — Hoje é, para mim, um grande dia! Embora Francisco tenha falhado no mesmo sentido, traficando com a função, já mereceu socorro e logo mais o teremos entre nós, trabalhando para ressarcir as faltas e lutando para desabrochar o Cristo que tem dentro de si mesmo. Eu nada mais fazia do que fitá-lo, sentindo dentro de mim que muito o estimava, principalmente porque ele, acima de tudo, desejava melhorar e fazer melhorar. Depois de enxugar o rosto, apanhou-me pelo braço e fomos caminhando; enquanto íamos pisando o maravilhoso tapete, ele comentava: — O Infinito, se é problema, é para o Nosso Pai Divino... A nossa parte, Artur, que é muito relativa, ninguém a fará por nós! E se nos lembrássemos sempre de uma palavra que é composta de apenas quatro letras, quanta dor de menos, para nós e para os nossos queridos! — Sim, grande amigo, os homens em geral fazem questão de ser sábios ou complexos, e isso fá-los esquecer do Amor, da única medida redentora, pois que os Grandes Mestres ensinam, mas não podem realizar por ninguém. E quando chegamos ao Departamento, um bom aviso nos esperava; é que Noêmia estaria à minha espera, em hora certa e lugar certo, para onde eu seria conduzido por uma pessoa que me viria buscar. * * * Há uma questão que todos levantam, quando a lembram, assim que chegam a estes rincões de Paz e Ventura; é perguntar em que paragens da erraticidade maior estariam, se não tivessem cometido erros e crimes. E foi nisso que andei pensando, depois de pensar no irmão socorrido, pai carnal de Silvestre e meu tio. Todos nós, funcionários venais, onde estaríamos, sem o peso das venalidades? — Quem poderia aquilatar isso de modo exato? – respondeu perguntando Silvestre, quando lhe formulei a pergunta. — Bem, não é certo que somos, nesta região, espíritos em ressarcimento? — Nem há dúvida! – retorqui. — Isso até parece “psitacismo”! – lembrou alguém, que estava conosco. — Que bicho é esse? – perguntou um outro, curioso, rindo-se a valer.

E o pai da questão explicou que era um assunto que não é assunto, uma explicação que não explica, um fato que não tem sentido de fato, uma farra em matéria de falta de bom senso e lógica. — Então é sabedoria humana! – gritou alguém, cujos sofrimentos lhe garantiam o direito de assim dizer. Graças a Deus, naquela hora vieram chamar-me, para ir ao encontro de Noêmia, que me esperava. Se eu estava ansioso, com o aviso tornei-me nervoso, excitado e acho que até perturbado mental. Os grandes espíritos vivem para as questões coletivas, morrem carnalmente pelos ideais universais, gozam até o sofrimento pelas causas que hão de frutificar nos milênios porvindouros; mas eu, que vinha das enxurradas do crime, apenas sentindo que devia ser o mais honesto possível, sentia que tinha na minha querida Noêmia, o meu Anjo Guardião de todos os momentos. Quem me veio buscar era uma jovem deslumbrante de beleza espiritual, um pedaço bem grande das Altas Esferas, isso eu podia compreender, pois se tudo nela se caracterizava pela beleza exterior, muito mais fluía nela a beleza interior, que os seus olhos feitos de absorvente irmandade obrigavam a sentir. Era uma bela jovem, porém muito mais uma poderosa força mental, que obrigava à convergência de seus elevadíssimos pensamentos. — Comande como bem quiser, senhora! – disse-lhe eu submisso. Com aquela meiguice que caracteriza os espíritos das Altas Esferas, ela me apanhou pelo braço, sussurrando: — Sou sua irmã... Apenas sua irmã... Venha comigo e partilhe francamente da minha irmandade simples e humilde... Ela devia saber o que ia pelo meu pensamento, tremendamente arrebatado pela sua deslumbrante simplicidade e humildade, bem diferente das pessoas que eu lembrava do mundo, que até das patifarias faziam alarde e motivo de orgulho. — Ainda me ressinto das formalidades e, também, das grosserias do mundo, minha doce irmã – disse-lhe eu, procurando vencer minha inibição. Com aquela graça infinitamente simples, que se tornava som vocal, ela disse: — O mundo terrícola, onde muitas vidas vivi, e ao qual ainda pertenço como cidadã de uma faixa astral, marcha muito lentamente no rumo da Perfeição; mas os que fizerem força para evoluir, isto é, os que confiarem nas obras de Amor, certamente avançarão, rumando para as vizinhanças do Plano Crístico, onde a vida é imensamente distinta dos planos inferiores. Há um sentido de Paz e de Ventura em toda parte, nos Reinos de Luz, mas a variação das intensidades se afirma cada vez mais, caracterizando a sublimação do meio ambiente, eterizando a matéria astral, até atingir o Plano Crístico, onde nada mais há que se caracterize pela forma ou pelas construções formais. — Que fazem os habitantes do Plano Crístico, irmã? Nem sei como perguntar isso, mas a mim parece que é justo perguntar, pois um pouco mais de elevação me embaraça a mente e parece me afogar o coração... Eu notava que íamos subindo, não verticalmente, mas em boa porcentagem, pois os lugares eram cada vez mais belos, mais ricos em tudo, salientando-se as flores e as águas, as vestimentas dos seus habitantes, a policromia geral, o sentido de penetração das faculdades espirituais. Antes de responder, ela me envolveu pela cintura, enlaçou-me com o braço direito, e eu senti que ganhei uma nova energia, um certo poder de harmonia, dessa harmonia que vinha perdendo, com a subida gradativa, com o aumento das luzes e dos esplendores locais.

— Os Cristos ou espíritos cristificados, irmão, são as Potências Celestiais que infundem a vida e coordenam o movimento das galáxias, dos sistemas, dos mundos, de tudo quanto tem sentido material, essa matéria complexa que é a ferramenta dos espíritos em processo evolutivo. Embora tudo seja em Essência manifestado pelo Ser Absoluto ou Deus, as comunidades crísticas comandam o Cosmo, vigiam e controlam os movimentos universais. E dizem, porque eu ainda estou longe dessa ordem vibratória, que o Cristo Planetário é o Elo que liga a humanidade planetária às comunidades crísticas, e estas, por sua vez, ao Ser Absoluto, que embora sendo Onipresente, é essencial demais para ser atingido pelos Seus filhos de menos extensões vibratórias. — Todavia – disse-lhe – por aqui podemos sentir a Presença Divina com uma facilidade enorme. Sentimos Deus até sem querer!... — Sim, muito relativamente, irmão Artur... Cada um vai, ou cada habitante de cada faixa, até onde pode... Eu não suportei, faz dias, um forçamentozinho de alguns graus. Todos chegaremos lá, sem dúvida, mas o trabalho de burilamento individual é indispensável. — Sim, eu compreendo isso; mas, mesmo assim, tudo por aqui é muito mais fácil de sentir. E como seria mais fácil ou prático, para avançar mais no sentido da Divindade Onipresente? Parando na marcha lentíssima, porque a viagem estava sendo feita lentamente, por motivo que ela devia saber perfeitamente, e que eu creio que fosse para facilitar aprendizados, ela falou-me: — Sobre os planos superiores ao meu, nada digo, mas para a gente do meu plano de vida, o melhor modo de atingir mais no sentido da Divindade Onipresente é uma questão de atingir mais sobre os mais elevados espíritos que nos visitam. É comum dizerem que o brilho dos Altos Mentores é o reflexo que eles já conseguem manifestar do Divino Brilho de Deus. Assim sendo, cada um reflete Deus ou filtra-O, segundo o seu grau de evolução. E é reconhecido, também, que nada pode mais refletir o Deus Onipresente do que os Seus filhos, os espíritos. E se você quiser experimentar, eu lhe servirei de instrumento de experiência... Tanto basta olhar para mim, que irei me revelando mais como realmente sou, até que suporte, quando então tornarei a me restringir... E assim foi feito. Ela começou a brilhar de modo estranho, depois a perder a forma humana, depois tomou a forma de brilhantíssima estrela... Mas quando a estrela foi aumentando o brilho, não mais suportei, e não só pedi que parasse, como senti que meus joelhos queriam dobrar-se, o que ela não permitiu, afirmando que somos todos irmãos, sendo o Pai um só, que é Deus. Quando tudo voltou à ordem anterior, falei-lhe: — Você, querida irmã, já é um grande refletor do Nosso Pai Divino! — Existem outros, irmão Artur, diante de quem eu ainda nem simplesmente posso ficar... Entretanto, lembremos, todos vamos para a Unidade Vibratória, todos marchamos, lentamente, na direção do Grau Crístico, que é a Sagrada Finalidade do espírito. E chegamos ao ponto de encontro, um plano azulino doirado, uma cidade onde as flores e as águas cintilantes e multicores tomavam conta da paisagem. De longe em longe havia um grande edifício, em forma piramidal, sendo os arredores uma verdadeira exposição de maravilhas, com aves lindíssimas, coloridas, enchendo a paisagem e os ares de vida, mas de vida altamente sublimada, como se o Bom Deus estivesse oferecendo uma festa de Graças a Seus filhos muito queridos. — Este – disse a doce mensageira – é o Céu de Noêmia.

Aquela palavra informativa estava me assustando, mas logo acrescentou, numa expressão de ternura maternal comovente: — Não se importe com a diferença, querido filho do Céu, que se você ainda não pode viver aqui, Noêmia pode viver onde você habita. É da Vontade de Deus, e Vontade que os Cristos representam e fazem ter execução, que o amor entrelace os Seus filhos, maiores e menores, para que todos cresçam. E como quem tem mais, pode e deve dar mais, Noêmia irá, de hoje em diante, cumprir tarefa junto dos que, no seu plano de vida, estão aprendendo a ser amorosos, estão procurando subir na escala dos valores íntimos. Paramos defronte a imenso prédio, parece que feito de alabastro e pedras preciosas, porém de material vivo, vibrante, e não como na Terra, nem como no meu plano de vida, onde tudo é ainda um tanto opaco. Entretanto, fomos dar em vastíssimo salão, havendo no centro uma mesa ovalada, como nunca pensara ver de tamanho igual; e ali estavam sentadas, em pequena parte da mesa, umas oitenta pessoas, entre homens e mulheres, estando Noêmia entre as mesmas. Assim que chegamos, todas se levantaram, tendo sido a Grande Mãe a primeira que veio ao meu encontro, apanhou-me pela mão e me conduziu até ao lado de Noêmia, onde me colocou, indo após para o seu lugar, e lugar que ficava na ponta ovalada. Um som maravilhoso se ouviu, provindo parece que das profundezas de nós mesmos. Entretanto, toda aquela gente gloriosa olhou para a porta, se assim se poderia dizer, que dava para o lado direito, feita em forma de triângulo, toda entalhada e cravejada de preciosidades reluzentes, representando cenas da vida de Jesus Cristo. A Grande Mãe foi para a entrada maravilhosa, ansiosa e simples como as simples e ansiosas mães, e no umbral de entrada abraçou um jovem esplendoroso de vida e de felicidade, tão contagiante em suas graças e virtudes, tão simples e tão puro, tão irmão e tão igual em essência, que todos se inclinaram como que forçados por encantamento divinal. Com ele vinham dois outros, bem se via que menores em hierarquia, porém muito acima do que podemos supor. Eles foram para a outra ponta ovalada daquela mesa enorme, e ao sentarem um vozerio se fez ouvir, entrando para dentro do salão imenso uma multidão de jovens de ambos os sexos, esplendentes de luzes e de alegria, vestidos com roupas parece que esponjosas, coloridas e farfalhantes, musicalmente farfalhantes. A Grande Mãe falou, ecoando aquela voz musical pelo imenso salão, ou de modo a se sentir que a voz tinha saído de toda a sua grandeza: — Irmãos queridos, aqui estamos para dizer boas-vindas a cinco de nossos concidadãos, que depois de cumprirem tarefa na crosta, voltam a nós como felizes servidores do Pai Divino. E como o Pai Divino recompensa, sem tornar Suas recompensas alardeantes, pedi ao Nosso Senhor Planetário, que com a sua presença nos cumulasse de graças. Estando ele presente, a ele passo a palavra, para que fale o que desejar a cada um dos recém-vindos. Sem nenhuma formalidade, muito familiarmente, o jovem de olhar meigo e cintilante falou: — Traga-os, mãe, um por um até mim. Ela foi ao encontro de uma velhinha muito encurvada, segundo como saíra dos laços carnais, apanhou-a pela mão e conduziu-a à presença dele; e ele, que era muito mais alto, colocou-lhe a mão sobre a cabeça, disse algo em linguagem que não entendi e fez a velhinha transformar-se numa jovem esbeltíssima, coroada de luzes multicores, parece que algo maravilhoso transformado em uma pessoa.

Assim fez com três mulheres e dois homens, sem falar com eles; mas quando todos tinham retornado a seus lugares, ele disse, em tom singelo: — Irmãos e amigos queridos, o nosso Planeta ainda é dolorosa moradia, cheio de estorvos e perigos; mas o Pai não falta jamais, enviando a Seus servos o Divino Auxílio. Eu me regozijo convosco, os recém-vindos, pelo exemplo deixado no mundo, pois ele servirá de roteiro de luz a muitos outros irmãos nossos. Se, em verdade, a Lei e o meu exemplo são conhecidos, nem sempre os que vão a ele, nas condições de mensageiros encarnados, dele voltam triunfantes. O bom exemplo reclama simplicidade e renúncia, e o mundo arma ciladas com o egoísmo e o orgulho... Mas vós triunfastes, e aqueles que fracassam terão que triunfar um dia, e o Pai Nosso a todos nos recolherá... Elevemos ao Pai Nosso, irmãos queridos, o nosso pensamento de gratidão! Não saberia dizer o que aconteceu: muito menos, como aconteceu; mas sei que o prédio sumiu e todos nos elevamos, pairando nos ares ofuscantes de Luz e Glória, cânticos e votos de felicidade a todos, a todos nós das esferas inferiores, os que ainda estão com o Reino do Céu interior quase todo por despertar. O jovem cintilante foi sumindo no Infinito, deixando grupos no caminho, até que ficou sozinho entre dois outros. Aquele incêndio de Luz e de Glória foi se apagando, apagando, apagando... A Grande Mãe entregou, ainda nos ares, cada um dos cinco aos entes queridos, apontando o caminho de volta. Olhando para baixo, vi o imenso prédio no mesmo lugar, engastado no seio de um painel feito de águas e flores cintilantes e musicais. E como cada um tinha um guia, ela comandou o retorno, augurando a todos muitos e felizes trabalhos. — Que o Pai nos abençoe, meus queridos, e que na obediência de Sua Lei e do Seu Ungido, estejamos prontos ao trabalho fraterno. Todos fomos destinados a uma Ressurreição Final, e todos a atingiremos, se nos amarmos como nos ama o Nosso Divino Modelo, que, como vistes, é simples e humilde. Quando a esbelta jovem nos colocou no chão do meu plano de vida, para ter em mente o nome de mais uma irmã superior na escala evolutiva, perguntei-lhe: — Como se chama a doce irmã, a quem tanto devo? Ela parecia feita de um sorriso estelar, e foi sorrindo que respondeu: — Maria de Magdala. Quis beijar-lhes as mãos alvíssimas e benfeitoras, mas foi ela quem o fez, dizendo palavras de carinho, lembrando Jesus durante a encarnação e oferecendo sua ajuda, quando quiséssemos dela o auxílio, para os trabalhos de socorro. E posso afirmar, por tamanhas provas armazenadas, que é muito difícil agradecer aos maiorais da espiritualidade, porque eles nos antecedem e fazem tudo primeiro do que nós, e melhor do que nós, porque colocam tamanho Amor nos atos, que ficamos augurando para eles a paga de Deus e não a nossa. * * * Enquanto não for ultrapassada a obrigação reencarnacionista, deve contar o espírito com a volta à carne, de tempos a tempos, cumprindo função e adquirindo luzes internas. É o coscorão em desgaste, para que a gema pura cintile perante o Sol da Divindade Absoluta. Muitas vezes, infelizmente, o Reino do Mundo fala mais alto do que o Reino do Espírito, e o candidato à Sagrada Finalidade resvala, vai parar nos abismos da subcrosta ou nos umbrais, isto é, no sentido inverso; mas, ainda assim, estará sob o

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