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Capítulo 26 de 47

Paz E Ventura — parte 2 de 13

A Volta de Jesus Cristo · Osvaldo Polidoro

parentela toda, e a família e a parentela toda, sempre curvada a ele através dos ritos. E assim por diante, todos curvados a Roma, que inventou um clero para através dele defender um Império, teve o Império desfeito e o clero a dominar tudo. Tudo sempre correu em santa paz, nada anuviou a vida familiar, sem ser doenças e mortes, aquilo que é normal. Padre Antônio fechou os olhos para o mundo no dia em que Noêmia, minha esposa, completava quarenta e nove anos; e fê-lo, segundo o mundo, em cheiro de santidade, porque, acreditava eu, tivera a sorte de jamais ter-se metido em política de modo ostensivo. Seu despotismo, aplicado dentro da Igreja Romana, fê-lo não ir além de simples cura de aldeia; ele agia com muita cautela, para não se revelar como de fato o era, mas se traía facilmente, para com os seus superiores, dando opiniões contrárias, pretendendo forçar situações, criando casos e pondo-os alerta. Para o bispo, um homem encanecido e pacato, aquele padrezinho nervoso, cheio de idéias esquisitas, bem que poderia fazer a vida mudar de rumo, ir parar em lugar bem menos sossegado. E tudo isso para o mundo continuar o mesmo, dizia o bispo, pois nem Jesus Cristo o consertara! Que todos, portanto, fossem vivendo, que bastantes pensares já lhes causava o pastor luterano, desviando ovelhas ou fregueses para outras bandas ou balcões. Muitos são os vícios, e perigosos, mas nem todos são realmente catalogados ou mesmo admitidos como tal, porque escapam ao raciocínio lógico, ao veredicto da inteligência superior, e superior porque trabalhada na forja dos estudos e das experiências contínuas. Sem isso, como pensar livremente? Sem isso, como marchar para Deus, deixando para trás os ranços da miséria humana? Piores do que o fumo, o álcool, a bebida e outros, é a mente viciada no comodismo formalista dos religiosismos. A mente humana, derivada da Mente Divina, deveria ficar sempre acima de preceitos humanos, sempre ligada à Causa Fundamental e Universal, que não admite dogmas, instituições e estatutos humanos, como cangalhas, como peso em cima. Quem sujeita Deus e Suas Divinas Leis a preceitos humanos, a igrejismos, não sujeita realmente a Deus, mas a si mesmo se escraviza, a si mesmo se corrompe e desvirtua. E padre Antônio fora enterrado sob toneladas de discursos encomiásticos, até havendo quem mandasse esperar “milagres” de seu túmulo, tal o montante de virtudes e galardões que a sua pessoa arrastara em vida. E para nós, os parentes, aquilo era uma participação no Reino das Graças, porque ele era nosso, era privativo do sangue e de bastantes documentos selados e registrados em cartórios. Por cima o tempo mandou chuva, chuva grossa, que a gente do povo ligou ao fado da sorte, porque aquilo que aconteceu com a rica e poderosa família, não estava, quem sabe, no mérito de alguma pobre gente, se o defunto fosse dela, que não seria rico, padre nem poderoso. As coisas, vistas pelo prisma do mundo, de seus conceitos e dos cômoros de sua multimilenar superstição, não são como são, porém como parecem, como as pintam os olhos vesgos do mundo. Aquela bruta chuvarada seria uma praga num enterro de pobres, mas era bênção de Deus num enterro de ricos; e confesso que a minha causídica mentalidade aceitava tudo aquilo, achava normal, mesmo levando em conta que as leis de Deus, regentes da Natureza, não seriam modificadas pelo enterro de mais um filho Seu, que explorara o Seu Nome a vida inteira, para ser servido e festejado por outros filhos Seus, pequeninos e humildes, a grande maioria embutida em tremenda ignorância e pobreza. Aquilo me soava bem, porque um pedaço do defunto me cabia, por ser meu cunhado. O Céu nada avisou, a chuva caiu e rolou normalmente pelo chão, a terra dadivosa também fizera silêncio... Mas tudo aquilo era sorte, a chuva abençoada regara, limpara de alguma coisa a alma do santo padre Antônio... Assim diziam e assim se ouvia e acreditava! O papel a ser representado pela Justiça Divina, segundo as crenças do mundo, seria o da ignorância e do ridículo, somados, bem somados, para gáudio de todos os

cérebros doentios, escravos de ajeitamentos e interesses subalternos. Principalmente destes últimos, pois enquanto o povo ignaro aceita tudo, muita gente se locupleta, materialmente, mesmo sabendo que perante Deus as coisas se passam de outro modo. O bolso, o estômago e outros fatores, queiramos ou não, vivem a nos açoitar a vida inteira, enquanto nos arrastamos sobre a Terra; e de tal modo inculcam seus ditames, que em altas doses passam para cá, forçando a remorsos e angústias. Não é fácil analisar o homem, quando encarnado, porque mil e um fatores o tornam realmente insondável; as aparências se apresentam prontamente, são logo vistas, porque todos as temos, mas a realidade íntima, todos a escondemos, quem mais e quem menos, e com inaudita capacidade automática. O encarnado parece que vive mais de malícia do que de alimentos e do ar que respira! E como no Espaço e no Tempo todos os fenômenos se desenvolvem, chegou o dia em que se ouviu uma mulher do povo dizer: — Sempre vejo padre Antônio correndo, fazendo viagens entre a igreja e o cemitério... Quem era essa mulher do povo? Quem era essa infeliz que via o santo padre Antônio correndo, entre a igreja e o seu túmulo? Era uma pobre lavadeira, alguém muito pobre, viúva cheia de filhos, que por dizer aquilo perdera ali o seu ganha-pão, pois a rica e culta família a pusera fora da porta, com ordem severa de jamais ali retornar, nem mesmo para pedir esmola. — Que atrevimento!... – bramiu a minha boa sogra, encarquilhada pela idade, mas cheia de mil certezas sobre o Paraíso em que seu rico e poderoso filho deveria estar. Entretanto, porque a consciência fala alto em horas que muitas vezes parecem impróprias, a família começou a pensar em rezar missas, muitas missas, centenas de missas, milhares de missas. E a boa mãe de padre Antônio, começou a se fazer mais afim com o rosário, de vez em quando regando-o com suas maternais lágrimas. — Que diz, você, Artur? – perguntou-me Noêmia, sem se revelar surpresa. Eu, que não esperava pela pergunta, e que como advogado devia partir sempre da segunda intenção, segundo a escolástica e os dotes da malícia, dei-me a raciocinar, para enfim dizer, vagamente: — Acho melhor, querida, não dizer coisa alguma... Noêmia encarou-me bem, enterneceu os seus já bem ternos olhos, murmurando: — Meu bem, nós não temos certeza alguma... Quem sabe é Deus... E assim findou a conversa, pairando um abismo entre os conceitos humanos e a Soberana Justiça de Deus, que ninguém encontra de modo materialmente ou individualmente exposta, para com ela discutir, levantar questões, quem sabe ensinarlhe alguma coisa, que seria do gosto de muitos sobre a Terra. Como é da ordem natural, fomos enterrando os outros, até que um dia chegou a nossa vez; fomos pela porta simples e boa da Morte, que entrega a domicílio, sem ter nada que ver com o produto, se é melhor ou pior em matéria de qualidades. * * * Embora todos estejamos acostumados, multimilenarmente acostumados, a Morte é a Vida que se apresenta com vestes um tanto diferentes, por isso mesmo que parece novidade, feia ou bonita, segundo o estado de merecimento e segundo o estado mental da pessoa. Diremos que ela é igual para todos, mas nem todos são iguais para com ela e suas decorrências. Ela é simples funcionária da Vida, faz apenas a sua parte, mas as decorrências dão ou podem dar muito o que falar, porque a Síntese da Vida é muito simples, mas as minúcias se desdobram ao Infinito. É muito fácil dizer o que é um grão

de areia, mas não é fácil dizer de onde vem, para onde vai, como realmente é e para o que serve, bem como onde poderá vir a estar e como, no curso dos milênios ou da Vida Eterna que tudo em Deus tem. Sempre tive por lema da vida não pegar causas repugnantes; a mim mesmo me dizia medroso, talvez covarde, mas escolhia minhas causas, porque pretendia dizer a verdade. Um tremendo sentimento de culpa me acompanhava, surgindo dos abismos de minha consciência; e mesmo não sabendo de seus porquês, que vinham do meu histórico, a ele fiquei devendo mil e um favores. E como, por medida de prudência, dava meus trabalhos aos mais pobrezinhos, digo que tive sorte, porque a Morte me entregou nos braços de gente amiga, pouco hierarquizada mas de boa qualidade em questões de sentimento, de préstimos e vasto lastro pelos séculos pretéritos. Dormi e acordei, logo em seguida ao enterramento do corpo; e se tenho a dizer que a Morte não causa abalos de morte, devo dizer que ela muda repentinamente o panorama exterior, pondo em sérios embaraços o mundo dos reflexos interiores, das impressões imediatas e irrefreáveis. — Tenha confiança em si mesmo, mantenha a mente vigilante, lembre-se de que nascer e morrer é o comum da vida! – dizia-me o professor Silvestre, que fora encarregado de me cuidar, até a entrega do corpo no cemitério. Porém, que lição tremenda de autodomínio, ver a família reunida defronte ao nosso cadáver, chorando pelo parente vivo diante do corpo inerte, sem poder dizer coisa alguma, remetido irremediavelmente a outro continente vibratório. Os sentimentos prendendo à esposa e aos filhos, a mente ligada aos destinos do espírito e a novidade da Morte fazendo fremer o campo das esperanças, defronte ao infinito dos fenômenos porvindouros, daquilo que é simples na ordem natural, mas que as incertezas do momento fazem parecer sonhos indecifráveis. Todavia, como as leis regentes pertencem a Deus, tudo foi acontecendo, vendo eu enterrar o corpo, com discursos e festas intelectuais, achando tudo muito esquisito e interessante ao mesmo tempo, de certo modo pensando que não era comigo ou em torno de mim que se movimentavam aquelas formalidades caudalosas. Nunca me sentira assim importante, cercado de tantas “virtudes de tabuleta”, tudo isso de que se enfeitam as imagens, quando chegam as datas festivas. Sinceramente, vinham à minha lembrança os dias de minha infância, quando os retratos de Santo Antônio, São João e São Pedro eram festejados, eram retirados do porão da casa, limpados e enfeitados, lá de quando em vez comprados novos, para os devidos festejos, para logo mais voltarem ao porão... Tinha chegado a minha hora, pensava, enquanto uns e outros chegavam, diziam coisas tristes e bonitas à minha adorada viúva, fazendo com que ela caísse em repetidos prantos, o que me incomodava bastante, pois ela e eu parecíamos um só, conforme a lição bíblica. — Quanto falta para o enterro? – perguntei muitas vezes a Silvestre. E Silvestre filosofava antes, para lacônico responder: — Isso é assim mesmo! Você vai se acostumar!... — Acostumar com o que, professor?!... Ele sorriu, muito brevemente, argumentando: — Isto é... Se você tiver que servir como eu, em acompanhamento de enterros, logo verá que a coisa se repete tanto, tanto... A novidade, Artur, é para o recém-vindo, e assim mesmo as incertezas e esperanças, bem como esse sofrimento todo causado pela separação dos entes queridos... Nós, entretanto, que fazemos isto há muito tempo e por obrigação funcional, achamos até bastante monótono esse negócio de morrer...

Silvestre fora meu professor ginasial, talvez um pouco aparentado de bem longe, homem simples e de língua solta, isto é, de coração na boca ou franco a todo custo. Alegre, tomando a vida como era, sabendo fazer amizades e gozando em mantê-las. Deixara longa progênie e muito bom rastro sobre a Terra, saudades incontáveis, e para mim fora muito bom tê-lo ao meu lado na hora do desprendimento. Se vinha encontrálo como receptor de novatos junto aos impérios da Morte, isso não poderia eu dizer porque, em que grau da engrenagem do imenso maquinismo se fundamentariam os motivos. Mais tarde eu o saberia. — Então, professor, isto não lhe parece um sofrimento tremendo?!... Ele encolheu os ombros e comentou: — Pode ser que pareça, como não, meu caro Artur... Mas quem vai mudar isso que é por Deus?... Lembre-se, acima de tudo, que você teve a sorte de ser imediatamente recolhido... Pior seria, Artur, acontecer isso e você estar endereçado aos lugares de pranto e ranger dos dentes... Devo ter apresentado uma careta muito expressiva, pois ele completou: — Sim, senhor!... Você pensa que Jesus falou aquilo tudo em vão ou para ter como empatar o tempo? Há criaturas que nem sabem que deixaram o corpo, tal o estado de atraso, ignorância, confusão e dores em que o fazem... — Vão parar no inferno!... – exclamei, sentindo alegria imensa, pelo fato de ter merecido outra direção. — O nome certo eu não sei, Artur, mas a verdade é essa mesma; acho até que nomes não importam, o que importa é não parar nesses lugares medonhos, seja pouco ou muito tempo, porque aqueles que de lá vieram, com quem tenho falado, contam coisas horríveis. A conversa andava nessas alturas, quando a hora do enterramento do corpo chegou, e tudo depois aconteceu, como ficou dito anteriormente. A seguir, ou depois do enterramento do corpo, fui dormir. Quando acordei, estava deitado ao lado de formoso riacho, no meio de vasta campina florida, um verdadeiro tapete de flores que não deixam de ser fragrantes e perfumadas. Um indizível prazer espiritual me invadia e, por isso, dei-me a levantar depressa, olhar ao redor, respirar aquele ar perfumado, tisnado de um não-sei-que celestial, esse sentimento da Presença Divina que se tem nos lugares de Paz e de Luz. Observei a planície florida, os montes distantes, o céu de um azul puríssimo e o voejar de aves e borboletas maravilhosas; vi que a certa distância perambulavam alguns homens, notando que um deles vinha ao meu encontro, ou pelo menos na minha direção. E como tivesse vontade de conversar com alguém, de entrar em contato com a nova condição de vida, fui-me ao seu encontro, vindo a estacar diante dele, sem dizer coisa alguma, apenas observando que era feliz, saudável e risonho, parece que revelando uma intimidade qualquer, que eu não podia no momento explicar ou admitir. — Sou apenas um servidor... – disse ele – Como são vários os que dormem para se refazerem, uns tantos guardas perambulam pela campina, a fim de atender aos que porventura venham a carecer de socorro... — Neste lugar de Paz e Ventura celestiais alguém pede socorro?! – perguntei, interrompendo-o. — Embora seja de Paz e Ventura, como diz, alguns aqui aportam com os seus dramas em continuação. Isto não é o Céu Crístico, nem mesmo um Céu muito inferior ao Crístico, mas de elevada capacidade vibratória, onde os recém-chegados podem estar absolutamente livres de certos percalços. Quem aqui chega, tanto pode estar um pouco melhor, como um pouco pior, nada além disso...

Estava gostando da conversa, principalmente notando que tomava caráter técnico, e de uma técnica que fugia aos meus conceitos de celestialidade. Essa questão do Céu ou de Céus, para quem passa uma vida inteira comprando formalismos clericais, não voga bem a quem chega ao mundo espiritual, todo ele totalmente diferente das mesmas encomendas formais. Portanto, procurei dar andamento à conversação, perguntando: — Você conhece bem o problema dos Céus? Afável, de uma afabilidade nada formal, toda absorvente, respondeu: — Como você virá a conhecer, pelo Mapa Diagramático, uma vez que, para conhecer praticamente, necessário é evoluir praticamente. Antes que entrasse em detalhes, perguntei sobre o ponto que mais me interessava: — Como é esse Mapa Diagramático? — É o Atlas Astral do Planeta, nada mais. Mostra o Planeta sólido e os Céus astrais, que vão do seu interior até certa distância, para o exterior, até atingir a fronteira vibratória do Céu Crístico. Quando estiver familiarizado com o Mapa Diagramático, verá que a questão não reside em dar muita atenção ao que a Deus compete, e sim ao que nos compete, que é atingir o Céu Crístico o mais depressa possível. Isto é o que nos cumpre, é ao que chamamos evoluir praticamente, aquilo que não é apenas conhecimento teórico. — Nunca ouvi dizer isso lá na vida carnal... Ele deu continuidade, depois de fazer um gesto de lamentação com a cabeça, como a dizer que, infelizmente, as religiões se importam muito com os formalismos que engordam orgulhos e vaidades, em lugar de cultivar o máximo respeito pela Verdade: — Nem eu tinha ouvido dizer isso, nem muitas outras verdades mais, que vim aqui encontrar. Por lá tudo cheira a conceitos e preconceitos humanos, de sorte que, quando se pensa estar adorando ou servindo a Deus, se está fornecendo farto material de monopólio aos engodos religiosistas. Enquanto aqui se aprende que o Pai deseja de nós Verdade, Amor e Virtude, traduzidos em obras sociais, por lá a coisa funciona em termos de ritualismos comercializáveis, com grandes somas votadas em favor dos orgulhos nobiliárquicos, que no curso dos milênios criaram raízes profundas no arcabouço da humanidade. — É lastimável!... – murmurei, entrando a meditar sobre mil e uma questões, porém sem articular palavra, para que o guarda fosse avante com as suas considerações. — Sim, é lastimável... Até parece que as religiões, na Terra, nada mais fazem do que servir ao Mal em nome do Bem... Pelo menos, meu irmão, podemos afirmar que há uma diferença muito grande entre as verdades reais e os interesses de grupos religiosistas. Naquele momento, pouco adiante, um vulto se pôs de pé, começando a berrar e a correr pela campina; e o guarda volitou no seu encalço, deixando-me sozinho, ou em companhia de minhas elucubrações. Pouco depois, havendo retornado, sem fazer referência ao caso, perguntou-me: — Quer ficar mais um pouco por aqui, antes de ir para a sede da região? — Antes gostaria – repliquei – de saber como terminou o acidente... Pareceu-me que o nosso irmão não estava bem... Ele deu de ombros, sorriu e disse: — A sua interpretação do caso, irmão Artur, bem prova que não conhece destes misteres; isso nada tem de acidente, é apenas o normal por aqui, como já lhe falei antes. O tal irmão, como viu, saiu correndo e gritando, de medo da Morte, da desencarnação...

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