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Capítulo 8 de 14
Feesp — parte 8 de 14
A Loucura Sob Novo Prisma · Bezerra de Menezes
São mundos de provações, são verdadeiras escolas onde os Espíritos vêm fazer a ginástica moral, e onde os que, não resistindo à atração do mal, se demoram até que, avigorados pelo exercício, podem, revestidos de reais merecimentos à sua custa e por seu esforço adquiridos, subir a mais alta sociedade, para a qual entram por direito, e não por favor. Assim pensam, com visos de razão, os que têm por verdade aquilo que vêem. Pensam falsamente. O mal não tem existência própria; não pode, portanto, inquinar, com seu vírus, qualquer mundo ou pessoa. O mal é um modo da evolução do Espírito como o calor o é da evolução de um planeta. No princípio, a atmosfera dos corpos celestes é incandescente. Com o tempo, e à medida que aqueles corpos vão sofrendo transformações, o calor vai diminuindo, até descer a uma temperatura suportável, e daí vai sempre baixando, até as condições da Terra, em que os pontos mais afastados da eclíptica percorrida pelo Sol, resfriam e gelam.
A julgar-se pelo que observamos com relação ao nosso planeta, sua evolução, apesar de bem adiantada, como o revelam os vulcões extintos, a ausência da aparição de novos e a doce temperatura da maior parte de sua superfície, ainda não é chegada a seu termo, como o provam os vulcões ativos e os desequilíbrios de sua temperatura superficial. A julgar-se, dissemos, pelo que aqui observamos, muito tem que baixar a temperatura dos planetas, para chegarem às condições de passagem a uma ordem superior. Um dia, é presumível, todas as regiões da Terra gozarão uma temperatura invariável e amena, sua superfície será naturalmente expurgada de todo elemento mórbido e dotada de elementos favoráveis à prolongação da vida de seus habitantes. Por outra: um dia, este mundo de dares e sofrimentos se transformará em mundo de bem-estar
e de gozo, onde os Espíritos que aí encarnarem farão seu progresso, não mais por entre lágrimas e espinhos, mas, sim, por entre sorrisos e flores. E o que dizemos da Terra é o que tem sucedido, é o que sucederá a todos os mundos que povoam o Universo. O mal segue as mesmas graduações, ou, antes, os Espíritos fazem que ele passe por análogas transformações. Enquanto o Espírito é rude no princípio de sua evolução, seus instintos são materiais; de onde o desenfreamento de todas as paixões. Avançando em sua carreira, queremos dizer, avançando em sua desmaterialização, aqueles instintos se modificam e sua natureza se corrige ao ponto de já ter a consciência de que a felicidade não consiste no gozo material, na satisfação das paixões carnais, a ponto de já ter a intuição do fim para que foi criado. Avançando mais e mais, chega a compreender a diferença entre a vida espiritual, com suas claridades, e a material, com seus precipícios e negros abismos.
Desse ponto em diante, renuncia ao seu passado e abraça a clara luz que não se extingue e, desde então, vai sempre, sempre e sempre, adquirindo maior intensidade e brilho. Abandona, enfim, os sentimentos de que emanavam, como miasmas mefíticos, todas as infinitas espécies do mal. Não é, pois, este senão modos da evolução dos Espíritos, enquanto atrasados. É como o fético que exala o indivíduo que não se lava, mas que não mais se sente, desde que ele se tenha ensaboado. Semelhantemente, os que se adiantam limpam-se dos sentimentos que geram o mal, nem mais o produzem, nem mais podem ser por ele contaminados. Há, por conseguinte, duas fases bem distintas na evolução humana: a que se caracteriza pela preponderância de sentimentos materiais, e a
que se caracteriza pela ausência de tais sentimentos, ou a que consiste no desprezo da Lei, e a que consiste na submissão à Lei. Enquanto não passamos da primeira, progredimos, mas sofrendo; porque, enquanto houver no Espírito um mau sentimento, tem ele de arrancá-lo por dolorosa operação, visto que o antídoto do mal é a dor. Desde, porém, que passamos a linha que supera as duas fases, e entramos na segunda, fazemos o progresso que não se limita a vencermos o mal que inoculamos, mas que se estende à glorificação do nosso ser, que reclama esforço eterno; fazemo-lo gozando alegrias e felicidades, sempre crescentes, sem mais nuvens que as ensombrem. Correspondentemente, enquanto percorremos a primeira fase, habitamos mundos mais ou menos atrasados, purgatórios ou infernos, se assim podemos considerar os de provas e expiações. Entrando, porém, na segunda fase, vamos habitar mundos mais ou menos adiantados, verdadeiros paraísos, cujas condições felizes requintam, à medida que sobem, e nós subimos, na infinita escala. Este período de progresso, sem amarguras, tem uma duração infinita, de modo que o Espírito nunca cessa de subir.
Assim, se nós gastamos milhares de séculos nos mundos inferiores, não tem fim à vida que teremos nos superiores. A perfectibilidade humana é, pois, um movimento eternamente ascendente, sem jamais chegar à perfeição absoluta, porque perfeito, em absoluto, só Deus; mas que chega a um estado deslumbrante, no qual, do que fomos na Terra, só guardamos a essência, apurada e depurada. A perfectibilidade humana chega a um grau tão elevado que não há, para o Espírito, ponto escuso no plano majestoso, ainda para nós quase completamente misterioso, da criação universal. Em cada degrau da infinita escada, rebentam de nosso ser faculdades novas, que possuímos latentes, e que nos são instrumentos
para devassarmos as novas e arrebatadoras relações da criatura com o Criador, do homem com a Natureza e com Deus. Antes de termos ascendido à Terra, no tempo em que vivemos em mundos mais atrasados, não usávamos, porque não nos era oportuno, de todas as faculdades que aqui nos são apanágio, e nem sequer suspeitávamos que as possuíssemos. Também, por isto, nunca tivemos a perspectiva das grandezas que esmaltam o panorama que hoje descortinamos. As novas relações que aqui nos foram dadas conhecer e apreciar, determinaram o desabrochamento de alguma ou algumas das que nos são agora familiares, e que julgamos serem propriedade do nosso Espírito, como julgamos que este foi criado para esta vida. A criação não é somente o que cai na órbita da nossa acanhada percepção atual, fraca amostra da infinita grandeza da obra do Criador. Deus, pois, vai apresentando aos Espíritos, na medida de seu progresso, as variabilíssimas faces do maravilhoso conjunto, que podem ser por ele apreciadas, e conjuntamente lhes vai permitindo pôr em atividade os precisos instrumentos, até então latentes.
E, quando tiverem olhos para suportar mais intensa luz, ser-lhes-á, então, e só então, apresentado o arqui-sublime fecho do soberano edifício, para o que lhes serão despertadas as mais requintadas faculdades, ocultas em seu seio. Então, o homem terrestre, o que na Terra foi desprezível escravo ou repelido selvagem, terá debaixo dos pés os orbes, e ao alcance de sua vista o infinito. Então, o que foi a larva humana, tábua rasa de sentimentos morais e de concepções intelectuais, aparecerá, nas asas dos ventos, aos que ainda se arrastarem pelo lodo dos mundos atrasados, como anjo do Senhor.
Não são estes, os anjos, criação especial, como ensinam; mas, sim, Espíritos humanos que passaram pelo cadinho da purificação e que se elevaram para darem glória ao Pai. Assim como o anjo é um Espírito purificado, assim o demônio é o Espírito ainda impuro, que se repasto no mal, que corre a todo ponto para fazê-lo, por simples gosto ou por vingança de passadas ofensas. Não vemos, na Terra, homens que assim procedem? Pois bem; esses tais, quando deixam o corpo, fazem como Espíritos o que faziam como homens. A bondade ou a maldade não é do corpo, é do Espírito; e, pois, o Espírito do homem bom leva para o espaço sua bondade, e o do homem mau leva sua maldade. Um e outro se dão, pois, muito naturalmente, como Espíritos, às práticas que tiveram como homens. E aí está o anjo, que nos assiste para o bem, e aí está o demônio, que nos faz todo o mal. Os Espíritos apresentam-se a nossos olhos com a forma material que tiveram em vida.
De tal fato não é lícito duvidar, sendo atestado universalmente pelos que têm tido aparições de além-túmulo, pelos médiuns videntes, e por experiências científicas, como as do venerando sábio William Crookes. Como explicar-se tão estranho fenômeno? Será a própria alma que toma aquela forma, ou cerca-se ela de algum elemento material, que lhe permite revestir-se de um corpo acidental? Permita o leitor que suspendamos, aqui, o estudo cosmogônico, com que nos temos ocupado, e que tratemos séria e detidamente desta questão, que encerra o principal elemento do nosso problema: A loucura sob novo prisma.
Depois dela, voltaremos ao assunto: à parte cosmogônica, de que tratávamos no que entende com aquele problema, verdadeira surpresa para a Ciência. Julgamos ter provado a existência da alma, imortal e consciente de sua personalidade. Sendo a alma uma substância imaterial, pois é indecomponível, como é que se apresenta sob a forma material de um corpo? E, antes de tudo, como é que o imaterial pode ligar-se e funcionar, harmonicamente, com o material, o corpo? Tomar a alma a forma material do corpo não é mais entranhável do que unir-se a este, durante a vida, tendo os dois perfeita correlação nos atos humanos, ao ponto de ser difícil discriminar no homem a parte com que concorrem para a vida comum. Comecemos, pois, pelo estudo desse modo incompreensível de correspondência entre a alma e o corpo, para depois estudarmos o fenômeno da aparição sob a forma corpórea. A questão da união da alma com o corpo tem ocupado os maiores Espíritos do mundo, desde que Sócrates lançou aos ventos o nosce te ipsum. Descartes explicou-a pelas causas ocasionais.
A alma e o corpo, completamente estranhos um ao outro, tendo cada um sua esfera de ação, seguem no curso da vida duas linhas paralelas. Deus modifica a alma, na razão dos movimentos do corpo, e dá movimento ao corpo, na razão das volições da alma. Cada um dos dois é, portanto, não causa, mas ocasião dos fenômenos, manifestados no outro. Esta explicação obscurece, em vez de esclarecer. Por ela, o homem é uma dualidade de indivíduos distintos, que vivem em comum, prestando-se cada um ao serviço do outro.
Ninguém, entretanto, desconhece que a alma impera sobre o corpo, embora exerça este sobre ela manifesta influência. As causas ocasionais caem e cairão por si mesmas; não resistem, não resistirão a um exame sério. Leibnitz deu quase a mesma explicação. O corpo e a alma agem separadamente, mas há, entre eles, laços de comunicação, que fazem com que as modificações operadas num se transmitam ao outro. São como dois relógios, acertados um pelo outro, de modo que dão sempre, ao mesmo tempo, as mesmas horas. A este sistema chama-se: harmonia preestabelecida. A teoria de Leibnitz, igual no fundo à de Descartes, participa da fragilidade desta autonomia de ambos os elementos constitutivos do homem. Euler resolveu a questão pela questão. Sua teoria do influxo físico, isto é, da ação direta da alma sobre o corpo, e do corpo sobre a alma, nada mais é do que o próprio problema a resolver, e, por conseguinte, dispensa qualquer análise. Cudworth concebeu a idéia de uma substância intermediária ao corpo e à alma, participante da natureza de um e de outra.
É o mediador plástico. O mediador plástico recebe, por sua natureza material, as impressões do corpo, que transmite à alma, por sua natureza imaterial, e vice-versa. Cudworth teve a intuição da verdade. Tudo no Universo procede do elemento ou fluido cósmico, fluido universal. Este fluido, mais ou menos condensado, produz as diversas espécies de seres da criação: os corpos pesados, os imponderáveis, os essencializados, os Espíritos.
O Espírito e o corpo têm, pois, a mesma origem, e se os extremos da escala dos seres não se podem ligar diretamente, podem fazê-lo por intermédio de um terceiro, que se lhes aproxime em composição ou natureza. Assim, o Espírito não se liga diretamente ao corpo; mas pode ligarse, por exemplo, a um imponderável ou essencializado, com o qual o corpo não seja incompatível. Efetivamente, se a matéria da luz já tem muito da natureza espiritual, sem deixar de ser da ordem material, como o corpo; quanto mais se tomarmos um corpo de matéria radiante ou do quarto estado? Se, pois, considerarmos o mediador plástico de Cudworth de natureza fluídica, quer dizer: semimaterial e semi-espiritual, teremos, muito razoavelmente, um meio de comunicação entre a alma e o corpo. Nem outra coisa é o que a Ciência espírita designa com o nome de perispírito.
O perispírito ou corpo astral de todas as vidas, de que Moisés fez o terceiro elemento do ser humano, é o invólucro fluídico do Espírito, em sua peregrinação pelos mundos materiais, até que se tenha elevado, por seu progresso, à altíssima posição de puro Espírito, Espírito sem mais revestimento. O Espírito, para viver em um mundo material, precisa daquele intermediário, mais denso ou mais rarefeito, segundo o mundo é mais ou menos atrasado, e, por conseguinte, o corpo que aí tem de tomar, é mais ou menos material. O perispírito, pois, de um Espírito começa muito denso e vai-se rarefazendo na razão do progresso do Espírito e dos mundos por onde ele passa, tudo em perfeita relação: Espírito, perispírito, corpo e mundo. Na Terra, o Espírito que vem encarnar já tem seu perispírito menos denso do que foi num mundo mais atrasado, e, mesmo na Terra, os
Espíritos que mais progresso tem realizado influem, por isso, sobre seu perispírito, fazendo que ele, no que permitam as condições do Planeta, se rarefaça. O próprio corpo também experimenta aquela influência. Pelo perispírito ou mediador, o Espírito põe-se em relação com o corpo, como melhor se compreenderá pela seguinte figura: Tome-se um vaso, dividido em duas capacidades por uma membrana orgânica. Encham-se os dois compartimentos de líquidos cujas densidades sejam: num, de um grau de Baumé, e, no outro, de dez graus do mesmo areômetro. Apesar de tão diferentes em densidade, e apesar da membrana intermediária, no fim de certo tempo será estabelecido perfeito equilíbrio de densidade entre os dois líquidos. A comparação não é perfeita, mas dá idéia do fenômeno físico da ação e reação do Espírito sobre o corpo e vice-versa, mediante o perispírito. Este recebe, pelo sistema nervoso sensitivo, todas as impressões do corpo, e, como um espelho, reflete-as.
O Espírito (alma) toma, por tal arte, conhecimento delas e imprime no perispírito suas volições, que são transmitidas ao corpo, mediante o concurso dos nervos motores. O cérebro, de onde decorrem os dois sistemas de nervos, é a grande pilha que segrega o fluido nervoso de que os fios de cada sistema são simples canais condutores, e é por isso que o cérebro é constituído de duas substâncias, branca e cinzenta, das quais uma segrega o fluido sensível, e a outra o motor. Assim, por exemplo, se um mosquito nos pica, a impressão é levada ao cérebro pelos nervos sensíveis ou do sentimento, e ali gravada no perispírito, que é ligado a todas as moléculas do corpo, e, no perispírito, a alma toma dela conhecimento e sente a dor, e, sentindo-a, procura remover a causa.
Esta resolução traduz-se em movimento imposto ao corpo pelo Espírito, mediante o perispírito, que a transmite ao cérebro, o qual, sempre pela força da vontade anímica, põe em ação os nervos motores necessários à ação de mover, suponhamos, o braço, para matar ou afugentar o mosquito. O perispírito, portanto, é quem transmite à alma as impressões do corpo, concentradas no cérebro, e é quem transmite ao corpo as volições da alma, pela impulsão dada ao cérebro, como centro do sistema nervoso. O corpo é simples meio de pôr a alma em relação com o mundo externo, ligando-se-lhe pelo perispírito. A alma é que sente, que recebe, que quer, segundo as impressões que recebe do exterior, e mesmo independente delas, pois também recebe impressões morais, e tem idéias e pensamentos sem a intervenção dos sentidos corporais.
E tanto é assim, que, separada do corpo, pela morte ou por simples desprendimentos, ela exercita todas as funções psíquicas que exercia quando ligada ao corpo; possui e exercita a inteligência e a razão, a sensibilidade, não mais física apenas; a vontade, a memória, a consciência, e tudo isto em grau superior, não sendo mais tolhida pelas prisões carnais. Logo, os fenômenos intelectuais e morais, que se manifestam no correr da vida corpórea, são devidos às faculdades anímicas, e não às propriedades do corpo. Logo, a função do corpo, em geral, e dos seus órgãos, em particular, é de simples aparelho ou instrumento da alma, pois cessa desde que esta se retire. Entretanto, embora o corpo não dê nem tire à alma influência alguma, influi poderosamente, como instrumento, bem ou mal aparelhado, são ou doentio, sobre o desempenho das funções anímicas.
E esta é a melhor prova de ser ele puro instrumento, pois o melhor artista não conseguirá fazer obra digna do seu talento, se não dispuser de instrumentos aperfeiçoados. Isso responde aos que argumentam com a coincidência de pobreza intelectual nos que têm cérebro pouco desenvolvido! Os idiotas de nascença oferecem-nos o melhor exemplo da influência do corpo sobre a alma, como seu instrumento. O idiota não é um Espírito privado de inteligência, que Deus cria a todos em identidade de condições, e a todos dá os mesmos meios para desenvolverem sua perfectibilidade. O idiotismo ou ausência de manifestações inteligentes não é, portanto, condição original de um Espírito, mas, sim, resultado da incapacidade do instrumento de que dispõe. O Idiotismo é um meio de expiação, pela contenção do Espírito inteligente, vendo-se nivelado, no juízo do mundo, ao irracional. E, para fazer tal expiação, para não poder manifestar sua inteligência, porventura luminosíssima, qual o meio? O meio não pode ser senão o de lhe dar um corpo, um instrumento completamente incapaz.
O Espírito pode ser rico de saber, mas os órgãos materiais, o corpo, pelos quais se manifestam as luzes do saber espiritual, não têm a capacidade suficiente, são órgãos de animal, revestindo o ser racional. Aí está, em sua completa expressão, o exemplo vivo da dependência da alma em relação ao corpo, exemplo que se traduz por este apotegma: "A alma tem o corpo de que precisa para sua missão na vida terrena." Pode o Espírito fazer menos do que lhe permite o aparelho que lhe foi dado, e pode bem raro, fazer mais, vencendo a natural resistência desse aparelho. Isto por obra de sua vontade.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.