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Capítulo 2 de 14

Feesp — parte 2 de 14

A Loucura Sob Novo Prisma · Bezerra de Menezes

"Antes de virmos a esta vida, já tivemos outras, e no tempo intermediário, que passamos no mundo dos Espíritos, adquirimos o conhecimento das grandezas a que somos destinados; donde essa reminiscência, a que chamamos intuição de um futuro, que mal entrevemos, envoltos no véu da carne." Por isto, o divino filósofo ensinava que "aprender é recordar". O que, porém, mais arrasta à convicção de que não acabamos com a morte - de que existe em nós um princípio imortal - inalterável ou indecomponível, e, portanto, imaterial, que constitui a essência de nosso ser, é o fenômeno da memória. Moleschott, um dos chefes da escola materialista, apoiando-se nos trabalhos de Thompson, de Vierodt, de Lehumann, que, por sua vez, se apoiaram nos de Cuvier e de Flaurens, sustenta, como axioma científico, o movimento incessante da matéria e as transformações resultantes daquele movimento, que se operam em nosso organismo. Diz o sábio químico que os fatos justificam plenamente a crença de que nosso corpo renova sua substância sucessivamente, em períodos de 20 a 30 dias.

Não queremos tanto; aceitamos a opinião de outros, que dão, para a renovação de todo o organismo humano, inclusive os ossos, o tempo de sete anos. Se é assim, e a ninguém é dado contestá-lo, temos que, de sete em sete anos, mudamos completamente de corpo - e, portanto, que, se somos exclusivamente matéria, mudamos de ser tantas vezes, na vida, quantos sete anos tivermos vivido. Ou não há lógica para o materialista, ou esta conclusão, deduzida de seus próprios princípios, é inatacável. Quem vive 49 anos, perde sete vezes sua personalidade, constitui sete pessoas diferentes, se o homem é exclusivamente matéria! Uma doutrina que debita monstruosidades destas, pode manter-se ante o bom-senso, e até mesmo ante o senso comum?

Não há, pois, como conciliar o fato científico com o princípio materialista. Qual deve ceder? E como o ser novo pode guardar memória dos fatos que se passaram com o ser extinto? A memória do passado não se explica senão pela permanência do ser, que foi presente aos fatos ora lembrados, e, se hoje nos lembramos de fatos da nossa infância, é porque somos hoje o mesmo ser que éramos naquele tempo. Se, porém, somos exclusivamente matéria - e se esta é substituída por outra de sete em sete anos, como sermos hoje o mesmo ser que fomos na infância - como nos lembrarmos hoje de fatos daquele tempo? Dai ao homem a essência imutável, imaterial, e mudai quantas vezes quiserdes seu corpo material, que o ser essencial, guardará a memória dos tempos passados. Sem isto, jamais podereis seriamente explicar o fenômeno da memória - e este fenômeno é prova irresistível e esmagadora de que o homem não é somente corpo, matéria - de que existe nele um princípio imaterial, isto a que chamamos - alma ou Espírito. Não é preciso mais para convencer a quem estiver de boa fé; quanto aos outros... ainda que vejam, negam!

O § 1.° do capítulo que nos tem ocupado não foi esgotado com a ligeira prova racional. Falta, ainda, a prova de autoridade. Vem da mais remota antigüidade a crença universal de ter o homem dupla natureza, embora não fossem bem definidas sua condição e relações.

Foi Sócrates quem traçou o círculo da Filosofia, que até ali compreendia todos os ramos dos conhecimentos humanos, dando-lhe por objeto o estudo da alma, cuja existência prova cabalmente. Seu discípulo, o imortal Platão, levou mais longe suas indagações: afirmou a existência do mundo dos Espíritos e a preexistência da alma, por onde explicava as idéias inatas, dizendo no seu Fedon: que aprender é recordar o que a alma já sabe de passadas existências. Aristóteles, que, com aqueles dois vultos, formou a mais elevada expressão da sabedoria antiga, acreditava na existência da alma. E todas as escolas filosóficas dos tempos passados, se divergiam quanto à compreensão dos fenômenos do entendimento, eram acordes quanto à existência do elemento espiritual, diretor da máquina orgânica do homem. Os sensualistas, por exemplo, e designadamente Leucipo e Epicuro, acreditavam na alma, embora sua doutrina - de procederem da sensação todas as nossas idéias - destruísse o que afirmavam. Zenon bem pouco diferia de Epicuro, mas sempre sustentou o princípio anímico.

Os cínicos e os estóicos não destoaram da geral opinião, e a escola de Alexandria, que fecha o ciclo da Filosofia antiga, e que produziu gênios, como Plotino, Orígenes, Porfírio e Jâmblico, não só era essencialmente espiritualista, como até sustentava as idéias de Platão: da preexistência e da pluralidade de vidas corporais. Em resumo, aí fica estampado o modo de pensar da antigüidade, tanto no Oriente, como no Ocidente, pois dos Arianos procedeu à ciência dos Egípcios, e destes a da Grécia, que foi a fonte onde beberam os povos da Europa. Entre a antigüidade espiritualista e o moderno espiritualismo, deuse, é verdade, um notável eclipse, devido à filosofia de São Tomás, firmada nos princípios da Igreja Romana, que levantou a fé pan-viva contra a razão: o condenado racionalismo.

A revolta contra essa imposição da Igreja foi ao extremo de suprimir a alma, de que se constituiu principal motor o célebre Bacon, criando a ciência indutiva, em que beberam o veneno do materialismo Hobbes, Gassendi e Locke, os primeiros que hastearam, no mundo, a bandeira da negação materialista. Felizmente a revolta teve quem a combatesse e colocasse, em terreno digno do homem livre e esclarecido, o princípio comprometido pela ambição de domínio da Igreja Romana. Descartes, com seu método quase positivista, restabeleceu os princípios da existência e da imortalidade da alma, concluindo que, se é incontestável a existência do corpo, mais o é a do pensamento, pura emanação da alma. Contra Bacon, Descartes; contra os sectários da doutrina do filósofo inglês, os discípulos da escola fundada por Descartes: Bossuet, Fénelon, Malebranche, etc. Sobre os escombros da antigüidade surgiu, pois, a escola materialista; mas, prestes, ergueu-se a combatê-la o espiritualismo cristão.

Entre os dois campos, levantou-se o grande vulto de Leibnïtz, pretendendo realizar a conciliação dos dois princípios, pela supressão dos exageros de uma e de outra parte; mas a morte não lhe permitiu concluir a obra, que foi adotada, mutatis mutandis, pelos chefes do ecletismo: Tomás Reid e Emmanuel Kant. A sombra das novas idéias, trabalharam pela restauração do espiritualismo abalado os Jouffroy, os Cousin, os Villemain e muitos outros grandes vultos. O ecletismo arrancou a Humanidade à obsessão do materialismo de Bacon e da teologia de São Tomás, e deu à questão da imaterialidade na alma o mais assinalado triunfo.

O materialismo, que, por momentos, se julgou senhor do campo, recolheu-se, corrido da Filosofia, e foi assentar sua tenda no terreno da Ciência, ainda mal esclarecida. Perscrutou a organização do Universo e do corpo humano, e fez desses dois pontos seus formidáveis baluartes. Acompanhemo-lo aí. "O Universo, isto é, o turbilhão infinito de todos os seres é matéria; pois o homem não poda admitir a existência de que não lhe é apreciável pelos órgãos (sentidos) que o põem em relação com o mundo exterior." Eis a base essencial do sistema que vamos analisar. Quem deu ao homem o direito de afirmar que só pode existir o que é acessível aos sentidos? Dada que seja razoável tal concepção, que prova positiva já foi descoberta de sua realidade?

A pedra fundamental do materialismo não passa, pois, de uma hipótese gratuita, a que seus fanáticos adoradores julgam dar força invencível, acrescentando ao grande postulado este soberbo complemento: "A matéria é inseparável da força, e é por esta união que se explica a evolução e a transformação dos seres, constituindo o movimento incessante e a harmonia universal". A força! Mas que é a força? Admites a matéria, porque é apreciada por nossos sentidos; qual deles tem a propriedade de apreciar a força? Se, a despeito disto, afirmais a existência da força, estais em contradição com vós mesmos, não admitindo senão o que é acessível aos sentidos; e, portanto, ruem os fundamentos do vosso sistema. Suponhamos, porém, que esta incongruência não alui, por seus fundamentos, o vosso edifício; dizei-nos: Quem lhe dá o cunho aprimorado, a sublime harmonia de suas peças, o equilíbrio admirável, para cuja estabilidade concorre variadíssimos sistemas de leis, que jamais se entrechocam?

Quem produziu e mantém esta incomparável estrutura, que a ciência dos homens nem de longe poderá imitar? A força e a matéria, respondeis; mas, então, a vossa força e matéria possuem uma ciência e um poder infinito! Será assim? Reparai bem. Se é, se esse vosso poder, criador e mantenedor do Universo, é o princípio original, a causa primária de todas as coisas, dele procedem às leis eternas e imutáveis, em virtude das quais tudo é e tudo se regula no Universo. A matéria, pois, foi quem criou todos os seres e lhes pôs as leis que os regem. Mas tudo é matéria, só existe matéria; logo, tudo é sujeito - e, conseguintemente, é sujeita a própria matéria às leis que dela procedem. E, pois, se tudo procede da matéria, e tudo é, e tudo se regula por leis postas por ela, aí temos: que o criador é sujeito à sua criatura, que a matéria criou as leis, a que ela mesma, em sua infinita variedade, é submissa! Já vedes que o vosso sistema leva ao mais ridículo absurdo!

Separai, porém, a força da matéria, ou, antes, considerai a matéria trabalhada pela força, mas força que lhe é dada por um poder estranho e superior, dotado de onisciência e onipotência. Em virtude dessa força, inerente à matéria, não por lhe ser própria, mas por disposição do superior poder, todo o mundo físico evolve, e se transforma, segundo as leis postas por aquele absoluto poder. Aqui, o criador e regedor de todos os seres do Universo está fora de sua criação, que rege por sua suprema vontade, manifestada em suas leis eternas e imutáveis, como o artista se distingue de sua obra, que modela e transforma em belíssima estátua. Aí, no vosso plano, o artista é a própria estátua, modelada e transformada por leis de sua criação, a que é passivamente submissa.

Comparai os dois planos - e, lógica e racionalmente e sem a obsessão do espírito de sistema, confessai que o primeiro é uma grandeza, e que o segundo é uma miséria. Assim, pois, o materialismo não explica o Universo, em seu equilíbrio harmônico e inalterável, senão obliterando a razão; ao passo que o espiritualismo o explica de um modo condigno de sua excelsa magnitude. O estudo atento da Natureza atesta, portanto, como a luz do dia atesta a presença do Sol no nosso horizonte, a existência de um ser onisciente e onipotente, que não é matéria, nem se confunde com o universo material; prova de que nem tudo o que é pode ser acessível aos nossos sentidos - e que não é somente por estes que temos a ciência de tudo o que é. Passemos ao exame do homem, sob o ponto de vista das teses materialistas. Já demonstramos, na l.º parte deste capítulo, que há no homem um princípio imaterial: a alma. Pouco, então, nos cumpre dizer em contestação da doutrina que não admite senão matéria.

Sempre adstrito a esta doutrina, e precisando remover dificuldade de explicar, por sua lei, certos fenômenos humanos, de que o essencial é o pensamento, o materialista recorre a subterfúgios, e eleva às alturas de axioma que "o cérebro é que segrega o pensamento, como o fígado segrega a bílis". Infeliz comparação, que solapa pela base a doutrina em cujo apoio é invocada! O pensamento está no caso da força ligada à matéria; não pode ser apreciado por nenhum dos nossos sentidos, e, conseguintemente, rechaça a lei fundamental do materialismo.

Suponhamos, porém, que assim não é - e que há meios de po-lo em harmonia com aquela lei, embora custe tanto quanto conservar gelo em cima de uma chapa incandescente. O fígado segrega a bílis muito naturalmente, pois órgão secretor e substância segregada são, igualmente, de natureza material - da mesma natureza. Que relação tem isto com o fato de segregar o cérebro, órgão material, o pensamento, que é imaterial? Demais, uma secreção requer substância, de que seja extraída - e se a bílis é extraída ou segregada do sangue, onde descobrirá o cérebro a substância de que possa extrair o pensamento? Será, também, do sangue? Sãs capazes de afirmá-lo! Cabanis julgou cortar a dificuldade por esta tergiversação, que nada o abona: "As impressões chegam, isoladas, ao cérebro, e este, operando sobre elas, emite-as sob a forma de idéias." O cérebro extrai, pois, ou segrega o pensamento das impressões; mas o cérebro é órgão material, e as impressões não são substâncias materiais.

Melhor andou Broussais em seu testamento: "Desde que conheci, pela cirurgia, que o pus acumulado na superfície do cérebro destruía nossas faculdades, e que estas se restabeleciam logo que era ele evacuado, não pude deixar de reconhecer que elas são atos do cérebro, embora não saiba o que é o cérebro e o que é a vida." Broussais não refletiu numa coisa, e é que, ao invés de o cérebro ser agente do pensamento, por instrumento de sua manifestação; fica racionalmente explicado o fato da interrupção, pela interrupção da ação do instrumento - fato que tanto o impressionou.

Nunca houve quem negasse a necessidade do cérebro na manifestação do pensamento; a questão é ser agente ou instrumento, o que está hoje fora de contestação. E tanto é assim, ao contrário do que afirmam Moleschott, Vogt, Cabanis e Broussais, que o eminente Longet diz: "Vêem-se crianças raquíticas assombrarem pela precocidade de sua inteligência, e velhos, bem velhos, conservarem intactos o juízo, a memória e o fogo do gênio." E o professor Lordat escreveu um notável tratado sobre a insenectude do senso íntimo nos velhos. A procedência original do pensamento de um órgão material é tão repugnante, que não vale a pena combatê-la; máxime quando a doutrina espiritualista, que dá ao cérebro a simples função de órgão transmissor, satisfaz perfeitamente a razão; dando ao ser pensante - a alma - a faculdade de pensar, isto é, de elaborar o pensamento.

Em última análise: O criador da excelsa máquina do Universo precisa ser superior a todas as maravilhas, que a fazem pasmosa; precisa ser inteligente, poderoso e livre, como nenhum homem o pode ser; precisa ser, pois, único na posse da inteligência e da força infinitas. A matéria, que, em todas as suas manifestações, se mostra sujeita às próprias forças humanas, não possui àquelas propriedades. Nem o selvagem atribuirá ao relógio a sua autoria! Mais que selvagem é, pois, atribuir à máquina do Universo sua própria criação! A despeito, portanto, do materialismo, continua e continuará, sempre triunfante, a idéia do mundo imaterial, a par do material - a idéia de Deus e da alma, que são sua consubstanciação. Antes de darmos o remate a este parágrafo do capítulo II do nosso trabalho, não será tempo perdido dizermos duas palavras sobre o positivismo, que não aceita, e porventura mais imperradamente que o

materialismo, a existência do imaterial - e, conseguintemente, de Deus e da alma humana. Saint Simon era espiritualista de vistas muito mais largas do que o geral dos filósofos do século XVIII. Dentre seus discípulos, porém, saiu um ambicioso de renome, Augusto Comte, que imaginou o sistema positivista. O positivismo é, em sua essência, o método de Bacon, restabelecido para corrigir os excessos, que se permitiam os filósofos. Ninguém deixará de aplaudir um tentame de opor barreira a desvarios na aquisição de nossos conhecimentos, e de estabelecer um critério para as indagações científicas. O que, porém, ninguém aplaudirá, é opor-se à licença uma restrição tão meticulosa, que chega a ser repulsiva. Comte fechou a inteligência e a razão no estreito círculo da observação e da experiência, só admitindo o que pode ser provado pela experiência material. Entretanto, confessava que alguma coisa existe inapreciável aos sentidos, donde seu misticismo religioso, que Huxley qualifica de - Catolicismo sem Cristianismo.

Eis, pois, a crise original do positivismo: não aceitar senão o provado materialmente, ao mesmo tempo em que admite algo fora disso! Os discípulos do inventor desse incongruente sistema dividiram-se em duas sub-escolas: a dos que mantiveram a pura doutrina do mestre, e a dos que, logicamente, caíram no materialismo, de que o positivismo é a larga porta ou o plano inclinado. Um dos mais notáveis, Littré, dedicou toda a vida à sustentação da doutrina do mestre, guardando restrita neutralidade (nominal) entre o materialismo e o espiritualismo.

Nominal, dissemos, porque, se ele admite o elemento material, só aceita para a coordenação da Ciência aquilo que dão os sentidos pela experiência. O Universo contém um número infinito de seres; mas, para o positivista, ele não compreende senão os que se revelam pela experiência material. É um modo singular de fazer a Ciência. Robinet escreveu: "O caráter essencial da mentalidade positivista é afastar toda a imaginação na explicação ias coisas, e não proceder senão por meio de provas reais e por observação; é limitar-se a observar relações naturais, a fim de prevê-las, para modificá-las em nossa vantagem, quando for possível, ou suportá-las, quando não for possível modificá-las." Sendo assim, jamais o positivismo constituirá uma ciência, visto que não inquire senão das relações entre fenômenos, sem cogitar de suas causas. Nem mesmo constituirá um sistema um método científico, desde que despreza as relações de causa e efeito. Nunca passará de um registro de fatos verificados, sem classificação nem dedução.

E mais um meio de restringir que de ampliar o conhecimento da verdade. O próprio Littré recomenda absoluta abstenção de toda questão relativa à essência das coisas, exprimindo-se assim: "Não conhecendo nem a origem nem o fim das coisas, o positivismo não tem razão para negar nem para afirmar que existe alguma coisa além dessa origem e desse fim." E, pois, o positivista não pode cogitar de problemas que escapam à ação de seu método. A esse respeito diz Delanne: É possível este equilíbrio recomendado por Littré? "Quando as leis da Natureza manifestam um admirável encadeamento entre os fenômenos, é possível limitar-se ao estreito

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