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Capítulo 12 de 14

Feesp — parte 12 de 14

A Loucura Sob Novo Prisma · Bezerra de Menezes

na ocasião. E quantas vibrações sonoras se perdem, por não lhes prestarmos atenção? Não é, pois, duvidoso, para quem sabe refletir, que o cérebro não é mais do que um instrumento material, a serviço da alma, para pô-la em relação com o mundo material. E, tanto é assim, que temos um mundo de pensamentos sem objetivo fora de nós, isto é, no mundo material, de que o cérebro pode receber as impressões. Assim, portanto, as faculdades são da alma e o meio material de pô-las em relação com o mundo material é que pertence ao cérebro e suas dependências. Quem exerce as funções da vida de relação, quem pensa, raciocina, guarda a memória dos sucessos, sente, delibera, vê, ouve, sente o cheiro, o gosto, e tem as impressões de tato, é a alma. E, pois, não manifestar o pensamento claro, nítido, quando o cérebro sofre, é tão natural como o artista não manifestar seu talento, quando lhe faltam os instrumentos. É como torná-lo mais límpido e sublimado, em suas manifestações, quando o respectivo instrumento é mais bem organizado.

E nós sabemos que ele é tanto mais bem organizado, quando é destinado a servir a Espíritos mais adiantados. É realmente lógico que, servindo-se a alma do cérebro, como instrumento de manifestação de suas faculdades, deve tê-la mais brilhante ou mais imperfeita, conforme a maior ou menor perfeição daquele instrumento. Dois homens, dos quais um tem cérebro mais normal, devem manifestar capacidade diferentes, sendo sempre superior a do que dispõe de melhor instrumento. Bem firmado, pois, o princípio de que todo o organismo é instrumento da alma, explicada fica a razão por que não vemos, não ouvimos, não pensamos, mesmo que funcionem fisiologicamente os respectivos órgãos materiais, e isto em virtude da lei de se ver, ouvir e

pensar, independentemente do organismo, nos casos, por exemplo, de desprendimentos da alma, sem a interrupção da vida. No cap. II deste trabalho, citamos as experiências demonstrativas deste fato, as quais têm abalado as doutrinas filosóficas mais bem firmadas. A revelação de Velpeau, quando não tivéssemos a de Bernheim, bastaria para prová-la. Não repisemos este ponto, mas liguemo-lo à lei que rege os fenômenos humanas da vida de relação. O homem vê, ouve, raciocina, independente da máquina material que lhe serve geralmente para aquelas funções; isto porque tais funções são exclusivas da alma, tanto que, destacada ela momentaneamente do corpo, exerce-as tão bem ou melhor, como ligada ao corpo. Os Espíritos desencarnados manifestam-se com as faculdades e sentidos humanos, fato que, felizmente, está autenticado, e que pode ser verificado pelos que só crêem no que vêem. Se, pois, o louco for sonambulizado ou se seu Espírito for atraído a um médium sonambúlico, discorrerá corretamente, caso sua loucura seja a resultante de lesão cerebral.

E que se achava louco, porque sua alma estava dependente do instrumento de manifestação natural de seus pensamentos, e que esse instrumento estava deteriorado. Em tais condições, uma vez que ela rompa momentaneamente os laços que a prendem àquele instrumento, e que disponha de outro em boas condições, seus pensamentos se manifestarão com a natural nitidez. Repetimos, pois: se obtivermos o desprendimento do Espírito, para se manifestar independente do órgão doentio, verificaremos o fato notabilíssima de o louco manifestar tanta ou maior lucidez, como no tempo em que estava em seu perfeito juízo.

E será este o meio de distinguir-se a loucura propriamente dita, da outra espécie, com que nos vamos ocupar. É fora de toda a dúvida que, sendo o cérebro instrumento de manifestação do pensamento, não pode alterar-se, mantendo-se ele são, senão por causa que afete o Espírito. Uma função só se perturba, ou por lesão do órgão ou por lesão do agente. Assim, um engenho pode parar, ou por ter quebrado uma peça ou por desarranjo do motor. Se, pois, a loucura se explica perfeitamente pelo desarranjo cerebral (o engenho), o mesmo não se dá quando perfeito o estado do cérebro (engenho). Neste caso, é preciso procurar a causa do mal fora do órgão, do engenho, e já sabemos que é no agente (o motor) que devemos procurá-la. Ora, sendo o agente do pensamento o Espírito ou a alma, é óbvio que à alma ou Espírita se filiam os casos de loucura que não têm sede no cérebro. São os casos observados por Esquirol e por outros respeitáveis fisiologistas.

O que determina tão singular perversão de uma faculdade da alma é digno das mais sérias pesquisas, não só para satisfação de uma muito natural curiosidade, como para obter-se uma segura orientação no tratamento da mais cruel das enfermidades do homem, da que lhe abate o caráter essencial de ser humano. A Ciência nadará em um oceano de incertezas, enquanto acreditar que a loucura depende exclusivamente do cérebro. Em tal hipótese, o que é racional é tratarem-se todos os casos de loucura pelo mesmo sistema, pelo emprego dos meios que curem o cérebro. E quando o cérebro nada sofrer?

Distinguir, portanto, uns de outros casos, os que dependem do cérebro dos que nada têm com ele, é facilitar a marcha da Ciência, em seu empenho de curar. Parece intuitivo que não pode convir a ambas as espécies o mesmo tratamento. A cura das moléstias de fundo orgânico e a das que são efeitos de causas morais, não se pode alcançar pelos mesmos meios. Ninguém se propõe a curar, com tisanas, moléstias morais, nem a curar por meios morais moléstias orgânicas. Um hipocondríaco, por lesão do fígado, trata-se por meios terapêuticos; mas um que sofre de spleen não se cura com aquele tratamento. A Ciência precisa distinguir as causas físicas das morais, para poder aplicar às moléstias os meios correlativos. Ora, a loucura, como temas demonstrado, é moléstia de fundo orgânico, nuns casos, e é de fundo espiritual, noutros casos; logo, a Ciência precisa bem conhecer esta diferença, para variar de ação, segundo a espécie.

Tudo o que ela sabe, até hoje, é exclusivamente aplicável aos casos orgânicos, porque, até hoje, apesar da ponta do véu levantada por Esquirol, ela não tem cogitado de discernir espécies de loucura. Importa, pois, abrir larga discussão sobre este ponto, para não continuar a desordem no tratamento, confundindo-se na ordem das loucuras incuráveis, como são quase todas as causadas por lesão cerebral, inúmeros casos de natureza desconhecida, e que, como o provam os exemplos acima citados, são suscetíveis de cura. Para distinguir-se esta nova espécie, chamar-lhe-emos loucura moral, ou mais apropriadamente: loucura psicológica, por tratar-se da perturbação da faculdade anímica, e não do instrumento da manifestação.

Como quer que seja, cumpre-nos indagar como e por que se dão aquelas perturbações, e quais os meios de combatê-las: etiologia e tratamento, visto que, no estudo da etiologia, há ensejo para descobrirlhe a natureza. A empresa é árdua, sendo nós o primeiro que a comete, e, por isto, sem onde beber luz. Já sabe, porém, o leitor que vamos procurá-la nas idéias enunciadas pela ciência espírita, que se funda na observação e na experiência. Não são, conseguintemente, fantasias as considerações que, por bem da Humanidade, e maior progresso da Ciência, nos propomos desenvolver aqui. São ilações lógicas dos princípios irrecusáveis, que formam o contexto daquela ciência, cujas primeiras ilações já deslumbrando o mundo, preocupando os mais altos espíritos de todos os países. Como, porém, toda idéia nova, por mais sublimada que seja, encontra sempre a mais enraivecida oposição, firmaremos em provas de fato o que vamos expender.

A preexistência dos Espíritos encarnados é a chave do primeiro problema, que nos temos posto: conhecer a causa da loucura psíquica. É neste princípio tão racional quão de fácil experimentação, que vamos procurar o valor do nosso X. Por sucessivas existências, encaminham-se os Espíritos ao destino humano, como já foi amplamente explicado. Também já o foi que a variedade de disposições intelectuais e morais dos homens e a resultante do maior ou menor esforço empregado por cada um em suas vidas anteriores.

E como o saber e a virtude pertencem ao Espírito, e não ao corpo, compreende-se que cada homem leva para a vida espiritual o saber ou a ignorância, a virtude ou a maldade que teve na vida corpórea. O que foi caridoso continua, depois da morte, a desejar o bem de seus semelhantes; o que foi malfeitor continua a desejar todo o mal aos que ainda penam na Terra. Assim, o mundo dos Espíritos é o reflexo do mundo a que chamamos dos viventes. Assim como há na Terra quem faz o mal só pelo gosto de fazê-lo, assim, no espaço, esses mesmos continuam sua danação, obra de seu atraso. E, do mesmo modo como vemos criaturas arriscarem a vida, para satisfazerem uma vingança, assim, no espaço, esses tais não esquecem o mal que se lhes fez e de que juraram vingar-se, na última ou em qualquer das passadas existências. Esses maus Espíritos, que representam o papel atribuído ao demônio, têm a faculdade de fazer-nos mal, atuando fluidicamente sobre nós, como em vida atuavam materialmente.

Não nos espancam nem nos ferem o corpo, mas nos inspiram maus pensamentos, maus sentimentos, resoluções terríveis. Chegam a dominar nossa vontade, ao ponto de nos tornarem submissos, como um hipnotizado. Temos o direito e o poder de reagir, repelindo suas insinuações; mas não vemos na vida como certos perversos vão pouco a pouco seduzindo aqueles que marcam para suas vítimas, até dominá-los, e os levarem para onde querem, e disporem da sua vontade? O fato, pois, da influência dos Espíritos sobre os viventes, é o mesmo da que estes exercem, uns sobre os outros. Tal influência apresenta diversos graus: vai da simples insinuação à dominação completa da vontade.

O uso que fazemos do nosso livre arbítrio, na repulsão daquela causa perturbadora, pode ser eficaz ou inútil, conforme a natureza dos nossos sentimentos. Se forem bons, a nossa resistência rechaçará todos os ataques do inimigo. Se forem maus, serão ventos a auxiliarem as correntes do inimigo. Cada um de nós forma sua atmosfera moral, dentro da qual somente podem penetrar Espíritos da nossa natureza, que são os únicos que a podem respirar, se nos permitem a expressão. Assim, ao que modela suas ações, seus pensamentos e seus sentimentos, pelas normas do dever e do bem, não podem chegar senão Espíritos adiantados, jamais os maléficos. Vice-versa, ao que leva vida desregrada, mais preocupado com a satisfação de seus instintos carnais do que com o cumprimento de seus deveres, segundo o bem, não podem chegar senão Espíritos atrasados, que só arrastam para o mal: jamais os benéficos, salvo os que vierem em missão de caridade. Entre estes extremos, uma infinita variedade, propendendo mais ou menos para a resistência, ou mais ou menos para a submissão.

Se o homem bom, que é por isto assistido pelos bons Espíritos, desfalece na prática do bem, porque seu livre arbítrio é incoercível, rompe por suas mãos o cordão sanitário que o isolava dos maus Espíritos. Se a fraqueza é transitória e o reerguimento pronto, o eclipse apenas visível aos habitantes do mundo espiritual será um ponto negro no livro de sua vida, de que o acusará a própria consciência. Se, porém, o infeliz, longe de reagir sobre si mesmo, se entrega ao desânimo, seus amigos invisíveis se afastarão e os inimigos o tomarão a si. Dá-se então, um desses descalabros morais, que tantas vezes nos compungem e escandalizam, de ver-se um homem, sempre respeitável por seu caráter, descer à maior baixeza.

Estudai esses desastres e reconhecereis que são sempre devidos a um desfalecimento seguido de um arrastamento. O homem bom, que caiu, tinha nos seios da alma uma paixão que subjugava, mas que, um dia, por circunstância imprevista, ergueu-se energicamente, e fê-lo esquecer o dever. Despertado, quando o mal já estava feito, em vez de vomitar o veneno, procurou encobrir a falta, e o gérmen da perdição fecundou-se em seu seio. Eis o desfalecimento. Com ele abriu a porta aos maus Espíritos, que o provocam a saciar aquela paixão, já uma vez superior à sua vontade, e um pouco por já ter a alma desvirginada, e, ainda, pela influência do inimigo senhor da praça, ei-lo impelido pelo plano inclinado. Começa tremendo, como quem foi surpreendido; vai-se paulatinamente acostumando à falta, para a qual descobre escusas, e acaba desprezando o que sempre teve por sagrado e abraçando como sagrado o que sempre teve por desprezível. Isto é obra do arrastamento. Assim, portanto, vivemos rodeados de Espíritos que nos inspiram para o bem, e de Espíritos que nos arrastam para o mal.

Nem uns, nem outros podem calcar o nosso livre arbítrio, mas é o nosso livre arbítrio que nos faz aceitar antes estas do que aquelas sugestões, a dos amigos ou a dos inimigos. Somos, pois, sempre livres em escolher a sociedade de nossa alma. Dando preferência à dos maus Espíritos, não corremos somente o risco de tomarmos maus conselheiros, senão, principalmente, o de abrirmos a porta a uns tantos que, além de maus, sejam também nossos inimigos pessoais, sedentos de vingança contra nós. Suponhamos que, em remota existência, abusamos do poder, fazendo nossas vítimas quantos incorreram em nosso desagrado; que esmagamos o coração de um infeliz, separando-o da esposa amada,

dos ternos filhinhos que acabaram na miséria, e ele na fúria do maior desespero. Esta vítima de nossa perversidade expirou jurando vingança, e, Espírito atrasado, que não compreendia a sublimidade do destino humano, a que ninguém pode chegar senão pelo amor a Deus e ao próximo, mal teve a consciência de seu estado de espírito livre, e a memória de sua extinta vida corpórea, continuou a respirar somente vingança. Fareja, procura descobrir onde paira seu cruel verdugo; vê lá do espaço, seu desprendimento do corpo; acompanha-o na erraticidade; assiste com satânico prazer à sua reencarnação, e acompanha-o na nova existência, com a solicitude de seu ódio, esperando o momento suspirado de cair sobre ele. Suponhamos que o reencarnado, por obra de um sincero arrependimento, tenha vindo sinceramente resoluto a reparar suas maldades. Neste caso, seus pensamentos, sentimentos e obras se modelarão pelas normas essenciais à sua missão reparadora, e não permitirão a aproximação de maus Espíritos.

Que suplício para aquele inimigo, vê-lo invulnerável pela prática do bem, que o arrancará por fim a seu ódio! O lobo dá mil voltas em torno do redil, enquanto a mansa ovelha dorme tranqüila, mal pensando que é tão vigiada e ameaçada. Suponhamos que se dá aqui um caso de desfalecimento. O espírito maléfico acende-se em satânicas alegrias, sentindo que se abala a atmosfera isoladora do que fora seu verdugo. Lá está a brecha por onde penetrar, a satisfazer as quase extintas esperanças de vingar-se. Explora habilmente a causa da perturbação da alma que quer esmagar, empresta-lhe cores mais tenebrosas, e destarte vai semeando a perdição.

Sutilmente, insinua-se, disfarçado em amigo, e, quando se acha senhor da confiança, dá o assalto à fortaleza: subjuga a vontade de sua vítima, até fazer dela instrumento passivo da sua. Para chegar a este resultado procura perturbar-lhe a razão, o que consegue par mil modos: ora aproveitando as afecções orgânicas, ora jogando com as afecções morais. Chegado ao ponto de ter completamente hipnotizado sua presa, fála passar por qualquer dessas inumeráveis variedades de perversão moral, que se dão em espetáculo entre os alienados. Sua sede está saciada; mas a sede de vingança mais se abrasa, quanto mais se sacia. O que o infeliz lhe fez, ele retribui-lhe no décuplo; porém, ainda quer mais, e, quanto mais o esmaga, mais trabalha por esmagá-lo, mesmo depois de tê-lo feito um louco. A este estado, a Ciência chama loucura, e o é; mas a esta loucura o Espiritismo chama obsessão.

É loucura, porque há efetivamente uma perturbação das faculdades mentais, mas não é a loucura por tal conhecida, porque esta depende da lesão orgânica do cérebro, e no caso não se dá semelhante coisa. É a loucura em que Esquirol não encontrou lesão cerebral, é a loucura psíquica. Conhecida a dupla causa da moléstia que apresenta os mesmos sintomas, embora tenha muito diversas origens, é curioso conhecer como podem causas de naturezas tão diferentes produzirem efeitos tão semelhantes. É curioso, dizemos, porque não se pode compreender como uma lesão orgânica e uma influência moral possam produzir o mesmo resultado. Mais ou menos, já sabemos como, nos casos de loucura, se rompe a harmonia de ação da alma e do cérebro, do ser pensante e do órgão da manifestação do pensamento.

O fato dá-se pela simples razão de não poder o aparelho prestar-se ao serviço, ou antes, de só o poder fazer imperfeitamente, por seu estado mórbido. O cérebro, pois, perturbado em sua função, e não podendo transmitir integralmente o pensamento, como o formulou a alma, determina a loucura. Se a lesão se acalma, a manifestação dá-se mais regularmente como nos períodos lúcidos. Quando, por qualquer motivo, exacerba-se, dá-se o recrudescimento da perturbação. Isto é nos casos de loucura por lesão cerebral. Vejamos agora como se dá a mesma loucura, por obsessão, sem lesão cerebral, por influência fluídica dos Espíritos. A alma aqui formula os pensamentos como sempre, sem a mínima perturbação, e, de sua parte, o cérebro está nas melhores condições para transmiti-los. Temos, pois, agente e instrumento nas condições precisas para a elaboração e transmissão dos pensamentos. O que, então, determina em tais casos a perturbação mental?

O que determina, não a perturbação mental, porque a alma não enlouquece, mas a perturbação na transmissão do pensamento, é a interposição dos fluidos do Espírito obsessor, entre o agente e o instrumento, de modo que fica interrompida a comunicação regular dos dois. A alma pensa, mas seu pensamento não pode utilizar-se do cérebro, senão imperfeitamente, por estar este truncado, alterado, em razão da barreira posta pelo obsessor, no empenho de produzir essa perturbação que se toma por loucura. Poderia tolher toda comunicação, mas seu intuito é fazer considerar louca sua vítima, e, pois, perturba, mas não suprime a função.

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