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Capítulo 4 de 14

Feesp — parte 4 de 14

A Loucura Sob Novo Prisma · Bezerra de Menezes

A verdadeira expressão da luta, entre materialistas e espiritualistas, não é propriamente determinar se existe a alma; pois os sustentadores do puro materialismo nos fazem a graça de admitir uma como alma, resultante das energias materiais e semelhante à força vital que se esgota e desaparece com a morte. A verdadeira expressão do que realmente separa os dois campos, é: se a alma sobrevive ao corpo, com a consciência de sua individualidade e a memória de quem foi e do que fez na vida corpórea. Aqui, não há questão de palavras. Sim ou não; e está decidida a sorte das duas escolas. Se se provar que um indivíduo, a cujo enterro assistimos, se manifestou e comunicou suas impressões de além-túmulo, arrasado está, com isto, o castelo do materialismo, e firmado em rocha viva o do espiritualismo. E, pois, a questão que temos trazido até aqui, apoiando-nos na razão, na consciência, na autoridade e na Ciência, toca ao termo fatal,

ao ponto de não poder mais ser envolvida em sofismas e tergiversações. Entremos na prova decisiva, dividindo o estudo especial, em três partes: l.ª - Tradição popular; 2.ª - Fatos autenticados pelos maiores vultos da Ciência; 3.ª - Fatos de nossa própria observação.

1.ª - Tradição popular

Em todos os tempos e em todos os países, vigorou sempre, no seio da massa popular, a crença de que as almas dos mortos vêm falar aos vivos. Se tem algum valor o provérbio: vox populi, vox Dei - e não deixa de ter, pois é inegável que o povo possui uma intuição que surpreende os sinceros; se tem algum valor aquele provérbio, não pode ser posta em dúvida a manifestação dos mortos. Como, porém, a Ciência não se firma em conjeturas, desçamos aos fatos que dêem vida à crença popular. Na Bíblia, encontram-se provas autênticas da manifestação das almas que se foram desta vida. São autênticas, porque a autoridade do escritor sagrado não permite que se lhe atribua intenção de enganar com falsos propósitos. E são insuspeitas, porque o patriarca era infenso àquelas práticas, ao ponto de ameaçar com morte aos que provocassem tais comunicações. Assim, pois, têm o maior valor moral os fatos que vamos referir. O primeiro é este mesmo ato de Moisés, condenando a evocação dos mortos. (l) (1) Moisés proibiu que os adivinhos e feiticeiros evocassem os mortos, visto que só os profetas o podiam fazer. (N. E.)

Se o fato não se desse ou não passasse de coisa imaginaria, seria ridículo figurar aquela proibição em livro tão respeitável, escrito pelo maior vulto da antigüidade sagrada. Tal proibição é, portanto, a mais irrecusável prova da verdade do fato. (2) (2) Fato que, dessa forma, não pode ser negado pelos adeptos de qualquer ramo do Cristianismo. (N. E.) Dir-se-á que a prática era real; mas que era bruxaria - e que foi por isso que Moisés a proibiu. Os mortos não acudiam aos chamados. Aceitemos a declinatória, mesmo porque, além de gratuita, vai ser reduzida a pó pelo segundo fato, este: Saul recorreu à profetisa de Endor, para falar à alma de Samuel, e, diz a Bíblia, a alma acudiu ao chamado e revelou ao rei seu próximo fim. Aqui, não há para onde fugir; ou é falso o que atesta o venerando escritor, ou Samuel sobreviveu à morte do corpo, tanto que falou a Saul.

Está no mesmo caso e conduz às mesmas deduções o que se encontra no livro de Tobias: O moço foi longe da casa paterna, e teve encontro com um mancebo, que o acompanhou e o livrou de ser devorado por um peixe, cujo fel mandou guardar, para curar a cegueira do pai. De volta a casa, produziu a cura, e, oferecendo-lhe a família, agradecida, metade de sua fortuna, fez-lhe sentir que a Deus devia o benefício, e declarou ter sido Ananias, filho de Azarias. Dizendo isso, desapareceu da vista de todos. Passando destas tradições escritas e autenticadas pelo autor da Bíblia, façamos obra com outras inéditas, que poderão ser autenticadas. No Brasil e em Portugal, de cujos usos e costumes temos maior conhecimento, encontra-se, espalhada por todas as camadas sociais, a

crença nas almas do outro mundo, firmada em fatos presenciados por pessoas respeitáveis. Em Portugal, as Lendas e Narrativas do ilustre Alexandre Herculano as atestam. No Brasil, quase não há uma família, dizia o erudito Dr. Manuel Soares da Silva Bezerra, que não tenha um fato a referir da aparição de mortos. Daremos aqui alguns dos muitos que conhecemos. D. Maria Cândida de Lacerda Machado, senhora tão distinta pela inteligência como por virtudes, que viveu na boa sociedade do Rio de Janeiro, tinha em S. Paulo, estudando na Faculdade de Direito, o filho de seu primeiro matrimônio. Um dia, recebeu carta do moço, que se achava de perfeita saúde, e, na noite desse mesmo dia, ao apagar a vela para dormir, ouviu distintamente o som da queda de pesado castiçal de prata, pousado sobre uma mesa, a alguma distância da cama. Acreditando que gatos ou ratos lançaram abaixo o estimado objeto, acordou o marido, que, acendendo a vela, viu, com ela, o castiçal em seu lugar. - Foi sonho - disse ele. - Não, que eu estava acordada, respondeu à senhora.

E, depois de longa discussão, apagaram de novo a vela e voltaram à cama. Imediatamente fere-lhes os ouvidos o som da queda do castiçal; ao que acudiu o homem, dizendo: - Agora, sim: garanto que caiu. Acesa a vela, foram surpreendidos com a presença do castiçal no seu lugar! Muito tempo levaram em conjeturar, até que resolveram repousar. Deu-se, então, um fato singular para a senhora, ainda acordada, enquanto o marido já dormia.

Uma mão deslizou doce e amavelmente pela testa de D. Maria, e, tomando-lhe os bastos e longos cabelos, soltos, correu por eles até as pontas. - É meu filho, que me vem dar sinal de ter morrido! - exclamou a angustiada senhora. - Reconheci-lhe a mão, fazendo, com meus cabelos, o que sempre foi seu gosto. É ele! E não houve como dissuadi-la daquela idéia, nem durante o resto da noite, que levou a prantear o filho, nem no dia seguinte, quando famílias amigas acudiam a convencê-la de que era infundado seu juízo à vista da carta que dava o moço de perfeita saúde. Entre os que foram visitá-la, figuraram os Drs. Mariano José Machado e Joaquim Pinto Neto Machado, respeitáveis médicos, que nos deram a notícia do fato, no mesmo dia. Dois ou três dias depois, chegou o vapor de Santos, única via célere, de então, entre a Corte e a província de S. Paulo, e, por ele, veio à notícia da morte do jovem, colhido por uma enfermidade, exatamente no dia em que foi aqui recebida sua carta.

Análogo a este fato é o que se deu, na província do Ceará, com o coronel Luís Torres, então capitão e geralmente conhecido por capitão Lucas. Achava-se comandando o destacamento na cidade do Crato, 80 léguas distantes da Capital, e, uma noite, dormindo em rede, foi acordado por lhe abalarem sensivelmente, não havendo no quarto, fechado, quem o pudesse fazer. Ao despertar, soou-lhe aos ouvidos a voz flébil de sua irmã predileta que se achava na Capital, e a voz articulou estas simples palavras: - "Luquinhas (era como o tratava), adeus!" Não dormiu mais, acreditando na morte da irmã, e do fato fez referência aos amigos da cidade, que, em poucos dias, deixou, por ter sido rendido no comando.

Efetivamente, naquela noite falecera a querida irmã do capitão, o qual foi o próprio a referir-nos o fato. Ainda um outro, para prova da verdade da tradição. Manuel Seve, moço de espírito elevado e nosso companheiro de estudos experimentais sobre Espiritismo, faleceu na Capital Federal, no dia 15 de Julho de 1895, pelas seis horas da tarde. Era natural do Maranhão, onde tinha a família paterna. Poucos dias depois da morte, manifestou-se ao capitão do Exército Manuel Raimundo de Sousa, dizendo-lhe que dera à família, imediatamente, sinal de seu passamento; o que nos comunicou e a outros amigos, o capitão Raimundo. Pelo vapor do Norte, recebeu o padre Seve, irmão do morto e seu hóspede, enquanto vivo, uma carta do pai, que lhe referia o seguinte: No dia 15, cerca das onze horas da noite, achando-se toda a família agasalhada, foi subitamente despertada pelos gritos de uma jovem, irmã querida de Manuel Seve, que dizia ter visto um homem penetrar em seu quarto, onde ainda se achava, pois ela ainda o via.

Rodeada dos seus, cobrou ânimo e, enfrentando o insolente, que ousara entrar em seu aposento reservado, soltou um brado de espanto, declarando que o homem era seu irmão Manuel, o qual desapareceu de sua vista, tão depressa foi reconhecido. Foi um tumulto na casa, chorando todos, na persuasão de que aquilo fora sinal de que o amado Manuel tinha morrido, ou antes, que o caro amigo viera, ele mesmo, trazer o sinal de sua morte. Só o velho pai, incrédulo, viu o fato por um prisma sem dúvida mais aterrador para seu coração. Para ele, aquilo era efeito de alucinação. A amada filha estava alucinada. Procurou, como pôde, acalmar a tempestade, tranqüilizando a própria moça, que conciliou o sono e, dormindo, sonhou; e no sonho viu o irmão estendido num sofá, no meio da sala, tendo à cabeceira

uma mesa, sobre a qual um crucifixo e duas velas, estando o corpo coberto por um lençol. Ora, isto, que era o quadro real do que se deu aqui, e nós presenciamos, não abalou a crença do velho pai, que, à hora do costume, foi para seu emprego, onde, depois do meio-dia, lhe foi entregue um telegrama do filho padre, dando-lhe a triste nova. O que aí fica narrado é o transunto da carta do velho Seve ao filho padre, a quem pedia explicação de tão estupendo acontecimento. O estupendo sucesso foi narrado nos jornais desta Capital, invocando-se o testemunho do padre, que não o deu, por que e padre; mas que, também, não desmentiu o fato, porque não podia abafar a verdade. É, pois, um fato tão autenticado quanto é possível exigir-se, o da aparição da alma de Seve no Maranhão, na mesma noite de seu desprendimento aqui na Capital. A comunicação feita ao capitão e a apresentação à irmã, completam-se no sentido de fazerem patente a verdade do sucesso. Centenas equivalentes poderíamos dar aqui; os três, porém, que demos, nos parecem suficientes.

2.ª Fatos autenticados pelos maiores vultos da ciência

Já sabemos que nos cabe, agora, avaliar as experiências dos grandes luminares da Ciência sobre a sobrevivência da alma, com a consciência de sua individualidade. Saibam, pois, de uma vez por todas, que somente ao Espiritismo pediremos a chave do pavoroso mistério que tem feito recuar os mais robustos talentos ante a idéia de se preocuparem com assuntos do mundo invisível, com a vida das almas. Pouco se nos dá que esta nossa franca e destemida declaração nos acarrete o escárnio de uns e a excomunhão de outros, quando nosso

fim é o descobrimento da verdade, que sempre custou caro aos argonautas da Ciência. Perscrutemos, pois, os segredos do Espiritismo, com a coragem dos Crookes, dos Wallace, dos Varley, dos Zoellner, dos Victor Hugo, dos Sardou, dos Flammarion e de inúmeros outros sábios. William Crookes submeteu a exame experimental as manifestações espíritas, no intuito de demonstrar a falsidade delas. (l) (1) Convidamos o leitor a ler a obra - Fatos Espíritas, de autoria de Crookes. (N. E.) Suas vistas e seu procedimento acham-se estampados neste trecho do seu livro: "Em presença de tais fenômenos (espíritas), os passos do observador devem ser guiados por uma inteligência tão fria e tão desapaixonada, como são os instrumentos de que se serve." "Por este modo tão correto, tenho apreciado fatos extraordinários", diz ele, sem temer o ridículo: "Tendo-me convencido da verdade desses fatos, seria uma covardia moral recusar-lhes meu testemunho." Que fatos são os de que fala o sábio? O leitor pode conhecê-los, manuseando seu livro, minuciosa exposição das experiências que fez e a que deu o título de "Estudos sobre o novo Espiritualismo".

Entretanto, apraz-nos transcrever alguns trechos dessa importante obra impugnada de modo a provocar o riso de Faraday, Babinet e Chevreuil. "Uma questão importante, diz o observador, se impõe à nossa atenção: saber se esses movimentos e ruídos são dirigidos por alguma inteligência." E continua: "Desde o princípio de minhas pesquisas, eu demonstrei que a força produtora de tais fenômenos não era cega, mas, sim, uma Inteligência que, se não os dirigia, lhes era associada.

"E assim que, a meu pedido, as pancadas se davam no número exigido, fortes ou fracas, e nos lugares designados. "Por um vocabulário de sinais, previamente combinados, foram-me dadas respostas a questões por mim levantadas, e me foram feitas várias comunicações." Crookes fez outras bem importantes considerações, procurando demonstrar que a desconhecida Inteligência ora era inferior à do médium, ora em completa oposição aos seus desejos, chegando a mandar reconsiderar as questões que lhe propunha, quando não eram razoáveis. Conta ele que, durante uma sessão com Home, uma prancheta que estava sobre a mesa, a pouca distância das mãos daquele médium, encaminhou-se espontaneamente para ele, para dar uma comunicação. "Eu lia o alfabeto e, quando chegava à letra necessária à composição do nome que a força invisível queria dizer, a prancheta suspendia-se de um lado e batia.

"As pancadas eram tão claras, tão precisas, e a prancheta estava tão evidentemente sob a inteligência de um poder invisível, que lhe dirigia os movimentos, que eu exclamei: A Inteligência que dirige esta prancheta pode mudar o caráter de seus movimentos e dar-me, por meio de pancadas em minha mão, uma mensagem pelo alfabeto de Morse? "Tenho toda a razão para assegurar que aquele alfabeto era completamente desconhecido de todos os presentes, e eu mesmo mal o conhecia. "Assim que fiz a pergunta, mudou o caráter do movimento da prancheta, e começou a mensagem pedida. "As letras me foram dadas com a rapidez de eu não poder apanhar todas as palavras, pelo que foi perdida a mensagem; mas eu tinha colhido quantum satis para reconhecer que dirigia a prancheta um bom mestre do sistema de Morse."

Continuando, refere o sábio o seguinte fato: "Uma dama escrevia automaticamente, e eu quis verificar se ela o fazia inconscientemente. "A prancheta de que ela se servia, afirmava, pelos sinais conhecidos, que, embora posta em movimento pela mão da dama, a Inteligência que a dirigia era de um ser invisível, que se servia do cérebro da dama, como de um instrumento de música, dando assim manifestação a seus músculos. "Eu disse, então, a essa Inteligência: Vedes o que está nesta sala? Sim, respondeu. Vedes este jornal e podeis lê-lo? E logo pus o dedo sobre um exemplar do Times, que estava na mesa, atrás de mim. Sim, respondeu novamente. "Dizei-me, pois, a palavra que está debaixo do meu dedo. "Quando fiz esta experiência, evitei propositadamente olhar para o jornal, e à dama era impossível vê-lo, porque estava encoberto por meu corpo. "A prancheta começou a mover-se lentamente, com dificuldade, mas escreveu a palavra - honra -, exatamente a que meu dedo cobria." Como, depois desta experiência, atribuir-se aquele fenômeno à força psíquica? Como?

Se ninguém ali sabia qual a palavra que estava debaixo do dedo. Preste o leitor atenção a este fato, e, em consciência, decida se pode ter sido produzido pela força psíquica do médium ou de alguém presente, todos completamente ignorantes do que estava oculto pelo dedo, ou se não é de rigor que tenha sido ele produzido por Inteligência estranha, invisível, como se qualificou ela mesma, para a qual a matéria é transparente. Ora, provada a existência de uma Inteligência invisível, que falta para tomá-la por um Espírito? E o que nos vai dar o próprio Crookes.

A escrita direta desfaz toda a dúvida sobre a existência de Inteligências invisíveis, estranhas à influência do mundo visível. Sobre ela, escreveu Crookes: "A escrita direta é a expressão empregada para designar o que é produzido sem a intervenção do homem. "Eu obtive muitas vezes palavras e comunicações escritas em papel marcado com o meu sinete nas mais rigorosas condições de fiscalização. "Ouvi, no escuro, o ruído do lápis sobre o papel. "Eram tão rigorosas as precauções por mim tomadas, que meu espírito ficou convencido, como se eu tivesse visto formarem-se os caracteres. "Como o espaço não me permite entrar em todos os pormenores, limitar-me-ei a citar os casos em que meus olhos e ouvidos foram testemunhas da operação. "O primeiro foi numa sessão, no escuro; porém o resultado não foi menos satisfatório. "Eu estava sentado ao pé da médium, Srta. Fox, e não havia presentes senão minha mulher e uma parenta. Com as mãos, eu segurava as da médium, e, sob os meus, tinha seus pés.

Havia papel sobre a mesa, e eu tinha um lápis entre meus dedos. "Uma perfeita mão luminosa desceu do teto, e, depois de ter, por segundos, adejado em torno de mim, tirou-me o lápis, escreveu rapidamente no papel, depôs o lápis e se elevou até se perder na escuridão." Crookes refere ainda os seguintes casos, que dão nova expressão às suas experiências: "Durante uma sessão com Home, em minha casa e de dia, eu vi agitarem-se as cortinas de uma janela que ficava a dois e meio metros de Home. Uma sombra, semelhante a forma humana, foi vista por

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