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Capítulo 7 de 14
Feesp — parte 7 de 14
A Loucura Sob Novo Prisma · Bezerra de Menezes
bem ou o mal, somos, por isso mesmo, os que nos julgamos incursos, merecedores de penas ou recompensas, segundo a lei na Justiça eterna. Essa Justiça não cogita de personalidades: é indefectível. Cada um, pois, desde que termina suas provas nesta vida, ou antes, se sua matéria se tornou incompatível com a vida, para o espaço receber, em Espírito, o prêmio ou o castigo suas obras. Nisto, porém, não se limita a evolução espiritual. Tendo marcado aos Espíritos um alvo, que é seu destino alcançar, e conhecendo até onde podem eles ser arrastados por suas fraquezas, deu-lhes Deus recursos contra elas, sempre associando sua justiça à sua misericórdia. Pouco mais que o bruto seria o homem, se seu altíssimo destino pudesse ser alcançado em uma única existência - nesta que conhecemos aqui - e a melhor prova de que não é ela a única que os Espíritos têm à sua disposição, é o fato constituinte de morrerem crianças sem terem feito uso de suas faculdades.
O Onisciente deixaria de o ser, de ser a infinita perfeição, se a criança que morre, sem satisfazer o fim para que veio à vida, não pudesse realizá-lo em outra vida, nas mesmas condições da que perdeu. O complemento natural e lógico do livre arbítrio, no desenvolvimento da perfectibilidade humana, é o tempo à disposição do Espírito, para realizar sua completa evolução. Assim, a liberdade não sofre restrições, e plena é a responsabilidade pelo uso que dela se fizer. Convém, porém, determinar de que modo devemos usar do tempo que nos é dado, como complemento de nossa liberdade. É o mesmo que dizer: convém saber como se faz a evolução dos Espíritos, cuja gênese já foi sumariamente esboçada. Muito naturalmente: assim como os mundos recém-formados são grosseiros e imperfeitos, em relação aos que já têm passado por muitas
evoluções, assim, pelo mesmo modo, os espíritos recém-criados são o que se pode chamar larva humana. Neste ponto, há perfeita similitude entre os mundos e os Espíritos: atraso por atraso, iniciação por iniciação. Daí resulta que é nos mundos atrasados, de iniciação, que são colocados e rompem sua marcha os Espíritos, logo que são criados, atrasados e no período de sua iniciação. Para tais homens, tais mundos; para tais mundos, tais homens. Aqui se ajustam perfeitamente os dois princípios: pluralidade de mundos e pluralidade de existências da alma, ou antes: daqui começa a longa série de relações entre os Espíritos e os mundos que lhes cabe habitar, segundo o grau de progresso de uns e de outros. Há, recentemente vinculado na Ciência, um sistema que parece protestar contra essa harmonia tão natural. É o de Darwin, pelo qual o homem é o último elo da cadeia da criação, que começa, com forma apreciável, no mineral, passa ao vegetal, sobe ao animal e termina no ser materialmente homem, e moralmente Espírito.
Por este sistema, Deus só criou um elemento: o fluido universal, e é este que, passando por indefiníveis transformações, reguladas por leis eternas e invariáveis, constitui os seres dos três reinos da Natureza e o homem, que Quatrefages classificou num quarto reino: o hominal. O homem é o grande estuário aonde vem desaguar e confundir-se todas as águas da criação. Por este sistema, o Espírito começa inerte, torna-se vivente, sem consciência, adquire o movimento e o sentimento, ainda sem consciência, e, por fim, é investido do senso moral. É então, e só então, que ele é propriamente Espírito, e, como a iniciação espiritual, pelo senso moral e consciente, se opera em mundos de iniciação, eis por que, embora pareça, de fato a doutrina de Darwin não altera as relações que ligam os Espíritos e os mundos,
segundo suas respectivas graduações nas vias do progresso a que são sujeitos. Como um corpo posto em movimento adquire progressivamente maior velocidade, assim os Espíritos, começando o exercício de suas faculdades intelectuais e afetivas, vão progressivamente adquirindo conhecimentos e sentimentos mais apurados, até chegarem ao termo de sua perfectibilidade. Suponhamos, para mais fácil compreensão, que a terra é o mundo de nossa iniciação espiritual. Quem já houve, aí, que se possa gabar de haver atingido, no tempo de sua vida, um progresso intelectual e moral que seja a última expressão da perfeição humana? A perfectibilidade humana, sendo indefinida, é óbvio que, na vida da Terra, o homem não alcança o destino para que foi criado; apenas conseguirá, se conseguir, os primeiros degraus da longa escada. Outras existências e maiores esforços são indispensáveis para a consecução do altíssima fim. Terminando a primeira existência corpórea, o Espírito que empregou esforços, para progredir, recebe o prêmio de animação; aquele, porém, que dormiu ou só fez mal, recebe a conseqüência de suas faltas.
Tanto o prêmio como o castigo não podem ter duração eterna, porque não foi completado o ciclo do progresso, cuja realização é lei do ser racional. Deus não seria Pai, se condenasse seus filhos a penas eternas por faltas de um momento; assim como não seria juiz reto, se, por limitado mérito, desse o inestimável prêmio da glória devida a todo o mérito. E ao que ficaria reduzida a perfectibilidade humana, se não passasse do que sabemos e praticamos nesta vida? Os que fossem para o Céu, no dizer dos católicos, não precisariam mais progredir, e os que fossem para o inferno, não poderiam fazê-lo.
Uma comparação grosseira tornará mais claro o absurdo de ficar definido para sempre o destino das almas, após esta vida. Dois irmãos matricularam-se numa academia, e seguem rumos opostos: um estuda e outro vadia. O primeiro é aprovado, no fim do ano; o outro é reprovado. A aprovação, porém, não investe aquele de toda a ciência da academia; assim como a reprovação não fecha a este as portas do templo. Nem um, por ter sido aprovada no primeiro estádio, fica dispensado de trabalhar, para galgar os superiores estádios, até chegar ao último, em que se distribui o honroso prêmio de doutor; nem outro, por ter sido reprovado, fica privado de repetir o ano, e de prosseguir no curso. E isto é sábio, porque o segundo pode, no seguimento do curso, estudar e merecer, e o primeiro pode vir a desmerecer. Se, pois, o julgamento das provas do primeiro estádio fosse definitivo, ter-se-ia prejulgado injustamente, dispensando-se do trabalho aquele que poderia falir mais tarde, e condenando-se, sem mais recurso, o que se habilitaria amanhã.
Assim, se nas coisas humanas não se admitem julgamentos definitivos, mediante provas incompletas, como admitir-se em Deus tais leviandades e precipitações, que redundariam em injustiça e crueldade? Além disto, se o homem é essencialmente perfectível, e se numa existência não pode chegar ao último grau de sua perfectibilidade, como admitir penas e prêmios eternos, depois dessa existência? No céu, é estulto pensar que ainda se tenha de progredir, e, no inferno, para quê? Por último, se depois de ligeira prova os Espíritos têm seu destino irrevogável, e se no fim do mundo, segundo a Igreja Romana, tem de haver completa separação dos glorificados e dos condenados, teremos
a eternização do mal, ou antes, a vitória do mal, porque Satanás ficará sendo; por toda a eternidade, o deus do inferno, o senhor dos condenados, por igual a Jeová, Deus do céu e senhor dos bemaventurados! Isto não pode calar no pensamento de quem reconhece em Deus os altos atributos de justiça, misericórdia e amor infinitos. O céu torna impossível o inferno. Deus não seria Deus, se Satanás a ele fosse igual em poder. Iluminando estes pontos negros da cosmogonia católica romana, a cosmogonia espírita demonstra racional e experimentalmente que a larva humana se desenvolve, desenvolve sua perfectibilidade até à perfeição angélica, e que o anjo bíblico não é senão o homem (Espírito) limpo de toda a impureza. Enquanto, porém, não nos identificamos com a verdade e com o bem, se alguns caminham, pressurosos, para aí, a maior parte repastase nas trevas e no mal, ao ponto de procurarem arrastar, para sua danação, a quantos lhes for possível.
É o inverso do que se dá com os bons, que se esforçam constantemente para atrair ao bem quantos lhes é possível. O Espírito humano é, portanto, segundo seu grau de atraso ou de progresso, na escala ascensional, quem representa os papéis que a cosmogonia romana, eivada da superstição dos povos antigos, atribui aos anjos e aos demônios, criados fora da Humanidade, por um decreto especial de Deus. Não vemos, aqui na Terra, os homens bons procurando chamar todos ao bem, e os homens maus procurando arrastar todos para o mal? Por que, então, recusar-se-lhes a continuação de suas práticas terrenas, lá do mundo dos Espíritos? Voltemos ao nosso principal assunto.
Partindo do princípio axiomático de que nesta vida ninguém alcança o supremo saber e a suprema virtude, que são o termo da perfectibilidade humana, chega-se forçosamente a uma de duas conclusões: ou fazemos o restante progresso no mundo espiritual, ou fazemo-lo voltando à vida corpórea. A primeira hipótese não pode ser aceita. Se os Espíritos pudessem fazer sua evolução, sem recurso a um corpo, para a vida de relação, ou, antes, se Deus assim tivesse disposto, nenhuma vida corpórea teriam tido. O fato, pois, de ter Deus ligado o Espírito ao corpo, embora por tempo limitado, para que destarte se desenvolva e progrida, diz bem claro que tal união é condição essencial do plano divino.
Sim; se, pela existência corpórea que temos, se evidencia que tal modo de existir é necessário ao progresso do Espírito, lógico é que é ele indispensável até que complete esse progresso, no que entende com a matéria, e, neste caso, a criança que morre sem ter feito, na Terra, nenhum progresso, não pode ir realizá-lo no espaço, porque seria isto a prova da desnecessidade de ter vindo a esta vida. Na Terra, pois, a matéria - o corpo é o esmeril essencial à lapidação do brilhante bruto ou Espírito atrasado. Não quer isto dizer que no mundo invisível os Espíritos não progridam, mas, sim, que há progresso que só pode ser realizado em trato com a matéria, e que só quando ele é completamente realizado é que o Espírito pode deixar de viver em relação com a matéria. Esta é esmeril, porque, arrastando naturalmente o Espírito à satisfação de desejos impuros, obriga-o à resistência, de onde a luta, e por ela o progresso.
Além de ser isto uma verdade provada pela cosmogonia espírita, e que, por tudo isso, fica banida a primeira hipótese, acresce que a segunda oferece uma perspectiva arrebatadora, fala à razão e ao coração, e patenteia o mistério da união íntima da justiça e da
misericórdia da lei de Deus, lei que só castiga por amor e só premia com justiça. As vidas corpóreas, sucessivas e solidárias, são o único meio de se harmonizarem a liberdade humana e a justiça divina. Sigamos a marcha do Espírito, criado imperfeito, para a perfeição, e reconheceremos a verdade deste conceito. Aquele que, em sua primeira existência, deu boas provas e recebeu o prêmio de animação, volta a fazer novas, de mais alto alcance, e voltará, até que conquiste o maior grau de progresso do mundo em que iniciou a vida hominal. Aquele que deu ruins provas e recebeu castigo corretivo, demorase a sofrê-lo no espaço, até que se arrependa do mal que fez e deseje repará-lo, para entrar nas vias do progresso.
Esta modificação, dependente da sua vontade, produz a atenuação de suas dores, e, logo, a esperança toma o lugar do desespero, a fé enche-o de bons desejos, e nova existência corpórea, não somente progressiva, mas também reparadora, lhe é oferecida, como meio de provar a sinceridade de seu arrependimento e de lavá-lo das passadas faltas, colocado nas mesmas condições em que as cometeu, isto é, nas condições de homem. Volta, pois, bem disposto, e, se não falir, de novo seguirá, como o que em sua primeira existência deu boas provas, a linha reta do progresso. Se, porém, falir novamente, isto é, se reincidir nos erros, sofrerá maiores penas e voltará em mais dolorosas existências corpóreas. É intuitivo que a divisão do tempo em períodos alternados de vida corpórea e de vida espiritual realiza um sistema de superior concepção. O que caiu no estado de vida corpórea vem reparar a falta, no mesmo estado. É por isto que as vidas múltiplas são uma necessidade.
Se a reparação se fizesse sem o concurso do corpo, principal autor da queda, além de ilógico e irracional, pouco ou nenhum valor moral teria. E a magnitude deste sublime plano mais sobressai em razão da lei que apaga, no Espírito, desde que reencarna, a lembrança do que foi e do compromisso que tomou quando desencarnado. Isto que esquece, para ter plena liberdade na prática reparadora, poderá ser-lhe patente, na nova existência espiritual, desde que tenha conquistado merecimentos para ligar as duas existências: delituosa e reparadora. Nem se diga que a ignorância do passado, e do que lhe é obrigação presente, tira os fundamentos da luta, que é condição de todo o progresso. As resoluções sérias e profundas gravam-se por tal modo no Espírito, que este, embora não saiba por que, pratica-as rigorosamente na vida corpórea. Só as resoluções fracas e insinceras se apagam, desde que o Espírito perde a memória de as haver tomado.
A prova desta verdade, de constante observação, está no fato de mostrarem as crianças, antes de terem consciência, boas ou más disposições morais. A luta que ponha em ação a liberdade, não falta, por faltar a memória do passado e a ciência do presente. O homem, o Espírito, em provas pela reencarnação, sente no correr da vida, e em seus variados lances, um duplo arrastamento, em opostos sentidos. Os sentimentos do passado, a que chamaremos - natureza velha arrastam-no para a trilha seguida na existência ou existências condenadas. O propósito feito de emendar-se, a que chamaremos - natureza nova arrasta-o para o caminho da regeneração, pelo repúdio dos antigos abusos.
É o que de Maistre reconheceu; mas, sem luzes para bem compreender, ensinou que há no homem a alma e a besta. A alma será o homem novo, bem disposto, a bater-se sempre com a besta, o homem velho, arrastado pelas paixões que o dominaram. Se o propósito de desfizer o mal feito não for sincero e entranhado, isto é, se o Espírito, embora o acreditasse, não arrancou completamente de si os maus instintos que o dominaram, a luta entre a natureza velha e a natureza nova, entre a alma e a besta, têm toda a probabilidade de terminar pela queda e pela reincidência. Se, porém, o Espírito renunciou sinceramente àqueles maus instintos, todas as probabilidades são em favor de seu reerguimento, da reparação, do fiel desempenho do compromisso tomado. Como quer que seja, não acaba aí nossa missão na Terra; porque, se nos lavamos das faltas que fizemos, outras cometemos, porventura mais leves, que reclamam igual lavagem. O progresso, por este molde, pode ser lento, mas é infalível.
Desde que um Espírito criado em um mundo de iniciação tem adquirido o máximo desenvolvimento que aí se pode alcançar, mediante maior ou menor série de vidas aí passadas, é chegado o momento de subir a um mundo imediatamente superior. Do que fica exposto sobre esta primeira fase da evolução espiritual, resulta já um fato bem digno de atenção: uns Espíritos seguem, sem desvios, ao alto destino humano, encurtando assim o tempo de sua viagem, ao passo que outros, ou ficam tempo esquecido sem caminhar, ou caminham por desvios que alongam indefinidamente o tempo da jornada. Não é, portanto, a maior antigüidade, mas o maior esforço dos Espíritos, o que explica, muita vez, seu maior adiantamento. O caso, porém, é que, desde que um Espírito mais velho, ou mais moço, tem adquirido o máximo saber e a máxima virtude de um mundo, sobe necessariamente a mundo mais adiantado.
Aí, será dos últimos, dos mais atrasados, intelectual e moralmente; porém, de degrau em degrau; enérgica ou frouxamente, subirá ao fastígio do saber e da moralidade desse novo mundo, como já fez no outro. Sócrates, Platão e muitos outros, que admiramos, nem foram criados com a elevação que ostentaram, nem a adquiriram na vida em que foram, com tais nomes, conhecidos. Vieram ao nosso planeta, de outros inferiores; apareceram nele, fazendo parte de classes atrasadas, e foram, com outros nomes e em outras existências, subindo àquele grau em que os conhecemos, e hoje, em que altos planetas habitarão? Assim, passando de mundo a mundo, e do de um sistema mais atrasado aos de mais adiantado sistema, vai o Espírito desenvolvendo sua perfectibilidade, vai-se aproximando do altíssimo destino humano, até chegar a Deus. Há, porém, uma importante consideração a fazer sobre o modo por que os Espíritos evolvem, desde sua criação, até a maior perfeição humana. Como vimos, eles vão sempre subindo, e, à medida que realizam um certo grau de progresso, vão habitar em mundos correspondentes a seu estado de adiantamento.
Dá-se, portanto, a mais perfeita relação entre a categoria dos mundos e a de seus habitantes, de onde percorrem os espíritos, em sua infinita ascensão, as várias categorias dos mundos, desde o mais atrasado até o mais adiantado. Ora, pelo que observamos na Terra, parece razoável concluir que os Espíritos se purificam, até se limparem de toda mácula da matéria, por meio de toda espécie de sofrimentos. Daí a bem fecunda convicção de que os mundos dos inferiores, sendo habitados por Espíritos atrasados, são a sede do mal.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.