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Capítulo 14 de 14

Feesp — parte 14 de 14

A Loucura Sob Novo Prisma · Bezerra de Menezes

mistificação, porque, em todos os casos, moraliza-se o Espírito enganador. O método que seguimos, sempre com resultado, é consultarmos, mediunimicamente, a um Espírito, que do espaço faz a caridade de receitar para os homens doentes, sobre a natureza da alienação mental, no caso que se nos apresenta, e procedermos à contraprova do que recebemos em resposta. Se nos disser que é loucura propriamente, evocamos o Espírito que possa causá-la, e nenhum se apresentará, ou apresentar-se-á um mistificador, que é fácil desmascarar. Se nos disser que é obsessão, procedemos do mesmo modo, e o obsessor virá em confirmação do que foi dito. Neste caso, a cura pelos meios morais será a melhor prova da exatidão do diagnóstico, prova que nunca nos falhou em dezenas de experimentações.

Reconhecida a dupla espécie de loucura, tendo cada uma mui diversa causa, compreende-se que não é racional aplicar-se a todos os alienados o mesmo sistema de tratamento. Deixemos aos alienistas o cuidado de tratarem a loucura propriamente dita, e ocupemo-nos com o tratamento da loucura por obsessão. Esta espécie tem por condição a perturbação funcional de um órgão que, enfraquecendo as energias morais do indivíduo, é aproveitado pelo obsessor para seu nefando fim. Na maior parte dos casos, enquanto o espírito obsessor não tem ainda dominado o Espírito ou a vontade de sua vítima, a cura do órgão doente fecha a porta à maléfica influência.

Quando, porém, esta já é dominante, inútil será o tratamento terapêutico, aliás, necessário à cura do órgão afetado, porque o mal já é independente do ponto que lhe deu acesso. Entretanto, nunca esse tratamento deve ser desprezado, primeiro, porque nunca se deve desprezar uma enfermidade, e, segundo, porque, embora se logre afastar o obsessor, outros e outros virão, se não se tiver tido a precaução de fechar-lhes a porta. Para bem compreender-se o que aí fica exposto, é preciso saber-se que, se um Espírito obsidia por ódio e por vingança, inúmeros são os que o fazem pelo nefando prazer de causar dano a seu semelhante, só pelo gosto do mal. Sendo assim, e sabido que os Espíritos malignos entram pela porta que lhes abrem as moléstias do corpo, desde que as do espírito concorram, é óbvio que, embora a cura daquelas nada influa sobre o que já entrou, embaraçará os que estão fora. E eis por que é de rigor curar-se a lesão de qualquer órgão doente dos obsidiados.

Conjuntamente com este esforço, devem-se empregar todos os meios de moralizar o Espírito do obsidiado, fazendo-o ver que seus defeitos, seus vícios, seus maus sentimentos, tudo o que não é conforme com os preceitos do Evangelho, atrai para junto de si nuvens de Espíritos, que se apraze com aqueles elementos do mal, assim como afasta de si os bons Espíritos, seus protetores, donde ficar ele à mercê dos que só não fazem mal quando não podem. Se se conseguir a regeneração do infeliz, não somente o livraremos de seu obsessor, pois a obsessão é uma pena e ninguém sofre pena depois de arrependido, como fica completamente abroquelado contra os dardos de quantos pretendam fazer-lhe mal. Como, porém, moralizar um louco? Já dissemos que o espírito não enlouquece e que a loucura consiste, não na perturbação do pensamento, mas, sim, na de sua manifestação.

Sendo assim, e visto que os Espíritos quer desencarnados, quer encarnados, acodem à evocação, sempre que é feita no intuito do bem, eis como se consegue moralizar um louco ou obsidiado. Em nossos trabalhos experimentais, temos tido inúmeras ocasiões de evocar o Espírito de pessoas obsidiadas, para moralizá-las, e sempre que as encontramos dóceis aos nossos conselhos, temos conseguido romper as trevas da inconsciência que as envolviam. Casos, porém, temos visto, de Espíritos refratários, dominados do sentimento de orgulho ou de outros maus, e nestes todo o esforço tem sido inútil. Deste gênero, referimos um caso a que assistimos no grupo espírita dirigido pelo ilustrado e virtuoso Dr. Antônio Luís Saião. (1) (1) Autor da obra Elucidações Evangélicas.

(N. E.) O obsidiado, Carlos Batista - moço de tão bom comportamento, que o fazia estimado por quantos o conheciam - quando, evocado para reconciliar-se com o obsessor, que se convertera, repeliu o inimigo, de joelhos a seus pés, e todos os conselhos e rogos do grupo, dizendo que pouco lhe importava sofrer, porque contava que um dia faria sofrer o mesmo que tanto mal lhe fizera, e agora lhe pedia perdão. O resultado do seu endurecimento foi retirar-se, regenerado, o obsessor, e continuar ele em sua alienação, por obra de outros, atraídos por suas ruins disposições morais. É, portanto, condição de cura dos obsidiados, além do tratamento das lesões orgânicas, que tenham dado entrada ao obsessor, a moralização do Espírito deles mesmos, e esta mais do que aquela. Não pára, porém, aí o tratamento.

Ao mesmo tempo em que se empregam aqueles dois meios, devese trabalhar com o mais amoroso empenho na moralização do Espírito obsessor, fazendo-o sentir a imensa responsabilidade que chama sobre si, calcando aos pés a lei do amor ao próximo, e o sublime exemplo do perdão, dado por Jesus, do alto da cruz. Em dezenas de trabalhos desta

ordem, só um Espírito encontramos que resistiu a tudo, preferindo toda a espécie de sofrimento, a largar das suas garras a presa, em quem cevava velho ódio de passadas existências. Convém, porém, observar que, embora a loucura por obsessão não dependa de lesão cerebral, pode esta lesão vir a dar-se, por causa da obsessão. Não é causa; mas pode vir a ser efeito. A ação fluídica do obsessor sobre o cérebro, se não for removida a tempo, dará necessariamente em resultado o sofrimento orgânico daquela víscera, tanto mais profundo, quanto mais tempo estiver sob a influência deletéria daqueles fluidos. Não vemos uma afecção do fígado, produzindo a perturbação no sistema circulatório, refletir sintomaticamente sobre o coração, que, pelo correr do tempo, vem a sofrer organicamente. Qualquer órgão do corpo humano, perturbado em sua função por uma causa permanente, não acaba por sofrer essencialmente? O que era sintomático passa a ser essencial.

Pois é em virtude dessa lei que o cérebro, perturbado em sua função pelos fluidos do obsessor, acaba por sofrer em sua organização. Neste caso, embora se liberte da ação obsessora, não poderá, senão por longo e sábio tratamento, recuperar o obsidiado sua lucidez intelectual. E é de simples intuição, porque, cessando a causa perturbadora da manifestação do pensamento, não pode desaparecer esta perturbação, visto como o órgão da transmissão está inábil, e sê-lo-á, por mais ou menos tempo, para o exercício da função. Aqui, dar-se-á a loucura, não mais pela obsessão, porém pela lesão do cérebro, tal qual no caso da loucura propriamente dita. Cura-se a obsessão, mas não os efeitos materiais, ou antes, reduzse uma loucura por obsessão às legítimas condições da loucura propriamente dita, somente com a diferença de imbecilidade ou

idiotismo, porque, em geral, em vez de excitação, fica da obsessão debelada uma depressão cerebral.

Em resumo. Pelos meios espíritas, que nos dão a ciência da loucura por obsessão, é que podemos fazer, com segurança, o diagnóstico diferencial desta espécie, ainda desconhecida da Medicina, que a confunde com a loucura por lesão cerebral. E, uma vez feito aquele diagnóstico, cumpre aplicar-se à obsessão um tratamento especial, como é de lógica rigorosa. Esse tratamento é misto, isto é, moral e terapêutico, principalmente moral. No princípio, enquanto os fluidos maléficos do obsessor não têm produzido lesão cerebral, deve-se procurar elevar os sentimentos do obsidiado, incutindo-lhe na alma a paciência, a resignação e o perdão para seu perseguidor, e o desejo humilde de obtê-lo, se em outra existência foi ele o ofensor. Alcançado este desiderato, pela evocação do Espírito encarnado, deve-se evocar o do obsessor, e trabalhar com ele no sentido de removê-lo da perseguição, fazendo-o conhecer a lei pela qual terá de pagar, em dores, todas as que tem feito sua vítima sofrer, sem o que jamais poderá tomar a via que conduz às regiões da felicidade.

Como vimos, só uma vez em vinte e tantos casos foi malogrado nosso esforço nesse sentido. Em todos os demais, alcançamos a cura completa dos obsidiados, e a regeneração de seus obsessores. Quando, porém, a ação fluídica do obsessor tem castigado por muito tempo o aparelho material da vítima, produzindo lesões orgânicas em uma ou mais vísceras, o tratamento deve compreender a

moralização acima prescrita, quer do obsidiado, quer do obsessor, e, conjuntamente, as aplicações terapêuticas, para a cura das lesões orgânicas. Em geral, esta parte da cura, mesmo quando o perseguidor tem abandonado sua vítima, é longa, porque se tem de reconstituir quase todo o organismo. Perseverança e fé vencerão todas as dificuldades, como acontece sempre que combatemos uma enfermidade inveterada por longo abandono. O que mais sobressai nestes casos de obsessão, cuja causa já foi removida, é a depressão cerebral, que leva o indivíduo a uma indiferença desesperadora. Perseverança e fé, e tudo cederá, e a reação, embora lenta, coroará nossos esforços. Já vai longo demais este ensaio, que empreendemos no simples intuito de chamar, para a questão que levantamos, a atenção dos competentes. Depomos, pois, a pena, pedindo aos sábios escusas para a nossa ousadia, e rogando a Deus que dê vida aos nossos pensamentos, para que possam produzir frutos do bem. Max

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.