Voltar ao livro A Loucura Sob Novo Prisma

Capítulo 6 de 14

Feesp — parte 6 de 14

A Loucura Sob Novo Prisma · Bezerra de Menezes

"Limpou-se a ardósia, e Slade colocou-a, com dois lápis, sobre a cabeça do professor Braune. "Ouvimos o ruído do lápis na lousa, e, quando esta foi retirada, verificou-se que tinha muitas linhas escritas. "Inopinadamente, um móvel que estava a distância de Slade e lhe ficava pelas costas, pôs-se em movimento e afastou-se alguns pés da parede. "Uma segunda sessão se realizou em minha casa, com a assistência de Weber e de Schreibner. "Violenta detonação deu-se, como descarga de botelhas de Leyde, e nós, voltando-nos, assustados, reconhecemos que uma porta, de meia polegada de espessura, se tinha rachado de cima a baixo, sem o menor contato de Slade. "Os estilhaços caíram a metro e meio tava de costas. "Surpreendeu-nos esta manifestação de tão possante força mecânica, e eu perguntei a Slade o que significava aquilo, ao que respondeu ele que, à sua presença, davam-se, às vezes, aqueles fenômenos.

"Como falava em pé, colocou uma ardósia, expressamente por mim comprada, sobre a mesa, e, por cima dela, os cinco dedos da mão direita, aberta, enquanto tinha firmada a esquerda no meio da mesa. "Começou a escrita, e, quando Slade levantou a ardósia, liam-se nela estas palavras, em inglês: Não tivemos intenção de fazer mal. Relevem o que aconteceu. "Foi isto escrito, tendo Slade imóveis às mãos." Para que mais provas da existência dos Espíritos e da comunicação dos vivos com os chamados mortos? O que aí fica exposto procede de fontes tão respeitáveis, que só a má-fé ou cegueira invencível podem recusar. Se os mais notáveis homens de Ciência podem ser suspeitos de loucura ou de embuste, pelo fato de afirmarem que viram, e de ser o

que viram contrário ao que se tem por verdade, de que serve multiplicar testemunhos, e de que modo há de a Ciência limpar-se dos erros que a inquinam? Em todo caso, para não faltarmos ao programa que prometemos seguir, daremos, em seguimento às observações daqueles sábios, as que temos nós mesmos feito em nossa estreitíssima esfera.

3.ª - Fatos de nossa observação

Para não darmos maior desenvolvimento a este capítulo, que já demasiado longo vai, limitaremos a exposição dos fatos da nossa observação, demonstrativos da existência da alma. Em uma de nossas sessões de experiência, o médium José Inácio da Silveira ficou sonambulizado espontaneamente, sem a intervenção visível de ninguém, como acontece com todos com quem trabalhamos. Quem fez aquela operação? Os assistentes, não; porque nenhum saiu do seu assento, nenhum fez passes, como usam os magnetizadores e hipnotizadores. O próprio médium, também não; porque de três ou quatro presentes, somente cai em sonambulismo, apesar de todos se concentrarem, o designado para o trabalho, com exceções caríssimas. Será porque, por ser um o destinado para o trabalho, fica esse predisposto, e é somente sobre ele que se encontra a influência fluídica dos assistentes? Parece razoável; mas quando o designado está predisposto e os assistentes com a atenção sobre ele, e outro é o sonambulizado? Aqui, dúvida não pode haver de que a ação não procede dos assistentes, nem da concentração do médium, pois concentrados estão todos.

Inquestionavelmente, sendo a sonambulização uma operação que requer agente e paciente, e não descobrindo nós o agente, no caso em questão, temos razão para concluir que o agente é invisível. Tergiversem quanto quiserem; o fato é este, e o fato só tem esta explicação: sonambulização por agente invisível. O médium Silveira, dizíamos, ficou sonambulizado e, nesse estado, discutiu conosco, sustentando a doutrina da igreja Romana contra a Espírita. Compreendemos que falava um padre, e no fim declarou-nos que o era, e que se chamara José Pereira do Amaral. Inquirindo a respeito, soubemos do Sr. José Augusto Ramos da Silveira, do Faial, que conheceu em sua terra um padre daquele nome, morto havia vinte anos, e conhecido por padre Caridade, por ser muito caridoso. O médium falava de Teologia, como só podia fazê-lo quem possuísse vastos conhecimentos da matéria, e, no entanto, sendo moço de vinte e poucos anos, e empregado no comércio, nada sabia de Teologia. Como explicar esse fato de discorrer amplamente um médium sobre assunto que ignora, não havendo entre os assistentes quem partilhe as idéias que sustenta?

A explicação que acode, a quem não é arrastado por fanatismo ou por espírito de sistema, não pode ser senão que o médium não falou por si, mas que estranha inteligência aproveitou sua mediunidade. Em nosso caso, é isto tanto mais racional, quanto o discurso foi sobre Teologia, e o discursador declarou ser padre. Outro fato digno de atenção: O doutor Alcoforado, deputado pela província de Pernambuco, assistia silencioso a freqüentes discussões que tínhamos sobre Espiritismo com o conselheiro Mac-Dowell, deputado pelo Pará e ministro da Justiça, fanático católico romano.

Um dia, quando voltávamos, os dois, à polêmica, interveio Alcoforado, dizendo: "Tenho-os ouvido, sempre calado, mas disposto a estudar a questão, que me cativou o interesse. "Fui ao médium João Gonçalves do Nascimento, que não me conhece, e, para experiência, pedi-lhe o diagnóstico da moléstia de meu pai, o Dr. José Bernardo Alcoforado, que se acha na cidade do Recife e sofre há cerca de dois anos. "Nascimento, para todo o seu trabalho, só me pediu o nome de batismo e a idade do doente, e, tomando o lápis, escreveu exata e minuciosamente quanto padece meu pai, discriminando o que é sintomático do que é orgânico. "Maravilhou-me o fato de um homem que não é médico, que não viu nem examinou o doente, que não podia fazê-lo, por achar-se a centenas de léguas de distância, descrever com a maior precisão todos os seus sofrimentos; lembrei-me, porém, de que alguns querem explicar este fenômeno pela transmissão do pensamento, e, conquanto mesmo isto me fosse admirável, fiquei em dúvida se não seria do meu pensamento que Nascimento recebera todos aqueles conhecimentos.

"Tal dúvida, no entanto, dissipou-se, por ter o médium concluído seu trabalho, declarando que todo o mal provem da inflamação de um ponto da medula, efeito de uma queda meu pai dera de um cavalo. "Eu não pensava em semelhante fato, nem jamais supus que tivesse ele relação com a moléstia, e, pois, não podia ter havido transmissão de pensamento. "Entretanto, acrescentou, julgo que o médium descobriu a verdadeira causa do mal; pois, pensando bem, lembrei-me de que a moléstia data exatamente do tempo daquele fato, que é real." O conselheiro explicou tudo pelo demônio; mas quem não tem a lamentável fraqueza de crer em demônios, como o explicará? A rapidez elétrica com que o médium descreve a moléstia de quem se acha a centenas de léguas, como no caso vertente;

O fato, não menos surpreendente, de referir ele o que foi passado dois anos antes, sem que alguém lhe tivesse ligado a mínima importância; A perfeição do diagnóstico, cientificamente considerado, o que revela a obra de um médico distinto e invisível, pois o médium nem conhece de Medicina, nem possui instrução alguma; Tudo isto, que se repete entre nós, todos os dias, e por bom número de médiuns, não encontra explicação satisfatória em nenhum ramo das ciências conhecidas. Qual delas descobrirá o segredo desse espantoso fenômeno, de fazer qualquer homem, desde que seja médium, o que faz mais notável médico, e mais do que o mais notável deles, pois a milhares de léguas, sem conhecer do doente mais que o nome e a idade, diz, pelo lápis, o que sofre, e prescreve-lhe o remédio, e, com esse remédio, cura-o, se curável é, o que ele previamente declara?

Muitas vezes temos recorrido a esses médiuns especiais, chamados receitistas, e admirado a ciência do seu lápis, em contradição com sua ignorância pessoal. E, procurando devassar o mistério de tão estupendo fato, temos reconhecido à evidência que o lápis é tocado pelo Espírito de um médico, que não faz caprichos de ocultar-se, dando francamente o nome que teve em vida, o que é confirmado pela mediunidade vidente. Charcot, por mais de uma vez, nos tem auxiliado com suas luzes no tratamento de moléstias nervosas, como, em outras, nos temos socorrido do saber de Jaccoud, de Demeure, de Nelaton e de mudos mais. Quando tivemos uma filha gravemente doente, fizemos, por meio de três médiuns receitistas, uma conferência com três médicos do Espaço, da qual recolhemos a maior vantagem, quer quanto ao diagnóstico, quer quanto ao tratamento.

Estes fatos se produzem toda a vez que os provoquemos; e, pois, quem duvidar do nosso testemunho, faça como o Dr. Alcoforado. Que maior evidência podem exigir os que não aceitam a existência da alma, sua sobrevivência ao que denominamos - morte - e sua comunicação com os vivos? Com estas provas, a que chamamos - materiais - por serem tão diretas e positivas, que nenhum homem de boa-fé pode recusar, julgamos ter desempenhado a tarefa que nos impusemos, de demonstrar que no homem existe, além do corpo material, um princípio imaterial que constitui sua verdadeira personalidade, subsistente mesmo após a morte. E, pois, o longo desenvolvimento que temos dado a questão, torna ocioso descermos a demonstrações de que é alma que encerra o pensamento, no sentido de percepção. Daremos, no entanto, duas ligeiras provas da verdade deste postulado. Se o cérebro fosse o órgão secretor do pensamento, como sustentam os materialistas, desde que houvesse paralisia dos nervos sensitivos, não haveria sensação, e sem sensação, é da escola, não há percepção.

Temos, porém, visto o contrário, por experiências irrecusáveis, fornecidas pelos anestésicos, pelo Hipnotismo e pelo Magnetismo; temos visto, além disto, que há perturbação mental com o cérebro são, e perfeita lucidez com o cérebro lesado. Logo, não é o cérebro que produz o pensamento. A outra consideração é esta: Não é mais lícito duvidar de que a alma sobrevive ao corpo; ela se apresenta, depois da morte, com a faculdade pensante, como ficou provado; logo, o pensamento é atributo da alma. Bem firmados como foram estes dois postulados, é fácil responder aos três quesitos:

Ao 1.°, não; o cérebro não segrega o pensamento, ou, por outra, não tem a faculdade de pensar, ou, ainda mais, a intelectualidade não pode ser função do cérebro, como a secreção da bílis é do fígado. Ao 2.°, o cérebro influi sobre a faculdade pensante, como o olho sobre a de ver e o ouvido sobre a de ouvir. É um espelho onde se refletem as impressões externas e no qual a alma toma delas conhecimento; mas, tanto não é essencial, que temos pensamento, e impressões por causas exteriores, e temo-los até por imaginação, e mesmo depois da morte. É instrumento e não agente, e como instrumento influi na operação, donde o engano dos que o tomam por agente. Ao 3.°, está prejudicado; pois, sabido o princípio de que o pensamento é função, é a alma que a exerce livremente fora do corpo, e ela não pode dispensar o concurso deste, enquanto lhe está ligada. Estas considerações são deduzidas dos fenômenos espíritas, que evidenciam a sobrevivência da alma.

Por elas ficam os materialistas sem base para o seu edifício, mesmo admitida a hipótese católica: de serem obras de Satanás. Obras dos Espíritos ou dos demônios são sempre aríetes, que arrasam as teorias dos que vêem nas modulações da matéria a variedade infinita dos seres que constituem o turbilhão universal, e até a ordem e a harmonia que existem na movimentação desses seres. O Espiritismo, pois, se outra virtude não tivesse, tem a de reduzir a pó as falsas doutrinas dos materialistas e positivistas. Serem tais obras produzidas por Espíritos das trevas, ou por Espíritos humanos, questão é que só entende com os espiritualistas, embora neste terreno reclame solução, porque é essencial ao nosso fim saber qual a natureza dessas forças invisíveis que atuam sobre nós. Será isto assunto do capítulo seguinte.

Capítulo II

Do espírito em suas relações

Neste capítulo trataremos das três questões que, com a da existência da alma, já largamente desenvolvida na primeira parte, constituem os elementos essenciais para a solução da magna questão que é o objeto deste livro: a loucura sob novo prisma. Provado, como foi, ser o homem corpo e alma, e continuar a ser a mesma individualidade quando deixa o corpo, provado fica ser ele essencialmente Espírito, acidentalmente revestido de um corpo material. Foi o que nos deu o capítulo I deste trabalho. Agora que está liquidada a questão com os impugnadores da existência do Espírito, nova e mais temerosa luta se levanta com a Igreja Romana sobre as relações do Espírito. O ponto capital deste novo estudo, aqui, e que mais interessa ao fim do presente livro, é determinar, com a maior precisão, o modo por que se serve a alma do cérebro, para fazer a luz intelectual. Flammarion firmou o princípio de que não é somente a Terra que serve de habitação à espécie humana, mas, sim, todos os astros espalhados pelo espaço sem fim, e eles mesmos inúmeros, aos bilhões.

A espécie humana não é, pois, exclusivamente terrestre, nem é na Terra que começou e acabará sua marcha, pelas vias do progresso, até à perfeição, que é seu destino. Pezzani, que pode ser chamado o pedant do sábio francês, demonstrou, à saciedade, a pluralidade de existências corpóreas da alma, verdade consagrada no Evangelho, e que pode ser, a toda hora, experimentalmente provada pelo Espiritismo.

E, pois, surgem das brumas do ignoto dois altos princípios ou leis, que se combinam e se completam, para firmarem em nova base a Ciência cosmogônica. Deus não criou somente o nosso mundo e descansou, como se entende pela Cosmogonia bíblica. A prótese divina nem teve princípio nem terá fim, porque o movimento e a ação caracterizam a vida, e o Criador cessaria de o ser, se, por um momento, fosse inerte, inativo, em repouso. Deus, pois, criou desde o princípio dos tempos, e criará, incessantemente, por toda a eternidade. Cria mundos e cria Espíritos. A criação constante dos primeiros já é princípio corrente na Ciência, que chegou a determinar como do fluido cósmico sai a nebulosa, e desta se destacam os núcleos de novos gigantes do espaço. A criação constante dos segundos é dedução forçada da pluralidade de mundos habitados, pois de outro modo não haveria onde se proverem de habitantes os milhares de milhões existentes e os que lhes aumentam o número, por sua constante criação.

Além de que, temos a prova material desta verdade, no eterno e incessante nascimento de seres humanos na Terra. Parece que, além do materialista, não há quem atribua aos pais a criação do Espírito dos filhos, como lhes é irrecusável a do corpo. E, pois, se as crianças que nascem, não devem aos pais senão o corpo, e só a Deus devem seu Espírito, é evidente que todos os dias são criados esses Espíritos que nascem. Se o são naquele ato ou se antes, questão é que não importa discutir aqui. O essencial é saber que são constantemente criados. Tomemos, pois, os dois novos princípios: pluralidade de mundos e pluralidade de existências da alma, e vejamos o que de sua combinação resulta.

Deus cria mundos, ou, antes, estabeleceu a lei da criação de mundos, em identidade de condições, pois não há razão para diferenças, nem as leis do mundo material, como quaisquer outras, são variáveis; e, pelo contrário, mostra-nos a observação que tudo no Universo obedece a normas fixas. Os núcleos destacam-se da nebulosa, sempre segundo as mesmas leis; tomam posição em meio dos astros, sempre segundo as mesmas leis; adquirem determinado movimento, ainda e sempre segundo as mesmas leis; desenvolvem-se, enfim, passando pelas mesmas fases e segundo as mesmas leis. A gênese e a evolução planetária são, pois, reguladas em todos os indivíduos siderais, por uma constante modalidade. Deus cria Espíritos em identidade de condições, pois não há razão para exceções, preferências e exclusões, que não se conformam com os infinitamente perfeitos atributos do Criador, e, além disto, temos a prova experimental de tão racional presunção nas revelações que nos fazem os habitantes do mundo invisível, hoje em franca comunicação conosco, embora muitos disso duvidem.

Somos todos criados em estado de inocência, isto é, sem consciência do bem e do mal, faculdade que se vai desenvolvendo, à medida que vamos usando do nosso livre arbítrio. Somos todos criados em estado de ignorância, mas dotados de inteligência, pela qual devemos conquistar o conhecimento universal, como pelo desenvolvimento do senso moral devemos conquistar a virtude universal. Os Espíritos criados, assim, em identidade de condições intelectuais e morais, trazem consigo, latentes, todas as faculdades de que necessitarão para realizar sua transformação da ignorância nativa à mais alta sabedoria, e da inocência inconsciente à mais sublimada virtude.

Com estas armas, de que todos são dotados para subirem ao destino a todos marcado, Deus deu sempre sem exceção, a liberdade ou o poder de cada um empregá-los, como quiser, para alcançar aquele destino. O que se empenhar, totis viribus, no aperfeiçoamento intelectual e moral de seu ser, fará carreira mais rápida e, conseguintemente, menos dolorosa. Aquele, porém, que desprezar os recursos que lhe foram dados, e entregar-se aos gozos materiais, verdadeira Cápua dos Espíritos, ou que dormir, preguiçoso, nos pousos da longa viagem, fará carreira mais lenta, e, conseguintemente, mais tormentosa. E, pois, dando aos Espíritos as mesmas condições originais, as mesmas armas para seguirem o seu destino, e idêntico, tanto como excelso destino, o Criador completou sua obra dotando-os da mais plena liberdade no emprego daquelas armas. É do bom ou mau uso que fazem desse sublime dom, que resultam as variedades de todo o gênero, que se observam no seio da Humanidade, e o que faz que os ignorantes atribuam a Deus tais variedades. Não; o homem é senhor de seu destino, pela liberdade, mas, por isso mesmo que é livre, é responsável.

Nasce daí uma nova ordem de cogitações. O homem (espírito) que faz bom uso de sua liberdade, no desenvolvimento de sua perfectibilidade, adquire méritos; o que procede de modo aposto, sobrecarrega-se de deméritos. Méritos e deméritos provocam, por lei fatal, recompensas e castigos, e, no mundo moral, as leis de Deus têm a mesma inexorabilidade que as do mundo físico. "Cada um segundo suas obras" é a grande lei da evolução espiritual, da qual resulta que assim como somos livres de praticar o

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.