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Capítulo 1 de 14

Feesp — parte 1 de 14

A Loucura Sob Novo Prisma · Bezerra de Menezes

Federação Espírita do Estado São Paulo

Camille Pissarro Paisagem de Chaponval

Conteúdo resumido

Tem sua primeira edição em 1920, pela tipografia Bohemias. Estudo de caráter psíquico-filosófico aprofunda a pesquisa espírita, comprovando o pensamento como função específica do espírito, sendo a loucura resultado, em alguns casos, da ação fluídica de espíritos desencarnados sobre o espírito encarnado.

Sumário Apresentação / 03 Introdução / 04 Ao Leitor / 07 Cap. I - Existe no homem um princípio espiritual? / 10 Cap. II - Do espírito em suas relações / 65 Cap. III - Obsessão / 120

Apresentação

As "Edições FEESP" têm a indizível satisfação de apresentar mais uma edição da obra "A Loucura sob novo Prisma", de autoria do Dr. Adolfo Bezerra de Menezes, um dos maiores vultos do Espiritismo brasileiro. Escrita no último quartel do século passado, esta obra é de inquestionável atualidade, enfocando, em seu texto, interessantes explicações sobre a loucura, detendo-se prolongadamente na análise da loucura sem lesão cerebral, quando ela ocorre devido à interferência de Espíritos menos esclarecidos, mais conhecida por obsessão ou possessão espiritual. Por isso ele afirma a certa altura do livro: pelos meios espíritas, que nos dão a ciência da loucura por obsessão, é que podemos fazer, com segurança, o diagnóstico diferencial desta espécie, ainda desconhecida da Medicina, que a confunde com a loucura por lesão cerebral. E, uma vez feito aquele diagnóstico, cumpre aplicar-se à obsessão um tratamento especial, como é de lógica rigorosa. Esse tratamento é misto, isto é, moral e terapêutico, principalmente moral.

No princípio, enquanto os fluidos maléficos do obsessor não têm produzido lesão cerebral, deve-se procurar elevar os sentimentos do obsediado, incutindo-lhe na alma a paciência, a resignação e o perdão para seu perseguidor, e o desejo humilde de obtê-lo, se em outra existência foi ele o ofensor. Temos a certeza plena de que "A Loucura sob novo Prisma" representará mais um contributo das "Edições FEESP", para que as bibliotecas espíritas e de pessoas leigas interessadas na matéria não fiquem desprovidas de subsídios tão valiosos, escrito por um médico que, no século passado, destacou-se pelos seus elevados dotes morais e pelo seu acendrado amor ao próximo. Bezerra de Menezes escreveu

com amplo conhecimento de causa, pois, como espírita que era, compreendia a ação que os Espíritos desencarnados exercem sobre os encarnados, chegando ao ponto de fazer com que as obsessões espirituais se apresentem com todos os caracteres de verdadeira loucura. A Editora

Introdução

Levados pelo princípio, que julgam ser uma lei natural, de que toda perturbação do estado fisiológico do ser humano procede invariavelmente de uma lesão orgânica, os homens da ciência têm até hoje, como verdade incontroversa, que a alienação mental, conhecida pelo nome de - loucura -, é efeito de um estado patológico do cérebro, órgão do pensamento, para uns; glândula secretora do pensamento, para outros. Nem os primeiros, nem os segundos explicam sua maneira de compreender a ação do cérebro, quer em relação à função, em geral, quer em relação à sua perturbação, no caso da loucura. Neste ligeiro trabalho, proponho-me, além de mais, a preencher essa lacuna, demonstrando, com fatos de rigorosa observação: 1.°, que o pensamento é pura função da alma ou Espírito, e, portanto, que suas perturbações, em tese, não dependem de lesão do cérebro, embora possam elas concorrer para o caso, pela razão de ser o cérebro instrumento das manifestações, dos produtos da faculdade pensante. Efetivamente, mesmo quando a alma esteja no pleno exercício daquela faculdade, uma vez que o cérebro padeça de lesão orgânica que o torne instrumento incapaz da boa transmissão, dar-se-á o caso da loucura, como dar-se-á o da cegueira, quando o olho, instrumento da visão, sofrer lesão, que tolha a passagem do raio luminoso.

Este caso de lesão cerebral explica a loucura, a que chamarei - científica - porque é a conhecida pela Ciência, mas eu demonstrarei, 2.°, que a loucura, perfeitamente caracterizada, pode-se dar - e dá-se, mesmo, em larga escala, sem a mínima lesão cerebral, o que prova que o cérebro não é órgão do pensamento, e, menos que tudo, seu gerador ou secretor; e prova mais que, assim como o mau estado do instrumento de transmissão determina o que chamamos - alienação mental -, embora em perfeito estado se ache a fonte do pensamento, assim, por igual, o mau estado desta determina a alienação, embora esteja são o instrumento da transmissão. Toda a questão se resume em provar-se, fundamentalmente, que há loucos cujo cérebro não apresenta lesão orgânica de qualidade alguma. Feito isto, fica perfeitamente claro que a loucura não é um caso patológico invariável em sua natureza, mas um fenômeno mórbido de duplo caráter: material e imaterial.

Quando é conseqüente da afecção do cérebro, que lhe perturba a transmissão, fazendo-a desordenadamente, tem o caráter material ou orgânico. Quando resulta de algo que afeta a faculdade pensante, origem natural do pensamento, que, por isso, emana viciado da fonte, tem o caráter imaterial e fluídico, que demonstrarei; 3.°, podendo ser, também, resultante da ação fluídica de Espíritos inimigos sobre a alma ou Espírito encarnado no corpo. Em oposição à denominação de loucura científica, com que designei a que representa o primeiro caráter, designaria esta segunda espécie pela denominação de - loucura por obsessão, isto é, por ação fluídica de influências estranhas, inteligentes. Da primeira espécie, não me ocuparei senão acidentalmente, pois que nada poderei acrescentar aos trabalhos importantíssimos que a seu respeito têm produzido os maiores vultos da medicina oficial, em todos os tempos e países.

Meu estudo limitar-se-á à segunda espécie, ainda não reconhecida, nem estudada no mundo científico. Sobre este importante assunto, cuja simples enunciação já deve ter feito muita gente atirar longe o pobre livro, eu farei meditado estudo, no empenho de tornar patente a causa do mal - a sintomatologia necessária ao diagnóstico, quer do mal (obsessão), quer da diferenciação entre as duas espécies de loucura - e, finalmente, os meios curativos da nova espécie ou obsessão. Dividirei, pois, este livro em três partes. Na l.º tratarei do pensamento em seu princípio causal e em suas manifestações. Na 2.º tratarei das relações do nosso Espírito com os Espíritos livres do espaço; donde a loucura por obsessão. Na 3.º direi sobre esta loucura, como caso patológico, determinando-lhe a causa - apreciando-lhe os sintomas; colhendo os elementos para seu diagnóstico diferencial; e prescrevendo os meios com que se deve tentar a cura do terrível mal. Empreendendo tão grandioso trabalho, não me iludo com a presunção de que lhe posso dar feliz sucesso.

Ninguém conhece meu obscuro nome - e obras de tanta monta requerem nomes aureolados, e não de modesto médico, qual sou. Tenho, entretanto, a presunção de poder assegurar, a quem o ler, que, de par com a fraqueza intelectual na exibição e na apreciação dos fatos que servem de base ao meu pequeno edifício, encontrará a indobrez de caráter do homem que se preza - e que se aviltaria a seus próprios olhos, se tentasse iludir com falsidades a quem o ler de boa fé. Os fatos citados, neste livro, são aí expostos com suas cores naturais, escrupulosamente conservadas - e só não se imporão à crença dos que deles tomarem conhecimento, porque o observador foi um ninguém.

Max

Ao Leitor

Até hoje, a Ciência só conhece a loucura que resulta, de um modo permanente, da perturbação do pensamento, com sua sede no cérebro. Podem variar causas e formas, mas o estado patológico do indivíduo é sempre o mesmo: a loucura caracterizada pela perturbação mental e pela sede no cérebro. Sem que o cérebro sofra, não pode haver, para a Ciência, o fenômeno psíquico-patológico da loucura. Esta é a doutrina corrente - esta é a lei invariável para a Ciência. Entretanto, o célebre alienista Esquirol atesta a existência de casos, por ele observados, de loucura sem a mínima lesão cerebral - e essa afirmação do ilustre sábio é robustecida pela observação de outros não menos considerados no mundo científico. Está, pois, verificado que há loucura com e sem lesão cerebral; e, portanto, que há dois casos bem distintos de loucura - ou que há loucura de duas espécies.

É intuitivo que, dependendo o pensamento do cérebro, como órgão produtor, segundo uns; como órgão transmissor, segundo outros; mas órgão essencial, segundo todos, é evidente que um caso de loucura, com lesão daquele órgão, não pode ser o mesmo que o de loucura sem lesão dele. Se a variedade das causas pode conformar-se com unidade da espécie mórbida, o mesmo não se dá com variedade de condições da sede ou do órgão essencial. Assim, havendo casos de naturezas diferentes, e de rigor que constituam espécies distintas.

Estas espécies se determinam pela presença ou ausência da lesão cerebral. A alienação que resulta da alteração do órgão do pensamento, não é a mesma coisa que aquela em que o órgão em questão se acha em seu perfeito estado fisiológico. Mas, como é isto, se o cérebro é órgão do pensamento? Coincidindo a loucura ou alienação mental com qualquer estado patológico do cérebro, o fato é da mais simples compreensão. O olho doente produz necessariamente a perturbação da visão. A loucura, porém, ou alienação mental, coincidindo com o mais perfeito estado fisiológico do cérebro, isto, sim, não é fácil de entrar na compreensão humana. O olho perfeitamente são não se compadece com a perturbação da visão. Sendo assim - e em face da lei: órgão são, função perfeita; órgão doente, função perturbada - é óbvio que a Ciência explica a loucura com lesão do cérebro, mas não a loucura sem tal lesão.

A questão não pode, por muito tempo, ficar insolúvel, principalmente afetando, como afeta, a parte mais sensível da natureza humana. A loucura apaga a luz da razão e reduz o homem à triste condição animal. Importa, pois, empenhar todas as forças intelectuais da Humanidade na solução do problema de máxima importância para ela. Eu vou - mais confiante na luz que baixa do Alto sobre todo aquele que procura a verdade e o bem de boa vontade, do que nas pequeninas forças da minha obscura mentalidade - eu vou tentar o máximo esforço no intuito de resolver o problema da loucura em sua nova face, isto é, da loucura sem lesão cerebral. Compreende-se quanto importa a prática diferençar uma espécie da outra, para não confundi-las no mesmo tratamento, sendo elas de naturezas diferentes.

Meu plano é determinar a natureza especial da loucura sem lesão cerebral, estabelecer as bases de um diagnóstico diferencial de uma para outra espécie, e oferecer os meios curativos deste gênero desconhecido de loucura. Para a determinação da natureza da nova espécie de loucura, é indispensável resolver as seguintes questões preliminares: l.º: Existe a alma? Qual a sua natureza? 2.º: Como se relaciona a alma com o corpo? 3.º: Qual a origem do pensamento? 4.º: Quais as relações do pensamento com o cérebro? Dividirei este trabalho em duas partes: uma filosófica, que compreenderá a solução destas quatro questões - donde a explicação da loucura sem lesão do cérebro; outra, científica, que compreende o diagnóstico e o tratamento, precedidos de um estudo da natureza do gênero especial de loucura, com que ora me ocupo. "Cave ne cadas."

Capítulo I

Existe no homem um princípio espiritual?

Ninguém pode recusar o estudo desta questão, do mais palpitante interesse para o ser humano. Nossos pensamentos, nossos sentimentos, nossas ações tomarão bem diferente orientação conforme for ela resolvida pela afirmativa ou pela negativa; pela existência da alma ou pelo exclusivismo da matéria, na constituição do nosso ser. Saber, com efeito, se acabamos com a morte ou se sobrevivemos à decomposição do corpo, não é coisa de simples curiosidade, visto como, num caso, não temos que prestar contas de nossas obras na vida, e, noutro, pesa-nos a responsabilidade de cada uma delas. Se o homem é meteoro, que brilha por um momento e some-se, para sempre, no turbilhão universal, por que contrariar seus gostos, suas inclinações, suas paixões, por mais selvagens que sejam, uma vez que ali está o nada, em que vai desaparecer? Se, porém, é imortal, é livre e, conseguintemente, responsável, quanto não lucrará em conhecer-se a si mesmo, para prevenir-se contra futuras tempestades? Também, por isso, esta questão deve ser resolvida com precisão e clareza, porque é a pedra fundamental do edifício da vida terrestre e de todas as vidas.

Dividiremos, pois, este capítulo em dois parágrafos: um, para o estudo especulativo; outro, para o estudo experimental da magna questão; um para a demonstração racional, corroborada pela autoridade dos maiores vultos da Humanidade; outro, para a experiência, que fala aos sentidos, e que é, em nosso tempo, o grande método científico.

Demonstração racional e de autoridade da existência da alma

Incontestavelmente o homem não é puro animal. Há, entre a nossa espécie e as espécies animais, tão perfeita diferença, como entre os animais e os vegetais. Jean Louis Armande de Quatrefages de Bréau, uma das mais respeitáveis competências do nosso século, tão convencido foi dessa distinção, que dividiu toda a criação do nosso planeta em quatro reinos: mineral, vegetal, animal e hominal. Sendo tão superior, ao ponto de dominar todos os seres criados, só por obcecação se pode admitir que o homem se confunda com os seres que lhe são inferiores: surgir à vida e se extinguir com ela. Os grandes vultos, que arrancam à Natureza seus mais recônditos segredos, que com as lâmpadas de sua inteligência iluminam o mundo, que deixam na Terra memória eterna de sua gloriosa passagem, acabarão como vil inseto, reduzir-se-ão a nada? Toda a nossa natureza se revolta contra semelhante pensamento, e a razão e a consciência repelem-no, escandalizadas. E por que tal instintiva e espontânea revolta no nosso ser, se efetivamente temos que acabar como o cavalo de nossa montaria?

É porque o homem traz consigo o gérmen da verdade, o conhecimento inato de seu destino - destino superior, que imprime alto cunho à natureza hominal, que repele tudo o que tende a apagar aquela impressão. E o que seria esse sentimento íntimo sem objetivo, quando a todas as nossas disposições naturais correspondem necessariamente objetos correlativos, fora de nós, como sejam: os sons para a nossa disposição natural de ouvir, o aroma para a de cheirar, a luz para a de ver, etc.? Que tal sentimento é natural, não se pode pôr em dúvida, pois é universal - e ninguém acreditará que seja concepção humana aquilo

que está no coração, e que fala à razão e à consciência de todos os homens. E todo o que se compara a qualquer das espécies animais, reconhece a verdade daquele sentimento inato-espontâneo. O mais adiantado dos seres animais, se possui o que quer que seja de inteligente, que parece elevar-se ao raciocínio, não o pode cultivar como o homem. Pode, trabalhando com perseverante paciência, aprender alguma coisa, que não é natural à sua espécie, mas isso que aprende, e que guarda à força de hábito, não é capaz de transmitir aos de sua raça - a animal algum. Vemo-los praticar obras tão admiráveis como não as faz o homem; mas não é obra de sua inteligência, é função natural, tanto que todos os da sua espécie as fazem, e nenhum pode fazê-las melhor que outro - e todos as fazem hoje tão bem como as fizeram desde o princípio -, fálas-ão até ao fim dos tempos.

É coisa análoga às nossas funções orgânicas, que são as mesmas em todos os homens, e cujo curso natural nenhum tem o poder de alterar. Não se diga, pois, que o bruto possui faculdades equivalentes às dos homens, pois as suas são, individualmente, imperfectível, ao passo que as nossas são, individualmente, e essencialmente, perfectíveis. O homem é, por sua natureza, por condição essencial de seu ser, eminentemente perfectível, e, pois, como ter por destino desaparecer no nada? Haverá quem ponha em dúvida aquele característico da nossa espécie, diante do incessante progresso realizado por ela, desde os tempos primitivos? E, pois, se a natureza humana é perfectível, o que quer dizer: submissa à lei do progresso para a perfeição, como realizar sua missão, se a morte nos reduzir ao nada?

Quererão que a perfeição, último e mais alto grau da perfectibilidade, seja um simples adorno para a vida - e que seja conseguida nos curtos momentos da vida? Ridícula extravagância! Demais, a lei do progresso é, como todas as leis naturais, de caráter universal - e o que observamos é acabarem os homens em infinita variedade de graus de progresso, desde o boçal até o sábio, desde o bandido até o justo. Ou a lei não é igual, ou com a morte não acaba o ser humano, que vai além, e por modo ainda não geralmente conhecido, realizar seu destino, o destino do ser perfectível até a perfeição. Isto, sim; não somente coloca a perfeição humana em altura digna da obra-prima de Deus, como explica a morte de homens em condições rudimentares de progresso. O simples bom-senso repele a coexistência da lei do progresso humano e da redução do ser humano ao nada, no fim da vida terrestre. Só um louco pode erguer um monumento sem igual, como é o homem, para ter o gosto de arrasá-lo, mal o tenha concluído!

E tanto o destino humano se acha fora desta vida corporal, que nossa natureza aspira a algo que não nos pode ser dado nela. Foi esta eterna e universal intuição da alma humana que levou um dos mais profundos pensadores, Malebranche, a traduzi-la nesta sublime frase: Sors tua mortalis, non est mortale quod optas. Como explicar-se o fato de o ser mortal aspirar ao imortal? Só admitindo-se que a natureza, a nossa natureza nos mente, o que é mais inaceitável do que a falsa apreciação de certos homens. Repetimos: se esta aparição que brota, espontânea, de nosso ser, não é realizável, é uma mentira de nossa natureza. Este sentimento inato em todos os homens, a que podemos chamar "a intuição natural" do futuro excelso que nos foi posto e nos chama a todos, Platão explicou-o pela preexistência.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.