Voltar ao livro O Pentecoste

Capítulo 9 de 13

À Guisa De Introdução — parte 8 de 12

O Pentecoste · Osvaldo Polidoro

Espiritismo, seita que vem enchendo o mundo de livros e mais livros, numa avalanche sem fim de corrupções. Ora, nós, os convidados, e ele, o companheiro anfitrião, estávamos observando a sinceridade sectária do pregador, cujo moto era fazer divisionismo tendencioso, obra de exclusivismo, mesmo a despeito de falar repetidamente sobre a Verdade. Os presentes encarnados estavam encantados e entusiasmados, vivendo no plano do paroxismo emotivo, do frenesi sectário. Pareciam hipnotizados pela verve opulenta e gesticulante do pregador, que suava, bramia, rodeado de alguns vultos furibundos, verdadeiros representantes da fauna traumato-religiosa que infestam as regiões inferiores. Um dos convivas, encarando o bom companheiro, interrogou-o: — Jesus estaria com isso? Acanhado, quase sem coragem para dizer palavra, ele murmurou: — Erros e mais erros!... A Terra continua mergulhada no fanatismo e na inconsciência do programa de Jesus. Como poderíamos adverti-los? Um outro, bastante versado em matéria de controvérsias, avançou: — Vá dizer-lhes algumas verdades ilustrativas. Sairão com a palavra de Deus em suas costas, pechando-o de Satã e outras belezas mais. São os verdadeiros de conversa, que nada entendem do verdadeirismo das obras inteligentes; são os continuadores da obra de Anás e Caifás; são os crentes em si mesmos, uma vez que fomentam conceitos completamente errados e os atribuem ao Cristo. Um outro, bastante entristecido, disse em tom lastimoso: — Se ao menos lessem com boa vontade o capítulo dezesseis do Evangelho segundo João! Neste momento, relatando fases de minha entrada no plano errático, lembro-me do quanto me vi, por vezes embaraçado, apesar de ter sido regularmente instruído nas verdades do Céu. E recordando a capacidade humana, em matéria de convencimentos que não convencem, apelo a todos em benefício da melhor conduta intelecto-moral, em se tratando de opinar sobre os ensinos do Cristo, que começaram nos albores da Humanidade, estão em franco desenvolvimento e se prolongarão pelos milênios em fora, sempre avançando, de qualquer modo através da fenomenologia mediúnica. Falar nos ensinos do Cristo é muito fácil, principalmente para quem nada entende do assunto. Porque, em sã razão, embora repousem nos pólos Lei e Revelação, de cuja amplidão nenhum ser humano do presente pode fazer juízo seguro, há que contar com o infinito dos matizes. O conjunto desdobra-se em maravilhas de ordem minuciosa, verdades infindas que servem aos espíritos, em cada grau evolutivo, em cada nuance de grau. Para avaliar tamanha amplidão em valores ético-científicos, é mister vá o espírito enfrentando os milênios e as eras, jamais pensando em fazer obra de fanático ou serviço exclusivista.

Relembrando aquele atlas que expunha a Terra total, ou sólida e astral, a começar do seu eixo e avançando até os cimos interestelares, fico ainda absorvido pela idéia que tive, no momento, e que foi a de se arranjar uma cópia fiel para os encarnados. Eu sei que faria um grande bem, pelo menos aos de fato capacitados em matéria de assimilação. Os convencidos de si mesmos, esses que fiquem como gostam de ficar — rodeados de furibundos astrais! Afinal de contas, que mal há em que as almas obtusas permaneçam enrodilhadas no mediocrismo, como presas propositais daqueles desencarnados que vivem à cata de vibrações paralelas? O que achamos ridículo, em muitos pontos, é que negando o contato dos já passados, por julgá-los no Céu, no inferno ou onde quer que seja, e sendo avessos à Revelação, tais crentes não são mais do que beleguins de tais elementos, e dos de pior quilate. Suas casas vivem repletas de fanáticos invisíveis, agindo e coagindo na ordem que lhes é ordinária. Enfim, trombetear a fanfarra da crença teórica ainda é o forte da grande maioria, não sendo de estranhar que muita esquizofrenia mal disfarçada reina pujante, onde só deveria pontificar o máximo gosto pelo verdadeirismo livre, básico, estabelecido sobre a rocha fundamental, argamassada com os valores da Lei e da Revelação, elementos integrais dos quais nem o Cristo se dispensou. Antes, pelo contrário, tornou-os a pedra angular da Doutrina. Porque, se é certo que toda a Escritura Antiga reflete a influência da Lei, não deixa de ser exato que ela foi ministrada pela canaleta mediúnica, apresentando-se o conjunto, de tal modo infuso, de tal maneira unido, que ninguém saberia como separá-los, se disso houvesse mister. Lei e Revelação é que devem ser cultivadas, por aqueles que se queiram ter na conta de cristãos. A Lei, porque é o instrumento de ordem, imanente de Deus, a força que tange ao equilíbrio; e a Revelação, por ser o testemunho do Cristo, Dele que, por função messiânica, devia torná-la ampla, herdade geral, facultativa a toda a carne. Daquele dia em que manuseamos o atlas, ficamos conscientes de uma verdade simples — sem o concurso da Revelação não é possível o melhor conhecimento da Verdade! E como ponto máximo de observação, cumpre lembrar a sabedoria do atlas. Qual a sabedoria do atlas? É que ele, mostrando a Terra total, a parte sólida e a parte astral, demonstra as camadas hierárquicas, revela os planos, fazendo compreender que há espíritos e espíritos, elementos de todos os graus e matizes de graus, havendo os que podem ensinar e guiar, e não deixando de haver os que, quando muito, o que podem é desviar, perverter, corromper. E quem não sabe que, apesar dos pesares, se há erro da parte dos inimigos do Batismo de Espírito, ou da Doutrina do Cristo, também se avolumam os erros daqueles que praticam a Revelação, mas que o fazem sem a menor consciência da tremenda responsabilidade a que se votam? Nos exemplos de Jesus Cristo há medida para todos. Primeiro enfrentou o preparo e o amadurecimento, entre as montanhas e as noites silenciosas, os usos e os

costumes, tudo aquilo com que, de longos séculos, contavam os Nazireus, a primícia dos Essênios ou da Escola Profética Hebréia, às margens do Mar Morto. Depois, como de fato deve proceder um Instrutor de homens, saiu a movimentar os recursos mediúnicos ou revelacionistas, fazendo-os rodar sobre o mancal irremovível da Soberana Lei! E a Doutrina Cristã é, queiram ou não, a infusão desses dois fatores básicos — a Lei que enobrece e a Revelação que instrui. Quem é contra não pode ser a favor, afirmâmo-lo com toda a veemência.

Em dado momento, senti adormecimento invadir-me aquele corpo que tinha e a alma que sabia ser. Era um torpor deleitoso, como se ondas amorosas me envolvessem primeiro e começassem a me invadir em seguida, entregando-me a embalador estado de sublimação. Aos poucos, não mais podia mover-me, só a mente estava de pé, e toda a minha personalidade era um deslumbramento! — Camilo! Camilo! — ouvi chamar, ao longe. Fiz um grande esforço e consegui voltar a mim. — Camilo! — chamou-me alguém. Olhei. Era aquele missionário encarnado, o grande vulto do interior paulista, fundador de jornal, escritor de livros, benfeitor dos pobres, etc. Estava sorridente, feliz, rodeado de muitos outros amigos do plano carnal. Vendo-me em pleno círculo de amizades terrícolas, cheguei a me julgar encarnado, apenas adoecido, guardando o leito à espera de restabelecimento. Refazendo-me, entretanto, da emoção de que me vira presa, não resisti aos ímpetos da gratidão e derramei fartas lágrimas. Alécio valeu-se do silêncio havido e avisou-me: — Trouxe-os para servi-lo. Seja grato a Deus e aos dedicados amigos, mas não queira ficar no leito mais uns dias. Há muito trabalho por aí... — Que hei de fazer? — redargüi. Sem responder, dispôs a caravana terrícola ao redor do leito, fazendo os seus elementos darem-se as mãos. A seguir, mandou-me entrar no círculo, tendo-se colocado atrás de mim, a fim de me impor as mãos sobre a cabeça. Quando tudo pronto, ordenou: — Agora, pensando em Jesus, queiramos servir a este nosso companheiro de serviços. Vamos forçar a circulação de nossos valores eletromagnéticos, vamos transmitir saúde ao nosso querido Camilo. Que Jesus, o Modelo dos servos de Deus, nos faça dignos da obra almejada. Houve um silêncio profundo. Depois, lentamente, como que vinda de longínquas paragens, música divinal fomos ouvindo, cujos acordes pareciam graças de Deus a se derramarem sobre nós. Não me é possível relatar o estado em que ficamos. Nunca poderia, a palavra humana, revelar verdades tão santas, fenômenos tão divinos. Acima de tudo, nunca poderia fazer viver o acontecimento. Tudo ficaria nas palavras, quando muito capazes de fazer cogitar, idealizar. Nada mais. Terminada a prece, ordenou-me Alécio: — Levante-se. Vamos fazer uma visita.

Enquanto me dispunha a levantar, apareceu um serventuário da casa e guiou-me ao banho, um banho eletrizado, fornecendo-me a seguir roupas apropriadas, isto é, limpas e cômodas. Não sabia como, mas estava com as roupas do leito de enfermo. A realidade é que tudo possui, quando se trata de matéria, variedade imensa de corpos, ou subcorpos, ou corpos em graus refinados, que se destacam, que se separam distintamente e prevalecem no mundo astral. Assim sendo, tudo tem aqui prolongamento normal, do mais grosseiro ao mais refinado ou tênue. Eu saí, portanto, vestido como estava no hospital. Banhei-me, troquei de roupa e lá nos fomos. Era noite, uma noite linda, brilhantemente estrelada; era uma noite cantante, suave, encantadora. — Nesta região — avisou-me Alécio — que não é superior, mas que é de paz e trabalhos múltiplos, moram alguns de seus parentes. Está determinado que irá residir com os seus pais, enquanto sua esposa permanecer no mundo. Como deve perceber, pelo que algumas vezes conversamos, neste lado da vida temos de tudo, em graus os mais variáveis, para servir a todo e qualquer espírito, do melhor ao pior, assim como seja merecedor. Aqui, portanto, você estará muito bem instalado, quer seja pelo merecimento que tem, quer seja pelos serviços que irá prestar, assim os possa e queira iniciar... Fez um breve silêncio, enquanto marchávamos vagarosamente pela ampla e prodigiosamente arborizada avenida; sua voz denotou, entretanto, um certo ressentimento, um tom reticencioso fortemente acentuado. Todos, portanto, ficaram aguardando a complementação do pensamento, sendo que eu, o diretamente interessado, fui assaltado por aquelas observações já recebidas, em virtude dos altos pensamentos que de mim fizera nos últimos dias de vida carnal. Com o coração saltitante, ouvi-o inteirar a explicação: — Realmente, devo acrescentar o seguinte — o que fez no mundo foi bom e não foi pouco. Mas foi como obrigação, não como devoção. Cumpria-lhe resgatar graves faltas e recompensar valiosos ensinos e opulentas ofertas em base de oportunidade. Agiu bem, produziu, resgatou-se. É um espírito recuperado em matéria de faltas, mas não é um espírito armazenado de valores adquiridos e aureolado pelas obras de renúncia. Não pode merecer, ainda, aquelas plagas ultra-eterizadas, onde vivem os que se fizeram através de complementações laboriosas e sacrificiais a bem do próximo. Ele cessou a fala. Tudo se fez silêncio absorvente. Enquanto havia na amplidão espacial um cântico indefinível, sentido não sei por que íntimas percepções, eu me confrangia todo no exterior, sentia-me ferido, porém devidamente observado. Alécio avançava na frente da caravana, cujos elementos se mostravam encantados com o panorama à vista. Alguns se detinham a observar os jardins, os parques, os chafarizes; outros sentiam-se atraídos pela paisagem celeste, faiscante, cintilante.

— Vamos, agora, pelos caminhos aéreos — sentenciou Alécio. Subimos, como que nas asas de invisíveis entidades. Um sopro divinal, de baixo para cima, isso foi o que senti, para ter-me nos ares, sozinho, livre, sem nada temer. — Eu poderia fazer isto, sem a vossa ajuda? — perguntei. — Sim, pode. Mas deve compreender, antes de mais nada, que lhe cumpre exercitar os recursos da vontade e do próprio poder. Aqui, onde estamos, e como você está, o pensamento age imediatamente. Cumpre, portanto, conhecer e adestrar tais poderes. Começará fazendo experiências. Há de ver que surgem dificuldades de variada ordem, enquanto não estiver adaptado ao meio e a si próprio, nesta nova modalidade ambiental e funcional. Deslizávamos, agora, sobre zona serrana majestosa. Tudo encantava; tudo subia a um sentido de infinidade, de profundidade, de apego aos mais íntimos poderes. A beleza exterior fazia regozijar o mundo interior, fazia-o vibrar superiormente, a ponto de forçosamente, sentir Deus no imo e a Ele endereçar os mais ardorosos sentimentos de gratidão. — É ali que moram — disse Alécio, apontando um planalto belíssimo, onde se via umas luzinhas cintilarem, engastadas no fundo azul, como se fossem acenos amigos. Senti aumentar a velocidade. E num instante estávamos sobre o local, onde no alto estacamos. — Estão vindo a nós — avisou Alécio. — De fato. São três pessoas. — Seu pai, sua mãe, sua irmã... Aquela que desencarnou em seus braços... — Romilda? — Sim, Romilda. Veja como brilham, ao longe. — Deveras... Mas sinto uma indomável vontade de chorar. — Não é mau. Mas, controle-se. Tudo por aqui é mais simples, mais sensível, e atinge velozmente os centros de ação, mentais ou emotivos. É necessário manter o melhor equilíbrio possível, pois tudo é natural, seja a morte ou a vida, seja o bem ou o mal, seja o que for. O que importa, de fato, é saber ao máximo, para movimentar com justeza as devidas forças, nos momentos oportunos, sem cair em extremismos, em exageros, o que é próprio de espíritos medíocres e inexperientes. — Como se demoram! — estranhei. — Propositalmente. Até nos atingirem, você recuperou o estado mais próximo do normal.

Ao se avizinharem, deixaram de brilhar. E, depois de muitas dezenas de anos, revi meu pai, minha mãe e minha irmã, a única que tivera e que morrera em meus braços. Apesar de tudo quanto sabia, experimentei os mais prementes impulsos da emotividade. Graças a Deus, foi assim que aconteceu. Para viver momentos assim, tão felizes, só para isso, já vale a pena viver! Eu sei que ali fui entregue aos meus familiares. Alécio disse-me apenas o seu até logo, sendo que os amigos encarnados, um por um fizeram suas despedidas. Eu não podia falar, tal a emoção, mas eles também se despediram entre soluços e acenos, porque as gargantas não emitiam som. Ao longe, eles e nós ainda no ar, houve troca de sinais por meio de projeções individuais. Primeiro foram raios de luz em variantes cores, depois foram mensagens vivas, faladas em voz alta. Terminada a troca de mensagens, descemos. Fui encontrar a casa de meus pais, tal qual como eles a tiveram na Terra. Os mesmos compartimentos, os mesmos móveis, as mesmas disposições, etc. E quando quis conversar, fiquei sabendo que eles estavam a par de tudo quanto havia ocorrido em minha vida, comigo e com os meus familiares, inclusive os trabalhos doutrinários, as obras de solidariedade e todas as movimentações com finalidades dignificantes. — Têm estado na crosta? — perguntei. — Sempre que possível e necessário. — respondeu meu pai — Nossas funções são junto aos encarnados, servindo a quem faz jus, como podemos e somos ordenados. — Onde estão os seus superiores? — Os nossos... — reparou minha irmã. — Realmente. Onde estão? Nos Céus superiores? — Sim, pois a escala vai aos extremos interestelares. Os que nos guiam também são guiados, e assim por diante, até o plano crístico, de onde a todos nos guia o Divino Mestre, seguido de Seus imediatos diretos. — Estive manuseando o atlas, Romilda. Sei como é tudo isso, embora em linhas gerais. É muita ordem em tudo, graças a Deus. Seja como for, sempre é bom de se saber que há ordem em tudo e para tudo, apesar de haver tanta desordem em alguns lugares... Sim, há muita falta de ordem nalguns lugares... Meu pai, pondo-se em pé, aparteou-me: — Mas você já sabe o que acontece, não sabe? Cada um se encontra, tal como se procurou através de suas obras. Logo... Minha mãe, levantando-se, informou-me: — Nós temos um encontro marcado para as cinco horas, num hospital, onde uma senhora vai ser preparada para sofrer grave operação. Ela não vai desencarnar, o que fatalmente ocorreria sem a ajuda deste lado, porque não é sua hora e também por haver

instantes rogos a seu favor. Nós, entretanto, como servos de Deus e de nossos superiores, vamos acionar os recursos necessários. Fique aí, durma um pouco, ou leia o seu relatório dos últimos séculos... — Dos últimos séculos?!... — E que há nisso de mais ou de menos, meu filho? — Faço questão de ler! Quero saber tudo quanto... — Quando vai aprender a ser comedido? — observou minha irmã — Não sabe que a precipitação é própria dos espíritos involuídos e tardos? — Compreendo. Eu sei que a precipitação e a prevenção negativa são próprias de quem não conta ainda com a devida maturidade. Eu, porém, além de não ter a veia filosófica exposta, sou um recém-vindo, um estranho, um... Minha mãe, que fora buscar o documento, entrava com ele, passando-o a minhas mãos. Era uma pasta alentada, um molho avantajado. Mais do que por simples impressão, eu tremia diante daquele documentário. Sentia um tremor esquisito, como se estivesse à frente de um tribunal acusador. O fragrante interesse de pouco antes, converteu-se em quase pavor ao ver a maçuda pasta onde se achavam registrados os eventos de minhas últimas vidas. — É melhor deixar isso para outro dia. Vá dormir, que nós também temos disso necessidade, pouco evoluídos como ainda somos. Outro dia lerá, quando estiver em melhores condições. Afinal, tudo é comum, simples e natural. Meu pai também repetiu a mesma opinião, mas eu teimei em ler e o fiz, isto é, comecei a ler, enquanto eles saíram demandando suas obrigações.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.