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Capítulo 12 de 13

À Guisa De Introdução — parte 11 de 12

O Pentecoste · Osvaldo Polidoro

A noite veio e fomos ao Centro Espírita tratar daquele irmão. Ao seu redor estavam alguns irmãos, de ínfima postura na escala hierárquica; não ruins, porém carecentes de melhores encaminhamentos. Um guarda estava ao lado, ordenando não o tocassem. Ele gemia, pedia a Deus perdão, lastimava-se. — Vamos desatá-lo — disse Alécio. E foi imediatamente desatado. Com isso alegrou-se, criou ânimo, agradeceu. O bondoso guia considerou: — Se por apenas isso você sabe agradecer, como não ficará satisfeito, e como não glorificará a Deus, se fizer questão de observar a Lei. Porque, convém lembrar, ninguém vai a Deus sem ser pela Lei. Entenda bem — ninguém vai a Deus sem ser pela Lei. E o Cristo a simboliza, porque Cristo quer dizer Perfeição, quer dizer síntese geral. Sem Lei e sem Justiça, portanto, não há valor a considerar. Peço que se não esqueça disso. Demonstrando gratidão, o enfarruscado homem prometeu: — Farei o possível... Quero ser digno de vós outros, pelo menos. Deus está acima de cogitações. Sorrindo, Alécio aparteou-o: — Você conhece os quatro pontos cardeais da sabedoria bíblica? — Bem... Sou fraco nessas coisas... Paciente, mas gravemente, ensinou o mentor: — Olhe. Para Crisna, que viveu mil e quinhentos anos antes de Cristo, a súmula da sabedoria residia na consciência da UNIDADE. Para o Cristo, a UNIDADE, que é Deus, ou a ESSÊNCIA DIVINA, manifesta-se em três manifestações principais, que são: a — A Emanação, b — A Lei, c — As Virtudes. Sendo assim, portanto, o Emanador, a Emanação, as Leis e as Virtudes ou qualidades, são inseparáveis entre si. Tudo é UM e UM é tudo. Logo, amigo, não separe o que é uno por natureza. Porque a ESSÊNCIA PRIMEIRA é, a um tempo, Causa e Efeito. Quem despreza a Causa despreza o Efeito, e quem despreza o Efeito despreza a Causa. — Isso é complicado — murmurou, de novo, o infeliz irmão. Alécio fez sinal de não e concitou-o: — Pois aprenda a ver tudo pela consciência da UNIDADE. Quando tenha conhecido essa realidade, conhecerá conseqüentemente as leis evolutivas e

compreenderá as relativas liberdades e as absolutas finalidades. Nada deixa de ser FILHO e tudo encerra as marcas do PAI. Do íntimo de tudo emana o DIVINO, em leis, justiças, virtudes e necessidades de movimentação. Cumpre não fazer confusão entretanto, entre a ORIGEM DIVINA, as virtudes por desenvolver, as relativas liberdades e as diretrizes fundamentais, que impelem à Sagrada Finalidade. — E quem fizer confusão? — indagou o pobre irmão. — Quem cair em confusão, por certo descambará pelas sendas do erro e far-seá presa da Justiça através da Lei. E a Lei, quando exigida a fim de reparar, fá-lo com rigor. Então surgem as dores, e os longos programas ressarcitivos. Alécio fitou-o bem e fê-lo objeto de exemplo: — Você é testemunho típico. Abandonou a Lei e caiu nas garras da Justiça. Agora lhe cumpre trabalhar pela rearmonia, pelo reequilíbrio, porque sem Lei ninguém pode estar bem. Não falo da Lei escrita, falo da Lei implícita ou ingênita, do poder diretriz que há no âmago de tudo e de todos. — Por que não me tolheram logo de início? Por que consentiram ir tão longe nos caminhos do erro? Deu-lhe o mentor a devida explicação: — Oferece Deus, aos Seus filhos, a relativa liberdade, tornando-os semideuses. Quer Ele sejamos espontâneos no bem e na sabedoria. Entretanto, quando não sabemos usar de tal regalia, faz cessar a relativa liberdade e impele ao respeito da Ordem Geral. Por isso é que lhe disse — importa respeitar a Lei, porque ninguém vai a Deus sem ser por ela. O Cristo deu o exemplo total, pois veio para executar a Lei e não para ser contra a Lei. — Tudo isso vem tão tarde! Tão tarde! — gemeu o infeliz. — Não repita isso. A eternidade é presente sempre, não tem ontem nem terá amanhã. As divisões, que aliás são necessárias, estão no plano relativo. Como, porém, estamos tratando de realidades espirituais, ou básicas, deixemos as divisões e aferremo-nos ao Eterno. Avante! Levante-se! Vamos para a mesa, que os servos do amor e da ciência estão a postos. Vamos! Venha conosco... Meu coração de espírito pulsava intensamente. Eu me sentia naquele irmão, que vinha de subir os mesmos degraus antanho subidos por mim. Fraco que era, derramei lágrimas cálidas, rendendo graças a Deus. E lá nas intimidades de minha alma sedenta de melhores postos, desejei muito fazer aquilo, trabalhar pelos que descambaram, subindo por fazer subir, melhorando por fazer melhorar. Coutinho, tal era o seu nome, foi encostado a um médium e por ele falou. Recebeu cargas fortes de valores de variada ordem e atingiu um bom estado de saúde e de paz. Saiu dando graças e prometendo servir muito, a fim de recuperar o perdido.

— Sim — afirmou-lhe o mentor — muito terá que trabalhar. No entanto, se lhe foi dado recuperar o perdido à custa de trabalho, faça-o, porque importa nalgum merecimento. Não será tão mau assim... Terá feito algo de bom, nalguma parte, nalgum tempo. Tenha confiança em Deus, tenha confiança em si. Acima de tudo, nunca se esqueça da Lei... Para premiar ou para punir, mas está sempre presente, por ser íntima a tudo e a todos. Negá-la é possível, mas superá-la não. Coutinho desfazia-se em pranto de reconhecimento. O amor havia suplantado a barbárie. Depois da morte, pela primeira vez, eu aprendia uma grande lição. A luta contra a besta interna tem que ser feita, seja onde for, mais tarde ou mais cedo. E para quem deseja lutar, sempre há quem venha em auxílio. Mas, por isso mesmo, ali estava eu defrontando os serviços consoladores... Lembrei-me do Pentecoste, da grande eclosão mediúnica, compreendendo a extensão da função messiânica de Jesus Cristo. O produto estava ali, sem dúvida. Feito aquele serviço, fomos conduzidos por Alécio, a princípio sem saber para onde. Ao darmos com aqueles comparsas de Coutinho, que estavam amarrados, ficamos sabendo alguma coisa. — Vamos levar este — determinou o mentor, depois de estudá-lo um pouco. Os outros fizeram alarde, mas calaram imediatamente, porque os guardas do presídio intervieram a modo próprio. O escolhido emudeceu, por ignorar, talvez, o que lhe iria suceder. Todavia, nada lhe foi dito, a não ser no Centro, quando ali de novo chegamos. — Fique aí e não faça escândalo. Caso contrário, muito irá sofrer, porque o tempo de liberdade relativa está findo. — Ficarei sempre aqui, se ficar quieto? — perguntou, cheio de medo. Alécio não lhe deu atenção, de pronto. Ao sair, disse-lhe apenas: — Repare nos serviços... E, se puder, tire algum proveito... Dito isso, partimos, indo visitar Prieto, a vítima de tudo aquilo, ou, para dizer melhor a vítima de seus próprios erros de antanho. Prieto dormia. Mas seu espírito estava na carne, dormia juntamente. Alécio chamou-o e apanhou-o pela mão. — Vamos levá-lo ao Centro. Dêem-lhe algum apoio. Foi coisa de segundos. Estávamos de novo no ambiente de trabalhos. E o que eu não esperava, aconteceu; o elemento amarrado, ao ver a sua vítima, prorrompeu em gemidos profundos, surdos, agonizantes. Causava pena vê-lo daquele jeito. — Conhece aquele irmão? — perguntou Alécio a Prieto. — Não, senhor — respondeu Prieto.

— É um de seus algozes... Mas foi vítima dos mesmos erros, compreende? Develhe desculpas e alguns préstimos. Quando estiver bom e trabalhando, hei de levá-lo, para que o sirva e seja servido. Afinal, no Reino de Deus não há lugar para ódios e malquerenças. Todos nos devemos tolerância, amparo e bons serviços. — Está bem. Farei o que puder. — Venha agora a mim. Prieto acompanhou-o e foi colocado ao lado de um senhor que estava sentado na platéia, bem longe da mesa. Este senhor, luzente que estava, deve ter sentido a presença de Prieto, porque imediatamente deixou de irradiar em geral, para focalizar o enfraquecido irmão, que agora lhe estava ao lado e com a mão direita apoiada em seu ombro esquerdo. Chegando-se a mim, disse Alécio: — Dentro de oito dias Prieto estará bom para trabalhar em mesa. E você terá o seu instrumento de trabalho. Findos os trabalhos, fomos devolver Prieto ao seu corpo. Estava alegre, esperançoso, acentuadamente recuperado. A medicina dos fluidos percutia no corpo físico e todo ele demonstrava recuperação evidente. — Vamos para nossas bandas, que as obrigações de hoje estão cumpridas — convidou Alécio, muito satisfeito. Lembrando-me, fiz a pergunta desejada: — E aquela senhora de quem retiramos o padre? Como estará? O mentor respondeu: — Está sendo tratada por alguns irmãos da carne. E como não há que se esperar dali muitas vantagens, porque é um espírito fraco e viciado, não convém empatarmos tempo inútil. O que fizemos foi o bastante; ela, agora, que dê a parte de que é devedora. Recupere-se, evangelize-se, compenetre-se de que o espírito é mais do que o corpo e a virtude mais do que os prazeres animais. — Eu não sabia que estava sendo tratada espiritualmente. — Se alguém não tivesse feito por ela algumas preces, e não tivesse pedido para ela num ambiente espírita, nós não a teríamos auxiliado, porquanto nada sabíamos a seu respeito. Afinal, se nós somos dos serviços socorristas, e temos de atender, não é menos certo que os encarnados devem nos procurar, através de preces e outros contatos. A promessa do Consolador diz respeito ao esforço do Céu pelos homens, mas reclama dos homens a devida correspondência. Quem se afasta será afastado... E não nos esqueçamos de que o afastamento da conduta certa, quando não implica em outros erros, implica no culto de erros religiosos, de corrupções doutrinárias, de fraudes, de idolatrias, etc. Exageros e desmandos, fanatismos e descambos, são sempre filhos da

má compreensão; e a má compreensão surge da falta de análise fria, surge das fermentações inferiores, quase sempre dos interesses subalternos. Um dos presentes emendou: — E o resultado é aquilo — a criatura desencarna e permanece escrava do mundo inferior, das garras animais, envolvendo outros tantos errados. Por fim, tantas são as relações de faltas e agravos, entre os de cá e os de lá, que com dificuldade ficamos sabendo quem tem mais culpa, quem mais deve, quem mais obseda. Um outro interveio: — Tudo por falta de iluminação interna. Alécio observou: — Como focalizar o problema da iluminação interna, sem ser pelos canais do conhecimento e do esforço individual? Desde os Vedas a lição do Cristo é justa; mas há muita falta de esforço individual, embora haja falatório em excesso, gestos pagãos a valer, clerezias pomposas e santidade postiça à vontade. O mercado das especulações rendeiras funciona febrilmente; mas pouca gente faz como deve o culto da sabedoria espiritual. Conhecer leis fundamentais e viver decentemente, isso não faz parecer importante... E os homens gostam de ser ou parecer importantes. Não é crime pretender ser; mas não fica bem, apenas pensar que é. Era hora e nos despedimos. Teríamos algumas horas de lazer, e eu queria terminar a leitura de um livro. Demais, ainda necessitava, como necessito, dormir.

Fator de ordem ponderosa, imensamente ponderosa, é o corpo que temos, ou que fatalmente devemos ter. Dizer a um encarnado o que seja o nosso corpo, ou perguntar-lhe, demanda sempre uma cogitação superficial, distante, imprecisa. Nunca deixamos de possuir um corpo; e este será, na vastidão das gamas hierárquicas, segundo como o espírito for, ou se tenha feito, em perfeição geral. Nada reflete mais o grau de elevação, ou o matiz evolutivo, do que o corpo astral, do que o perispírito. O corpo astral é a figura de vanguarda do espírito. Tudo quanto lhe mitigue a interioridade reflete nele, fala por ele, vaza-se através dele. Se a centelha se faz preciosa, sublime, ele se faz rarefeito, glorioso, divinal... Mas se a centelha se enfronhar de novo em borrasqueiras carnais, ele ficará grosseiro, pesado, chumbado ao solo e aos sofrimentos. Permitam-me dizer, senhores, que é vago o seu conhecimento sobre tal elemento. Os nossos planos variam de grau e de matizes de grau, sendo natural que seus habitantes comportem corpos relativamente específicos. E tão longe vai a variedade, na ordem de escala, que tentar dizer representa trabalho quase inútil. De um momento para outro, em função de uma determinada injunção mental-emotiva, já aparece a mutação, a variação, o adensamento, a contração e a menor liberdade em gozo e mobilidade. Para haver elevação dinâmica faz-se preciso pertinácia; mas a descida pode ser precipitada, pode ser violenta e imediata. Cair sempre é muito mais fácil do que levantar. Entretanto, os elementos motores estão no próprio espírito, pertencem à posse da individualidade. Não lhe pertence a lei com a qual joga, ativa e faz variar; essa é, pertence do Plano Divino; mas lhe pertence o direito de acioná-la, de movimentá-la. Tanto assim, que fica herdeiro, sempre, do direito de acioná-la e dos efeitos produzidos. Pensar, sentir e agir, tais são os instrumentos de uso e forçamento. Os resultados nunca falham e são sempre intransferíveis. Está evidenciado, portanto, que a criatura tem nas mãos a chave da vitória ou dos fracassos. Nas mãos, quer dizer, no direito de uso e ativação. Tudo se transforma, portanto, em simples e puro caso de emprego. Quem se faz conhecedor e diligente, tanto melhor; quem vacila, e por isso tende aos caprichos inferiores, seja por que motivo o for, tanto pior. Se pela casca se conhece o cerne, sem dúvida que pelo corpo astral, em seu natural, se conhece o grau de evolução da centelha, em sua caracterização. Digo em seu natural, porque os fortes dominam e dão ordens aos elementos constituintes de seus corpos, apresentando-os como bem entenderem. Todavia, a forma não é que faz a paz e o gozo, ou o estado de glória. A questão é de ordem íntima e de liberdade. Quem se restringe, por vontade própria, para servir, ou por motivo que julgue interessante, não é como quem é restrito por imposição superior ou judiciária. Importa estar no uso dos direitos de livre escolha; importa ser como melhor convenha. O que

não serve, o que não convém, é ser obrigado, mesmo que a obrigação parta de movimentações internas, mas irrefreáveis. Isto vem a propósito, é claro. E o caso foi o seguinte: dias depois daquela primeira sortida, quando todos aqueles amarrados irmãos já estavam encaminhados, e quando Prieto dava início aos serviços de vazador mediúnico, fomos convocados a servir uma família, em cujo seio lavrava tremenda discórdia, por se haver uma filha decidido a infeliz casamento. — Temos ordem de intervir — anunciou Alécio. E para lá nos baldeamos, qual repentino pensamento. — Esse, o infeliz irmão — disse o mentor, apontando um espírito, afinal um homem, que, debruçado sobre a mesa da sala de jantar, sofria algum mal. Ouvindo-nos, levantou aquele irmão a cabeça, pondo-se a nos ouvir, com vago olhar e dolorosa prostração. O seu semblante era turvo, revelava imensa dor íntima. — Amaral, vamos embora — convidou-o Alécio, com extrema bondade. — Eu?! — Sim, você. Assustado, aparteou o infeliz: — Mas se tenho aqui tanto por fazer! Alécio procurou instruí-lo: — Engana-se. Tudo quanto conseguiu foi reduzir-se psiquicamente. Perdeu em dinamismo espiritual e ganhou em peso material; atrofiou-se, prendeu-se ao mundo, está chumbado ao solo. Nem mais consegue orar... Seu pensamento está preso e sua vontade é escrava de cogitações que lhe não cumprem mais. — Deveras... Deveras... — Vamo-nos, então. Há ordem superior para afastá-lo desse meio. Olhou-nos com bondade, indagando: — Para onde vão me levar? Sorrindo, o bondoso mentor informou-o: — Para onde nada saberá das ocorrências terrenas e familiares. Necessita recuperar o estado anterior de paz e liberdade, trabalhos e regalias. Afinal, Amaral, se temos alguma coisa em comum com os encarnados, familiares ou não, essa alguma coisa não quer dizer tomar a cargo suas questões e obrigações, necessidades de luta e conseqüências deliberativas. Há uma fronteira entre os dois lados e as responsabilidades individuais. Não podemos fazer o mundo a nosso gosto, nem

devemos pretender inibir as liberdades alheias, ou assumir as responsabilidades de terceiros, sejam parentes ou não. Amaral baixou a cabeça e chorou amargamente. Alécio deu-lhe a mão, fez-nos apanhá-lo pela outra e convidou-o: — Não perca tempo. Vamo-nos daqui. Pôs-se de pé, concordando: — Têm razão. Nem sequer pude evitar esse malfadado casamento... Eu já me achava bem. Livremente quis vir e aturdiu-me o corpo e a alma... — Enfarruscados os centros emotivo-mentais, tudo se embrutece e se torna pesado. Não lhe deram os devidos conselhos? — Deram... Mas eu quis vir e agir. Perdi tempo e regalias... Quando pensei em voltar, um dia, não mais pude. Estava chumbado ao solo. Comecei, então, por intervir com afinco. Mas tudo foi inútil. Minha filha casou-se com aquele canalha... Um patife!... — Os patifes também são nossos irmãos. Devemos-lhes algumas oportunidades de recuperação. Com apenas desprezos, quem se emendaria? Todos nós temos tido as nossas falhas, os nossos deslizes, e de algum modo nos temos recuperado. Faça, por isso mesmo, alguma coisa pelos outros. — Nada espero dele... — Mesmo assim, sua filha o quis. Quando nada, tem ela direito à experiência. E que poderia fazer agora, sem ser piorar e piorá-los? Não compreende que a sua atuação é apenas contrária ao bem geral, agora que são casados e têm os seus problemas a resolver? Quer transformar-se no algoz de sua filha e de seus netos? Alécio assim falava, quando apareceu no ambiente, vindo qual um raio de luz, um vulto de bem alta postura hierárquica. Sua altitude evolutiva obrigava a elevado respeito. Ele excedia em muito a hierarquia de Alécio. — Paz! — disse ele, fazendo um sinal de mão. — Paz! — respondemos nós, com imenso prazer de alma. Olhando para Amaral, disse-lhe: — Quero fazer-lhe uma pergunta. — Terei prazer em dar-lhe a resposta, se puder, meu senhor. — Que direito tem de querer tanto à filha de hoje, a ponto de odiar tanto o filho de ontem? O silêncio envolveu-nos, assaltou-nos. Amaral ficou estático. O sinistro de seus olhos fez-se arrependimento e pelas faces corriam-lhe filetes cristalinos. A resposta não apareceu.

O belo e majestoso vulto, fazendo novo sinal, despediu-se: — Que a paz de Deus fique convosco! Amaral foi saindo e nós fomos atrás dele, para o quintal. Seu genro ali estava, pintando a parede traseira da casa, estando sua filha ocupada em lavar roupas. O arrependido homem fitou-os muito tempo, pensou e repensou mil coisas, talvez, para objetar: — Agora, meus irmãos, eu poderia ficar... Poderia ficar, sim senhores. Alécio redargüiu: — Cumpra-se a ordem. Vamos embora. Quando quiser voltar, para outros fins, o Céu tomará suas deliberações. Estendeu comprido olhar aos seus familiares, dizendo: — Estou pronto. Vamos, então. E transportamo-lo para o lugar indicado. Eu, de minha parte, aproveitei muito da lição, além de folgar deslumbrantemente com a presença de tão elevado irmão. Apesar dos pesares, sabendo perfeitamente que somos todos, em natureza, portadores de tão gloriosos poderes, só mesmo vendo e sentindo alguém assim é que sentimos e certificamo-nos de que também podemos ser iguais. Iguais e muito mais, pois somos Cristos em fazimento! Aquele irmão, afinal de contas, está, apenas um pouco mais perto, ou muito mais perto do Cristo, do Grau Ideal, do que nós. Nada mais. Entretanto, quanta graça há em tais criaturas!

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.