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Capítulo 3 de 13

À Guisa De Introdução — parte 2 de 12

O Pentecoste · Osvaldo Polidoro

Passei dias sofrendo angústias de espírito. Fraquezas, agonias, saudades, pensamentos, lágrimas. Os pensares e as muitas lágrimas fizeram-me bem; um doce alívio inundava-me o ser, mas não me avantajava o corpo... Eu tinha o meu corpo, como o tenho hoje, um corpo de fato, sujeito a todos os fenômenos patológicos possíveis. Eu sentia paz, deliciosa paz, pensando em Jesus, indagando como agiria Ele, se estivesse em meu lugar. Pensar em Jesus era gozar um delicioso estado de paz. Mas o corpo, ao querer levantá-lo, não correspondia... Doía, estava fraco, impossível. Uma tortura em forma de corpo! Quando o enfermeiro chegou, à tarde, falei-lhe: — Sabe? Tenho pensado em Jesus... Como Ele pensaria se estivesse... Interrompeu-me, imediatamente: — Que patife! Como Jesus pensaria, se estivesse no seu lugar!... Isto é a pior espécie de maluquice!... — Você mesmo não disse, seu enfermeiro?!... Foi o seu conselho. Mostrou uma fisionomia debochada e observou-me — Escute, seu coisa, seu 63. Jesus poderia estar no lugar de um quebra-pedras ou de um fedelho negador de Deus? Onde tem você a cabeça? Antes de pensar no Divino Modelo, pense nas suas patifarias e ponha jeito nelas. Jesus está muito alto... Antes de falar em Jesus, pense nos subalternos, naqueles que Lhe são os imediatos, e que somam graus à vontade na escala hierárquica. Pense como gente, ouviu? Eu, agora, vou-me embora. Você está bem, apenas é muito... Bem, nem quero dizer o que penso. Caminhou, sumiu. Eu sabia que só viria no dia seguinte. As moças que serviam as refeições, invariavelmente respondiam: — Pergunte ao enfermeiro. Nós cuidamos da alimentação, nada mais sabemos. Ora, o enfermeiro era trunfo nessa atitude de virar as costas, de ir-se, não dando trelas. Conversava mais com ele mesmo, do que mesmo com os doentes, pois o seu forte era resmungar, tecer muxoxos, dizer coisas em surdina. Passaram-se dias, semanas, até que apareceu um senhor, muito magro e muito esquisito, perguntando-me: — É o 63? — Sou, sim. Antes chamava-me Antônio... Fez de conta que não me ouvia, indagando-me: — Tem chorado muito? — Tenho. Por quê?

— Tem pensado em sua filhinha? — Muito... Como está?... Sem me ouvir, prosseguiu: — E sobre Jesus? — Está muito longe... O senhor deve saber... O enfermeiro ralhou-me. Ignorando minhas palavras, emendou: — Vai ser transferido. Basta. Até logo. Lá se foi, com sua feiúra esquisita e sua magreza. Eu fiquei meditando, pensando na morte. Sim, pois eu havia morrido, tinha deixado o corpo. Ou seria tudo mentira, engano, doença, demência? Dei-me uns beliscões, falei comigo mesmo, fiz micagens. Com isso, outros doentes, colocados bem ao longe, começaram a rir, a dizer coisas. Envergonhado, calei-me e imaginei as mais possíveis explicações. Ao chegar o enfermeiro, disse-lhe: — Sabe, estou desconfiado. Não acredito nisto. O enfermeiro, olhando-me bem, respondeu-me: — Pode ser; mas sempre se acredita nalguma coisa. Assim faz quem é, vive e pode raciocinar. Quem não acredita nisto, acredita naquilo, porque sempre há que acreditar nalguma coisa, como já disse. Apenas... Olhou-me desconfiado e não completou o pensamento. Perguntei-lhe, então: — Apenas o quê? Com ar zombeteiro, respondeu-me: — Apenas isto. Algumas criaturas acham mais fácil crer na mentira que levantam em seus pensares, do que nas verdades simples. São uma espécie de idiotas ou tontões, nada mais, e pretendem passar por sabidos. Terminam sempre dando com os costados no sofrimento, na miséria, nos lugares tristes. De algum modo, desencarnam sem saber, passam largos tempos quebrando pedra, depois pioram um pouco e lá vão carregar pedras, só assim dobrando um pouco a dura cerviz. Conhece alguém dessa ordem de caráter? Eu conheço muitos... Eu queria falar, mas ele foi andando, causando-me um terrível sofrimento, pois só voltaria no dia seguinte, talvez para sair correndo outra vez, sem dar-me tempo de pensar e debater algumas idéias, como eu imaginava que podia e devia ser. Um outro enfermeiro passou, falando com dois outros doentes, ou errados como eu, ao qual fiz uma pergunta: — Pode atender-me? Sem parar foi seguindo com a resposta:

— Não, claro que não. Pertenço a outros doentes. Desejava ser transferido; mas, quem viria transferir-me? Estaria eu com muita pressa, para piorar como da outra vez? E assim passei horas a meditar coisas boas, ruins, agradáveis e tristes, numa balbúrdia dos diabos. Depois dormi, como qualquer mortal. Ao acordar, desconfiei da morte por via do sono e dos sonhos. Os mortos dormem? Para quê? E sonham? Para que fim? Não seria tudo asneiras, asneiras a granel, verdades próprias de um manicômio? Nesse caso, estava na Terra, doente, enlouquecido pela morte da esposa? Não seria melhor pensar assim? — Sabe, enfermeiro? Eu creio que estou na Terra, que não morri, porque durmo, sonho, etc. Principalmente o etc., ouviu?... Constrangido, apiedado, repetiu-me: — Olhe, 63. Você morreu faz muitos anos. Veio parar num lugar de relativo sofrimento, por ser negador de Deus e muito animalizado, muito bruto, embora não seja maldoso. Sim, poderia ser até bondoso... E lucraria muito com isso... — Então, morri mesmo? — Desencarnou, homem! Fale como as coisas são! — Você disse assim, não disse? Por que não posso dizê-lo? Fez menção de ir, pelo que lhe pedi: — Por Deus! Não vá!... — Bravos! Bravos! Até que enfim apelou para Deus!... — Faltava só isso? — Não. Falta muito mais, que decorre daí. Mas, como Deus é a ORIGEM de tudo, segue-se que convém respeitá-Lo em primeiro lugar. Agora, se firmar pensamento em Deus, poderá ser melhor tratado e logo sair daqui para... Eu não sei do programa, mas creio... — Que não me toque, agora, carregar montanhas. Estou farto! Todos riam de mim, ou comigo, no vasto salão. O enfermeiro, por sua vez, os admoestava, dizendo que eram como eu, talvez pior. Procurei não perder tempo, rogando: — Quero ser tratado e sair daqui, ouviu? Faça-me o favor de providenciar o necessário. Eu quero... — Tenha paciência, 63. Devia saber que errados não têm direitos. Espere o que lhe derem e dê-se por feliz. Nada fez, por si ou pelos outros, para merecer o direito de pedir alguma coisa. Não fosse o seu pai, que foi um bom homem, e morreu em bom estado, estar ativando recursos por si, ainda estaria quebrando pedras.

— Meu pai morreu? Minha mãe ficou só, no mundo?!... — Ficou com o resto da Humanidade. Acha pouco? Com quem devia ficar? Ou é melhor do que os demais filhos de Deus e acima da ordem comum ou do plano geral? — Pobre de meu pai! Coitado! Onde estará?... — Não está quebrando pedras, nem carregando-as, nem doente metido num leito e a dizer asneiras. Seu pai é um feliz. Foi um bom homem, um crente fiel, um servidor. Lembra-se? Era esoterista, homem lido, compreensivo e bom. — Eu sei. Eu lhe dizia que tudo eram forças naturais intrínsecas, sem nenhuma relação com algum Deus, sem nada de sobrenatural. Ele me dizia outras coisas, que eu estava enganado, mas que a vida me ensinaria... A vida me ensinaria... E que me ensinou a vida? Fez-me um gesto indagador e com dureza interpelou-me: — Quem lhe está ensinando, afinal de contas? Porque é tão tardo de inteligência? — É isso mesmo. Sou tardo... Pobre de mim!... Tardo!... Foi andando, e eu fiquei a chorar, porque uma grande tristeza se apoderou de mim. Logo mais, quando quase adormecia, alguém me chamou: — 63 ! 63 ! Vamos tomar uns passes? Ao abrir os olhos, vi um preto ao lado de meu leito, sorrindo, mostrando a fileira de alvíssimos dentes. Era um semblante feliz, digno de confiança. Sentia-se a bondade a vazar-lhe da fisionomia, do meio olhar, da voz suave. — Vamos — respondi-lhe, todo satisfeito. Foi o início de um tratamento magnético que durou dias, mas que me fez sentir, de novo, a importância da vida. Porque eu estava combalido, mais de alma do que de corpo. Ao sair do leito, andei pelos jardins do hospital, travando relações com outros convalescentes. Todos vinham dos campos da negação e da dureza de caráter, ou do abuso de certas regalias animais. Quem não havia quebrado e carregado pedras, havia passado por outras provas amolecedoras, afrouxadoras, havendo quem passara fome e sede, sendo que outros andaram metidos em desertos tórridos, ali caindo e clamando por socorros, sem ver mais do que céus e areias, noites e dias sem fim, numa agonia terrível, até desfalecer. O lugar era bonito, mas rústico, assim como a Terra, sem nenhuma evidência de Céu, de gloriosidade espiritual. Nas horas de prece, então sim, havia em nós, e não fora de nós, a manifestação de algo sublime. Havia três salas amplas, onde as reuniões eram feitas, e fiquei sabendo que pertenciam a categorias diferentes. Quem melhorava, passava para o segundo grau, depois para o terceiro. No terceiro havia cânticos

próprios, estimulantes, motivadores de atrações vibratórias superiores. E dali se iam, menos alguns, que pediam para trabalhar no local. Mas isto, fica entendido, quando havia conveniência para o local, não como favor ou como regalia. Era um estágio, comportava suas vantagens. Mas os recuperados deviam logo sair, dar lugar para outros e trilhar a senda evolutiva, aprendendo e servindo. Vinham dos círculos da negação, da brutalidade, e alguns de vícios muito feios, devendo enfrentar sérios esforços íntimos, que ali não poderiam ser levados a termo. Meu dia chegou e parti.

Fui dar com a presença numa região semi-escura, onde muitos trabalhos me foram impostos, trabalhos de ordem religiosa, pois devia falar sobre Deus e Suas leis, aos que iam sendo subtraídos às zonas trevosas. Como fosse leigo no assunto, deramme um catecismo, e tudo quanto eu fazia era repetir-lhes as sentenças radicais. Um velho, certo dia, perguntou-me: — Isso é para acreditar? — Claro. Se está escrito é para acreditar. Demais, é sobre Deus. Fez uns esgares, ruminou umas risadinhas bobas e troçou: — Pois eu não creio! Nem em meu pai acreditei, como vou acreditar em você? — Mas não fui eu quem escreveu isto. Aqui há ordem e disciplina. — Quem escreveu isso? — perguntou-me, com rompância. — Isso eu não sei, mas sei que há ordem e disciplina nesta casa, e que saem mal os contraditores. Tornou a rir, com ares superiores, proferindo: — É a tal coisa!... Ouviram só? Ordem, disciplina, mas nunca se sabe dos autores das leis. No fundo, assim como na Terra, aqui também os espertos vivem à custa de Deus. Mas, onde está Deus? Quem O viu? Aqueles vinte e tantos espíritos, a quem eu falava, riam e troçavam, porque também eles tinham vindo das trevas. A ficar comigo, ficavam com o velho, que era da grei. Como havia de fazer? Que havia de fazer? Eu não tinha, ainda, enfrentado situação idêntica. Contudo, arrisquei: — Cuidado, que o mando quebrar pedras! Ou carregá-las, o que é pior! O velho disse mil asneiras, enquanto eu fiquei entregue à chacota de todos. E por ser triste a situação, pensei em Deus com algum fervor, reclamando Sua atenção, de vez que era Ele o motivo de tudo aquilo. Enquanto eles diziam troças, não todos, mas a maioria, eu fui sentindo em mim qualquer coisa diferente, um doce torpor, como se fosse a aproximação de alguém. — Antônio! — disseram ao longe, nos lados do pavilhão central. Olhei e vi o diretor do estabelecimento, que me chamava. Levantei-me e para o seu encontro me fui, com o propósito de contar-lhe tudo. Era a primeira vez que defrontava aquela situação, não sabendo o que fazer nem como. Ao aproximar-me, perguntou-me: — Que se passa?

— Eles não querem aceitar os ensinos, dizem que isto é coisa de homens e não de Deus. Altercam, fazem chacota, tudo por causa daquele velhote com ares de sabidão. Olhe para ele... Não parece uma coruja sentada num cupim? — Mande-o carregar pedras! — sentenciou, seco, o diretor. Fiquei estupefato, pensando naquilo que havia desejado, pois não sabia ainda ser o departamento muito vasto, comportando vários serviços e muitos chefes. — Como faço isso, senhor? — Chame pelo guarda. Não vê aquele homem, aquele irmão, ali? — Vejo. Está bem. Fui ao irmão guarda e contei-lhe tudo; ele respondeu-me: — Não precisa fazer o histórico, basta. Você está aqui para ensinar religião e não para contar histórias. Diga o que fazer e guarde para si os motivos. Calei-me, um tanto ferido por aquela observação direta e brutal. O guarda, por sua vez, repetiu, com aspereza: — Que faço com o velhote? — Meta-o a carregar pedras. O diretor mandou. Ainda mal satisfeito, observou: — Quem pediu para citar o diretor? Fale por si mesmo. Meio atordoado, mal reparei que puxou um cordel e fez funcionar um apito, e que, com isso, movimentou uma vintena de outros guardas, a cuja frente marchava um comandante, homem corpulento e armado de comprida chibata. Aliás, todos eles estavam armados de chibata, sendo que variavam em comprimento, apenas. O comandante perguntou ao guarda: — É ele? O guarda respondeu-lhe: — Não. Ele sabe quem é ou quem são. Que fale. Por minha vez, apontei para o grupo e falei: — É aquele velhote com ares... — O velhote, sem ares! — emendou o comandante, sem me deixar terminar. O guarda falou-me, enquanto eles para lá se dirigiam: — Mande-os todos, não seja tolo. Não se riram à sua custa? — Tenho pena... Não fosse o velhote e todos aceitariam os ensinos.

Abanou a cabeça, negativamente, deplorando: — Ah! Sim, tem pena? Fosse comigo!... — Por que pensa assim? Eu não gostei de fazer aquele serviço e suponho que ninguém gostará. Como hei de querê-lo para os outros? — Não aprendeu sofrendo? — Eu era duro! Duro! Compreende? — E são moles aqueles trevosos? Caia você em suas mãos!... Enquanto nós discutíamos, o velhote saía debaixo de chibatadas do meio da comparsaria terrificada. O guarda, vendo aquilo, repetia: — Assim... Assim... Desce a guasca!... Isso!... O velhote saltitava e as lambadas o pilhavam por todos os lados. Foi um escândalo danado, que pôs o pátio em pânico. — Bem — disse-me o guarda — vá ensinar. Se não acreditarem nas lições, hão de acreditar nas lambadas... Lembre-se de Moisés... — Desse que está citado aqui no catecismo? — Sim. Qual havia de ser? — A Terra está cheia de Moisés... Como se fala? Moisézes? — Sei lá!... O da Bíblia. Faça como ele... — Levar essa gente para a Palestina?!... Como?!... Olhou-me de alto a baixo, resmungando: — Que estúpido! Vá-se de diante de mim! Estou dizendo para manter a disciplina, custe o que custar, compreendeu? Mate a carne, se for preciso, mas sustente a disciplina, que é a verdadeira lógica dos fenômenos. Ou não é? — Não sei. Eu sou fraco nessas coisas. — Aqui, nesta casa, todos somos fracos. Isto é um inferninho, somos ainda os diabinhos... Longe estamos da LEI! Todavia... Não sei mais o que terá dito, mas sei que o julguei meio louco, como sei que dessas realidades os planos inferiores estão cheios. Não há saltos, e cada um serve como pode, isto quando já pode servir, o que não é pouco. Fiquei ali alguns meses, ensinando como podia, talvez aprendendo. O que nunca fiz em toda a minha vida, fiz ali, passando aos outros o pouco que ia assimilando. Ao sair, tinha muita coisa na retentiva, estava a par com a História das Religiões, a começar

dos fundamentos, que são os Ensinos Védicos, a primeira lição organizada que o Cristo Planetário enviou à Terra dos encarnados. Sentia-me bem, gozava o prazer de tamanha sabedoria teórica. Certo dia, disse-me o diretor daquela casa de correção voluntária, pois os involuntários eram mandados para outros lugares: — Acompanhe este irmão. Folgo em passá-lo adiante, sabe? — Obrigado. Vou mudar de trabalho? — Vai aprender mais e ensinar aos encarnados alguma coisa. Vai trabalhar como servo do Consolador, do Batismo de Espírito. — Terei prazer em ser útil, senhor. Muito obrigado. O senhor foi um ótimo irmão e um chefe exemplar. Vou, mas levarei de si a mais grata recordação. De fato, foi a primeira pessoa, no plano astral, de quem me senti verdadeiramente amigo e ligado profundamente.

Meu pai se me apresentou, no primeiro dia em que defrontei um aparelho revelador, uma espécie de psicômetra mecânico. Meu pai era o serviçal que fazia o aparelho funcionar. E o aparelho revelava, como fazem os objetos aos médiuns psicômetras, a história e até a formação dos fenômenos e dos elementos. Meu pai havia feito dessas experiências, durante a vida carnal, estando agora aprendendo outras lições, enquanto ensinava. O aparelho era constituído de um projetor de raios infravermelhos e de uma bola de cristal azul-celeste, em cujo centro uma lâmpada minúscula havia, que dardejava seus raios. Tudo era questão de combinar as emissões, diminuindo e aumentando, como fosse necessário. Para as pessoas, nunca vi ser usado o projetor de raios infravermelhos. Tudo se apagava, exceto a lâmpada que estava no centro da bola de cristal, que devia medir uns dois metros de diâmetro. Quanto ao mais, o paciente era colocado em frente da bola, fazendo o funcionário o que lhe competia. Vi meu pai acionar aquilo várias vezes, obtendo fenômenos profundamente ilustrativos, revelações de vidas e mais vidas, acontecimentos e feitos aparentemente perdidos na poeira dos tempos. Os objetos, quase sempre, eram colocados debaixo da bola, apagando-se a lâmpada e acendendo-se o projetor. Os raios iam sobre a bola, e lá no centro começava a se fazer uma claridade, e dali partiam imagens, fossem de pessoas, de lugares, de cidades, etc. Passei pelo aparelho e reconheci-me em muitas vidas e personagens, nos mais diferentes lugares da Terra. Vi-me rico, pobre, faminto, sedento, numa visão retrospectiva que avançou pelos tempos e apresentou-me entre os selvagens da América, comprovando que não sou um espírito envelhecido ou cheio de longas experiências. Nasci e renasci, centenas de vezes, no meio dos índios menos civilizados. E um dia nasci entre brancos, mas numa terra polar, iniciando a marcha autocivilizadora. Numa das últimas vidas é que me incutiram tremenda incredulidade, mesclada dos mais repelentes costumes. Fiz-me matador profissional, enveredei pelos infernos do caráter mal formado, caindo nas trevas mais densas, por ter trevas interiores. Sufoquei a luz da centelha sob o guante negro da negação e da crueldade. Havia de, um dia, derreter o tremendo coscorão? Sim, nem é possível o contrário. Nenhum espírito será desfeito! É completamente falsa essa assertiva de uma determinada escola ocultista, ou que tem a pretensão de o ser. Como nada se fez de um golpe, nada se poderá desfazer de um salto. Apanhado nas garras da LEI, por esgotar o direito do livre-arbítrio, fui metido em lugares de alto teor punitivo, até que de novo meteram-me numa dolorosa encarnação. Depois outra, mais outra, sem a intervenção de minha vontade, pois os grandes errados são como as almas dos animais e as dos selvagens, que não têm direito de escolha. Chegou o dia de escolher, entretanto. Escolhi uma vida a par da natureza, no meio das selvas, ao sabor do meu passado, mas sem a idéia de agir mal ou recair em graves

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.