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Capítulo 11 de 13
À Guisa De Introdução — parte 10 de 12
O Pentecoste · Osvaldo Polidoro
— Alécio falou-me de certos serviços por encetar. Romilda, minha irmã, opinou: — A estas horas ele está em função na crosta. Um grupo de senhoras piedosas, e por isso mesmo bem assistidas, reúne-se todas as quintas-feiras, procurando sarar dementados, pelo menos aqueles cujo mal principal seja por atuação de infelizes irmãos. É bem provável que tenha sido ele o causador de semelhante fenômeno. Se falou em si, ou se deu o seu nome a alguém, a fim de pedir auxílio espiritual, e se esse alguém o fez com inteira vontade e ardorosa força mental, tudo faz crer na realidade do fenômeno. Todavia, é melhor consultá-lo, para melhores esclarecimentos e disposições. Caso isso se positive, deve andar prevenido, nunca permitindo que o apanhem desprevenido. — Compreendo. Mas como devo agir? Saber o que é, porque é, e gostar de servir, não significa poder executar, resolver a questão. Minha mãe interferiu: — Tudo virá a seu tempo. De modo geral, como de modo particular, nenhum valor psíquico, nenhuma virtude poderá ser conseguida repentinamente. Faz-se mister a ingerência do fator chamado maturação. Caso contrário, seria necessário intervirem o milagre e o mistério... Mas nós sabemos que disso não há na Ordem Divina, onde tudo é segundo leis fundamentais e dinâmicas, que harmoniosamente se coordenam, projetando os elementos aos gloriosos fins. Todavia, convém lembrar, esteja alerta sempre. Quem trabalha nestas esferas, nunca deve andar desprevenido. A Terra e os lugares de dor, com facilidade, atingem-nos. E se os bons aliam seus pedidos de auxílio aos impérios da Lei, por desejarem de nós algum benefício segundo a Vontade de Deus, não é menos certo que existem aqueles maldosos, esclarecidos a respeito de certas leis, que de longe nos procuram atingir com seus dardos mentais venenosos. Sabem que somos trabalhadores do bem, que lhes estamos sempre neutralizando a obra nefanda, e procuram fracionar nossas validades mentais e emotivas, diminuindo assim nossas possibilidades de êxito. Se fôssemos de melhor hierarquia, contaríamos com outros recursos. Mas, como sabe, somos trabalhadores de escala inferior, por sermos ainda involuídos e algum tanto endividados. O lugar que nos serve é este, e o serviço de que carecemos não é outro. Está tudo certo, rigorosamente certo. Repare que, quando ligados fortemente ao Cristo, somos fortes, ninguém nos impõe vontades inferiores. Um Cristo é um Cristo, é Alguém que caracteriza o poder da Lei e a força do bem em geral. É sinônimo de intensíssimo poder vibratório, de Luz Divina. Alcançar Sua escala é sintonizar com a Luz Divina, é neutralizar a treva. Fazendo ligeira pausa, para atender a um irmão que se lhe chegara para reclamar informação, a seguir completou o seu discurso: — Pessoalmente estamos longe do grau crístico. Mas mentalmente podemos atingi-lo na vastidão das gamas vibratórias. Se de nós mesmos temos pouco para dar,
não é menos certo que, como funcionários da Lei, podemos apelar para Quem a representa, neste planeta. Com o tempo, que quer dizer com exercício, há de ver o quanto é real e imediata a presença do Cristo em nossas atividades, e como nalguns casos se faz repentinamente vigente, inspirando a tomada de ação ou de não ação, conforme as disposições da Lei, ou segundo os merecimentos da pessoa visada. — Reparo que estou sendo, de pouco em pouco, muito bem instruído. Também nisto quero dizer que esteja havendo a ingerência do Cristo. Minha mãe sorriu, satisfeita, e convidou meu pai e minha irmã para determinado serviço. Eu fiquei em casa, aproveitando o tempo de folga em leitura deleitosa e instrutiva. Eu me sentia no Céu. Um Céu reduzido, proporcional ao meu grau evolutivo e de merecimento, mas na Glória do Céu! Estava ao lado dos mais queridos entes, com trabalho pela frente e cheio de possibilidades de contato com os da Terra, aqueles pedacinhos de coração que aí haviam permanecido. Que mais poderia desejar?
Minha primeira viagem à crosta não foi no rumo previsto; Alécio havia preparado campo a fim de serviço urgente, inadiável, onde o meu passado estava reflexo, e assim me explicou o desvio de tão suspirada visita e comunicação: — Não se empenhe muito em visitar os seus parentes e amigos carnais. Lembrese, antes, de ganhar alguns foros experimentais. E por que não defrontar francamente o problema das injunções emotivas? Quase sempre, Camilo, os parentes e amigos prendem em demasia os recém-desencarnados, atrofiando-lhes as melhores possibilidades. Como sabe, porque deve reconhecer em si o fenômeno, ainda paira em estado incerto, ainda vacila, sustentando um tom psicológico assaz frágil, incapaz de vencer um meio fortemente agitado para encadeamentos mentais, onde o eletromagnetismo atua coercivelmente. Naquele meio, por ora, nada poderia fazer, porquanto as emissões potentes dos encarnados o prejudicariam. Estudei o seu caso, a sua natureza ainda frágil, concluindo em que é necessário dar um pouco mais de tempo ao seu preparo. Necessita muita têmpera, muito autocontrole, a fim de não se conturbar naquele meio poderosamente atrativo, onde laços potentes o prendem. Seria perder muito tempo, ir e vir em estado confrangedor, abalar-se, abater-se, quebrantarse dolorosamente. — Reconheço o fato. Sei que irei passar, pelas primeiras vezes, por momentos confrangedores... A saudade comprime-me o coração... Estando perto, pelos anelos do mais vivo sentir, entretanto, sinto a tremenda separação! A morte é a ressurreição, sem dúvida alguma, não deixando de ser, também, a imensa incentivadora dos centros emotivos, tornando-nos intensamente sensíveis. Fico, portanto, ao inteiro dispor de sua criteriosa escolha. — Serão apenas dois serviços a prestar. Depois, verá os parentes e amigos. E o fará em boas condições de ânimo, altamente temperado para tanto. — Com apenas dois serviços? — Com apenas dois serviços, por serem dois serviços longos e cansativos. Você irá sentir a presença dos infernos em sua própria estrutura... Mas, vamos ao serviço, conscientes do Supremo Poder, em virtude do qual venceremos. Alécio foi ao encalço de cinco outros irmãos, dos quais eu a nenhum conhecia, mas em quem reconhecia muita superioridade sobre mim, assim como Alécio, que era marcadamente elevado sobre meu pai, minha mãe e minha irmã, ou sobre todos os habitantes ordinários da região. Cumpre dizer, que muitos elementos das esferas superiores têm morada em regiões inferiores, onde servem e aguardam futuros acontecimentos, bem assim como outros que, embora residindo em esferas melhores, trabalham nas inferiores e têm articulação com os seus elementos. Enfim, como se dá na crosta, onde elementos representativos de todos os graus e matizes hierárquicos se misturam e encontram, trocando valores e contribuições, assim é que se dá aqui, embora sem tanta promiscuidade e choque, pois os mal propositados aqui não se
acham. Nós os trabalhamos, os coagimos, os truncamos, como servidores da Lei e da Justiça; mas isso em seus próprios redutos, onde estão e lidam, até que se façam dignos de melhor sorte e ambiente. Nas esferas de paz, mesmo nas inferiores, embora haja nas criaturas quase tudo por fazer, em matéria de pureza e de sabedoria, não se admite, é claro, o propósito malsão. Casos há de queda, de rompimento, de fracasso; dão-se os acontecimentos julgados até impossíveis, as fragorosas derrocadas; mas, então, há queda em todos os sentidos, pois o elemento que se julga autorizado à rebeldia, aos rancores e vinganças, que, enfim, se permite assaltar e dominar pelos vulcões ou pelas chagas interiores, esse desce, barafusta celeremente pelos rincões trevosos, indo aprender com a dor o que não fez por adquirir através do amor e da sabedoria, da renúncia de suas vaidades e orgulhos, e do apego aos melhores conselhos e amparos. Aqueles cinco irmãos, portanto, eram e são servidores mais potentes do que eu. Foi em companhia deles que eu e Alécio fomos atingir certa residência onde se achava um homem acamado, magérrimo, tão branco que causava medo. — Temos que curá-lo? — perguntei. — Já foi seu irmão carnal. Esta é a sua quarta encarnação expiatória. Nas outras desencarnou pela tremenda ação de elementos malévolos, vingativos, atrozmente insanos. Contudo, como a Lei é perfeita e a Justiça completa, apenas está resgatando faltas de um passado não remoto. Por volta do século quinze, esteve encarnado na Espanha, onde aprendeu feitiçaria. Dali mudou-se para a Palestina, a fim de escapar à Inquisição. Suas articulações com o plano astral foram simplesmente infernais. E, como é concludente, faz-se necessário o ressarcimento. — E agora? Que lhe vai suceder? — Vai ser curado e vai iniciar outra fase ressarcitiva. Até aqui sofreu horrores, sem esperança e sem trabalhos eficientes. Agora vai sarar, vai trabalhar nas fileiras do Consolador, vai ter a oportunidade que você teve... E você é que o vai guiar... — Mas está quase moribundo! — Mas não é defunto nem vai sê-lo tão breve. Servirá uns vinte e cinco anos, pelo menos. Para você, Camilo, é uma ferramenta e tanto! Note bem, é uma ferramenta e tanto! — Muito bem. Considero uma graça de Deus e prometo servir com todo o amor de que seja capaz. Como deverei começar? Eu não sei como agir... — Começaremos e agiremos em conjunto. Depois, quando tudo esteja pronto, lhe entregaremos a medida e a função, os deveres e os direitos. Em cinco minutos estarão aqui alguns irmãos encarnados, a fim de prestarem serviço assistencial ao enfermo. Através deles, como verá, começaremos a dar rumo certo aos serviços. Havemos de esclarecer, confortar, fazer brotar a esperança nessa alma entrevada e nesta casa vinculada aos mais inenarráveis sofrimentos.
Naquela hora entrou para o quarto uma senhora, feita a imagem do sofrimento e da miséria. Atrás dela veio um menino, raquítico, aparentando ter uns doze anos. — Esposa e filho? — consultei. — Comparsas de crime, no passado. Agora, esposa e filho. Têm sofrido encarnações dolorosas, também. Mas, chegou-lhes a hora de melhorar alguma coisa. A irmã encarnada, pousando a mão na testa do marido, disse ao filho: — Graças a Deus! Não tem febre alguma... O rapazinho, desconfiado, atalhou: — Será que desta vez sararão mesmo o papai?... Às vezes começa bem... Num tom muito triste, balbuciou a mãe: — Onze anos de martírio... Quantas tentativas fracassadas!... O menino aparteou: — Papai sempre diz que nasceu infeliz; que jamais conheceu um tempo de paz e de saúde, um pouco de sorte. Tomara que chegue esse dia... Eu gostaria de trabalhar nalgum serviço melhor pago. A senhora não precisaria lavar tanta roupa nem aceitar essas esmolas... — Fique quieto, meu filho! Muito devemos aos que nos assistem. Roupas velhas também cobrem e comida alheia também mata a fome... Eu sei como pensa. Está ficando mocinho, quer ter o que é seu direito ter; mas, pense bem, quando você era pequenino, e seu pai piorou, muitas vezes adoeci... Gente boa trouxe de tudo... Bateram à porta, indo o menino abri-la. Um grupo de sete pessoas entrou, sendo imediatamente introduzido no quarto. Depois de algumas palavras, e enquanto a gente deste lado fez apresentações e tratou da ordem de coisas a seguir; sentaram-se os elementos do grupo ao redor do leito, iniciando suas preces. O ambiente estava ultra-saudável, iluminado e potente. Os encarnados forneciam energias a valer, porque oravam com a alma, com todo o vigor de que eram capazes. Eles, bem se via, estavam amando o próximo! Alécio falou a um dos mentores daquele grupo coeso e amoravelmente superior: — Diga, então, que dias melhores estão se avizinhando. Que Prieto vai desenvolver faculdades e que Deus é o mandatário de tudo. A seguir, faremos a primeira experiência, convidando-os a formar uma cadeia de mãos, à custa do que passaremos ao enfermo energias recuperadoras, a fim de suportar a atuação de Camilo. Aquele servidor da Lei tomou uma senhora, falou, alegrou o semblante daquela gente recalcada de sofrimentos. Quando os do grupo fizeram a cadeia de mãos,
começou a rodar, da esquerda para a direita, uma luz verde-azulada, que foi ganhando intensidade e poder, chegando a fazer vibrar todo o aposento, naquilo que eu podia ver. Ouvi a ordem de Alécio: — Suba no leito e ponha a sua mão direita sobre a cabeça do enfermo. Saí da cadeia de mãos e subi ao leito, pousando a mão direita sobre a cabeça do enfermo. Agora, envolvido por aquele teor vigoroso de energias, eu não sentia a má impressão daquele rosto cadavérico. E, aos poucos, fui sentindo penetrar algo de meu naquele corpo enfraquecidíssimo. — Ore com todo o poder de sua mente e com todo o ardor do seu coração — observou Alécio. Foi a primeira vez em que, sentindo minha fraqueza, pensei em Eugênia e recordei-lhe a doçura do olhar. Quanto mais nela pensava, quanto mais parecia penetrar na profundeza de seu luminoso e meigo olhar, tanto mais sentia-me invadir o corpo daquele homem. Cerrei os olhos, para não ver, mas continuei vendo... Isso me causou uma gloriosa impressão. Alécio, então, ordenou-me: — Fale algumas palavras. — Que palavras? Assustei-me, porque o enfermo é que falou. Compreendi, então, que estava comunicado, ligado ao homem pela sua organização mediúnica. Parei, tive medo. Não sabia o que dizer, ao certo, embora tivesse vontade de fazer alguma coisa por aquela gente infeliz. — Saúde os irmãos da carne. Diga palavras de amor e carinho — observou o servidor que estava comunicando por aquela senhora. Falei, então, como se estivesse falando de igual para igual, sentindo alguma dificuldade, uma lerdeza, um pesado embaraço. Desejei paz, prometi, segundo a Soberana Vontade de Deus, auxiliar como fosse possível. E quando a esposa daquele infeliz irmão caiu em convulsivo pranto, fui obrigado a derramar lágrimas. Dela me vinham ondas de luz roseada, porque ela estava vibrando com extrema gratidão. Fui convidado a deixar o lado de Prieto. Retirei a mão de sobre a sua cabeça e desci do leito. Ele transpirava por todos os poros e sua dedicada esposa enxugava-lhe o suor. — Hoje — disse aquele servidor — começou para vocês todos um tempo diferente. Nova ordem de coisas, novos trabalhos, mais felizes realizações. Modifiquem os seus pensamentos, melhorem as suas auras, procurem ser alegres, sadios de mente e corpo.
Fez silêncio para os encarnados, ouviu Alécio falar e a seguir advertiu: — Quando cessarem de trabalhar mediunicamente, e de modo o mais evangélico, a paz e a saúde cessarão também. Lembrem-se disto que lhes mandam dizer. Têm necessidade premente de servir. A muitos irmãozinhos servirão, e neles serão servidos. Quem não dá não recebe; e vocês outros têm muita necessidade disso. A senhora do enfermo, que se chamava Antônia, perguntou: — Não precisará tomar algum remédio? Alécio mandou dizer-lhe: — Comer bem e tomar água fluida. Que haja prece em família todas as noites, ao deitar. O restante nós faremos. Ao nos despedirmos, deixamos a alegria naquelas almas irmãs. Eu não sabia para onde iríamos. Alécio, entretanto, despedindo-se daqueles servidores que trabalhavam junto aos confrades encarnados, transportou-nos a uma região semi-escura, onde fomos deparar com alguns elementos acorrentados e metidos em calabouço. Eram rebelados terríveis, elementos muito degradados, que iniciaram berros e xingamentos, assim que nos viram. — Esses é que estavam ao lado daquele pobre irmão — disse-me Alécio. — São muito rebeldes, são infernais. — São apenas nossos irmãos menos conscientes de Deus, da Lei e da Justiça. O programa de autofazimento não lhes está no plano de cogitações. Estão cegos perante a Verdade, e, sendo assim, estão em sofrimento. O Céu quer caridade e não sacrifício, amor e inteligência, não sofrimentos... Alécio falava alto, para ser ouvido por eles. Por isso, fazendo breve pausa, prosseguiu: — Entretanto, em face da recalcitrância, faz valer a Lei. Esta gente está em fase de licença. Ao cabo de alguns dias, serão cambiados para lugar bem mais difícil de ser suportado. E assim por diante, de etapa em etapa, até chegar ao insuportável. Então, haverá o quebrantamento, o terror, o fracasso total da teima e da má propositura. Contra Deus ninguém pode lutar e vencer, porque o Seu desígnio é a glorificação total, o triunfo do amor e da sabedoria. Dali nos fomos, sem fazer deles questão alguma. — São muito endurecidos — comentei. — São bastante tolos, apenas — volveu um daqueles servidores. — Não agüentarão a metade da jornada disciplinar. Basta separá-los para que se revelem covardes. São mais orgulhosos do que valentes.
Dito isso, Alécio trasladou-nos para outro lugar, na crosta. Era um Centro Espírita e um irmão ali se achava, amarrado e caído a um canto, gemendo e lastimando a sorte. — É um deles. — disse-me Alécio, apontando-o — Vê como está diferente daqueles? Chegando-se ao gemente irmão, perguntou-lhe: — Por que não se apega a Jesus? O seu programa é paz, é liberdade nos círculos do trabalho edificante. O infeliz irmão lhe indagou: — Onde estão meus companheiros? Pausadamente, respondeu-lhe Alécio: — No âmbito da Lei e da Justiça, onde todos nos achamos, uns para gozar nos serviços de harmonia, outros para sofrer à custa de suas próprias discordâncias. Não sabe que o Reino do Céu é problema de ordem íntima? Não sabe que todos somos iguais perante as leis fundamentais? Não sabe que carreamos deveres intransferíveis? Soluçando, confessou ele: — Nada sei disso... Há quanto tempo faço outras coisas... Ele também fez as piores malvadezas... Foi terrível... Malvado... Cruel... — Cuide de si. Deixa-o, que a Lei é para com todos igual. — É tarde... É tarde... — soluçava o pobre homem, o infeliz irmão, escondendo o rosto. Alécio assegurou-lhe: — Apegue-se ao Cristo e far-lhe-emos ver como a vida é o eterno presente. Não se faça tardo, não perca tempo. Hoje teremos nesta casa reunião, mais uma oportunidade. Não se perca em choramingos, que nada resolvem e muito fazem retardar o espírito. Ficou a chorar, enquanto fomos embora. Longe dele, Alécio comentou: — Hoje à noite, será submetido ao cadinho mediúnico; depois, havemos de transferi-lo para lugar conveniente, onde irá tomando gosto pela Verdade. Saídos dali, fomos parar noutra residência, onde um espírito de padre estava agarrado a uma senhora, causando-lhe males físico-mentais, acima de tudo de ordem sexual. Ele não nos viu, enceguecido que estava, completamente entregue ao seu nefando propósito. — Também isso? — perguntei ao bondoso guia. — Até pior do que isso há. Podemos dizer que há o inimaginável.
Depois de um curto silêncio, emendou: — E não julguemos o próximo. Procuremos compreender as situações e façamos o possível para consertar algumas. Estes dois irmãos vêm errando de muitos séculos, caindo e tornando a cair, ora de um modo, ora de outro. Sempre que se reencontram, sentem uma terrível atração mútua, apegam-se e a derrocada aparece, em virtude das injunções pretéritas. Há desarranjo, neles, que começa na moral, invade as gamas etéricas mais próximas da centelha, penetra os elementos mais tênues do perispírito, domina-o por completo e atua no corpo somático, a começar dos gases, dos líquidos, impondo verdadeira corrupção patológica. É assim que, de um abalo psíquico surge um mal de ordem patológica e tristes conseqüências metabólicas. São dois pervertidos, mas agora tudo muda de figura, porque ele age no plano oculto. Devemos, portanto, intervir, porque não podem continuar assim. Além do mais, afora isso, são elementos de algum merecimento. Alécio disse o que fazer e eles foram separados. O padre, quando reconheceu a situação, caiu em si de pavor e vergonha. A irmã, apesar dos pesares, parecia sentir falta do companheiro. Não se deu por satisfeita. Dali nos fomos, entregando o padre numa casa hospitalar, em certa região bem próxima da crosta. Seriam separados por muito tempo, até se consertarem.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.