[user_registration_my_account]
Capítulo 2 de 13
À Guisa De Introdução — parte 1 de 12
O Pentecoste · Osvaldo Polidoro
RESUMO BÍBLICO DO BATISMO DE ESPÍRITO, OU IGREJA VIVA DE JESUS CRISTO PROFECIAS: “Subiste ao Alto, fizeste escrava a escravidão; tomaste dons para distribuíres aos homens, ainda aos que não acreditavam estar Deus entre eles”. — Salmos, 67, 19. “Enviarás o teu Espírito, e serão criados. E renovarás a face da Terra”. — Salmos, 103, 30. “Até que sobre nós se derrame o Espírito lá do alto, e o deserto se tornará em Carmelo, e o Carmelo será reputado como um bosque”. — Isaías, 32, 15. “Porque eu derramarei água sobre a terra sequiosa, e rios sobre a seca; derramarei o meu Espírito sobre a tua posteridade, e a minha bênção sobre a tua descendência”. — Isaías, 44, 3. “E eu lhes darei um mesmo coração, e derramarei em suas entranhas um novo Espírito, e tirarei da sua carne o coração de pedra, e dar-lhes-ei um coração de carne”. — Ezequiel, 11, 19. “E porei o meu Espírito no meio de vós, e farei que vós andeis nos meus preceitos, e que guardeis as minhas ordenanças e que as pratiqueis”. — Ezequiel, 36, 27. “Eu derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, e os vossos velhos serão instruídos por sonhos, e os vossos mancebos terão visões”. — Joel, 2, 28. FUNÇÃO MISSIONÁRIA DE JESUS CRISTO:
“... ele vos batizará no Espírito Santo e em fogo”. — Mateus, 3, 11. “Mas o Consolador, que é o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito”. — João, 14, 26. “... porque se eu não for, não virá a vós o Consolador; mas se for, enviar-vo-lo-ei”. — João, 16, 7. O CUMPRIMENTO DA PROMESSA: “Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e me sereis testemunhas em Jerusalém, e em toda a Judéia e Samaria, e até as extremidades da Terra”. — Atos, 1, 8. “E foram todos cheios do Espírito Santo, e começaram a falar em várias línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem”. — Atos, 2, 4. A VIGÊNCIA DA IGREJA VIVA: “... e recebereis o dom do Espírito Santo, porque para vós é a promessa, e para vossos filhos, e para todos os que estão longe, quantos chamar a si o Senhor nosso Deus”. — Atos, 2, 38 e 39. “E tendo eles assim orado, tremeu o lugar onde estavam congregados, e foram todos cheios do Espírito Santo, e anunciavam a palavra de Deus confiadamente”. — Atos, 4, 31. “... para que recobres a vista e fiques cheio do Espírito Santo”. — Atos, 9, 17. “Estando Pedro ainda proferindo estas palavras, desceu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra”. — Atos, 10, 44.
“E como eu tivesse começado a falar, desceu o Espírito Santo sobre eles, assim como também tinha descido sobre nós no princípio...” — Atos, 11, 15. “Entretanto estavam os discípulos cheios de gozo e do Espírito Santo”. — Atos, 13, 52. “E havendo-lhes Paulo imposto as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo, e falaram em diversas línguas, e profetizaram”. — Atos, 19, 6. “Senão que o Espírito Santo me assegura por todas as cidades, dizendo que me esperam em Jerusalém prisões e tribulações”. — Atos, 20, 23. “... a caridade de Deus está derramada em nossos corações, pelo Espírito Santo que nos foi dado”. — Romanos, 5, 5. “Por eficácia de sinais e de prodígios, em virtude do Espírito Santo, de maneira que, desde Jerusalém e terras comarcãs até ao Ilírico, tenho enchido tudo do Evangelho de Cristo”. — Romanos, 15, 19. AS NOVE MANIFESTAÇÕES FUNDAMENTAIS: “E a cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito. Porque a um é dada pelo Espírito a ciência, a outro a sabedoria, a outro a fé, a outro a graça de curar as doenças, a outro a profecia, a outro o discernimento dos espíritos, a outro a variedade de línguas, e a outro a interpretação das palavras”. — Primeira Epístola aos Coríntios, cap. 12, em resumo. ASSIM FAZIAM OS PRIMEIROS CRISTÃOS AS SUAS REUNIÕES: “E assim as línguas são para sinal, não aos fiéis, mas aos infiéis; porém as profecias, não aos infiéis, mas aos fiéis. Se pois toda a igreja se congregar em um corpo, todos falarem línguas diversas, e entrarem então incrédulos, ou infiéis, não dirão porventura que estais loucos?
Porém se profetizarem todos, e entrar ali um infiel, ou incrédulo, de todos é convencido, de todos é julgado. As coisas ocultas do seu coração se fazem manifestas, e, assim, prostrado com a face em terra, adorará a Deus, declarando que Deus verdadeiramente está entre vós. Pois que haveis de fazer, irmãos? Quando vos congregais, se cada um de vós tem o dom de compor salmos, tem o de doutrina, tem o de revelação, tem o de línguas, tem o de as interpretar, faça-se tudo isto para edificação. Ou se alguns têm o dom de línguas, não falem senão dois, ou quando muito três, e um depois do outro, e haja algum que interprete o que eles disserem. E se não houver intérprete, estejam calados na igreja, e não falem senão consigo e com Deus. Pelo que toca porém aos profetas, falem também só dois, ou três, e os mais julguem o que ouvirem. E se neste tempo for feita qualquer revelação a algum outro, dos que se acham assentados, cale-se o que falava primeiro, porque vós podeis profetizar todos, um depois do outro, para assim aprenderem todos...” — Primeira Epístola aos Coríntios, cap. 14. *** Temos aí citados, aqueles textos bíblicos que falam diretamente à inteligência de cada um. Notificamos, entretanto, que somam para cima de setenta os textos que versam a respeito do Espírito Santo, sendo que todos se referem à Revelação, ao intercâmbio entre os dois planos da vida. A Série do Céu, constituída de mais de quarenta narrativas, comporta elementos informativos da mais variada ordem, pois os indivíduos que falam e tomam parte na mesma, quase todos, foram vultos que viveram os acontecimentos bíblicos, ou tomaram parte na fase restauradora, intervindo na obra grandiosa que culminou na Codificação, feito maravilhoso, porque exclusivamente destinado a orientar o novo surto mediúnico, surto que, por sua vez, não só teve por função neutralizar a obra nefasta do positivismo, como ainda preparar a Humanidade em face da nova Era, do futuro ciclo evolutivo. Este livro, parte que é da Série, escalona em seu curso de narrativa, referências que remontam à Sabedoria Antiga, obrigando a compreender esta verdade — todos os Grandes Reveladores foram grandes médiuns, ou grandes filtros da Verdade, constituindo o Espiritismo a súmula histórico-fenomênica da caudal revelacionista, desse glorioso instrumento que, desde os mais remotos tempos, tem transmitido à Humanidade as lições necessárias. Em face da grandiosidade religiosa que o livro encerra, por conter verdades às quais Jesus Cristo se acha diretamente ligado, fiz empenho em buscar os textos e as explicações, considerando graça de Deus ter podido contribuir com este humílimo esforço doutrinário, a fim de apresentar o livro, livro que, a meu ver, a todos distribuirá
um pouquinho de suave carícia espiritual, além de remeter o leitor ao glorioso fenômeno do Pentecoste, ponto culminante da função missionária de Jesus Cristo. M.E.B.
Que pode representar uma centelha, ainda em grau inferior de evolução, que significa inconsciência das origens e das finalidades, no concerto do remoinho cosmogônico e das movimentações anímicas? Qual o valor do Universo, para o espírito destituído de consciência íntima? Conseqüentemente, que importância teria a questão DETERMINISMO E LIVRE-ARBÍTRIO, para quem assim tão longe estivesse desse conhecimento? No entanto, como se vem subindo lentamente, muito lentamente, das camadas inferiores, eis que somos obrigados a enfrentar a inderrogável trilha, concebendo ou não, desejando ou não conceber. Das profundezas ordena o PODER SUPREMO, a DIVINA ESSÊNCIA ou Deus, e tudo se movimenta, com ou sem consciência, no rumo de um topo culminante. Consideremos que muito se há dito sobre a Terra, contra um Deus, contra as mais e as menos aceitáveis hipóteses sobre Deus. E quanto se falará ainda, contra e a favor? O pior, convenhamos, não consiste no falar apenas, mas sim no realizar de modo contrário à ORDEM DIVINA. Porque, consideremos, uma vez concebida a existência de uma ENTIDADE BÁSICA, ponto de partida de tudo e de todos, há que se lobrigar uma ORDEM a obedecer, caindo em falta, e conseqüentemente em punição, o faltoso. Para não termos a criatura como simples autômato, atendamos à Lei de relativa liberdade, assim como o passarinho é livre no âmbito da gaiola... Faz o que pensa e deseja, mas no limite das fronteiras. E teremos, assim, o Emanador, a Emanação, a Lei Geral e a Liberdade Relativa. O mais que haja, não passa de elementos inerentes e conseqüentes, aquilo que constitui o rol das necessidades circunstanciais, mera questão mesológica-ecológica. Está visto que, lançando Deus de Si a centelha, em estado de pura simplicidade, mas com os valores em potencial, para serem desabrochados, autodesdobrados, deve conferir-lhe ambientes e meios, recursos e possibilidades para o fazer. E teremos, então, o espírito entregue ao remoinho das vidas e dos mundos, do jogo das obras e de suas responsabilidades, bitolado entre o SUPREMO DETERMINISMO e o RELATIVO LIVRE-ARBÍTRIO. Em verdade, entendamos bem, reside nisto a grande questão a solucionar. Ai de quem vier a transgredir as linhas demarcantes, a bitolagem, quando se trate de ferir a ORDEM, aquela disciplina que autoriza e sustenta a vigência da HARMONIA. Porque, realmente, ninguém pode ferir frontal e diretamente a HARMONIA; só poderá fazê-lo através da ORDEM, indispondo-se com a LEI. Favoravelmente, tudo é recomendado; ninguém sofre por realizar o quanto possa no rumo da HARMONIA. Mas, também, nunca poderá fazê-lo sem ser através da LEI. A LEI é, em tudo, fiel da balança. Pelas nossas obras, ou realizações, através da LEI erigimos em nós mesmos o Reino do Céu ou o império das trevas.
Fica dito, também, que agora eu sei e entendo um pouco dessas Verdades Imutáveis e de fundamental necessidade para as criaturas. Ninguém poderá jamais ser um espírito forte, bom servidor e fruente da PAZ, no REINO DA HARMONIA, sem ter conhecimento dessas Verdades. Lembremo-nos desta regra — a simplicidade ignorante confere PAZ, mas não torna o espírito forte. Um espírito bom, mas ignorante, pode ser de paz, mas não pode ser forte. Aliando à paz o conhecimento, então teremos o espírito forte, aumentado em valores íntimos. Tratemos, portanto, de cultivar a bondade, mas não percamos uma só oportunidade de aprendizado. Verdadeiramente, ninguém tem o direito de perder a mais insignificante oportunidade emancipadora, seja em que sentido for. Isso constitui um grave erro, um autocrime.
Já mencionei o fato de ter compreendido as coisas assim, de uns tempos a esta parte; é que, a falar verdade, andei mergulhado nas ensanchas da revelia ao bom senso, que indica sintonizar com a LEI, a fim de ser feliz. Eu achava que tinha o meu direito de opinião, e opinião rebelde, por sofrer umas tantas coisas, das quais julgava serem responsáveis o Emanador e a confraria criada, menos eu. Como esta questão de nascer e morrer, morrer e nascer, é ponto discutível aos espíritos ignorantes, mas não o é para Deus e os espíritos conscientes, enquanto havia em mim rebeldia e atraso, e rebaixamentos contínuos, essa lei tinha o seu andamento, o seu curso normal, a sua eficiência. Depois de muito resmungar, e apresentar razões a meu crivo, para negar o que por si é inegável, fui obrigado a deixar de resmungar, e a não apresentar minhas razões como ponto final. Eu estava, nesse tempo, removendo pedras numa prisão, como condenado. Todos os dias, se não quisesse apanhar muito, devia transportar pedras de um lado para outro, pedras que deviam ser quebradas, por outros prisioneiros, a fim de servirem ao conserto de ruas da região, uma das tristes regiões que conheço, uma várzea imensa, onde só existe terra preta e muita água minando por toda parte, sempre a perturbar a vida de seus habitantes. Assim sendo, as pedras vinham de muito longe, em carros próprios, e ali na prisão eram por nós quebradas. Ao cabo de tudo, para encurtar a conversa, todos ali eram rebeldes, em maior ou em menor grau, e o trabalho tinha por fim doutrinar, disciplinando. Em resumo, apenas isso. Depois de vários anos ali, discutindo sempre, negando Deus e fazendo questão de ignorar leis, mas sem jamais poder vencer aquela circunstância punitiva, fui enviado a outro lugar. Chegou-se a mim um guarda, dizendo: — 63, querem-no na sala do diretor. Vá depressa, vamos. Correndo, sim! Todos ali eram chamados pelo número e tudo se fazia entre depressa e correndo. Podia-se dizer contra Deus o que bem se entendesse, esposar qualquer filosofia, conquanto pacífica; caso contrário, pretendendo avançar aos atos de rebeldia, então as coisas mudavam de figura — havia reclusões e castigos físicos. Enquanto a teoria era conservada pacífica, tudo ia bem, embora ninguém pudesse escapar aos trabalhos e às obrigações disciplinares. Quantas vezes se discutiu, acaloradamente, o princípio das liberdades completas, estando debaixo da mais intensa ordem disciplinar e produtiva, com guardas truculentos ali ao pé, ouvindo com atenção os arrazoados e as teimas. Eu, o 63, ouvindo aquilo, fui depressa à sala do diretor. Ele, fitando-me com atenção, disse-me: — 63! Chegou sua hora de partir... Felicidades... Tudo enxuto, seco desse jeito, sem mais nada. Veio um guarda, apanhou-me pelo braço, deu-me uma sacudidela e levou-me. Subimos num daqueles carros de
transportar pedras e partimos, levando eu na mente as melhores cogitações, embora sem saber dos trâmites e das finalidades. Quando a zona dos brejos passou, demos com a zona serrana, mas zona seca, árida, onde tudo era mirrado, poeirento, sofrível. — Vai ficar aqui — disse-me o guarda. — Eu preferia ficar lá mesmo; isto é muito seco, muito feio, muito... Fez um meneio negativo de cabeça e disse, meio a tom de remedo: — E quem disse o contrário, coitadinho? Até os tolinhos podem pensar da mesma forma. Ficar por lá!... Até eu havia de preferir!... — Então, por que me trazem para este lugar, se lá é melhor? Estou adivinhando... Vou ter que encher os carros de pedras!... Pedras enormes!... Sinto que as coisas vão piorar... Gargalhou fartamente o guarda, fazendo chacota: — Pobrezinho! Já adivinha... Vai carregar pedras muito grandes... Veio um outro, armado de chibata, barbudo e rústico, bradando: — Toca! Toca!... Não perca tempo, vamos! Ou quer começar levando umas... Corri para o meio dos outros e comecei a sentir a piora. Quebrar pedras, com um bom martelo, é muito melhor do que transportar pedras grandes, colocá-las num carro, e, sempre, recomeçar a mesma faina, até ficar noite, para ser recolhido e, no dia seguinte, querendo ou não, recomeçar a mesma tarefa infernal. Que havia de fazer, entretanto? Um dia, achei que devia inquirir alguém, indagando ao guarda: — Poderia falar ao diretor? — Depende. — Depende dele ou de mim? — De ambos, é claro, pois cada qual está no seu papel. — Muito bem, disso estou certo. Do contrário, como ficaria ele no meu lugar? — Cada qual tem o que faz por ter. O que tem é seu. — Eu queria coisa um pouco melhor... — Até eu, 63. Eu também gostaria de ter um pouco mais de liberdade... Garanto que vocês falariam bem menos! Isto havia de cantar nas vossas costas... Comecei a tremer e saí de perto dele, pois pareceu-me ver chispas de fogo a lhe saírem dos olhos esbugalhados, vidrados. Fui carregar pedras, muito contente, por me
haver furtado a uma surra, nas garras de um homem dobrado, terrível, com ares de sádico. Carregar pedras grandes era muito melhor do que apanhar uma grande surra, sem dúvida. Passaram-se quase dois anos, passando também a vontade de criticar a LEI de um Deus que sempre fora negado. Comecei a sentir fraqueza, muita fraqueza, até o dia em que caí doente, quase sem poder respirar. Acordei num leito de hospital. Quem veio a mim, disse-me: — Trate de melhorar depressa. Faltam carregadores de pedra. Fraco, muito fraco, interpelei-o: — De pedra?!... — Claro! Quereria carregar a montanha de uma vez? — Não. Eu queria, eu daria preferência a quebrar pedras... Estou fraco. — Os estúpidos são sempre fracos, não sabe? — Eu?... — Você é um, compreende? Existem estúpidos de outras marcas e espécies. Mas a Justiça Divina sabe como tratar de todos. Eu, por exemplo... — Escute, escute... Como estou fraco!... Escute... Virou-me as costas, foi andando e dizendo: — Escutar o quê? Não adianta, não adianta. Era a primeira vez que me falavam em Justiça Divina, desde a minha ida para aquele lugar. E se eu era contra a idéia de Deus, já não era contra o terror que nutria por aquilo tudo. Seria capaz até de crer em Deus, para sair dali e não mais ver gente daquela espécie, nem jamais saber de brejos e de montanhas secas, poeirentas, quentes e enfermiças. Que viesse um Deus, uma LEI, qualquer coisa capaz de liquidar com toda aquela amargura, pois o homem, por sua miséria íntima, é capaz de viver bem sem o TODO, de onde tudo emana e promana, mas não é capaz de viver sem o mínimo. Miserável de espírito, eu não queria glórias e farturas; eu almejava um pouco de miséria!... Os estúpidos não querem o lugar dos homens, mas preferem o dos cães!... Eu, portanto, não desejava as glórias destinadas aos espíritos emancipados; pedia os restos, as migalhas, a treva suportável... Dormi e sonhei com minha filhinha. Eu tinha uma filhinha. Minha esposa morrera com o seu nascimento. Ela era tudo para mim. De incrédulo que era, com aquilo me fiz rebelde, blasfemo, descendo a mais não poder na ordem dos pensamentos e dos sentimentos revoltantes. Minha filhinha, no sonho, dizia-me:
— Paizinho! Paizinho! Por que o senhor é contra Deus? Por quê? Não vê que o Infinito é sem o conselho dos homens? Volte-se para Deus! Não perca tempo, não perca tempo!... Acordei assustado, tremendo, gemendo, chorando. Aliava-se o pavor ao meu sentimento de saudade por ela. Há quanto tempo não a via? Um ano? Dois anos? Três anos?... Quantos?... Vieram socorrer-me. Contei o caso, o sonho. O enfermeiro disse-me: — Pois é, 63, você morreu há muito tempo... É isso. Não existindo a morte, devia prosseguir vivendo e tendo alguma coisa para fazer. Tem quebrado pedras, carregado pedras, adoecido. Veja lá se dá jeito na vida, 63, que sem Deus é impossível viver... Isto é, não se pode viver bem. Porque a vida, em si, é eterna! — Eu morri?!... E minha filhinha?!... — Sua mãe tem cuidado da criança. Não se assuste, Deus sabe o que faz. Trate de si, do seu caso. — Eu queria ensiná-la, dar-lhe tudo, tudo!... — Ensiná-la a negar? A ser infiel para com Deus? A ser bruta? Ela é um espírito melhor, não devia correr esse risco, compreende? Faz jus a melhores ensinos. — Deus andou metido nisso? O enfermeiro, com ar piedoso, resmungou: — Como é bruto, meu Deus!... Vou-me embora... Pense bem, 63... Ele se foi e eu fiquei meditando, curtindo penares. Quando voltou, horas depois, indaguei-lhe: — Que faria você, se estivesse no meu lugar? Abanou a cabeça e perguntou-me: — Que faria Jesus, no meu lugar? — Francamente, não sei. Que faria Jesus?... Mas Jesus foi muito grande, se de fato há um Deus... Se não há, foi um tolo a mais... Mas se há... Ele sorriu e disse: — Eu garanto que há tolos. Mas devem ser outros, não os da marca de Jesus. Compreendi e confessei: — Então foi muito grande!... Muito grande!...
O enfermeiro foi andando, foi saindo, embora eu o chamasse. Fiquei muito triste, mas fiquei meditando, meditando, com muita ânsia de choro. Sentia-me doído.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.