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Capítulo 10 de 13
À Guisa De Introdução — parte 9 de 12
O Pentecoste · Osvaldo Polidoro
Sem dúvida que se pode encarar todo e qualquer problema pelo menos por dois ângulos — o geral e o particular. Fazendo-o pelo prisma da universalidade ou geral, consegue-se manter o equilíbrio mental-emocional, consegue-se a sustentação de um tom psicológico favorável. Mas, quando o assunto é simplesmente íntimo, ou de ordem toda individual, o mundo interior sofre abalos tremendos, convulsiona-se, sobe aos píncaros da comoção. Não é possível encará-lo universalmente, pelo menos eu o sinto assim, eu que ainda sou de pouca evolução, eu que faço reviver as cenas, eu que obrigo meus nervos de espírito a choques tremendos. Todavia, como a consciência do erro se me foi penetrando, dominando, fiz absoluta questão de ler, de pôr minha estrutura geral em prova. Eu ainda durmo e ainda sonho. Não pertenço ainda ao número e rol dos que vivem a vida plena. E por essa razão, enquanto durou a leitura, vivi sobressaltado e cheio de sonhos horríveis. Eu não podia ter cometido grandes crimes, espírito primitivo que era e sou. O grande mal sempre residiu na descrença e nos abusos animais em geral. Se a fé obra maravilhas, como fator que é de acionamento positivo; se o domínio dos instintos importa em vitórias psíquicas; se é assim, que bem sabemos o é, eu fiz tudo pelo avesso, até à última passagem pela carne, quando trabalhei na seara do Consolador, resgatando faltas e amealhando valiosíssimas amizades. Sem falar das vantagens do conhecimento superior, mas apenas para tratar do mais necessário dos atributos, que é de ordem moral, devo recomendar o que posso e sei — faça, cada qual, tudo quanto lhe esteja ao alcance em matéria de fé e de poupanças instintivas inferiores. Eu sei que ninguém é obrigado a dar o que ainda não tem. Eu sei que desejar é uma coisa e poder realizar é outra. Não peço, portanto, aquilo que nem Deus pede; mas concito ao melhor domínio das paixões inferiores, além de afirmar as vantagens da fé, do moto sintonizante. A fé viva, atuante em grau superior, bem assim como o domínio das paixões inferiores, são o produto das longas jornadas, são os efeitos da maturidade psíquica. Ter essas comendas do espírito, sem enfrentar a fermentação biológica, isso é impossível! Nós, no entanto, falamos a linguagem de ordem relativa, pessoal, simples e imediatamente ao alcance da inteligência e das possibilidades. Não fosse para isso, quem nos convocaria para estas confabulações? Teríamos algum proveito, revelando nossos erros, expondo nossas fraquezas, se tudo isto não estivesse no programa instrutivo da confraria humana? Não para o meu, mas para o seu governo, remeto-os ao verso treze, do capítulo dezesseis, do Evangelho de Jesus, segundo João, o Evangelista. Embora servos de última hora, e sem melhores méritos, estamos servindo Aquele mesmo Divino Mestre. Damos pouco, mas damos tudo de alma aberta. Fazemos encarar um Céu ainda pobre em vigores divinais, e apontamos com justeza os infernos procelosos, tudo consoante a medida ordenada. A Terra pouco oferece, ainda, em matéria de subidos exemplares espirituais. Sem ser alguns vultos missionários, a
maioria paira nos albores hierárquicos, nos primeiros graus da escala hominal, onde se patenteiam fortemente os instintos inferiores, onde o homem vegetativo pode mais do que o homem espiritual. Nada há que estranhar, portanto, no fato de virmos nós tratar dos panoramas erráticos, em lugar daqueles que, sendo mais vividos, poderiam dizer de mundos melhores, de esferas mais avançadas. O Plano Diretor sabe o que faz. De que valeria tratar de opulentas glórias, junto a quem não pode realizá-las de um golpe? Assim agindo, o Céu faz-se compreensivo e ao alcance de todos. E se alguém revela, em seus pensares, tendências a pretensões mais elevadas, esteja certo esse alguém, não estar aqui elemento prejudicial algum, oposição qualquer, para os seus esforços conquistadores. Faça a renovação interior de ordem intelecto-moral, projete-se às obras crísticas, lavre em seu íntimo a consumação ideal. Nós ficaremos na estacada, prontos a bendizer, louvar e respeitar a grande conquista. Apenas, como experimentados na tarimba das faltas por presunção, avisamos sobre os perigos do exercício autolisonjeiro. Tanto quanto se pode errar por negação, pode-se também errar por excesso de otimismo. Já assinalamos, no início, com letras maiúsculas, como agem as Virtudes Básicas — sem preferências e sem prevenções de ordem particular! Não seja, pois, criatura alguma, nem quente nem fria em extremo, procurando manter o equilíbrio, o meio-termo, por constituir a chave dos melhores êxitos. Repetimos — precipitações e extremismos valem como provas de ignorância das leis fundamentais e dos recursos normais. Quando o espírito é de formação psicológica normal, equilibrada, o meio-termo oferece-lhe elementos de função evolutiva, também simples, também normal. Ao espírito embotado, encruado, petrificado ou dogmatizado, faz-se mister o choque, a dor, porque só a violência o demoverá, o fá-lo-á avançar. Este é o que sofre por estupidez, sendo aquele mesmo que, por estupidez, a seguir bajula a dor! Nem se poderia querer mais, é claro, de quem, por recalcitrância no erro, desprezando as vantagens divinais do Amor e da Sabedoria, encravou-se na involução, estatelou-se na cristalização, vindo mais tarde a sofrer as conseqüências de tamanhos absurdos. Pela boca excelsa de Jesus Cristo, o Céu pede, como instrumento de ingresso, apenas isto — Amor e Ciência. Aquele mesmo Divino Mestre que proclamou a necessidade imperiosa de amar a Deus com toda a força do coração, e de toda a inteligência, bradou também aos homens de todos os tempos, que o Céu não quer sacrifícios e sim caridade. É muito natural que não consideramos, aqui, aqueles que valorizam em excesso alguns sofrimentos, fazendo alardeamentos pernósticos, ao mesmo tempo que desprezam e se esquecem dos múltiplos gozos da vida, das inúmeras horas de paz e de alegrias sadias, de todas as ofertas que lhes fazem, de todas as oportunidades que Deus, o Cristo e os irmãos lhes preparam. Sem dúvida alguma, ninguém deve atender aos manejos doentios de tais cassandras agourentas, de espíritos assim traumatizados,
que, enquanto se pretendem muito evoluídos, nada mais fazem do que choramingar honras e piedades, eles mesmos se apresentando como vítimas do mundo. O que fazem, o que dizem, o que escrevem, dão mostras do que são e valem. Quando muito, apresentam teorias rebuscadas, dão-lhes a seu modo interpretações ungidas de misticismos doentios, e pretendem-se ultramissionários, anjos entre demônios, e demônios que só deixariam de ser ao lhes ouvirem as lamúrias, ao lhes comprarem os livros, ao lhes dobrarem o próprio espinhaço. Há que contar, também, com aqueles que começando bem terminam mal, por se julgarem mestres e não servos da Verdade. Tornam-se pernósticos, contraditórios, repetidiços, maldizentes. Quase sempre apelam aos rebuscamentos científicos, enquanto falam mal da ciência, numa demonstração patente de muita vaidade e pouca espiritualidade. Jamais movimento algum se viu dispensado de tais espécimes.
Depois de ler com atenção o meu próprio relatório, e de me compenetrar de todos os valores e desvalores acumulados, passei uns dias, ainda, em franca vilegiatura. Fiz, por entre aquelas serras e aqueles vales, os meus primeiros ensaios individuais de volição. Por mais que pareça tudo muito simples, porque afinal se constitui o fenômeno de acionar pela vontade o poder e a autoridade para executá-lo, a verdade é que há necessidade premente de muito controle sobre a mente e a disposição realizadora. É preciso distinguir entre o pensamento passivo e a vontade determinadora, para imaginar à vontade, sem acionar o poder volitivo, sem embaralhar a mente e a força locomotora, criando um estado de temor e de inação. Com o tempo, entretanto, tudo se faz sem o mínimo emprego de preocupações, e com a máxima presteza e satisfação. É como se faz com a luz própria, que deve ser controlada, e cujo controle se aprende a fazer e aplicar com o tempo. Outrotanto se passa com a faculdade sonora ou musical. Para chegar a produzir boa música, pela emissão de vibrações ondulatórias, faz-se mister conhecer alguma ou muita coisa em matéria de música, bem assim como aprender a técnica do uso emissivo. Entretanto, como já foi dito, temos de tudo em matéria de preparativos. Os que possuem aptidões e querem cursar, desde que estejam em situação favorável e apresentem condições e proposituras concordantes, podem fazê-lo. É de salientar, entretanto, que, não fazendo a morte milagre algum, como nem a vida o faz, também aqui não sobram os gênios. Os que estão altamente situados, galgaram tais alturas trabalhando, burilando suas tendências, seus pendores. Para todos os efeitos é assim, na Terra, aqui ou onde quer que seja. Em tudo e para tudo há que contar com o fazimento próprio. Quem não se desdobra, quem não desabrocha os valores intrínsecos, é como quem tem tudo e ao mesmo tempo nada tem. Depois de algum tempo, quando estava bem traquejado no uso de alguns poderes, fui visitado pela irmã Eugênia, aquela que me visitara no hospital e com tanto carinho maternal me tratara. Era sempre a mesma, cândida, meiga, radiante, em si a expressão de algo mais sublime do que o comum. Ela era mais e melhor do que os demais habitantes da região que até então eu conhecia. — Tenho, Camilo, grande necessidade de sua influência — disse, como quem só tem de direito pedir, nada mais. Estranhei: — A mim, pede a senhora, que sou a expressão dos débitos, que me sinto distante de sua posição hierárquica todo um infinito? Olhando-me com aquela maternal ternura, avançou: — Entretanto, estamos irmanados em muitas faltas e nalguns méritos. Não fosse assim, eu bateria em outra porta, pois reconheço que ainda tem direitos a valer, em matéria de aprendizados e descansos. Eu sei que é cedo... Mas, alguém há que pode ser feliz, contando com o seu beneplácito...
— Eu, senhora, conto com essas validades? Onde? Como? — Na Terra. Entre amigos encarnados. Lá também está alguém a quem muito devemos, isto é, eu devo, mas você também deve, de algum modo... Querendo confortá-la, intervim: — Bem, toda a Humanidade ainda deve alguma coisa... Pelo menos a inferior. E se estiver em mim poder servir, conte comigo, que terei muito prazer em servir. Ela sorriu, levantou-se, galgou uma certa altura, fez-se um foco de luz intensa e nunca mais me apareceu. Relatando eu o acontecido aos meus parentes, e depois a Alécio, disseram-me ser ela um agente de plano muito superior, que com essas manifestações concita ao trabalho fraterno, fazendo compreender que a intervenção do Plano Diretor é um fato, na vida de todos aqueles que já puderam sentir o amor do próximo. Depois disso, lembrando a imensa candura expressa em seu semblante, e principalmente irradiante de seus olhos, compreendi que ela, de fato, devia trazer ou constituir uma mensagem do Senhor. Desde então, nos momentos de alta tensão, nas horas de expectação dolorosa, por me achar em luta contra os beleguins do mal, ou quando sinto que os meus recursos amoráveis não bastam para fazer o devido bem, é a ela que me dirijo, invocando aquele amor imenso, que dela se irradiava, e que eu ainda não possuo. — Quem será aquele alguém de que ela falou? — perguntei ao bondoso guia. Alécio explicou-me: — Todos aqueles que contam com os nossos serviços de amor. A Humanidade. — Mas ela referiu-se à Terra. A alguém que se acha na Terra. — Significou a sua incumbência. Deve trabalhar nos círculos do Consolador. — Tanto melhor. Já tenho alguma prática. — Então, Camilo, quando quiser começar é só falar. — Só falar? — Sim, só falar. Ainda ontem, falando aos amigos da Terra, durante os trabalhos, tive que falar a seu respeito. Querem a sua presença entre os serviçais do nosso plano. Neste lado da vida, sabei-o, é muito difícil receber uma demonstração de amizade, sem que os centros emotivos não se comovam em extremo. Com os olhos rasos, prometi: — Está falado, Alécio. Aquela gente merece o que possa oferecer e muito mais. Na primeira ida, também farei a minha parte, assim como a minha pobreza espiritual mo permitir.
Abraçando-me, segredou-me o bom guia e amigo: — Quanto você é sublime, quando se tem na conta do que é! Mal andaria, se aquele estado psico-mental avançasse para estes lados. Lembrei-me daqueles pensamentos que urdia nos últimos dias de minha peregrinação carnal, quando me julgava um semiCristo. Envergonhado, pedi as devidas desculpas, pelo que me respondeu ele: — Lutaríamos a valer, para recuperá-lo, caso isso acontecesse. Julga, então, que iríamos perder, assim à toa, um trabalhador como você? Vá lá que as trevas tenham os seus soldados, aqueles nossos infelizes irmãos, que ainda não se convenceram do poder da Verdade; vá lá que ela arme os seus laços e procure prender alguns elementos. Mas nós lutamos, e sempre vencemos, quando se trata de algum irmão, de algum trabalhador de fato amoroso, que emprega tempo e recursos na obra de assistência aos órfãos e aos necessitados em geral. Porque, de tudo quanto se faz, a título de ação confraternizadora, o mais importante é aquilo que se faz pelos que nada possuem nem podem devolver. Você foi, de fato, atingido pelas mentalizações de alguns inimigos do Cristo. Como o seu passado favorecia a intromissão de tais idéias, cedeu algum tanto, chegando a nos causar espanto, pelo que pedimos a sua desencarnação imediata. Assim que de mais alto veio a ordem, fizemo-lo deixar a carne. Mas, também nisso há o mérito de suas obras, o trabalho levado a cabo pelos deserdados do mundo. — Que hei de fazer? Como vos posso agradecer? — Nós não queremos agradecimentos; auguramos o prosseguimento da obra. Lembre-se de Eugênia e faça o quanto lhe esteja ao alcance. Nada mais. O Céu, de fato, quer caridade e não sacrifício. — Já vo-lo disse; aqui estou, pronto a servir, como possa. Ao despedir-se, deixou combinado: — Amanhã estará em ação. Virei buscá-lo. Em casa, quando relatei isso, muito se alegraram. Minha irmã, comentando, fezme referência elogiosa: — Você, quando se dá a ser simples e trabalhador, pode muito. Estranhando um pouco, atalhei: — Mas, afinal, ser simples e trabalhador não é a medida mais fácil de se pôr em prática? Ela tornou, fazendo um gesto significativo: — Parece que é. Vá visitar a Humanidade e constate por si mesmo. Passe, também, uma vista de olhos pelas zonas trevosas. São milhões de seres infernados, dolorosamente infernados, só porque acham que não convém ser simples nem trabalhar
na Seara do Mestre, que quer dizer no Plano da Lei. Empregam os produtos da evolução, os recursos da inteligência, os melhores esforços de que são capazes, tudo para mal, tudo para mais se entrevarem. É assim, queiramos ou não. Por isso, apesar de ser fácil agir bem, é bastante grato saber de quem gosta de sê-lo, de quem procura cimentar em obras edificantes a função de viver. Não sei por que motivo, naquela hora, sem que eu o desejasse, do mais íntimo de mim aflorou um estado conturbante, aflitivo, fazendo-me sofrer rememorações dolorosas; eu vi, dentro de mim, as imagens vivas e pungentes daqueles dias de negror, daquelas vidas criminosas. Francamente, parece que o inferno estava brotando no meu imo, como brotam na época certa as plantas, observando o trâmite das leis, o determinismo das forças telúricas. — Que tem? — indagou-me ela, apreensiva. — Não sei ao certo. Tremenda crueza me surte do íntimo. Que amargor! Meu pai veio, aconselhando: — Não pense em questões menos interessantes, meu filho. O pensamento, aqui, aciona velozmente o campo eletromagnético, e provoca ação imediata, precipitada, na razão direta. Deve pensar no que é bom, saudável, feliz... — Eu sei, papai. Mas eu não quis pensar de outro modo. Aconteceu sem o beneplácito de minha vontade. Não sei de onde surgiu tanta amargura... É um afogamento... Chegou-se minha mãe, concitando: — Firme o seu pensamento em Jesus Cristo; Ele representa, na vastidão das gamas inteligentes e curativas, tudo o que há de melhor na Terra, em matéria vibratória. Procure, pela concentração poderosa, entrar em contato com as Suas ondulações... Qualquer rajada potente passou por mim, fez-me perder os sentidos, embora por alguns segundos. A seguir, volvendo a mim, senti-me outro, como se tivesse passado por vigorosa ducha eletrizada. — Que terá sido isso? — interpelei. Fazendo um gesto de dúvida, ventilou meu pai: — Talvez algum pedido... Alguém, lá da Terra, ou dalguma zona inferior, pensou em si com todo o vigor possível. Nós estamos muito próximos da crosta e muito mais próximos ainda de certas zonas ensombradas. Quando os pensamentos repousam em virtuosos propósitos, em rogos felizes, em desejos de recuperação, podem nos atingir e fazer sentir fortemente. Nesse caso, ou se foi por isso, dê-se por feliz, pois já é de se agradecer a lembrança intercessora de algum irmão, de alguém que nos julga suficiente para ajudar e capaz de realizá-lo. Relembrando as palavras de Alécio, disse-lhes:
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.