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Capítulo 5 de 70
A Corrupção E A Restauração
O Novo Testamento dos Espíritas · Osvaldo Polidoro
Desde a morte do imperador sárdico, Valério Maximiano Galério, devorado pelas úlceras entre dores lancinantes, em 311, morte essa que fora precedida pelo famoso edito de “tolerância real” ao culto dos cristãos novos ou “os do Caminho do Senhor”, Constantino, o Grande, que apesar de pouco ilustrado, era todavia de uma sagacidade invulgar, andava seriamente preocupado com a sorte da velha instituição pagã, considerada pelos romanos como a religião tradicional da “urbs”, a viga mestra de todo o Império Romano. De fato, tanto Galério como o filho de Constâncio Cloro acompanhavam, apreensivos, o surto extraordinário dessa nova, mas pujante doutrina por todo o território da nação, e o edito do velho imperador desaparecido, o qual foi, também expedido em nome de Constantino e Licínio (eleito Augusto em 307), mais ainda excitou a impaciência do seu sucessor, que sabia, sem dúvida nenhuma, ser o gesto significativo daquele que foi um dos maiores perseguidores dos sectários cristãos, não um rasgo de nobreza, como poderia ser interpretado por muitas pessoas, mas indício certo de uma urgente, e a seu ver necessária, indispensável mesmo, mudança de tática nos velhos e inócuos métodos violentos para conter a expansão crescente da nova seita. Quanto mais drásticas essas medidas, mais recrudesciam, como resposta, a intrepidez, o entusiasmo e a fé dos neófitos e mártires. Assim, no seu entender, todos os expedientes deveriam ser postos em prática para a salvaguarda dessas centenares instituições legadas pelos seus antepassados. Os cleros romano e levita, principalmente, ansiavam por isso mais ainda do que os próprios detentores do poder temporal. A sufocação a qualquer preço dessa miraculosa doutrina que, espantosamente, em tão pouco tempo conseguiu, nos dois Impérios - o do Oriente e o do Ocidente - vinte por cento de adeptos de todas as categorias sociais, pois até a própria genitora de Constantino, Helena, a ela se converteu, era o que eles mais ardentemente desejavam. Quando Eusébio foi eleito bispo de Cesaréia, em 313, tornou-se ele grande amigo de Constantino, que o manteve sempre ao seu lado no concílio ecumênico de Nicéia e defendeu-o contra os perseguidores dos arianistas (seita antitrinitária a que pertencia Eusébio). Desse conúbio mental e social incestuoso nascido entre os três - Galério, Constantino e Eusébio - é que saiu a verdadeira maquinação clérico-estatal para criminosamente impor silêncio à voz da Verdade que se levantava estentoricamente, através a revelação generalizada pelo Cristo, nos quadrantes do mundo então conhecido. Todavia, por onde começar essa repressão? Uma centelha diabólica explodiu então no cérebro não menos sagaz e maldoso do representante do clero levita. Quando Constantino, que por morte de seu progenitor, na Bretanha, junto do qual seguiu, fora ali mesmo proclamado Augusto pelos seus soldados, transpôs logo a seguir os Alpes com 40.000 homens, para dar combate ao seu mais terrível inimigo, Maxêncio, em Saxa Rubra, perto de Roma, diz a lenda que teve ele a famosa visão da cruz luminosa, no céu, sobre o Sol poente, com a inscrição: “In hoc signo vinces” (com
este sinal vencerás), e que, por ordem do Cristo (?!) mandou fazer um lábaro que devia levar em todas as batalhas (eis afinal o manso e humilde Nazareno transformado e confundido absurdamente com os piores facínoras da História!). A quanto pode chegar a sordidez humana, não trepidando ante o mais indigno e imundo dos artifícios para conseguir o monstruoso atentado contra a Excelsa Doutrina do Caminho! Que esse acontecimento, todavia, não passou de pura invenção do bispo de Cesaréia, já previamente preparado de acordo com o recém-proclamado Augusto, constata-se logo à primeira vista, pois quem o divulgou - di-lo Cantu, historiador católico e portanto insuspeito para o afirmar - foi unicamente Eusébio. Constantino precisava, para levar a efeito com êxito a hilariante peça teatral que, em breve, iria representar, de um pretexto forte e convincente para justificar o seu ato condenável, e esse foi, sem dúvida nenhuma, forjado como uma luva pelo bispo, seu panegirista gratuito. Daí, para a conhecida farsa da sua conversão à Excelsa Doutrina, havia apenas uma pequena distância. Esse fingimento significava o epílogo complementar e indispensável do célebre “indulto” de Galério, forjado com a aquiescência e em nome também de Constantino e Licínio. Uma vez consumada a camuflagem sob cujos disfarces escudavam-se as forças e as artimanhas do Anti-Cristo, foi dado início à segunda parte da programada ofensiva de reação clericalista coonestada pelo poder temporal. Ficou entre eles decidido que a idolatria, os deuses de pedra e madeira tinham de sobreviver a qualquer preço ou sacrifício. Todavia, a voz potente da Verdade eclodindo vigorosamente através da Revelação, lançava o pânico no arraial confuso dos corruptores. A continuar assim, nesse diapasão cada vez mais intenso, consideravam eles, dentro de pouco tempo as massas estariam esclarecidas e todos os planos arquitetados pelos senhores do paganismo mentiroso e corrupto estariam irremediavelmente prejudicados. Havia, assim, necessidade de fazer cessar essa fonte misteriosa, intrometida e inesgotável de informes esclarecedores, vertida pelos canais mediúnicos dos profetas (médiuns). Daí começou a perseguição cruenta contra os cultivadores do Espírito Santo, sem trégua e sem a mínima complacência. Os profetas foram aos poucos desaparecendo, uns por morte e outros pela pesada cortina de silêncio imposta pela clerezia e pelos déspotas do imperialismo. Sobre o mundo desceu, então, densa cortina de trevas, a grande e infindável noite medieval. A ignorância, o fanatismo, a intolerância, abateram sobre os povos com mão de ferro, obrigando-os ao atraso moral de quase dois mil anos. Não possuindo ainda templos próprios e não convindo - como fingidamente diziam - ocupar os dos deuses olímpicos, por causa dos ídolos, foram-lhes cedidas as basílicas, construções que eram então destinadas aos pronunciamentos da justiça e a uma espécie de bolsa de mercadorias. No entanto, no segundo concílio de Nicéia, que teve lugar em 787, foi estabelecido o culto das imagens... Para que as providências tomadas assim contra o revelacionismo generalizado tivessem eficiência completa, em 1870, pelo concílio do Vaticano foi decretada a mais vergonhosa insinuação do Catolicismo - a infalibilidade papal!... Esse foi o maior ultraje à Verdade. Em nome de um Deus de Amor, de Bondade e de Justiça, tomado hipocritamente, ensangüentaram as páginas da História com massacres coletivos à guisa dos sacrifícios pagãos. Ainda em nossa retina as Cruzadas de Carlos Magno, o
assassínio dos huguenotes (noite de S. Bartolomeu) e as cenas dantescas da malfadada Inquisição. No tempo de Constantino, era o Labarum que flutuava à frente dos exércitos, cheio de blasfêmia, a fomentar a carnificina das guerras; hoje, é o hissope que, como nas festas pagãs celebradas em Roma e em outras cidades da Itália, as ambavaes, asperge água benta nos canhões e nas espadas para que possam ter a proteção do deus dos católicos (naturalmente Júpiter tonitruante, porque o verdadeiro Deus não o dará certamente) e matar o maior número possível de seres humanos. Aproxima-se, entretanto, o dia em que a Besta 666, que tantas depravações tem disseminado, tantos insultos tem dirigido à face de Deus e de Jesus, será finalmente lançada no fogo e no enxofre, deixando o mundo em verdadeira paz e sob a tutela da Verdade Revelada. Neste livro encontrará o leitor pormenorizadamente os esclarecimentos sobre as deturpações, as interpolações e outros atos criminosos dos corruptores feitos com os textos do Novo Testamento, a fim de melhor poderem reinar discricionariamente sobre o rebanho submisso dos seus crentes... E reconhecerá, no Espiritismo, o Cristianismo reposto no lugar.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.