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Capítulo 8 de 14

Rasgando O Véu — parte 7 de 13

O Grande Cisma · Osvaldo Polidoro

– João disse, de si, que batizaria em água, sendo que Jesus batizaria no Espírito Santo. O Pentecoste foi o testemunho dessa profecia cumprida, não foi? – Muito bem. E que fez Roma, três séculos e meio mais tarde, dessa gloriosa consolação posta ao dispor da Humanidade? Quem autorizou Roma a truncar a torrente revelacionista, em troco de idolatrias e fomentações comerciais? O derrame de Espírito não fora para toda a carne? O velho padre fez-se triste, cabisbaixo e mudo. – Qual era o culto dos Apóstolos? – perguntou-lhe meu companheiro. O padre continuou triste e cabisbaixo. Meu companheiro disse-lhe: – Lembre-se, padre, de que a franqueza é por aqui a mais bela expressão de respeito à Verdade. Não recalque coisa alguma. Escancare sua alma. Mesmo que esteja errado, havendo sinceridade e franqueza tudo se conserta com facilidade. Os maliciosos vão para baixo... – Desculpem-me, desculpem-me. Eu estava imaginando... Não penso ser malicioso, não tenho dúvidas a contar. Eu imaginava... Um dia mandaram-me uma carta anônima, cheia de frases bonitas, recomendando a leitura de alguns textos. Eram os quase oitenta textos que falam sobre o Espírito Santo... Eu os li, e encontrei muitas verdades. Muitas... Jesus praticou a Revelação e deixou a Revelação como testemunho de Sua Doutrina. Os Apóstolos prosseguiram fazendo o mesmo. Assim, vemos Paulo dizer, fazer e recomendar, no capítulo quatorze da primeira carta aos gregos de Corinto. É incontestável, é incontestável... – E que fez, a seguir? – perguntei-lhe. – Procurei assistir a algumas sessões espíritas. – Admitiu os fenômenos? – Sim. Era evidente a realidade. Mas parei nisso, pois tinha a minha obrigação de padre católico a cumprir. Havia estudado, havia jurado... Os encarnados formaram a mesa e deram início aos trabalhos, orando. Depois um orador falou, comentou um texto evangélico, muito auxiliado por um agente de nosso lado. Fez vibrar o ambiente eletro-magnético, atingindo em cheio o velho padre, que derramava lágrimas a valer, felizes lágrimas. Ao iniciarem a sessão prática, pediu o padre para se comunicar. Queria experimentar a sensação de falar aos encarnados, queria dizer-lhes sobre a imortalidade, queria afiançar-lhes a certeza, a Justiça de Deus, a Lei. – Faça-o. – disse-lhe o companheiro – Mas lembre-se de que eles sabem isso e disso muito bem, pois nesta casa recomendam-se estudos e observações. Demais, o que o irmão vem de saber e sentir hoje, outros já o souberam e sentiram antes, havendo se pronunciado com grande entusiasmo. Embora seja comum, e louvável, o gesto que esboça, deve saber que é prudente manter a melhor serenidade. Encarou o velho padre com agudeza e completou o pensamento: – A Verdade não tem aumentado nem diminuído com as afirmações ou com as negações de quem quer que seja. Portanto, hoje, amanhã, aqui ou onde for, convém conservar o melhor das condutas, que é saber com simplicidade e ignorar com esperança. Os encarnados estão fartos de saber o que ocorre com muita gente; depois de morrer, e sofrer muito, e ganhar consciência do estado e dos deveres, muitos voltam saturados de entusiasmo e advertências. E acham, o que é judicioso, que melhor fora cultivassem um pouco mais de espiritualidade durante a vida carnal. Creio que me compreende, pois não? – Compreendo. – respondeu o padre – E faço questão de falar aos encarnados. Foi conduzido, na ocasião propícia, e falou aos encarnados. Falou de pai para filhos e confessou o erro em que caíra, a tragédia em que se metera, por falta de ombridade moral, por fraqueza de espírito. Antes tivesse abandonado tudo o mais, antes tivesse dado, em vida carnal, o testemunho devido, rompendo com o criminoso cisma romano, aquele que liquidara com o Batismo de Espírito, a fim de impor à Humanidade idolatrias e explorações temporais em nome do Cristo. Ao deixar o médium, que era uma jovenzinha, disse-nos:

– Eu devia a Jesus Cristo essa confissão; e quis fazê-la através do Consolador, para melhor prova perante meus irmãos. Todos os cristãos devem um tributo de honra ao Consolador, por constituir a pedra sobre a qual o Cristo edificou a Sua Igreja. Eu, que fui traidor, confessando o delito, cumpri o meu dever. De ora em avante tenho o direito de julgar-me um filho pródigo. Seus olhos brilhavam, sua inteligência fulgurava. Não se podia deixar de estar bastante com ele. Abraçamo-lo, fizemo-lo um grande amigo, um bom companheiro de serviços.

Padre Mazzini entrou no plano espiritual consciente, empunhando o facho da bem-aventurada simplicidade de espírito. Isto é, sem malícia religiosa, sem embargos sectários. A presunção de impor condições a Deus, através de dogmas e prerrogativas estatucionais humanas, logo aprendeu a esquecêla, por compreender quanto é a Verdade Transcendente acima de cogitações humanas. Estudou de modo ordinário, ainda em ordinárias aulas de uma região inferior. Apenas, compreendeu a diferença que há entre o Poder Absoluto de Deus, infinito como o próprio Deus, profundo como Deus é, e a infantil e bizarra, senão blasfema presunção humana, que através de dogmas, decretos, rituais e veleidades manhosas, quer comandar aquilo mesmo que ignora, e que constitui a Verdade Suprema, o Poder a que é sujeito. Padre Mazzini compreendeu depressa a ridícula inversão da ordem. Outra grande verdade por ele descoberta foi a antiguidade das verdades básicas reveladas; leu muito em nossas bibliotecas, chegando à conclusão de que Jesus, vindo Batizar em Espírito, ou edificar doutrina sobre o culto da Revelação ostensiva, nada mais fez do que encimar todas as revelações, coroá-las, dar-lhes o sentido complementar à custa do intercâmbio entre os dois planos da vida. Padre Mazzini fez, verdadeiramente, um curso completo de todas as Revelações; os Vedas, os Budas, Rama, Zoroastro, Hermes, Krisna, Apolônio de Tiana, Orfeu, Moisés, os Profetas, o Cristo, Kardec; todos foram estudados à luz do mediunismo, do intercâmbio. E achou em todos o contributo da Revelação, e viu que todos se firmaram em uma só e inabalável Verdade – Deus! Falando-lhe, certo dia, de permeio a um serviço urgente, respondeu-me: – Barnabé, o Deus-figura, fazedor de favores, amigo de vinganças, atencioso de bajulações, esse Deus não existe. O Deus que é, a Divina Essência, Onipresente, início, sustentáculo e determinação íntima em tudo e em todos, esse Deus não priva com os compadrismos sectários, não faz negociatas, não reconhece liturgias. A Ele se vai, no templo interior, através do Amor e da Ciência. Quem não ama ao seu próximo e quem não busca conhecer ao máximo, para melhor servir, esse não ama ao Deus que é. Muito se enganam os que buscam adorar a Deus nos templos de pedra, de cantaria ou de madeira e outros ingredientes; Deus é Espírito e acha-se melhor representado na profundidade das criaturas amorosas e sabias, bondosas e serviçais. Meditou um pouco, estremeceu sob a influência de uma elevada entidade para ele invisível, opinando: – Tudo testemunha a Deus, de modo genérico. Mas para testemunhar a comunhão, ou o estado de comunhão, ou teofania prática, só mesmo através da elevação em geral, só mesmo à custa do mais perfeito. As belezas inferiores, orgânicas ou mesmo inorgânicas, dão testemunhos quando muito passivos, porque naturalmente instintivos. As belezas espirituais não são passivas, não são nem devem ser por instinto, mas sim grandezas de Amor e Ciência. Cumpre, pois, a cada um, erigir o sagrado templo interior, onde se pode amar a Deus, através de toda verdade elevada. – Assim é que sabemos, sr. Mazzini. As religiões que impõem gestos, formas, ídolos, liturgias, hierarquias pomposas, etc., são restos de primitivismo, são entulhos que a barbárie deixou. Sobrevivem porque fornecem galardões e garantias mundanas a seus donos e empreiteiros; sustentam-se porque se aliançam aos politiquismos e chicanas temporais. E acima de tudo prevalecem, porque muito grande é ainda o coeficiente de analfabetismo na Terra. Outro companheiro emendou: – Cheguei a uma conclusão, depois de estudar tudo quanto me foi possível, assim como o está fazendo o sr. Mazzini, ou padre Mazzini, já que ainda usa as vestes sacerdotais. E creio que todos chegarão à mesma conclusão – retornando todos os cristãos ao culto dos Apóstolos, como se lê na primeira epístola de Paulo aos Coríntios, capítulo quatorze, e fazendo prevalecer, em obras, a Moral do Decálogo, teremos a Religião perfeita, porque estaremos enquadrados na Moral integral e no Batismo de Espírito. Concludentemente, teremos a Religião completa, porque suficiente em todos os sentidos, no religioso, no filosófico e no científico. Teremos, com certeza, caminho franco para todos os progressos gloriosos. Padre Mazzini acentuou:

– Saibam que estou para mudar de vestes... Apenas aguardo alguns serviços junto de meus colegas, aqueles infelizes, lembram-se? Devo comparecer em vestes sacerdotais, para lhes captar as simpatias. Depois, com as graças de Deus, farei questão de outros revestimentos; quero revestir-me das virtudes do espírito, para assim, no templo interior, honrar a Deus. Chega de fingimentos! Chega de aparências! Chega de idolatrias! Aquela entidade invisível a ele, que o tangia, fez-lhe lembrar a obrigação em vista. Despediuse, pois, indo a caminho de seus deveres. Ele estava encaminhando aqueles sacerdotes infelizes, ignaros e rebeldes, amigos de suas próprias teimas e convicções. Como já disse um outro narrador, setenta por cento do que parece religião, na Terra, é apenas vício convencional, idólatra, formal. A criatura acredita na forma, no modo exterior, em tudo quanto é aparência, e nisso se conforta, assim como o fumante, o alcoólatra e outros viciados refestelam-se com as suas viciosidades, por mais feias e comprometedoras que sejam. Bastante auxiliado, estava ele fazendo um belo serviço entre aquela gente tresmalhada, arredia ao Cristo, isto é, inimiga de si própria. Afinal, diga-se uma vez mais, o Cristo externo foi o modelo apresentado pela Sabedoria Divina, a fim de que cada um saiba de que valores é senhor e os ponha em evidência. Se edificou doutrina sobre o culto da Revelação, como afirmou várias vezes, e como testemunhou no fenômeno de Pentecoste, foi para que Suas palavras jamais fossem esquecidas. Nós, que temos falado através desta canaleta mediúnica, temos repetido sempre, e uma vez mais o fazemos – aqui estamos em serviço de esclarecimento, para dar testemunho do Batismo de Espírito, da função messiânica do Cristo, que se encerrou em viver a Lei e em cultivar a Revelação, tornando-a ostensiva a toda a carne. Quem se der ao trabalho de observar a anunciação de João Batista, sobre vir o Cristo a fim de Batizar em Espírito. Quem se der a ler com atenção o Evangelho, segundo João, capítulo dezesseis, onde o Cristo promete o Batismo de Espírito. Quem se der a estudar o capítulo dois do Livro dos Atos, onde se deu o prometido Batismo de Espírito. Esse mesmo encontrará, na primeira epístola de Paulo aos Coríntios, capítulos doze e quatorze, os informes necessários a respeito do que seja o Batismo de Espírito e de como os Apóstolos o praticavam. Negando-se a esse culto, e inventando formalismos e idolatrias sem conta, para servir aos interesses do Império Romano, e depois às suas próprias sanhas de poder temporal, tornou-se a Igreja Romana o grande cisma, a grande contradição, o motivo de um grande serviço restaurador. Todos sabem que Jesus Cristo profetizou tudo isso, a corrupção e a reposição das coisas no lugar. Nós estamos sendo uma parte do imenso serviço restaurador. Graças a Deus, assim é. Qualquer contestação deve ser endereçada ao mesmo Jesus Cristo, nosso Divino Condutor, o chefe Planetário, que através de Seus arautos nos encaminha e torna fortes.

Outros narradores falaram bastante sobre o diagrama planetário; sobre as regiões astrais, em formas concêntricas e superpostas, a começar do centro do planeta. Portanto, o Céu, o plano espiritual, divide-se em múltiplos Céus, até mesmo em zonas infernais. Afinal de contas, irmãos, na Casa do Pai há morada para todos, os bons, os ruins, os melhores e os piores. Cada qual, por peso específico, ou tônus vibratório, situa-se eqüitativamente. O que Jesus chamou de “olho interno” é que determina estacatos, subidas ou descidas. A chave está na posse de cada espírito. Os trabalhos são de ordem individual. A Lei a cada um dá, na conformidade das obras. Não sabe quem faz por ignorar. Não realiza quem não faz por realizar. Não tem quem procura de fato não ter. Uma é a Lei e ninguém poderá alterá-la. A Lei se acha, como seta indicadora, no imo de cada espírito. Não prevalecem, portanto, os cultos exteriores. Prevalecem, isso sim, os valores amorosos e sábios. Aqueles que no mundo, por vícios concepcionais, por veleidades litúrgicas, por validades sectárias, por etiqueta ou engodos sociais, podem comprar gestos aos fazedores de gestos, idolatrias aos vendilhões dos templos, perdões e absolvições àqueles que pensam poder vendê-las, que se lembrem de uma coisa – jamais pensem estar traficando com a Justiça Divina! Ela não toma parte nessas transações. Aqueles que, conhecendo as leis da Revelação, as extensões mediúnicas, o trato com os habitantes do mundo ou dos planos astrais, e que o fazem à revelia da Moral Decalogal; por dinheiro ou qualquer outro fim imediato; para forçar ações em segundos e terceiros em proveito próprio; para atender a rogos de espíritos inferiores. Enfim, para fazer o que é antievangélico, saibam que estão cometendo graves faltas e não terão o beneplácito da Justiça Divina. Ela não está dividida contra si mesma e não endossa, portanto, aquilo que é blasfêmia! Saberão todos, mais tarde ou mais cedo, ao que chamou Jesus Cristo blasfemar contra o Espírito Santo, o erro que não faz jus ao direito de desculpa, mas que será justiçado em obras de resgate doloroso. Não somos, também, apologistas da dor, dos sofrimentos, das automartirizações; preferimos o caminho das realizações amorosas e sábias. As dores servem para os grandes errados, para os inimigos da ordem, e para os fazedores de perlengas orais e escritas, enquanto elas se acham longe ou no próximo, ou para aqueles que superestimam seus mínimos dissabores. Nós já pertencemos a outro quadro, graças a Deus, e recomendamos a todos um pouco mais de bom senso. Afinal, quem não sabe entender isto? Quem foi à cruz, foi em grande agonia, foi como lenho verde atingido em cheio pelo fogo. E quem O enviou à cruz, que foram muitos e não apenas um, todos se viram de braços com as dolorosas investiduras do porvir; tiveram que passar por transes muitas vezes inenarráveis, não se resgataram em obras apenas de amor e de sabedoria. Porque, convém lembrar uma vez mais, as faltas são por escala, havendo as que podem ser resgatadas em obras de amor e de sabedoria, em renúncias relevantes, em honrosas condições, enquanto que outras só podem ser ressarcidas através de sujeições tenebrosas. A lei de gênero, grau e número, prevalece em tudo no plano relativo. De acordo com o conhecimento de causa e o propósito alimentado, assim se responderá. A Grande Lei não toma parte em manobras convencionais e não se ilude com as artimanhas de quem quer que seja; perante ela, como último recurso atenuante, prevalece a verdadeira intenção pura. Em verdade, felizes os que se apresentarem errados, mas ostentando a validade da mais fiel boa intenção, da mais perfeita e comprovada espontaneidade. Entretanto devemos, como testemunhas que somos da Verdade que é, uma palavra aos que militam nas hostes protestantes, que soem fazer da fé, da crença na Bíblia, a medida completa de ordem espiritual, de obrigação religiosa. Em primeiro lugar fica de pé esta razão – o espírito deve tornar-se puro e sábio, não o podendo fazer de um só golpe, nem por acaso e menos ainda por atender a sistema de culto contemplativo. Em segundo lugar prevalece esta outra razão – muitos dirão, um dia: “Senhor! Senhor!” – e lhes será respondido aquilo que também o evangelho encerra...

Verdadeiramente, há mais religião pró-forma na Terra do que culto espiritual de fato. As aparências encobrem as deficiências. Isto, fica bem entendido, perante o mundo e não perante a Grande Lei. A chamada morte derrete as aparências.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.