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Capítulo 6 de 14

Rasgando O Véu — parte 5 de 13

O Grande Cisma · Osvaldo Polidoro

grande lição para muitos. Disso tudo, entretanto, muita culpa cabe aos encarnados, pois os espíritos comunicantes não valem pelas riquezas de alma, como se diz, mas sim pelos nomes com que se apresentam, ou queiram se apresentar... Uma vez que cumpre à Revelação, ao Batismo de Espírito, informar sobre as verdades exteriores, e consolar em geral pelas provas da imortalidade e da Justiça Imaculada, não fora muito melhor que cuidassem mais, muito mais, os encarnados, de se aplicarem nos serviços de levantamento interior, de surgimento do Cristo interno, apenas se valendo da Revelação para fins de assistência relativa, de amparos fraternais, de curas dessa ordem? É horrível presenciar certos espetáculos, oferecidos por agrupamentos menos conscientes, onde tudo é feito com o propósito de saciar vaidades, de saber aquilo que é domínio alheio, tratar de assuntos materiais e pretender deixar sobre a responsabilidade de terceiros aquilo que é de obrigação individual intransferível. É por isso que, mais tarde, ousam falar alguns espíritos, em tom lastimável, sobre a existência de guias que desguiam... E é demais, que alguns encontrem na vaidade, ou no seu emprego, a mentira que desilude primeiro, e o sofrimento que tange depois? Afinal, não é para todos os fins, negativos e positivos, que cada qual acha, segundo como procurou? A morte é um fenômeno transitório. Perde em grosseria, ganha em espiritualidade quem pode; caso contrário, piora até. E notemos que se pode piorar muito, ultrapassar os limites do concebível. Deixar o corpo denso, o envoltório somático, tanto pode significar a posse de um corpo etérico ultra-sensível, brilhante, deslumbrante, como pode significar a entrada num reino grosseiro, denso, animal, brutal ou ultra-brutal. A morte não faz santos nem devassos, já foi dito por outros, e bastante autorizados, superiormente credenciados. Morrer equivale a defrontar a Verdade por um determinado ângulo, entre os inúmeros existentes. E muitos não ficam contentes com o grau que fizeram por adquirir, grau que significa dor, arrependimento, provas e expiações futuras... Não falou o Cristo em acertar contas antes de chegar ao meirinho ou juiz?... Entretanto, elevado número só acredita depois de experimentar a dolorosa realidade. Durante a vida carnal, tudo servia de pretexto para não fazer o melhor; nos planos da morte, ante a indiscutível constatação, o arrependimento avolumou-se, a tristeza ganhou foros de compressão dolorosa, mas tudo era tardio, nada mais restava fazer, senão ficar com o muito pouco, e nalguns casos sem nada de proveitoso, aguardando dias melhores para futuro bastante remoto. Não passa mesmo a vida carnal, de um contínuo preparativo para a vida espiritual. Cada dia que passa é um de menos, e tempo perdido é um fato. Logo mais, com a chegada daquilo que chamam morte, mas que é apenas defrontação fatal com a realidade, ou tudo melhora, ou nada melhora, ou muito piora. O Evangelho, e todos os Evangelhos, de todos os povos, os chamados Livros Sagrados, encerram advertências radicais a esse respeito. Pode-se dizer, avançando para além dos sectarismos, que há um verdadeirismo histórico-revelacionista lembrando essa verdade ao homem de todos os quadrantes e de todas as épocas. Não detém o melhor quem não faz por isso. Não chega a se ter melhor, quem não se preparou. Há, pois, muita vantagem em saber lidar com o fermento interno.

Durante minha vida carnal, pouco mais ou menos toda ela votada aos trabalhos espiritistas, e sei que nos melhores moldes, bem poucos fenômenos se deram comigo, de ordem mediúnica, dignos de melhores atenções. Desenvolvida a faculdade falante, tudo era trabalhar com ela, simplesmente. Vez que outra, dava-se um rapto de vidência, de longe em longe sabia-me em viagem astral; o mais tudo era rotina, era sofrer dando passagem a certos espíritos, muitas vezes aturando por horas a fio dores e influências desagradáveis. Por falar em dores, por fazer referência às influências desagradáveis, devo aqui uma lembrança aos médiuns – que nenhum deixe de trabalhar por isso; que jamais cesse um trabalho pelo temor de sofrimento qualquer; porque a recompensa em Deus ultrapassa os limites do concebível. Trabalhe-se, e com gosto, lenindo amarguras, enxugando lágrimas, consolando espíritos aflitos, curando doentes do mundo astral, porque a recompensa é digna de todos os respeitos. Sei o quanto é esquivo o espírito encarnado; considero a superfluidade dos conceitos humanos: respeito a pouca monta das certezas terrenas; mas afirmo que convém perseverar, que convém empatar o tempo em serviços de fraternidade mediúnica. Para mim, empregar tempo em obras de solicitude mediúnica valeu muito, ultrapassou o que a minha imaginação concebia. E julgo a meu modo, segundo as dádivas que recebi – fazer o bem, de espírito para espírito, sem mescla de interesse qualquer, é muito mais CRISTIANISMO, é muito mais RELIGIÃO, é muito mais ÉTICA do que viver propalando filiações igrejistas, do que viver fazendo afirmações sectaristas, como é comum entre os homens, quase que em geral. Basofiar crenças e postulados místicos, gastar rompâncias hierárquicas, ter certeza das verdades eternas, tudo isso é pouco face a face com o bom procedimento, tudo isso é quase nada em face de um pouco de amor fraterno. Já disse alguém, e com sobras de razão, que o mal da Humanidade é estar ela sobrecarregada de criaturas que a si mesmas se justificam; verdadeiramente, temos sobras de santos de si mesmos. É a realidade, pois os que se julgam certos na fé que esposam, quase sempre dão bons errados, dão com os costados no erro. O bom senso indica no sentido de trabalhar, de aumentar em serviços úteis ao próximo; e a deficiência espiritual concita no rumo das afirmações sectárias, dos fanatismos religiosos, das certezas que salvam... Mais tarde, ao somar das contas, tremenda é a desilusão, porque a Lei queria boas obras e não excesso de falatório, e não afeição a estatutos humanos. Afinal, quem disse que a Verdade Suprema se guia e se comporta segundo os convencionalismos terrícolas? Por acaso, pode o homem julgar o Infinito? Então, quem não pode acrescentar um côvado à sua estatura pode ordenar ao que é Integral? Não pode, é claro, e qualquer de nós consegue compreender isso; mas é muito mais fácil ter uma religião, e discuti-la com os amigos, do que ser bom, do que cumprir com os deveres da Humanidade. Se a Terra tivesse tantos bons, quanto tem de religiosos, de há muito seria um paraíso! É muito fácil compreender isso, não é? Vamos, então, ao relato do fenômeno mais interessante passado em minha vida de encarnado, aquele que servira de guia místico em todos os momentos de minha trabalhosa vida. Haviam-me convidado para um trabalho espírita. Um trabalho a mais, apenas, assim como bastantes outros que houvera feito. E lá fomos, eu e alguns confrades, atender a uma senhora, ainda muito jovem, acometida de mal súbito e desconhecido pelo facultativo que a atendera. Lá estava ela, gemendo e chorando, no seu leito, acompanhada de seu marido e uma filhinha. Respondia coisas sem nexo, falava de assuntos estranhos à sua vida e ao seu meio. Nada mais, portanto, do que um caso mediúnico, do que um mal aparente. Dessas questões tínhamos conhecimentos a valer, era do rol ordinário. – Façamos uma sessão, levando-a para a mesa – disse Cavalheiro, que era no tempo quem presidia aos trabalhos práticos. – É o mais indicado, pelo menos para o que se pode entender, observando o caso pelos sintomas, apenas.

A essa minha observação, foi ela tomada por sobressaltos, saltando do leito e ameaçando agredir-nos. Disse quantos impropérios quis e rasgou roupas à vontade, antes que se pudesse dominar o agente que a dominava, que a controlava por completo. Foi para a mesa, com algum custo, e ali se fez o necessário. Tudo rotineiro, tudo comum, apenas o normal para essas ocorrências. Uma vez elucidado o espírito, pediu para falar algumas coisas, tendo sido barrado pelo presidente, que nunca se dera de esgaravatar a vida, a esmiuçar particularidades alheias. – Não – respondeu-lhe Cavalheiro – que nada temos com as suas questões íntimas. Feito aquilo que nos cumpre, é senhor de suas liberdades e intimidades. Cada um de nós possui um mundo interno que lhe é privado, e nós pensamos ser educados a ponto de respeitar esse direito. Deu-se, porém, a comunicação espontânea de um outro espírito, por um dos médiuns presentes, avisando: – Nobre é o seu procedimento, não resta dúvida. Muitas vezes, e sem ter essa intenção, alguns presidentes, por interrogarem muito aos espíritos recém-elucidados, fazem mal em lugar de bem. Estes, apesar do reconhecimento de última hora, permanecem embotados, avessos por desconhecimento à nova ordem, não podendo responder a contento de quem age em plano diferente, muitas vezes com prevenção, revelando não usar na prática o Evangelho de que tanto usa em palavras. Agora, para com este irmão, faz-se necessário abrir valioso precedente, pois nada terá a dizer de sua vida íntima, sendo que teria muito a tratar, de assunto que a todos aqui interessa, não fosse a escassez de tempo. A Lei reuniu-os e o caso diz-lhes respeito. Antes digo que, por ser de Lei, uma vez mais se encontraram no curso da vida. – Sendo assim – concordou Cavalheiro – é interessante por ser útil. A entidade comunicante emendou. – Longa é a história. Ele dirá o suficiente, assim como lhe for ditado. Interessado, inquiriu Cavalheiro: – Quem vai instruí-lo? – Quem de mais alto zela pelos seus bens. Há sempre uma autoridade maior, até chegar a Deus, a PLENITUDE DIVINA que é FUNDAMENTO ÍNTIMO em tudo e em todos. – Compreendemos, então, estar presente o fator cármico, a obrigação de atender, por ser intransferível. Agradecemos o aviso. – Ouçam-no, portanto, que poucas são as palavras – respondeu o enunciante. E o recém-doutrinado falou: – Temos tido muitas vidas, bem o sabem; mas não podem detalhar, nem muito nem pouco sobre elas. O que sabem é de modo geral, vale apenas como tese doutrinária, por ser princípio básico da Doutrina do Consolador. Todavia, dizem-me aqui, temos muito em comum sobre eventos históricos; e afirmam, também, que chegou para nós uma grande hora, um tempo de concerto entre partes. Demonstrou o espírito estar ouvindo alguém, para terminar: – Terão, em sonho, como dizem, a revelação de alguns fatos. Prestem a devida atenção ao que hão de sonhar. Por ora, agradecido me despeço, afiançando meu desejo sincero de ser útil, a fim de indultar-me perante vocês e a Lei. E se foi. Alguns dias se passaram, cheios todos nós de anseios e expectativas. Nada acontecera, enquanto pairávamos naquela tensão curiosa, naquele frenesi auspicioso. Também, ninguém tinha coragem para indagar sobre a demora ou fracasso da proposta, permanecendo numa esperança que aos poucos se desfazia, que se esvaía em desilusão. Certa noite, quando menos cogitava mentalmente sobre o caso, e quando acontecimento da vida me prendia toda a atenção, pela gravidade que assumia, pude sonhar o mais lindo sonho de minha vida.

Eis o sonhado: Era uma linda noite de luar. O ermo contagiava-nos, fazia-nos pensar na profundidade das leis universais. Fazia-nos, digo, porque éramos três homens, caminhando por entre campos e bosques, tendo a alma suspensa por indefinível temor. Chegando a uma elevação, vimos ao longe uma cidade, muito iluminada, vibrante, cheia de vida, alegrias e temores. Um falou, com voz pausada e pontilhada de amargura: – Vamos, que é Paris. Marchemos para a morte. Minha alma pareceu gemer. Digo assim, e com razão, pois a dor vinha-me do mais profundo, dos recônditos espirituais. Eu ignorava, até então, o que continha aquela situação e aquela frase, parece que feita de agonia e atroz. – Geme por quê? – inquiriu-me aquele mesmo companheiro. – Não sei... – Dói-lhe alguma coisa? – Dói-me a alma!... Sofro do espírito!... Uma tremenda agonia me devora! Ele balbuciou, lugubremente: – Previsões do espírito. Esta noite morreremos pelo Cristo, pela Verdade. – Esta noite?! Mas se há tanta beleza nas alturas! O outro interveio: – Que se pode fazer, se há tanta feiúra em certas almas? Esta é a noite de São Bartolomeu, a noite que marcará na História uma das piores ações por parte da Igreja que se diz do Cristo. Muito sangue será vertido... Muito luto cobrirá aquela cidade e muitas outras... Porque a Verdade, na Terra, para vencer, tem obrigatoriamente necessidade de terríveis testemunhos. Pensa, por acaso, que foi preparada pelo Cristo a Sua própria crucificação? É que nos planos inferiores a Verdade é minoria. Se não a podem liquidar, podem entretanto, por algum tempo, constrangê-la. – Ainda bem... Se estamos com a Verdade... – Por isso mesmo, voltemos. Vamos morrer com os nossos companheiros, para que não nos marque a Lei com o sinete da covardia. O companheiro começou a brilhar, pelo que o inquiri: – Você é por acaso um profeta? Vejo que prediz e que brilha. Diz a Escritura, que isso acontecia com aqueles que possuíam o Espírito de Deus. – Muito bem, somos profetas. Por isso mesmo, volte e cinja-se ao dever, que deve um severo resgate. Em outros tempos, por fraqueza de espírito, delatou, traiu, fez morrer a muitos servos da Verdade. E agora que chegou para si uma grande hora, por que foge de novo? Tive, no momento, como que a revelação íntima do que ocorria. Envergonhei-me, atirei-me por terra, pedi perdão. – Levante-se, que é um homem! – bramiu um deles. Levantei-me, mas conservei a cabeça baixa. O companheiro fez-me encará-lo de frente. Estremeci, pois ele era o retrato vivo de Wicliff. Olhei para o outro, como que forçado por estranha influência, e reconheci-o como sendo João Huss. Eram os paladinos da Reforma, os alicerces do Protestantismo, que eu tinha pela frente, no momento em que fugia de Paris, quando abandonava os companheiros da luta. Terrivelmente constrangido, mortalmente agonizado, roguei: – Pelo amor de Deus, ajudem-me!... Não tenho coragem!... Não sei morrer... Eles agora brilhavam. Não se lhes podia encarar, porque ardiam os olhos. Huss falou, com vigor e brandura: – É necessário enfrentar a situação com espírito alevantado, certo das vantagens da Verdade sobre as escabrosidades da mentira e do erro. A Verdade é brilho, a mentira é treva. Na morte se

adquire a Vida, e na vida inferior sepultam-se as alegrias da chamada morte. Vá, pois, e empunhe o estandarte da renúncia, que um belo testemunho dará, enquanto um grande resgate levará a termo. Huss pairava no ar, cheio de esplendor espiritual, quando Wicliff foi com ele se emparelhar. Huss prosseguiu: – É chegada a hora da reposição das coisas no lugar, conforme as palavras do Divino Mestre. Para que o Pentecoste ressurja no mundo, muito há que fazer, como preparativos necessários. Se todos fugissem, se todos se portassem assim, como levaríamos a cabo o Mandado Superior? – Eu voltarei... Mas peço ajuda... Viram meus olhos, então, o para mim inconcebível. Eles foram subindo e o firmamento estrelado foi se abrindo, abrindo e clareando, chegando a brilhar, ofuscando minhas vistas. Eu teimava em olhar, vencia o brilho, sentia o prazer da vitória. Da abertura brilhante surgiu uma multidão incontável e a música que descia à Terra não tinha comparação em beleza e glória. Do seio da multidão foi surgindo Jesus Cristo, que embora ensangüentado, sorria e espargia amor e confiança. Ao chegar a nuvem gloriosa a uma certa distância, Jesus separou-se dela, desceu mais, apanhou os dois baluartes da Verdade pelas mãos e de novo subiu, fazendo-os parte da gloriosa multidão. Foram sumindo nas alturas e tudo volveu ao natural, tendo eu rumado à grande cidade, para renunciar a vida em proveito de uma obra de resgate e testemunho verdadeiro. Na próxima sessão, aquele espírito retornou e disse-se infeliz monarca que, inconsciente da Verdade, ordenou a terrível matança. – Muito ainda devo, muito terei de pagar. Em futuras vidas farei o que estão fazendo, pois fazer o bem é melhor do que sofrer o mal feito. Haja de sua parte, em meu favor, um pensamento de perdão, uma prece... Ele vinha sempre nos visitar e anunciava-se “O Devedor”. Mais tarde soube que Cavalheiro, Inocência e Alfredo foram companheiros de agonia e morte nas mãos dos Príncipes e da Igreja. Eles tiveram seus sonhos.

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