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Capítulo 14 de 14
Rasgando O Véu — parte 13 de 13
O Grande Cisma · Osvaldo Polidoro
A Justiça Divina compele a vida a ser completa em suas lições. Por mais que fizesse juízos atinentes ao caso de Bento, à sua surdo-mudez, nunca seria capaz de lobrigar, cogitando, o final que viria a ter. Depois daquelas compenetrações, inculcadas pelos mais veementes dados retrospectivos, chegava a julgar normal uma pessoal presença do Cristo, para aquela liquidação ansiosamente desejada. Se a presença, por ingerência, de tão altos mentores, e a visão de qualquer forma gloriosa, de acontecimentos pretéritos de tamanha monta, nada haviam feito, por que seria de estranhar a presença real do Divino Mestre? Eu nunca O vira pessoalmente, mas outros diziam maravilhas de Sua presença, de longe em longe, e quase sempre ao ser menos esperado, em festas de agradecimentos ao Supremo, em que Ele tomava parte, como simples partícipe, disfarçado no meio da multidão, aparecendo no momento final, para que Sua graciosa autoridade, servisse de fecho esplendoroso. Eu e outros pensávamos assim – que o Cristo, em pessoa, viesse dar fim à lesão de que vinha sofrendo Bento. No entanto, um dia, ao receber instruções sobre serviços a executar, encontro a ordem, o mandato singelo. Bento comunicar-se-ia por uma senhora de cor, num recinto familiar, e dali sairia ouvindo e falando. Lembrar-se-ia, até outras vigências, daquela preta mulher, podendo cogitar, sempre que o desejasse, a respeito dos alcances da simplicidade. E assim foram cumpridas aquelas ordens. Bento, sem ser avisado, foi introduzido no humilde recinto. Depois, também sem prévio aviso, foi colocado ao lado da médium indicada, que por suas faculdades o atraiu. Nada se passara, pelo menos que eu visse, de mais intensivo, de mais revigorante; entretanto, Bento desandou num choro convulsivo, começando a balbuciar palavras de agradecimento a Deus, a Jesus, a todos... Eu sei que a DIVINA PRESENÇA, como ESSÊNCIA FUNDAMENTAL, jamais poderia ser ausente; sei que essa verdade é a básica, derivando dela todas as demais, que são infinitas em manifestação; mas, convenhamos, eu nunca esperaria um fim desses para aquela tormentosa lesão. Bento, então, fora mandado para uma zona inferior, onde trabalharia muitos anos, arrancando irmãos das garras trevosas, dos lugares sem luz e sem paz, lugares que ele bem conhecera, por tê-los merecido, infelizmente. Consciente, armazenado em fé e vibrante esperança, deixamo-lo entregue ao chefe de uma organização, bem nas fronteiras entre duas esferas da vida, uma rumando às mais densas trevas e torturas, outra convergindo às zonas de recuperação e glórias. Nós prometemos visitá-lo, de quando em quando. Ele nos prometeu: – Podem estar certos de uma verdade – jamais deixarei de avisar, a quantos possa, sobre os verdadeiros princípios libertadores, não mais quererei saber se as criaturas pertencem ou não a algum credo religioso; afirmarei, entretanto, a vantagem singular e inconfundível do Amor! Fez uma breve pausa, abanou de leve a cabeça e disse, com voz quase embargada: – Tivesse eu vivido um pouco mais a Doutrina do Cristo, na parte afetiva! E ainda que nada compreendesse a respeito da Revelação, do Consolador, teria colhido um pouco de paz, um pouco de amor... Entretanto... Colhi trevas... Sofrimentos... A crise passou, a calmaria voltou, tendo repetido: – Cristianismo não é conversa fiada, não são posturas formais, jamais será obra de engodos humanos. Os fermentos religiosistas do mundo não o podem contaminar. Estes passam, mas a Verdade se mantém, fica sempre de pé, intervém na hora certa, impõe-se, convence e deixa bem claro não estar sujeita a discussões humanas!... Todos os formalismos, todas as atitudes pretensamente religiosas, de toda uma vida, não valem por um só ato de caridade, de perdão, de tolerância... Outra vez com os olhos marejados, olhou-me com ternura, depois baixou a cabeça, tomou o braço do funcionário que estava ao lado e se foi, entrando pela sala do chefe daquele grande centro de serviços. Nós partimos, trazendo na retina a visão daquela criatura reconhecida, onde palpitava um coração agora afeito aos ditames da Grande Lei. Não possuía os méritos de quem acerta por Amor e
por Ciência, mas estava curvo aos imperativos do sofrimento; não merecia, por isso, um lugar melhor, mas se encaminhava a um futuro promissor, custeado pelos mais duros esforços em prol do bem alheio. Se não era pródigo em sentimentos espontâneos, pelo menos estava equipado com as armaduras da experiência dolorosa. Um dia, por certo, falaria com autoridade sobre as vantagens da nobreza espontânea, da paz que se não filtra pelos meandros tenebrosos da dor, mas a que se chega, gloriosa e feliz, através de aplicações sensatas e amorosas. Porque isto convém saber – vale mais um ceitil dado espontaneamente, do que todo um cabedal oferecido através de compressões dolorosas. Não percamos, portanto, as melhores oportunidades, acertando pelo gosto de acertar, edificando pelo prazer de fazê-lo. Porque, do contrário, mesmo a despeito de erigir respeitos à dor, nunca se chega a ter a mesma satisfação, embora se chegue a ter os mesmos merecimentos. Aqui há inteligência; ninguém se iluda nem se engane.
Não sei como se terá processado, noutros mundos, a educação espiritual de suas criaturas; mas sei o que vai pela Terra, deduzindo e concluindo, terem os credos religiosos traído o verdadeiro culto do espírito e de Deus! Talvez não possa condenar os Grandes Reveladores; mas também não posso convocar meus respeitos aos cleros que se foram organizando em torno deles, de suas Revelações, porque esses cleros procuraram, antes de mais nada, as próprias satisfações temporais. Resumindo, o cidadão terrícola é quase sempre um errado conceitual, alguém a se enganar, sempre que tenha de se apresentar em face da mais íntima e premente de todas as questões – sua natureza, valores intrínsecos e destinação. Sendo uma centelha divina, e comportando em potencial valores incalculáveis, que lhe cumpre despertar à custa de trabalhos e aprendizados, forçadamente ou espontaneamente, mas sempre na íntima estrutura, termina, por falsas concepções, ou por nefastas insinuações clericais, formais e idólatras, a pretender superar, vencer e ultrapassar, por meio de ridículas crenças, de fetiches oficializados, decerto impostos como sendo atos milagreiros, provindos de alguma cornucópia misteriosa, de engendração contraditória, mas que se desfaz em esparzimentos de toda ordem e validade, conquanto seus crédulos saracoteiem ao redor de seus fabricantes e proprietários, por sua vez espargindo crenças supersticiosas e dinheiros. Assim como tudo, na ordem relativa, marcha no âmbito das leis cíclicas, assim também o fiandeiro de crenças idólatras, ou exteriores, chega ao topo da jornada terrena. Entrega o corpo à terra e entrega-se aos meandros seguríssimos das plagas etéreas. E verifica estar cheio por fora e vazio por dentro!... Armado de cangalhas formais, padece fome de recursos espirituais, defronta-se com as mais prementes necessidades íntimas. Suas compras não foram apenas inúteis, mas até bastante comprometedoras. É tarde, porém, para deliberações reparadoras; vencido o ciclo, quase tudo em vão, outra alternativa não resta, senão a de preparar-se para outras etapas, onde talvez seja mais feliz, vivendo em mais equidade com a Verdade. Nós, os socorristas, a todo momento enfrentamos casos desta natureza e ordem. E como devíamos procurar Bento, naquele centro de serviços, a fim de em sua companhia arrancar das brenhas um cidadão, eis que de novo encontramos alguém, cuja situação lamuriosa tinha origem na deformidade religiosa posta a funcionar, e a peso de ouro, durante os dias de romagem carnal... O infeliz estava andrajoso, ferido, feito um animal acuado pelas matilhas perseguidoras que infestam as regiões subcrostianas mais profundas e tenebrosas. Uma vez recolhido e curado, fora-lhe de pronto indicado o caminho de uma nova imersão carnal. Recebera o aviso e mergulhara em tristeza cruel. – Voltar à carne?!... Mas se dela vim há tempos, mergulhando nos pântanos fétidos, e agora mal venho de saborear um pouco de santa paz!... Não haverá em tudo isso um pouco de engano?!... Informei-o, conforme a ordem superior: – Nenhum engano, caro amigo e irmão. Apenas ordem superior, apenas compromisso assumido através de obras levadas a cabo nas três últimas encarnações. Como pobre, foi invejoso, ladrão, blasfemo, caluniador, etc. Como rico, deu largas a todos os desmandos, não refreou as sanhas mais animalescas, tripudiou sobre a dignidade alheia, alçou-se aos píncaros do orgulho, etc. Que fazer, senão voltar e tentar reparos intransferíveis? – Tenho horror pela vida carnal!!... Eu fracassarei de novo!... – Tentará outras tantas vezes. A vida é eterna e a Grande Lei não se precipita jamais. – O senhor já esteve naqueles abismos, onde criaturas humanas viram feras e se acuam mutuamente? O senhor já se viu como eu, andrajoso, fétido, feito um réptil dos infernos? – Eu, quando por lá estive, foi à custa de minhas obras. E assim mesmo o senhor, e todos os quantos por lá estiveram, estão ou venham a estar. Tudo, meu amigo e irmão, não são mais do que possibilidades espirituais. Céus e infernos estão dentro de nós; e podemos cultivar o que bem
entendermos. Ou não terá tido tempo suficiente para ler, pelo menos uma vez na vida, o último capítulo do Apocalipse! Olhou-nos com espanto, afinal sussurrando: – Não... Nunca li... Que diz ele?... – É fácil de saber. Vá para o seu domicílio, que lá está um livro sobre a mesa. É um exemplar do Novo Testamento. Leia pelo menos o último capítulo do Apocalipse. Se não puder entendê-lo a contento, lembre-se de que há um outro capítulo, num outro livro, que encerra a resposta integral. – Qual é? – O capítulo treze da primeira carta de Paulo aos Coríntios. O acabrunhado homem saiu de diante de nós, para ir ler alguma coisa.
O espírito é uma centelha manifestada em caráter individual; é um pedacinho de Deus, uma partícula da ESSÊNCIA INFINITA. Portanto, crescendo em seus valores íntimos, cresce em universalidade. O sentimento espontâneo de universalidade é virtude que cresce na razão direta do aumento dos valores intrínsecos. Isto é, que, partindo do estado potencial, se elevam à condição de poderes patentes, dinâmicos, evolvidos, vibrantes, intensos. Um espírito embrionário em evolução é uma fortaleza que dorme, que se perde nas profundezas de múltiplas nulidades; um espírito evolvido, bastante desperto em seus valores íntimos, é uma centelha que se levantou das nulidades, forçou os caminhos da Sabedoria e do Amor, penetrou nos arcanos sublimes e com eles passou a fruir dos poderes divinos. Só pode alcançar mais em universalidade, seja em saberes ou sentires, aquele que é mais crescido em si mesmo! Decorre, então, que ainda estamos longe dessas maravilhosas situações evolutivas... Somos a imagem viva do lusco-fusco... Marcamos passadas difíceis ao longo das porfias trabalhosas, visando colimar aqueles graus, fitos os olhos ávidos na personalidade modelar de Jesus Cristo – o Paradigma! Ligados estamos, portanto, aos laços de sangue e de outros ligamentos inferiores... Ter toda a Humanidade como irmã, isso está para mais tarde... Amamos por escala, permanecendo nos primeiros degraus... Por ser desse naipe hierárquico, fiz tudo para localizar minha mãe, aquela da última etapa carnal, que me largara sozinho no mundo, havendo-se arrancado violentamente do rol das gentes encarnadas. Houve um tempo em que, decerto forçado pelos tentáculos poderosos de vivências passadas, fui obrigado a interpelar a seu respeito, movimentando a boa vontade de alguns mentores. Se alguém chafurda por abismos, ou se alça aos páramos luminosos, disso dão conta os departamentos administrativos. Ninguém se achará, jamais, à margem dos controles devidos e necessários. Fui instruído a respeito, tudo fazendo, posteriormente, a fim de encontrá-la e auxiliá-la, na medida do possível, nos quadrantes da Grande Lei. Onde estava ela? Em que condições? Enfrentando que situações? Visto ter-se lançado contra a Lei, não poderia estar sob as asas tutelares da paz. Não se poderia querer em contrário, sob pena de pretender escandalizar a Lei; levando de roldão aqueles que em caráter administrativo aplicam-na. Entretanto, não esperava, depois de tanto tempo encontrá-la tão gravemente cumpliciada com as revoltas de aparência indômita; por se tratar de uma mulher, criatura por várias razões mais afeita aos nobres sentires, acreditava poder encontrá-la melhor postada no plantel das recuperações inderrogáveis. Tal não se deu; fui encontrá-la num túmulo, qual fera raivosa, engalfinhada com aquele homem que a tornara minha mãe, logo após abandonando-a. Lutavam os dois, em meio a uma assembléia asquerosa, nojenta, que se divertia a valer. Era de estarrecer! Para estar bem ao rés da vida carnal, bem junto dos encarnados, não se podia pretender cena mais dantesca, visão mais horrenda. De volta ao plano onde colhera as informações, debrucei minha tristeza nos ouvidos de avantajado mentor. Pensativo, respondeu-me: – Eu sabia disso... Vá e faça o melhor possível. Quem melhor indicado?... Tomei-me de vigor, pois a Lei estava comigo. Podia agir, subtraí-los àquela inferneza, encaminhá-los a melhores dias, a mais futurosos tempos. Organizei a sortida e arrancamo-los dali. Separamo-los; mais difícil, porém, foi doutriná-los. Meu pai reconhecia a falta e fez-se acessível; minha mãe era a personificação da revolta, do ódio, da vingança. Muitos dias se passaram... Muitos conselhos foram aparentemente perdidos... E músicas ternas parece que nada podiam, contra aquela alma embutida nos grilhões de tamanha revolta. Chegou o dia em que lhe pude aparecer, com autorização para evidenciar os poucos esplendores com tanto custo adquiridos.
Estupefata, exclamou: – São Benedito?!... São Benedito?!... – Não, minha mãe. Eu sou teu filho... Teu filho Barnabé... Alguém abriu a porta de um cárcere e nós saímos, sentindo as mesmas dores, gozando as mesmas esperanças, derramando as mais ardentes lágrimas e antevendo os gloriosos esplendores do porvir.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.