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Capítulo 10 de 14
Rasgando O Véu — parte 9 de 13
O Grande Cisma · Osvaldo Polidoro
Agora eu valia por dois, porque a companhia de Etna era uma complementação de todo feliz. Na Terra ficaram vários filhos, sobrinhos e netos, prolongando trabalhos na seara do Consolador; quer dizer que, se é necessário criar condição para haver aproveitamentos felizes, eu me via e sentia, então, em completa organização funcional. De fato, trabalhos não faltavam e fatores felizes pareciam sobrar. Com o advento da primeira guerra mundial, muito se avolumaram os serviços, que já eram em elevada escala, pois as mentes encarnadas, funcionando de modo violento, para um ou para outro lado, também fazem guerra, também complicam, porque movimentam poderes energéticos, porque ativam falanges inconscientes, rebeldes, ainda fanatizadas pelas coisas do mundo. A guerra não é feita somente por aqueles que pegam as armas, por aqueles que se enquadram em suas ordinárias lides; a guerra é feita, também e violentamente, por toda aquela mente que se entregue, esteja longe ou perto, num pólo ou noutro da Terra, a funcionar vibrantemente por um partido. Torna-se uma usina de ondas mortíferas, propulsoras de falanges inferiores, avassaladoras, que muito contribuem para o incremento dos ódios, fazendo subir em alguns, de tal modo, o poder de violência, de tara mórbida, que o entrega ao estado de semi-loucura. As guerras representam, verdadeiramente, fornecimentos a granel de poderes infernais, àquelas legiões que nos baixios astrais, nas faixas trevosas, pululam, lutam, aguardam oportunidade para subir e promover mil e uma tragédias. De bom senso, ninguém deveria pensar em guerras. Entretanto, já que ainda falta maturidade espiritual à Humanidade em geral e aos homens em particular, seria de bom alvitre que o mal fosse circunscrito; isto é, que além dos rincões de batalha, o restante da Humanidade pensasse de outro modo... Mas, não dediquemos tempo ao que é por demais prematuro. De tudo chegará a hora, porque a Vida com inicial maiúscula encerra os valores que a isso conduzirão. Ninguém se faz grande aos saltos, nada é por acaso, todos os valores de fato encerram os seus justos motivos e comprovam o fator evolutivo, o processo levado a termo. Repitamos – o teofanismo prático é obra de colimação evolutiva! No bojo da guerra levantou-se no mundo uma divisão de ordem político-social-econômica de tremenda importância; tremenda duas vezes – uma vez porque de ordem revolucionária, afrontando a tradição multi-milenar, e outra vez por constituir a base de uma lavratura materialista assustadora. Sabemos nós o quanto custou a obra de animalização desse movimento, que em tudo seria acolhedor e digno, não fosse pretender resolver os problemas do bolso e do estômago à custa de se lançar contra o espírito e contra Deus. Deu muito trabalho, está dando e muito fez perder. Um prato de lentilhas, em maior escala social, fez perder muitos espíritos. E rumará tempos afora, até o dia em que se dê a peleja apocalíptica há muito prevista. Não surgiu por acaso e não terminará sem produzir o seu efeito. Depois da tragédia de maior alcance por que passará o mundo, uma nova ordem, um novo ciclo dirá de nossa afirmação. O certo, porém, é que temos tido muito trabalho, pois faz-se importante evitar a catástrofe do regular edifício espiritualista até aqui erigido no seio da Humanidade, edifício que custou o martírio de mentores espirituais da maior elevação. E deixamos, uma vez mais, consignado o nosso espanto intelectual na seguinte interrogação: – por que fazem os pensadores de certa ordem confusão entre a chicana clericalista que deve terminar e a Verdade Imutável que deve merecer o respeito geral? No entanto, vamos à frente. Depois de uma esplêndida manifestação dos planos superiores, em que os ares ficaram divinamente ornados com a presença de legiões iluminadas, cantando os mais belos hinos, declamando as ultra-inspiradas composições de nossos poetas, num mundo de luzes múltiplas, impossível de ser descrito, de volta encontramos a ordem a tanto desejada – ir ao encontro de Bento, meu suposto pai. Eu já havia, não só esquecido, mas até admitido aquele seu brutal procedimento para comigo. Impossível, entretanto, fora esquecer o irmão faltoso, fosse lá pelo que fosse. Arrastava comigo uma espécie de carga histórica, um liame vinculador, alguma coisa transcendente a me prender a ele. E no meu íntimo, fazia algum tempo, levantava-se um sentimento de aproximação, a idéia de buscá-lo, de lhe valer nalgum sentido. Atingiam-me, agora sei, ondas mentais solicitantes; mercê de Deus, como
estava sintonizado ao bem, aos ideais de amor e de perdão, essas ondas se aninhavam nos recessos de minha alma. Foi, pois, com imenso prazer que recebi o encargo de procurá-lo, de encaminhá-lo à paz e ao progresso.
Sabe-se, e muito bem, ser o espírito uma centelha divina, lançada na ordem das individualidades, simples e inconsciente, agindo em função do automatismo genérico, do Poder Supremo que o projetou no plano dos dinamismos evolutivos, mas que encerra, em potencial, o Céu em sua intimidade. Depois de ser lançado, portanto, no plano individual, conseqüentemente torna-se evolutível pela lei do dinamismo, do movimento. E que espírito poderia furtar-se ao plano geral? Quem poderia neutralizar a força central que mantém e dirige as coisas e os seres? Tomemos o homem, portanto, como parte integrante do organismo universal, no seio do qual terá que se mover e evoluir. Não tem outro recurso, não valem pretensas apelações inibidoras. É parte da Ordem Geral e a ela está ligado para todos os efeitos. Quando em atos se coordena com a Grande Lei, torna-se feliz e aumenta os próprios poderes de conquista; quando age à revelia, ou discorda, fazse vítima, torna-se presa de suas mesmas faltas, adquire, para mais tarde, tributos dolorosos. O burburinho da vida, ou das vidas, encobre, então, as contingências que provocam reacertos. Dissimulados por entre os lanços mais inesperados, por entre as fases de alegria e dor, os ditames da Ordem Geral fazem-se respeitar. O homem, como produto apenas de suas suposições intelectivas, esse homem pode morrer, pode sumir; mas o homem de fato, o homem de Deus, o espírito imortal, esse paira acima das cogitações em geral, acima do homem temperamental. A Lei Geral nunca jamais permitirá na perda de um ceitil de suas validades, negativas ou positivas. Dos abismos do espírito surtem eternos proclamos do Poder Supremo. Jamais restará do homem apenas a massa, o número; ele será eternamente um valor, um poder vibrante, uma energia transmissora, por mais que se empregue mal, por menos que faça por valer, porque é filho da Suprema Essência, porque é subordinado à Ordem Geral. Assim como se arrastam pelo Infinito em fora os Infindos Mundos, em suas vertiginosas carreiras, marcando na cronometria dos ciclos os períodos evolutivos em marcha, assim o espírito se encaminha, através dos altos e baixos de suas ações, aos páramos da Vida. Ninguém deve, portanto, pasmar-se em face do homem do presente, quando tiver que focalizar, para efeito de meditação filosófica, o homem que na Terra pareça estar bem ou mal situado. Melhor é deixar para outros dias o serviço de aquilatação geral, de julgamento final. Porque, seja como for, a alma encerra glórias que a grosseria presente não permite sequer vislumbrar ao longe. O riso pode muito bem transformar-se em pranto, como o pranto pode muito bem transmudarse em riso. Enquanto se está no plantel das aparências, faça-se respeitoso silêncio, pelo menos se reconheça a validade das leis fundamentais e a enquadração do indivíduo em julgamento. As vidas sucessivas são camadas experimentais superpostas; entretanto, a liberdade relativa de auto-uso pode corromper o direito e a alma se vale de um bem fundamental para adquirir um mal temporário. As torturas infernais foram todas elas conseguidas à custa de ações inomináveis, e estas ações foram levadas a cabo à custa de leis dignas de muito respeito. Deus, depois de lançar o espírito na ordem dinâmica, senhor de poderes celestiais e liberdades semidivinas, embora em potencial, não mais ingere em suas questões, não mais se impõe particularmente – é a Ordem Geral, é a Lei quem governa, porque ela é a manifestação, no próprio homem, da Presença Divina e da Justiça. Afirmando a Escritura a sentença e o Cristo a reproduzindo – “Vós sois deuses” –, ficou dito que o homem consigo mesmo acerta suas contas. Eu e o meu então suposto pai, em certo tempo de nossa história, levantamos um débito de ordem íntima. Lavramos em nós mesmo uma terrível marca, não havendo outro recurso, para desmarcar, sem ser o trabalho ressarcitivo doloroso, em vista das circunstâncias em que a lavramos. Fosse outra marca de falta, e por menos má fé, o bom trabalho, a caridade, até mesmo o puro arrependimento valeria como dirimente. Agimos maldosamente, eu o forcei a proceder mal, e o seu ódio posterior encarregou-se de piorá-lo, de incriminá-lo ainda mais, enquanto que eu, reconhecendo a falta, e fazendo por liquidá-la, entreguei-me a reencarnações difíceis e a trabalhos árduos. Se não traguei de todo a morte na vitória, pelo menos desbastei em mim o quanto pude as arestas, as quinas que me apresentavam como um devedor.
Bento, ou o meu suposto pai na última reencarnação, fez o indevido – comprovou a velha assertiva, aquela que diz com muita propriedade, que um direito mal usado se transforma num débito encruado. Verdadeiramente, não basta ter razão, não basta ter direito; faz-se mister saber tê-lo.
Eu, Etna e alguns outros, fomos encontrá-lo em região inferior, não trevosa, mas bastante sofrível. Já havia passado pelo pior e achava-se em trabalhos árduos, qual condenado terreno em faina prisioneira. Muitas criaturas acham-nos novelistas imaginosos, quando lêem o que transmitimos, relatando a vida e seus trâmites, nestes etéreos domínios, nestas plagas onde, de acordo com toda a obra do Senhor, uma normalidade sempre há, para dirigir os fenômenos a seus justos fins. Entendamos – os seres agem, as ações provocam reações e as reações demandam outras tantas ações; portanto, em parte forçamos o plano dos efeitos e em parte os efeitos obrigam-nos a reagir, surgindo então o dialetismo complementar, isto é, o ciclo mecânico completo, como produto da simbiose entre o necessário e o contingente. O homem é, no plano relativo, o centro de gravidade, mas por medida de ordem superior, não pode prescindir das imposições externas, a fim de evoluir. Age, cria casos e contingências, defronta situações, supera ou fracassa, mas sempre vive, tem suas necessidades, lobriga modos de vitória, lança-se à luta... Luta é ação, toda ação é conseqüente, provoca reações... Mas, para que repetir em palavras aquilo que a vida obriga a repetir em ações, até a complementação final? O ideal seria, compreendamos bem, que jamais fossem desperdiçados esforços. Entretanto, como dissemos noutro capítulo, muitas graças naturais são empregadas para fins menos recomendáveis. E surgem, então, outras necessidades. Por exemplo, surge a necessidade ordinária de ambiente, de habitat próprio ou condizente, para que as reparações sejam levadas a termo. Na Terra é fácil pensar em tudo, seja a saúde, seja a doença, seja a riqueza, seja a miséria; todos os contrastes podem ser facilmente conhecidos e julgados. E não há quem pense sensatamente, racionalmente, e não faça uma indagação ao menos, sobre a tremenda diversidade entre umas e outras condições e situações. Se na Terra é assim, como será no mundo espiritual? Não somos novelistas, não pensamos distrair a quem quer que seja. Estamos agindo sob a tutela de Ordem Suprema. Relatamos o mínimo, porque o máximo seria ainda insuportável pela imensa maioria. Não é necessário que volte o Cristo e repita aquilo de que trata o versículo doze, do capítulo dezesseis, do Evangelho segundo João; nós sabemos o quanto é esquivo à Verdade o espírito malicioso do homem terrícola. Todavia, a quem perguntou a Verdade alguma coisa, a fim de que se testemunhe como Verdade? Não importa como nos interpretem; muito piormente fizeram com os grandes reveladores, aqueles mesmos que se acreditavam senhores de toda Verdade! Seria o escândalo uma verdade, sendo filho da simplicidade ou da indiferença? É certo que não. Nesse caso, surjam os pretensos conhecedores de toda a Verdade, de todas as leis, de todos os poderes, e fabriquem escândalos. Um dia, também dia ordinário, comum, simples, porque em face de Deus não prevalecem especialidades, a Verdade vencerá a malícia. Cessará então a contradição; o pretenso sabichão fará marcha à ré, deixando a vaga para outros e mais outros primitivos, outros tantos sabidões de si mesmos... Bento, portanto, estava numa faceta astral, numa terra etérea bastante inferior, mas sempre terra, sempre lugar integral em sua feição ambiental. Tórrido o sol, ressequidos os campos, mirrados os arbustos, miseráveis os seres, despóticos os chefes em geral. Enfim, tinha o mundo exterior na razão direta do seu mundo interior... É bem fácil entender, não é? Já não ficou dito que o Céu de fora corresponde ao Céu de dentro? Como entregar a um mundo de luzes gloriosas aquele indivíduo cujo “olho interno” seja trevoso? Fomos encontrar Bento, precisamente onde devia estar. – Então, irmão Bento? Sempre esperançoso? – abordei-o. Suarento, esfogueado, olhou-me bastante e não me reconheceu. – Sou Barnabé – avisei-o. Largou as latas, ou baldes, com que transportava água montanha acima, fazendo um trejeito facial que me pareceu longínquo vislumbre de alegria.
– Não tem o que dizer? Somos iguais em natureza e destino. A diferença... Tampou o tostado rosto com as duas mãos e caiu em profundo pranto. Etna falou-lhe, carinhosa e confortadoramente, dizendo-lhe de nossa função. Desceu as mãos calosas, deixando ver o tisnado rosto todo banhado pelas lágrimas. Ninguém mais lhe falou, aguardando a sua palavra. Ele, então, fez um sinal – era mudo. – Quando emudeceu? – perguntei-lhe. Fez outro sinal, dizendo que depois do trespasse. Fiz-lhe, então, o sinal que definia a nossa presença ali. Ele sorriu, um sorriso cheio de terno reconhecimento, agarrando-se ao meu braço direito e pondo-se a nos acompanhar. Etna apanhou-o pelo outro braço, com o que ele muito se agradou, osculando-lhe respeitosamente a mão. Fomos ao departamento administrativo, demos conta do encontro, agradecendo a todos, havendo partido rumo ao plano indicado na ordem de serviço. Bento ficara entregue ao corpo médico local, para ser tratado. Eu e Etna fomo-lo visitar no dia seguinte, fez sinal de que nada lhe haviam feito, embora o tivessem examinado atentamente. Saímos, indo falar ao assistente geral, pois o do pavilhão não se achava presente. Disse-nos o assistente geral: – Não tem vestígio físico algum. Por isso, oficiamos ao departamento informativo, a fim de sabermos a origem de sua surdo-mudez. Como sabe, algumas falhas orgânicas têm origem nos fenômenos psíquicos intensos, mormente quando se trata de sentidos, cujo mecanismo depende, na maior parte, do equilíbrio eletro-magnético. Se a informação vier conforme nossa expectativa, faremos aplicações de ondas energéticas, ao mesmo tempo que o sujeitaremos a passes contínuos. – De qualquer forma, tudo sairá bem – ventilei. Abanou a cabeça, em sinal de inteligência, considerando: – Se os espíritos fossem perfeitos, onde estariam os corpos doentes? Como pode observar, até aqui se prolongam as formalidades que denunciam a necessidade premente de aquilatações minuciosas. Lei é Lei, seja onde for... Ninguém poderá inverter a ordem normal das coisas; jamais haverá quem possa de fato escandalizar a Lei. Ela se faz minuciosa, impõe-se e triunfa, fazendo vencer, obrigando a triunfar... Podemos pensar em contrário, mas essa é a norma fundamental. Suspirou tristemente, talvez rememorando algum feito próprio, rematando: – Entretanto, duro é enfrentar a Lei... Eu também fui aleijado, eu também tive as minhas liberdades, eu também usei mal certas liberdades... Enfim, aqui estou, tratando dos outros. Compreende? Desci, fui vítima de mim mesmo, paguei, e aqui estou zelando pela felicidade alheia, naquilo que me toca ser útil. Encarou-me vigorosamente, penetrantemente, indagando: – E você? Que crime cometeu? – Fui recepcionado... O Céu veio em meu amparo... Desencarnei em ordem... Ele me olhou com certo espanto, medindo-me dos pés à cabeça. Depois, entredentes, murmurou uma pergunta: – Sendo preto?... Respondi-lhe: – Sendo preto, sim senhor. Qual dementado, gargalhou, esparramou-se na cômoda poltrona, repetindo: – Graças a Deus!... Meu pai dizia que um preto é sempre um preto!... Vejam só que maravilha!... Quem diria?... Deus pensa de outro modo!... Deus não usa os pretos para serem escravos!... Que maravilha!... Aquilo espantava-me um pouco. Um pouco só, não muito. Aquele homem era um douto, um rico, um portador de certas vantagens. Parecia meio dementado, meio louco, assim como quem sai de um manicômio, meio curado, meio doente. Perguntei-lhe:
– Seu pai?... Ele avançou intempestivo: – Ora! Ora! Ora! Meu pai era fazendeiro, dono dos corpos e das almas, da saúde e da doença, da fome e da fartura!... Dizia que um preto é um preto, que nunca passa disso, que nasceu para ser escravo... Que estopada! Que estopada para ele!... Agora está na Terra, é preto, é preto!... Preto retinto!... – Seu pai?... O assistente geral fechou carranca num repente, transmudou-se, fez-se outro. A minha vez era a de ficar quieto, a de guardar silêncio. Ele nada mais disse, eu nada mais perguntei. Despedi-me, fui para meus penates. Minha mente fervia, minha alma fremia, minha razão considerava. Toda a filosofia que eu sabia não bastava, não era suficiente para aquilatar aquilo. Entretanto, a vida tudo podia comportar, eu era mais ignorante do que sábio. Sabia pouco, estava de acordo com a vida, com os seus matizes, com a Grande Lei... Acima de tudo com a Grande Lei!
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.