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Capítulo 5 de 14
Rasgando O Véu — parte 4 de 13
O Grande Cisma · Osvaldo Polidoro
aqui, tudo é por leis e soluções práticas. Temos de atingir o grau pleno ou crístico, e como não há nem vigoram, na Ordem Suprema, mistérios nem milagres, eis que tudo emana de compreender e aplicar bem os poderes individuais. – Estou de pleno acordo, irmão. Apenas, temo errar por falta de melhores conhecimentos. Ele ponderou: – Se errar por isso, conta com valiosa atenuante. Poucos são os que se podem valer desse recurso, depois de lerem com atenção as obras básicas do Espiritismo. De fato, como asseverou o Cristo, mais será exigido daquele a quem mais foi dado. A regra, portanto, é corresponder em obras práticas à montante de conhecimentos teóricos. Como vê, tudo é relativo, tudo é por peso e por medida. No íntimo de cada um está Deus, está a DIVINA ESSÊNCIA, e nada passa por esquecido. Assim como fizer, assim será contado. Nada é fora da Lei, o justo ou o injusto, o certo ou o errado, mas tudo é regulado, contado e assinalado. Para os mundos ou para os indivíduos, para os átomos ou para as galáxias, para tudo há leis e disposições de ordem. O que teve começo, por Lei o teve, e por Lei existe, sendo que por Lei avança para rumos certos. Não existe o acaso, pois tudo é em conseqüência e se torna conseqüente. – Admirável a sua dissertação, irmão. – Aprendemos com o Princípio Emanador. Olhem a Terra com olhos de ver, procurem penetrar o porquê de tudo, e em tudo descobrirão Amor e Sabedoria. Deus não está longe, Deus está no âmago profundo de tudo e todos. Quem marcha para o seu próprio interior, através de elevados sentimentos e alevantados saberes, força contato com o SAGRADO PRINCÍPIO e torna-se poderoso. O grau crístico, como o conhecemos na Terra, esse é o grau sintônico por excelência. Todavia, fica dito, não é apenas uma questão de teoria, de alcance passageiro, de realização estática mais ou menos prolongada, como acontece com certos místicos, principalmente com alguns escritores espiritualistas. O ponto crístico de fato é aquele curtido através de vidas e mais vidas, é aquele construído no contato direto com as grandes provas, onde a grandeza de alma se revela em rasgos de paciência, de tolerância e de renúncias. Lembrem-se do Mestre – não venceu por apenas falar nas coisas do Céu, por se trancar no silêncio de uma sala e meditar nas leis do espírito; a Sua vitória foi argamassada com trabalhos duros, suados, sofridos, ensangüentados; de pensar bem, no silêncio confortável de uma sala, disso muitos são capazes; de levantar cálculos e teoremas sobre as grandes leis do Cosmo, disso são capazes até mesmo aqueles que jamais se deram a pensar na avezinha que lhes forneceu, à custa de dores horríveis, o repasto do meio dia. Convém, pois, não confundir entre valores e valores. Pensar no Bem não é obrar o Bem, Falar no Cristo não é fazer obra de Cristo. Mais vale uma boa ação do que mil elocubrações sobre todas as virtudes catalogadas. Filosofar é apenas filosofar. E quantos passaram pela Terra, que havendo pensado bem, nem por isso obraram senão mediocremente. Os homens enganam-se com muita facilidade, mas a Ordem Suprema em nada se abala. Para ela tudo é simples, cada fenômeno possui a sua classificação, nada mais. Naquela hora minha esposa começou a soltar uns gemidos, chamando a atenção do guia, que assim disse: – Deixe-se tomar. Não faça oposição mental. Não tenha receio algum, pois é apenas um espírito pretendendo comunicar-se, a fim de implorar perdão. Ouvindo aquilo, intervi: – Eu não o condeno. De minha parte está perdoado. O guia volveu: – De sua parte sim, e é vantagem para si; mas a Lei, para com ele, que é devedor, impõe de outro modo. Deve comunicar-se e falar, pedir perdão pessoalmente. Se triste é sofrer, muito mais triste é errar. Lembrem-se disto – dor bem-aventurada é a dor missionária, ou quando muito a dor de prova. Aquelas oriundas de culpas, de agravos, são tudo, menos isso. Vamos dar fim a certas concepções errôneas, que apenas servem para pretender justificar atos indignos e situações culposas. Demais, aqueles mesmos que bendizem os sofrimentos, não os querem para si, e numa demonstração de imoralidade espiritual, superestimam aos seus menores achaques.
Os gemidos aumentavam, e o guia tornou ao convite, desta vez ordenando ao senhor Abrantes, para que pusesse sua mão direita sobre a cabeça da médium. Ele fi-lo e imediatamente um pranto agonizante ouviu-se. Logo se transformou em palavras, e estas eram lastimações e desculpas. – De minha parte, senhor Bento, não quero que sofra. Pouco ou nada me fez, em virtude dos recursos que surgiram; desejo o seu bem, a sua paz, o seu progresso. O pobre, entretanto, replicou-me: – Teria ido longe, com a minha malvadez, se as coisas tivessem permanecido como de início. Deus me valeu, ainda posso dizer assim. Mas o pouco de mal feito, tendo sido contra uma criança, muito representa. Dói-me a alma!... Sinto dores na alma!... No íntimo!... – Oremos por ele – pediu o guia. Depois de algum tempo, houve calma, paz, expressões de graças a Deus. O guia falou: – Em se usar bem, resume-se toda a sabedoria do homem. Eis no que deu o culto do erro. E dizer que era um homem crente! Que se orgulhava de ter uma fé! Que se julgava mais e melhor, por ser um fanático ledor do Evangelho! O espírito culpado balbuciou: – É verdade. A grande lei é o Amor, dizem-me aqui nos ouvidos... O poder da inteligência é total, quando se alia aos sublimes alcandores do sentimento enobrecido e posto a frutificar. Eu não fiz assim... Acreditei na fé... Dei muito valor às minhas razões... Era muito cioso de mim, era muito vaidoso... Mas agora estou melhor, estou em paz, porque pedi perdão e sinto que fui perdoado... Emocionado, chorei. Pela primeira vez, compreendia e sentia a vantagem de uma ação fraterna. Estava servindo. Estava sendo útil. Era interessante. O guia fê-lo sair e os trabalhos prosseguiram.
O campo afetivo possui extensões e valores que a razão, por inculta, não sabe e não pode considerar. Um dia, porém, a criatura encontra os registros feitos no plano das causas, no mundo astral, certificando-se, então, do quanto zela o Poder Supremo pelas Suas criaturas. E chega, também, o dia em que a própria razão vive plenamente a certeza de todos os valores do espírito; tudo é questão de evoluir, de crescer na intimidade. Enquanto, porém, a razão viver inferiormente, não se der conta de suas possibilidades em extensões, o mundo sentimental age, marcha na frente, resolve os grandes problemas. A morte, como vulgarmente se diz, trouxe-me um aluvião de testemunhos a considerar. Eu sabia, por ouvir, de sublimes verdades a esse respeito; muitos espíritos haviam dito, antes de me certificar pessoalmente, das lídimas atuações dos departamentos erráticos, onde tudo é registrado, onde tudo é assinalado com exatidão. Naquela minha inaugural apreciação, ficara admirado, com o prosseguimento dos trabalhos, da capacidade receitista da senhora Adelina, e do prazer com que procurava servir, muitas vezes cobrindo despesas que doentes pobres não podiam fazer. Ela dava tudo, segundo seus recursos, o que lhe vinha do Céu e aquilo que ela mesma colhia nas messes terrenas. O marido trabalhava e ganhava o bastante para uma vida simples, ela aumentava o orçamento, e distribuíam, ambos, um pouco daquilo que lhes sobrava. Aprendi doutrina, aprendi regras salvadoras, observando gente assim, acompanhando caracteres tão nobres. Dar não é tudo, pois é comum se o faça por indústria, dar amorosamente é que corresponde ao tratado celestial. A Terra comporta muita gente que dá, que distribui, mas que o faz muito ao longe, por medida e por cálculo, servindo mais ao cartaz social do que aos nobres impulsos do coração. E a Lei por tudo é, de tudo trata e dá contas. Devia desencarnar para saber o que é fazer o bem, antes do que apenas meditar sobre as grandes leis do Universo. Até por devaneio se pode fazer cogitações em torno das grandes verdades de Deus. Nada custa e até diverte. Mas para distribuir o produto do trabalho suado, e levá-lo a cabo com bastante amor, para isso é necessário haver crescimento íntimo, evolução de fato. Observando deste lado, vemos perfeitamente o que se passa na Terra, entre os encarnados, há mais falácia no ato de dar, há mais propaganda individual em oratória, do que mesmo dadivosidade ou espírito cristão. Não admira, pois, que simples homens e mulheres do povo se revelem grandes beneficiários do Céu, enquanto muitos tidos e havidos como baluartes, se apresentem destituídos de suas aparentes validades psíquicas. Ler grandes tratados não faz verdadeiros sábios. Boquejar sobre a caridade é possível aos miseráveis. Alardear vantagens psíquicas pode não ir além de verbosidade fácil. Com isso tudo e mais alguma coisa, porém, não se ilude a Lei. O homem, ou espírito, não foi lançado à vida, ou à consciência individual, que é produto de maturação espiritual, para resolver os problemas fundamentais, os delineamentos do Infinito, quer em síntese, quer em análise; o problema do homem é a solução íntima. É o desdobramento do mundo interior. É a exposição do Céu de dentro. No entanto, por erro de cálculo ou coisa que o valha, eis que o vemos empregando esforços, queimando pestanas, para a solução daqueles problemas que de si mesmos se acham solucionados, porque deles diretamente trata o Poder Supremo. Não quero negar o dever de conhecimento, pois os Altos Chefes, os Cristos planetários, ou os de galáxias e meta-galáxias, não podem ser os ignaros das leis em geral. Pretendo, apenas, lembrar a solução do que é mais necessário. Para se auscultar os respiros do Universo Infinito, tanto basta um pouco de inteligência e alguma escola. Afirmo que, por aqui, até mesmo o mais rústico ser, se colocado em face de mapas, de maquetes, de diagramas, aprenderá com facilidade o grande, o problema geral. Depois, nada mais lhe resta que esmiuçar, que detalhar. Ou já possuem nomes os fenômenos mais relativos, ou tenham que lhes ser dados, mas tudo é simples, comum, ordinário. Mais esforços são necessários para lembrar nomes do que mesmo para saber leis. De um modo geral, a síntese é constituída de múltiplos e os múltiplos fazem a síntese. O TODO esfarela-se em infinitas partes, observando as regras, nos mínimos detalhes, a fim de que na parte e no TODO reine harmonia.
Os grandes tratados, cheios de termos empolados, vazados através de rebuscadas expressões, de tecníssimas sentenças, não fazem um só felizardo celestial, a verdadeira chave é o Amor: O Evangelho é doçura! O exemplo do Cristo é renúncia! Apesar dos pesares, nasci num corpo preto, casei-me com uma preta e tive cinco filhos pretos. É arrastar um peso moral o fato de nascer num corpo dessa cor, porque a maioria dos brancos mantém opressiva prevenção. No seio dos espíritas sentia-me mais à vontade. A doutrina do Cristo é acima de preconceitos, mede os valores humanos de outro modo, não pelas aparências, não pela casca, não pelo exterior. Mas a vida de um preto, de um modo geral, é marcada por vincos sofríveis, em virtude das prevenções que os brancos fazem por sustentar. Conseguem amar um cavalo, tratar carinhosamente um gato, mimar um cão; mas não conseguem pensar de maneira humana a respeito de um semelhante, pelo simples fato dele ter nascido preto. Sério estigma, de fato, há pesado sobre a comunidade negra do planeta; consumados déspotas, renomados orgulhosos, têm encontrado aí elementos de expiação, de prova, para resgates inelutáveis. Entretanto, pobres espíritos, humildes servos de Deus, aí têm bebido e ainda bebem o cálice da amargura, por culpa de uma brancura que não atinge a lama de seus portadores... Deus, porém, não é dividido contra si mesmo. Em face da Suprema Lei, nunca jamais sofrerá pena o inocente, menos que em caráter missionário e de espontânea vontade. O Céu é simples, assim como se descobre através das grandes almas. Sua gloriosidade decorre de sua profunda, de sua divinal simplicidade. Devia mesmo estar em plenitude celestial, aquele que recomendou a simplicidade das crianças, aos desejosos de sua posse. O Supremo Todo é a suprema simplicidade; por isso é que lembramos aos complicadores da vida, aos fazedores de complexidades, muito cuidado, muita prudência.
Enquanto eu e minha esposa íamos marchando vida adentro, e nossos filhos tornavam-se jovens, o casal Abrantes curvava ao peso dos anos. Quando nós estávamos pouco acima de meiaidade, eles já haviam partido, deixando um vácuo imenso nas pessoas de suas relações. Se é paga de Deus ser defunto chorado, aqueles velhinhos foram muito bem pagos. Todavia, outras pagas obtiveram, no íntimo de si próprios, pelo bem levado a termo, de conformidade com as Disposições Supremas. Ao defrontá-los, mais tarde, quando de nossa desencarnação, não só entramos na posse dos bens adquiridos, gloriosos bens, inimagináveis felicidades espirituais, como também nos certificamos plenamente, das virtudes possuídas, erguidas na intimidade, por aquelas duas entidades queridas. Estávamos acostumados a pensar, a cogitar seriamente das coisas do Céu, partindo deste princípio – o Cristo veio revelar amplamente a visão do Cristo interno, do Cristo por despertar, única solução para o problema do Céu. Não veio levantar clerezias, não veio pedir bajulações, não quis curvações melosas de quem quer que seja. Falou a linguagem pura e simples do Amor! Esqueceu glórias e merecimentos indiscutíveis, lançando-se aos serviços do bem alheio, mesmo à custa da própria vida! Para fundamentar o grande exemplo em obra imortal, culminou-o no Batismo de Espírito, na amplidão revelacionista, no Pentecoste. Acostumados a pensar assim, desencarnamos com a mente afeita aos melhores propósitos; e de pronto obtivemos o testemunho da Verdade. Aos que vimos e reconhecemos em melhores condições, foram precisamente aqueles que mais haviam trabalhado com afinco nas obras de fraternidade, de sociologia cristã. E fomos ver, em lugares inferiores, alguns gemendo e lastimando, aos que se haviam aplicado muito em obras de evidência formal, em pompas e grandezas exteriores. Eu creio, e tenho para mim certeza disso, que o Cristo poderia voltar ao mundo e repetir a Sua tremenda lição de simplicidade e despertares internos; porque os historiadores sacros e os compiladores, por si mesmos ou por injunções estranhas, nunca fizeram ver e entender mais, do que um Divino Mestre bem deturpado, todo envolto em atos formais e amigo de reverências, Divino Mestre que sabemos, agora, jamais existiu! E tanto é realidade isso, que não vimos ainda, depois de muitos anos de serviços socorristas, emergir da carne em condição gloriosa, a um sequer, ao menos um, de quantos vivem da exploração da fé, dos artificialismos religiosos ou ditos religiosos. Quando muito, notem bem os observadores, entram na consciência do estado, e trabalham nas zonas inferiores, aguardando nova imersão carnal, para os serviços de levantamento interno, de superações e conquistas intransferíveis. Iludem-se, muitos cultores de sessões, quando são visitados e quando são assistidos por entidades que na vida carnal foram dos comércios clericais, ou se entregaram a cultos mediúnicos abaixo de recomendações... Ser consciente do estado, e vir para os círculos de trabalho bastante chãos, não prova de modo algum mais do que débitos para com a melhor hierarquia. Digo isto, pelo muito carinho com que certos espíritos medíocres querem ser tratados, impondo considerações, em palavras e atos, que fariam vergonha a qualquer entidade revestida de um pouco de evangelidade. Sem serem maus, são orgulhosos, vaidosos, arrastam muito, ainda, presunções mundanas. Pretendem, junto aos encarnados menos experientes, passar por aquilo que passavam durante a encarnação; isto é, por trunfos verdadeiros, de alto padrão psíquico, quando em realidade, mais valiam as vestes, as aparências, do que mesmo o tom espiritual, o grau de evolução. Para com os estatutos humanos, eram autoridade, mantinham alguma vaidade; e, ciosos de seus costumes, cauterizados pelo vício de querer ser, valem-se do véu carnal, que os encobre, que os oculta, e passam por aquilo que de fato gostariam de ser, mas que infelizmente não são. É assim que, pela Terra em fora, em ambientes simplesmente simplórios, comunicam-se titulados de variada ordem; santos, anjos, papas, bispos, cardeais e outras pretensas outorgas religiosas. Outros há, e avultado é o número, que descobrindo na morte, na aferição de valores, o logro em que caíram, votam-se a trabalhos árduos, dão nomes que já tiveram em outras vidas, sem representação ante o Panteão da vaidade humana. É outra forma de ser orgulhoso, é outro tom de vaidade, pois o ideal seria falar a verdade, e assim transformar uma simples experiência em uma
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