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Capítulo 11 de 14

Rasgando O Véu — parte 10 de 13

O Grande Cisma · Osvaldo Polidoro

A vida, por aqui, caracteriza-se pelo múltiplo infinito de seus aspectos, de suas gamas, de seus matizes; de alto a baixo os graus se distendem incontáveis na escala geral. O gênero desmancha-se em graus e números a mais não contar, e os graus e números pululam em montantes astronômicos no painel genérico. E cada indivíduo apresenta-se com as suas características definidas. Por ser igual em origem, plano de evolução e finalidades, nem por isso faz a vez de outrem, vale mais ou menos. Não, é como é. Representa o tom específico e nada mais. Ninguém julgue, portanto, completo a espírito algum, desses que se apresentam nas sessões, desses que ainda se mesclam nas questões humanas, seja por serem amigos, seja por serem guardas, seja por serem guias; enfim, seja lá pelo que for. Cada qual tem o que conseguiu ter e nada mais. Quanto a estes planos, as condições, situações e funções variam, sempre na conformidade da evolução e dos merecimentos. O panorama psicológico apresenta-se aqui muito mais amplo do que se julga aí. E bastaria, nalguns casos, um simples e distante vislumbre da realidade, para que alguns pretensos conhecedores e julgadores se assustassem. Afinal, como já alinhavamos conceitos há pouco, faz-se mister haver lugar e condições para todas as graduações e matizes evolutivos. Graduações e matizes evolutivos significam tiques psicológicos, muitas vezes mal disfarçados traumas, outras vezes bem pronunciados distúrbios. Cada indivíduo é alguém que deve trabalhar o seu próprio material; não adianta pensar em mistérios, em milagres, em favores, em saídas furtivas ou esquivas entradas. O indivíduo vive, agita poderes, imprime características, recebe efeito das ações – isto quer dizer, apenas, que forjou para si casos e estados, no presente e para o futuro. Erra gravemente se acredita resolver seus problemas à custa de recursos adventícios, supersticiosos; os escapulários valem muito, mas é para aqueles que os vendem, e isso mesmo enquanto palmilham a carne e necessitam de confortos materiais... Logo, em verdade, também prestarão suas contas e defrontarão seus casos e estados, suas ações e conseqüências. As questões de ordem espiritual não são de ordem traficante. As permutas são necessárias, altamente necessárias, mas não se confundem com os comercialismos de outras ordens. O próprio conceito contemplativo, e sua aplicação como ética religiosa, apesar de puro, quando é puro, fica bem entendido, não basta! Porque o espírito não se torna puro e sábio apenas por crer e confiar em Deus. Esta verdade é irretorquível, esta verdade jamais passará. O mundo exterior, com todo o seu poder contributivo influencional, nada mais representa, em sã verdade, do que a simbiose entre o estímulo e o forçamento, o prazer de ativar recursos potenciais e a necessidade tangente de fazê-lo. O cadinho, porém, onde se devem processar os trabalhos purificadores, onde as infusões se devem produzir e permanecer, esse é o íntimo do indivíduo. O contemplativismo, ele que já é alguma coisa, que já é luz, não cresce entretanto. E não basta que haja luz interior, luz opaca, luz mortiça; faz-se necessário haver luz viva, luz que cresça em si mesma e que aumente cada vez mais, a fim de tornar-se glória e poder. Nas regiões inferiores do Céu, legiões existem e vivem, legiões que se votaram na Terra aos empregos contemplativos, induzidas pelas suas religiões; agora reconhecem, no entanto, que não basta crer e confiar, pois o melhor é, em conseqüência da crença e da confiança, mobilizar os recursos próprios e pô-los a trabalhar, a produzir. Crença e confiança valem como alicerces; surjam depois, os trabalhos edificadores, os esforços construtivos. Nas esferas inferiores do astral, podemos estudar casos aos milhões. São legiões que se movimentam, nos mais heterogêneos misteres, procurando ganhar aqui, à custa da crença trabalhada, da fé produtiva, aquilo que não conseguiram ganhar no mundo, através dos mil e um baratinos religiosistas. Ainda bem que é assim, ainda bem que se não corrompe a Lei! Caso contrário, que lucrariam aqueles que, por incultos e pobres, esquecidos do Estado e das babujas cerimoniais, carregados de filhos, de obrigações e misérias, se vêem impossibilitados para tais normas de crença?

Fomos visitar Bento, alguns dias depois, encontrando em seu poder uma recomendação do assistente geral. Queria falar-nos. Como tal, fomos em seu encalço. – Os documentos de Bento estão aqui – disse-nos ele – e revelam agravos acima de tudo espirituais, isto é, de acentuado fundo moral. Errou contra a Lei, diremos assim para facilitar a compreensão, enquanto afirmava a Lei. Apelava para Deus, para o Cristo, para o Evangelho... Mas, infelizmente, agia no plano da contradição. Deu uma piscadela de olhos, gesto muito seu e contínuo, procurando assinalar a melhor inteligência a seguir. Como lhe ficasse à espreita, demorou-se um pouco, afinal ventilando: – Irmão Barnabé, pensei no emprego de fluidos humanos. Os fluidos animais comportam imensos valores eletromagnéticos. E você conta com essa facilidade. Os serviços que presta são por meio dos múltiplos intercâmbios. – Não há dúvida que sim, senhor assistente. Como queira, assim faremos. – Afinal, foi seu tutor, não foi? Não respondi de imediato, mas achei que devia apartear: – É meu irmão para todos os efeitos. Outras valências são por demais problemáticas, a fraternidade fundamental é sistemática, é impassível. Olhou-me de soslaio, designando: – Fica entregue o caso ao seu critério, durante cinco ou seis dias. Se não surtir resultado, volte com ele para este hospital, que havemos de tentar outras medidas. Convoquei alguns companheiros, a fim de transportar Bento. Cumpre dizer, aqui, estar localizado esse hospital em região bastante inferior, servindo a quem mais não merece e conferindo trabalho a elementos do mesmo naipe. Sempre o retalho a par do tecido... O assistente admirou-se do recurso posto em prática – onda mental em forma visível, emitida e dirigida com todo o vigor possível. Ele não alcançaria, no momento, realizar tal efeito, embora o compreendesse perfeitamente. Chegados aqueles companheiros, entreguei-lhes Bento, rumando eu, Etna e mais um jovem recém-desencarnado, para a crosta. Ele devia falar aos pais, por merecimento destes, que muito haviam rogado, também. De volta, fomos encontrar Bento em preces, em rogos; ele ainda pensava, que de tanto orar é que se tiram muitos proveitos. Isto é, rezava pela cartilha de muitos outros, pois a Terra é pródiga em criaturas que falam muito e realizam pouco, contrariando assim a medida justa, o requerido pela Lei. – Que faz, irmão Bento? – perguntou-lhe Etna, notando-lhe o concentrado balbucio, a ponto de não nos perceber a chegada. Meio assustado, pois fora por ela sacudido, com expressivo gesto respondeu: – Rezo! Rezo! Etna silenciou, franzindo entretanto o cenho, como quem percebe a nulidade d’alguma iniciativa, por inconsistente ou inoportunidade. Observando ele essa atitude, fez o gesto de quem diz: – Quero ouvir, necessito ouvir!... Rezo, peço... Etna sorriu-lhe, fez sinal de sim e recomendou-lhe paciência. Ele também sorriu, um sorriso bastante desconsolado, aceitando o conselho. Depois, mudo, quieto, triste, passou a fitar-nos, mas como quem espera alguma coisa, alguma notícia confortável. Eu não sabia como resolver o problema da melhor forma, dizendo-lhe, por gestos, que no dia seguinte o levaria à crosta. Queria fazê-lo saber onde, mas não atinava com a mímica que significa uma sessão espírita. Repeti, portanto, a recomendação de Etna – paciência, muita paciência. Etna apanhou-me o pensamento, a onda mental, opinando: – Ele talvez não goste de sessões espíritas... É protestante... Aquele jovem recém-desencarnado, observou:

– O que era quando estava nas trevas? Etna, percebendo, repetiu: – Protestante... O jovem comentou: – Então fica provado que a Verdade não tem preferências sectárias. Bento continuava a nos olhar fixamente, como quem espera a resolução final para uma final equação. Ao nos retirarmos fizemos sinal de paciência e amanhã. – Tenha paciência... Amanhã faremos o possível... E saímos. No dia seguinte, pela tarde, fomos buscá-lo. Ele aguardava-nos, de espírito sequioso, alerta, feito a imagem da esperança. Por gestos, esboçou a pergunta: – Será hoje? Estou ansioso! Etna fez-lhe sinal, recomendando: – Contenha-se. Seja temperado em qualquer contingência. Bento fez sinal afirmativo, com a cabeça, mas seus olhos revelavam febril expectativa. Embora tivéssemos em mente suas pretéritas obras, a causa daqueles dolorosos efeitos, compreendíamos a sua razão. Ninguém pode ser feliz e sofredor ao mesmo tempo, nem mesmo estando, como ele vinha de estar, recolhido a um plano algum tanto melhor. Sem desrespeitar a Lei, sentíamos por ele compaixão. Conduzimo-lo para a crosta, entregando-o ao espírito que guardava o recinto familiar onde se faziam algumas sessões. É que, pela necessidade específica, procuramos um ambiente próprio, onde havia um médium de efeitos físicos. Seus fluidos grosseiros muito poderiam valer num caso tal. – João – disse eu ao servidor – fique com o irmão Bento; voltaremos mais tarde, pois temos dois outros para arrebanhar. Partimos, à cata de dois outros, também indicados como bastante errados, também criaturas forte em palavras e frágeis em obras; isto é, a par da imensa maioria dos crentes. Porque, apesar de todos os pesares, é tradicional, desde que existem seres responsáveis sobre a Terra, haver muito mais aparências do que realidades, em matéria religiosa.

Abramos um parêntese, para focalizar o caso desses dois irmãos. Não foi um simples lembrete do Cristo; é que, de fato, não convém ganhar o mundo e perder a alma. Compreendamos, porém, a relatividade da expressão – ninguém perde a alma, tornando-a, apenas, temporariamente embargada aos melhores proventos. Desconta os males, dirime as faltas, faz-se livre a fim de progredir, de avançar nos caminhos do Amor e da Sabedoria. Nada mais, nada menos, nunca havendo perdição total. Mário e Daniel eram também irmãos carnais. E possuíam outros irmãos. Contudo, como senhores de mais idade e possuidores de outras experiências, tudo fizeram a fim de lograr mais posses, quando chegou a hora da partilha. O inventário serviu a eles, por suborno, de instrumento de lesão contra dois outros irmãos carnais. A terra estava ganha, e muito bem ganha, enquanto o Céu interno, o Céu do espírito entrava em colapso, ofuscava-se. Acontecer isso entre criaturas religiosas, que vivem, teoricamente, proclamando os esplendores excelsos da moral cristã, representa não apenas um fenômeno de lesão individual, mas também e acima de tudo uma demonstração do escândalo doutrinário. Um ato é apenas um ato; mas entre dois atos idênticos, aquele que implique em maior exemplo coletivo, esse é maior, para todos os efeitos. Se bom, tanto melhor; se ruim, tanto pior. Não acompanha a pauta cristã aqueloutra advertência, aquela que torna mais responsável o mais conhecedor? Entretanto, nisso mesmo muito se fala, enquanto pouco ou nada se faz. Há muita crença, é certo, em determinadas horas; nas horas teóricas, contemplativas, votivas. Quando chega a hora de adorar em Espírito e Verdade, em obras sociais, porque a Deus bem se adora amando-nos com fervor, então, infelizmente, a religião fenece e o mundo levanta-se, cresce, impõe-se e leva o crente às barras da Grande Lei. Mário e Daniel foram assim. Tal e qual outros milhões ou bilhões, gerações e mais gerações recamadas, superpostas, escalonadas através dos tempos e das eras, estiradas ao longo do infalível tribunal interno, peregrinando, por isso mesmo, entre duras vidas e as calamitosas experiências. Mário e Daniel, um símbolo vivo, expresso em caracteres majestosos, indicando à grande caravana a seta que aponta o rumo do Céu interior. Criminosos de autotraição, iguais a nós outros, pois todos temos denegrido aos anelos mais íntimos e santos, mesmo que falando muito sobre um Homem, cujo nascimento deu-se numa estrebaria, que se vestiu com uma túnica sem costura, que andou de preferência descalço, falou a linguagem dos pobres e com eles chorou e gemeu sob o guante das mais corruptas autoridades, vindo a morrer, quase desvestido, encravado num lenho infamante. Eis o retrato moral da imensa maioria dos cristãos! Mário e Daniel terminaram ricos, muito ricos, altamente festejados pelo mundo, principalmente por aqueles que a eles passavam os mais subidos valores da religião. Eles começaram a vida fraudando, roubando a seus irmãos carnais, daí passando aos demais, culminando em apoteose e fausto mundanos. Os donos do credo esposado, davam-lhes tudo, ou trocavam graudamente. Deus, Esse estava muito longe, bastante longe para tratar de coisas tais, pensavam eles. Mas... Como poderia ser de menos? Quem nasce já não o faz hipotecado à morte? Os ossos repousam, até hoje, em lugar de merecimento. Não importa, ao mundo, que as almas sejam, pelos motivos que honram e nobilitam os restos corporais, alguma coisa agravada, impedida, toldada; ao mundo bastam as aparências! E dizer que, com isso, uma religião faz a parte que lhe toca!... E dizer que, à custa dessa parte, duas almas se sentem hoje debitadas, lastreadas a um futuro de ressarcimento!... Não escapa, a um espírito servo da Lei, a observação que faço, quando não seja a título de filosofia, o que seria diletantismo apenas, porquanto somos todos do mesmo nível originário e finalista. Questões alheias são cogitações minhas. Se me importo com os trabalhos, claro que posso me interessar pelas valências causais. Quem, pensando ajuizadamente, estaria contra mim? Quem, sendo razoável, deixaria de considerar a chama apavorante que consome os pensamentos de alguns irmãos menos felizes? Gosto de aprender as soberanas lições da vida! Aprendi, quando ainda no curso terrícola, a não menosprezar as mais simples oportunidades educativas; e vim completar carreira nestas plagas,

onde se refletem todos os procederes aí consumados. Não acreditando na falácia do Céu por sorte, menos ainda na mística dos milagres, e muito menos ainda nas falsas prerrogativas que certos credos pretendem confeccionar e exportar, tudo me saiu a favor, a Verdade sorriu-me por completo. Diga, quem bem queira dizer, como bem entenda; mas a realidade evolutiva é um processo íntimo, é a lavratura, no próprio espírito, da trabalheira amorosa e sábia. Superar, sempre superar, eis a medida. E quem olvida a obrigação de serviços internos, superadores da ignorância e dos sentimentos menos honrosos, esse pode esquecer, também, a importância dos escapulários, achados, dados, ou comprados. Os dois por lá andavam. Andavam? Não, corriam, desabalavam, numa febre egoísta, clamorosa, infernal. Terras, fazendas, indústria de laticínios, residência, escritórios, tudo eles varriam, reviravam, penetravam, atuando sobre uns, molestando a outros, criando casos e mais casos. Foram rezadas missas, foram dadas a institutos beneficentes importâncias em seus nomes; todos os recursos externos foram usados, todas as valências teóricas foram movimentadas em favor de suas almas. Eles, entretanto, continuaram correndo, zarpando, penetrando posses, escritórios, residências, sempre azucrinando alguém, sempre exigindo muito, nunca satisfeitos, jamais concordes com alguma coisa. A Lei não faz leilão de princípios básicos; não arrecada fora de si nem oferece desideratos por acaso ou de favor. Embora tivessem, num templo, colunas de mármore a lhes lembrar o nome e honrar os títulos, Deus, expresso em seus íntimos, através da Lei, não partilhava do festim mundano, estava à margem dos conchavos estatucionais e dos interesses subalternos de seus manipuladores. Fomos defrontá-los num imenso canavial, de permeio com uma trintena de capinadores, que se haviam estirado à sombra de algumas frondosas figueiras selvagens, aguardando a passagem da hora de mais intensa canícula. Eles berravam, vociferavam, tornavam-se terríveis em palavras e gestos. O véu da carne, o sudário adensado, entretanto, punha-os ao longe daquelas almas simples. Qualquer repelão, de ordem mental, sentido por alguns, mais sensíveis, era atribuído ao calor, ao álcool ingerido, a qualquer diferença de ordem física. Eles continuavam a xingar, a chamá-los de nomes feios, nem sequer ouvindo que conversavam a respeito da morte de ambos. É que ardiam nas garras do febril egoísmo, ou da soma de múltiplos erros cometidos. Estavam submersos numa atmosfera doentia, eram presa de estado mental tão longa e intensamente elaborado; viviam no seio de uma aura individual, de um mundo criado por eles mesmos, mundo áurico que refletia tudo aquilo que haviam criado e sustentado por muitos anos. O espírito é um agente fundamental e vibrante. Pode sê-lo positiva ou negativamente, a favor ou contra a Lei, porém jamais deixará de ser um agente fundamental e vibrante. É sempre criador de estados, de situações e condições, que podem variar em grau, do mais psíquico ao mais somático, do mais invisível ao mais visível, do menos ao mais concebível. Aqui reside uma questão de ordem, pois embora seja o que é, não sabe tudo a seu próprio respeito, e jamais alcançaria penetrar no conhecimento integral de suas possibilidades dinâmicas, estando, como está, atrelado ainda a um nível evolutivo tão inferior. Não sabe o que é, nem sabe do que é capaz! No entanto, por natureza é dinâmico e movimenta valores que lhe podem ser causa de alegrias ou de tormentas. Estando nas trevas ou nas divinas claridades, vibra e atua, faz movimentar e recebe em troca o reflexo de suas possibilidades dinâmicas. É muito interessante, ou mesmo integralmente interessante, conhecer cada vez mais a seu próprio respeito, a fim de se atinar com o seguinte – não confundir os direitos naturais com as liberdades relativas. Somos, o que somos, por força de um Supremo Poder, que do íntimo nos oferece direitos fundamentais e liberdades relativas. Assim como numa sociedade organizada, ou civilizada, os direitos de liberdade individual cessam na fronteira das obrigações decorrentes do estado gregário, assim também cessam as liberdades do espírito, em face da Lei, quando começa a invadir o campo da Harmonia Universal, em sentido contrário. Quem mais sintoniza com a Lei, tanto mais se faz livre e poderoso, jogando com os seus poderes, colocando-nos ao serviço de sua vontade; o que se faz arbitrário, avesso, contrata serviços de compromisso com a dor!

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.