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Capítulo 7 de 14
Psicometria — parte 5 de 12
Nos Domínios Maravilhosos da Psicometria · Osvaldo Polidoro
A tal senhora, a conselheira, rogou à voz:
– Muito obrigada por tudo. Não seria possível, todavia, saber da origem dos acontecimentos? Dizer alguma coisa, por exemplo, sobre o que motivou o presente estado do rapaz?
– Façam oração a Jesus, com todo o fervor possível! – exclamou a voz, a voz que vinha através de Zainer, sem contudo parecer sair de sua boca.
Eles entraram a orar e nós vimos que um grande mensageiro se fez visível, um anjo ou espírito das altas esferas; foi ele quem acionou Zainer, ou suas faculdades, para reverter às obras pretéritas do rapaz doente. E Zainer foi dizendo:
– Vejo um velho, todo cercado de sangue... Observo que vai regredindo em idade... É um cardeal... Vejo-o acusando a muitos, vejo-o condenando... Muita gente é supliciada por sua ordem... Há cheiro de carnes assadas!... Um horror invade o ambiente!... Pelo amor de Deus!...
Zainer como que despertou de um sono trágico, tendo os olhos esbugalhados e suando a valer. Sua fisionomia era de terror. Foi ele quem falou, explicando o que vira:
– Vi quadros dantescos, vi gente sofrendo suplícios terríveis, tudo por ordem de um cardeal, que tinha ascendência sobre muitos outros clérigos. Havia no ar gritos, berros, lamentações, blasfêmias, cheiros tétricos...
Zainer de novo transformou-se, repetindo a voz:
– Seu filho, mulher, foi terrível; tinha prazer em fazer blasfemar, acreditando que com isso perdia aos que, tangidos pelos tremendos sofrimentos, enfraqueciam na fé e de fato blasfemavam. Contudo, ele é que atravessou centenas de anos nas trevas, no âmago das inenarráveis torturas, até poder reencarnar, para ir completando a necessária reparação. Nesta passagem terrena, se quiserem fazer alguma coisa em benefício do conhecimento e do bom procedimento, poderá melhorar muito a situação, pois é a terceira reencarnação a que se submete, com caráter expiatório.
A mãe do rapaz rogou:
– Que Deus nos guarde de todo o Mal e nos guie para todo o Bem. Como poderemos agir, para auxiliá-lo? Estamos sofrendo muito por causa dele!
A voz esclareceu:
– Ninguém está sofrendo por causa dele, uma vez que a família inteira é constituída de grandes culpados; apenas, irmã, cada um ocupa o seu lugar, no quadro dos deveres ressarcitivos. Ninguém culpe a outrem, pois que todos são réus das maiores culpas. Quem é contra a Lei de Deus, não pode ser a favor da mesma Lei de Deus, porque é impossível servir, ao mesmo tempo, a dois senhores... Ninguém se iluda, porque a Lei
não está dividida contra si mesma! Tomem exemplo em Jesus, o Divino Modelo, cujo exemplo de sujeição à Lei foi total.
– Compreendemos, senhor, que somos todos culpados! – gemeu a pobre mãe.
E a voz ordenou:
– Tragam o rapaz aqui, assim que possam... O seu coração já pende para a Verdade e isto muito representa.
A mulher começou a chorar, tocada de grande alegria íntima.
Passados alguns dias, o rapaz foi introduzido no recinto, cercado de servidores espirituais, a fim de ser tratado espiritualmente. Naquele mesmo dia, tendo havido ordem superior, pois o grande mensageiro se fez de novo presente, deram-se algumas doutrinações de espíritos perseguidores. Dias mais tarde, estando o rapaz melhor de saúde e de espírito, a voz lhe disse:
– Quer, irmão, trilhar a senda verdadeira?
Ele respondeu:
– Eu quero... Mas eu nada conheço... Qual é a senda verdadeira?...
A voz explicou:
– A Excelsa Doutrina tem por fundamento a Lei de Deus. A Lei de Deus ensina que se deve amar a Deus em Espírito e Verdade; que se deve amar ao próximo como a nós mesmos; e que importa honrar a Revelação, pois veio por ela. Em Jesus, o Cristo Planetário, terão o Modelo a ser seguido. A vida que Jesus viveu é que é o Evangelho; quem procura imitar o Modelo é que vive o Evangelho, é que é cristão.
– Está bem... Deus me ajude a vencer – disse o rapaz.
– Leia O LIVRO DOS ESPÍRITOS – ordenou a voz, desaparecendo.
– Muito obrigada por tudo! – exclamou a senhora conselheira, enxugando o rosto, pois ela chorava de contentamento.
– Deus lhes pague! – falou a mãe do rapaz, também enxugando suas lágrimas de felicidade.
E voltando para Zainer, afagou-lhe as mãos, dizendo:
– Meu filho, assim posso chamá-lo, Deus lhe pague por tudo...
Zainer interrompeu-a, esclarecendo-a:
– Eu também sou um grande errado, em trabalhos reparadores; trabalho para o meu resgate, isso é que realmente acontece. O seu filho, minha irmã, deve muito ao
próximo... Que aprenda a grande lição, assim como eu também aprendi. Agora devo ir, que outros deveres me cumprem.
Despediu-se e se foi, contente pelo fato de ter sido um profeta da Verdade, de ter dado testemunho da Verdade e de ter feito o Bem possível.
Torquato arrastava-se pelas ruas, pedindo esmolas em nome de Deus e, às escondidas, xingando a tudo e todos; era bem fingido para com os encarnados, sabia como enfronhá-los em suas artimanhas. Suas modulações vocais eram perfeitas, chocantes, de causar piedade; e seus trejeitos confundiam, porque ele exagerava os defeitos.
Uma tal criatura, um tal espírito em expiação de culpas, ainda mais se carregava, porque fazia do aleijão o seu meio de vida, e meio de vida que tomava aspecto capcioso, explorador da sensibilidade alheia. Se quisesse ganhar a vida honestamente, por certo que o faria, pois apenas as pernas eram torcidas, não conseguindo andar de pé, tendo que estar num carrinho ou andar de rasto. O mais tudo era perfeito, além de ser inteligente e malicioso.
– Olhem para este infeliz!... Uma esmola para quem foi uma vítima do destino!... Perguntem a Deus qual foi a minha culpa!... Já sou aleijado, não permitam agora que eu morra de fome!...
E quanta gente pensava, dado nada conhecer das leis de Causa e Efeito, que o Torquato, de fato, era apenas uma vítima das incúrias de Deus... Quanta gente, ao vê-lo rastejar com exagerados trejeitos, e proclamar suas razões em tom de mártir do destino, andou pensando absurdos contra a Ordem Divina!... O porquê dos acontecimentos, quando não conhecido e conscientemente observado, certamente resultará em atos blasfemos; e isso faziam muitos irmãos, alguns perguntando onde estava Deus, que não via aquilo, enquanto outros diziam, para si mesmos, que ali estava uma vítima dos pecados paternos.
Enquanto, porém, a matraca humana desfiava impropérios e incoerências, a Lei ali estava, fazendo funcionar a Justiça e ofertando meios de ressarcimento. Acima dos conceitos humanos, tacanhos e ronceiros, alguns aceitando tudo como imposições de um Deus cruel e vingativo, e outros julgando que nada havia sem ser o mecanismo bruto das engendrações telúricas, acima de todos os senões da versátil e aleivosa concepção humana, a Ordem Divina impunha-se, fazia o indivíduo defrontar suas mesmas ações e responsabilidades.
Foi um delegado de polícia, estudioso das coisas do mediunismo, quem se ofertou para estudar o caso, mais por inteligência investigadora do que mesmo por piedade. Para ele as partes deviam arcar com suas responsabilidades para com o TODO, pois havia chegado à concepção justa de que tudo na Obra de Deus é parte e relação, jamais existindo Causas que não sejam obrigadas a produzir Efeitos, nem Efeitos que possam deixar de conter suas Causas determinantes.
Antes dos fenômenos, pensava ele, estão as leis que os determinam; portanto, concluía, não é possível que o Universo funcione, exista, movimente e se imponha em acontecimentos reflexos, sem que tudo se subordine a uma Força Moral Única. E isto, pensava, explica as obrigações do espírito para com as leis de evolução, responsabilidade, reencarnação, comunicação e habitação universal. A existência e a imortalidade, pensava ele, não precisam de ser cogitadas; é que o Universo Quantitativo, em suas concepções, não podia sofrer restrição alguma.
Amigo dos diretores do Centro, e sabendo das faculdades de Zainer, propôs levar a termo a psicometração de Torquato. Arranjou o boné usado pelo aleijadinho e se endereçou ao domicílio de Zainer. Eram oito horas da noite e teriam tempo suficiente para investigar o caso, até onde fosse por Deus permitido. Pelo menos o delegado assim pensava, ele que era sincero, racional e respeitador das leis de Deus.
Feita a oração, porque a nada Zainer dava começo sem primeiro apelar aos Planos Superiores, houve a palavra de um Guia:
– Temos acompanhado – disse o mentor – os vossos passos; e temos recebido ordem de vos propiciar os elementos de análise, porque os propósitos esposados se recomendam. Não tenhais, porém, muito em conta a esse caso, por ser ele comum em vosso e nosso mundo; a Terra está cheia de casos iguais, para mais e para menos. Uma vez que compreendeis o TODO, tereis compreendido o funcionamento das partes, suas derivantes e suas obrigações; isto é, as necessidades e as contingências. A verdadeira sabedoria reside, irmãos, no conhecimento da UNIDADE DIVINA, de onde tudo parte; uma vez ligado a Ela, por Origem, seguem-se as leis de Plano Evolutivo e de Finalidade.
– Sempre as Causas – interveio o delegado – como agentes dos Efeitos.
E o mentor aduziu:
– Depois de haver para o espírito a Causa Primária, ou Deus, que confere à criatura os elementos de existência individuada, movimento, evolução e finalidade, tudo o mais é questão de sintonização e aproveitamento natural das virtudes fundamentais ou congênitas. O restante, sabei-o, é apenas parte histórica. No caso presente, por exemplo, o que tendes? Não é apenas um filho de Deus, um nosso irmão, que não soube usar bem de si mesmo, em seus direitos e deveres? Que fez ele de sua existência, do direito de movimento, da responsabilidade de seus atos e dos fatores conseqüentes em geral?
– Não sabendo tudo, talvez, sobre as leis de Origem, Plano Evolutivo e Finalidade, caiu em graves faltas e deve resgatá-las. Assim o entendemos, uma vez que em Deus não podemos admitir falhas quaisquer – intercalou o delegado.
O mentor prosseguiu:
– Justamente! E tereis, como disse, a criatura, suas validades e deveres e o seu histórico. Torquato é, assim sendo, um filho de Deus que se desarmonizou, que se tornou revel à Lei de Deus, ao Plano Fundamental de Harmonia. Deveis saber o que realmente representa a Lei de Deus, como reflexo intelectual da Fundamental Lei de Equilíbrio. Uma vez que haja transgressão aos Mandamentos, teremos validado a Lei de Equilíbrio a reagir; e a sua reação é conhecida como Justiça Divina. Sabendo-se, pois, que cada filho
contém tudo em potencial, isto é, que é herdeiro das Virtudes Divinas, aí teremos que ele, o filho de Deus, através de suas mesmas obras, conscientemente ou não, aciona a Lei e a Justiça. Vede bem, portanto, que Deus nos fez semideuses, como disseram os Profetas e como Jesus ratificou totalmente.
– É maravilhoso – disse o delegado – saber que somos herdeiros naturais de tamanhas virtudes! Que mais poderemos querer, para nos tornarmos luminosos e gloriosos, do que trabalhar pela elevação íntima?
O mentor endossou:
– Eis aí os elementos, o movimento e a finalidade! A questão é que, irmãos, durante a caminhada acontecem acidentes vários... Entre outros, sabei-o, acontecem os desvios doutrinários, as falsas doutrinas, os ensinos que desviam e truncam a marcha natural, por ensinarem idolatrias, superstições, ações blasfemas, apostasias e mercantilismos em nome da fé. Torquato, por exemplo, foi um oficial dos Cruzados, alguém que fez da Lei de Deus objeto de contradição e escândalo, de mistificação e crimes hediondos. Ora, como temos ordem de afirmar, sem recear o que quer que seja, quem contrariar a Lei de Deus, por pouco que seja, por esse pouco terá que responder, no Espaço e no Tempo, e através das vidas. Porque estamos dando cumprimento aos ensinos do Cristo Planetário, d’Aquele que, por ser apresentado como Divino Modelo, deve ser tomado como Exemplificador da Lei. Se tendes uma religião, ou pretendeis ter uma religião, vede que ela contenha a Moral que equilibra, o Amor que sublima e a Revelação que adverte, ilustra e consola. Se a vossa escola religiosa escandalizar a um desses sentidos da Lei, pois a Lei de tudo contém em fundamentos, podeis saber que dareis com os costados em maus lugares. Não digais: – “Senhor! Senhor!” pelo fato de terdes uma religião; procurai saber, antes, se a vossa religião está conforme com a Lei de Deus. Porque ninguém irá encontrar o Cristo, meus irmãos, fora da Lei de Deus!
Houve silêncio por alguns segundos, depois das últimas palavras do mentor. E a seguir Zainer passou a relatar os quadros que foi observando.
– Vejo Torquato a se arrastar pelas ruas... Observo que é diferente, que em sua mente há malícia, há fingimento... Parece um artista, toma caracteres em duplicidade, faz questão de impressionar ainda mais os transeuntes... Passa agora para a infância... Vai regredindo, regredindo... Tenho pela frente o velho, a vida anterior, ainda um aleijão, porém muito mais aleijão!... Santo Deus!... Como é tremendo o seu aleijão debaixo dos farrapos que veste!...
Zainer estava atônito, suava e tremia, porque o aleijão irradiava muito mal. A seguir, depois de breve pausa, continuou:
– Agora é um bandoleiro, cerca nas estradas e mata... Um homem que parece jamais ter tido coração!... Vai regredindo, regredindo, regredindo... Vejo-o como navegador, um pirata, um salteador... Comanda um bando de celerados, pratica a pilhagem e não teme a Deus nem aos homens!...
Zainer caiu para trás, ficou imóvel, porém respirando profundamente.
A palavra do mentor fez-se ouvir, observando:
– Para que prosseguir, irmãos? Não tendes aí o retrato histórico do infeliz que rasteja pela vossa cidadezinha? Não compreendeis que a teratologia começa no plano Moral da criatura? E se isso for adiante, que ireis ver, sem ser o mísero oficial que em nome de Deus fez de todos os crimes o seu capricho? E indo além, mais para seus confins históricos, que ireis encontrar, sem ser o espírito a subir na ordem dos reinos e das espécies, como é ordinário? Ouvi, portanto, as palavras do Cristo; dai atenção a quem viveu a Lei e derramou sobre a carne toda a Graça da Revelação; extraí boas lições do banco educacional que é a vida de cada dia, de cada minuto.
Estava finda a aula, estava psicometrado o homem que se arrastava pelas ruas da cidadezinha e se fingia de vítima do destino ou das falhas de Deus; estava fotografado o homem, por cujos crimes acobertados aparentemente pela reencarnação, alguns aprendiam a perdoar, e outros conseguiam com que ter elementos de prova para duvidar da Soberana Lei.
Há que haver muito cuidado com os perigos que o mundo oferece aos espíritos que reencarnam; há que considerar aquelas palavras do Cristo, quando no fim da vida disse aos Apóstolos: – “Eu vos agradeço, porque estivestes comigo nas minhas tentações”.
A vida carnal é ambiente em geral que oferece perigos múltiplos, traições de variada ordem, facilidades de falha, de fracasso. Faz-se, portanto, necessário prudência, muita prudência.
Costuma-se dizer que nenhum diabo de fora pode, quando o Cristo de dentro está realmente vigilante; mas, digamos, estará sempre em dia o Cristo de dentro, em matéria de vigilância? Não será que, tantíssimas vezes, por causa de mil e uma fraquezas, perdemos de vista o Cristo de dentro e deixamos reinar o diabo de fora, o erro que conduz ao fracasso?
E sob que disfarces poderá vir o erro, o diabo de fora, para confundir até aos mais bem intencionados e levados de vencida? Sob que pretextos se apresentará, a fim de parecer a medida cabível, a ação do momento, a atitude consentânea com a situação?
Se formos aquilatar pelo crivo da Lei, por quantos motivos encontraremos no mundo razão para trair aos mais santos deveres?
Quantos são os modos de idolatrar, de contrariar a Lei, quando ela ordena que se adore a Deus em Espírito e Verdade, sem a ingerência de elementos intermediários, do que há nos ares, na terra e nas águas? Por quantas maneiras podemos trair o Segundo Mandamento?
E o Terceiro Mandamento, que ordena jamais tomar o nome de Deus em vão, através de quantas formas e maquinações pode ser contraditado? Quantas e quantas vezes
permitimos que a mentira e o suborno tomem o lugar da Verdade? Até onde o vício é apresentado por nós, em nossas obras, como sendo a Virtude?
Quanto aos demais, sobre não fazer mal a ninguém, desde o respeito ao descanso, passando por honrar pai e mãe, não matar, não adulterar, não furtar, não jurar falso, não invejar nem cobiçar de modo algum, sob quantos pretextos tudo isso é feito, é repetido, e por certas leis humanas erradas é até mesmo programa estabelecido, oficializado e garantido pelo mundo?
Apesar do mundo, porém, atiçar e garantir muitos erros, muitas formas de contradição à Lei, certo é que por tudo se responderá, até o último ceitil. Cumpre que se oponha todo o zelo possível em face dos momentos de fraqueza; cumpre que se esteja normalmente em ato de prudência perante os perigos que nos cercam, quando estivermos transitando pela encarnação.
Porque aquelas desculpas, que podem ser apresentadas posteriormente, nunca poderão conter merecimentos, jamais conseguirão encerrar o condão que lhes autorize a convencer a Lei em contrário. Porque com a Lei ninguém discute, ninguém tem elementos para enfrentá-la, visto ser divinamente íntima e estar acima das cogitações humanas. Atos representam registrações íntimas e registrações íntimas representam compromisso para com o Equilíbrio Universal. Se boas registrações, a vantagem não é discutível; se más registrações, as dívidas terão que ser ressarcidas inelutavelmente!
Houve um homem que se apresentou, um dia, para ser psicometrado; vinha todo encurvado, dolorido, sofrido em extremo. Tinha tudo e não parecia ter nada; não parecia ter males graves, entretanto apresentava sintomas de morte.
Para nós, do plano espiritual, estava cercado de escuridão, detinha-se no plano das tristes mentalizações. Ele devia saber dos porquês, ele poderia muito bem advogar em sua causa própria, apresentar as razões de assim pensar, sentir e agir. Os nossos defeitos costumam, para nós mesmos, conter sempre muito ou pouco de razão de ser. Por mais errados que estejamos, temos sempre mais do que uma pontinha de boas razões para sermos assim. Costumamos ter, para conosco, aquela porção de tolerância que, quando para os outros, se converte em julgamento radical.
Diante de Zainer, o homem disse:
– Cheguei a ser bom médium; fizeram os espíritos, por meu intermédio, até grandes coisas. Todavia, fui obrigado a deixar os trabalhos mediúnicos em abandono, porque coisas muito desagradáveis andaram se infiltrando na minha vida material. Ultimamente, de uns quatro anos a esta parte, venho sofrendo dores horríveis, ando cheio de reumatismos. Os médicos já deram tudo, já me encheram de injeções e remédios, porém nada puderam fazer.
Zainer falou-lhe:
– Espere um momento, que estou vendo o seu interior e o seu exterior... O senhor é azulino por dentro, depois vai se tornando cinzento, cinzento escuro, passando a ser preto, um preto opaco bastante feio... Por fora o senhor é todo preto, por causa dos acontecimentos que o envolvem, pelos quais se deixa dominar...
Surgiu naquele momento um mensageiro, alguém ligado ao plano espiritual de onde ele proviera, alguém que sabia dele muitas coisas, ou que trazia informe importante. Este mensageiro, chegando, falou através de Zainer:
– Venho da parte de quem muito lhe quer, pelos seus feitos passados. Trago-lhe o aviso amigo, aviso que consiste em alertá-lo contra a situação a que se submeteu. Nada mais tem feito, de alguns anos a esta parte, senão dar atenção ao mundo, aos seus percalços, esquecendo o trabalho que lhe cumpria e cumpre levar a termo. Deixe de se curvar aos motivos que julga serem os culpados, aos quais acusa, fazendo questão de vencê-los, de superá-los, de liquidá-los.
O tal homem replicou:
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.