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Capítulo 3 de 14

Psicometria — parte 1 de 12

Nos Domínios Maravilhosos da Psicometria · Osvaldo Polidoro

Zainer ali estava, absorto e pálido, frente ao cadáver de Rosália, sua querida esposa. Havia dois anos que se casaram, sem que pudessem ter tido um pouco de paz e de ventura, pelo fato de Rosália ser doentia, supersticiosa e dada a certas atitudes esquisitas. Isto, pelo menos, conforme o modo de entender de Zainer, que nunca se dera ao trabalho de conhecer alguma coisa das verdades espirituais.

Naquela tarde, depois de tanto sofrer, Rosália expirara; e ao partir dissera, com voz sumida, porém cheia de certeza:

– Meu querido, eu voltarei... Ainda falarei contigo... Adeus... Adeus, por agora...

Atordoado, sem nada compreender, Zainer saíra e fora noticiar a morte de Rosália aos parentes; moravam perto, pois eram sitiantes vizinhos, parceiros de partilha da herança deixada pelos pais de Zainer.

– Rosália faleceu!... – disse, ao entrar portas adentro da casa de seu irmão mais velho.

O irmão envolveu-o num apertado abraço e procurou confortá-lo:

– Sê forte, meu irmão, que tudo na vida é passageiro. Somente a alma vive eternamente, porque é espírito, porque é partícula de Deus. Sê forte, que outros dias virão, diferentes, quando vós tereis as contas ajustadas e os dias felizes para serem vividos.

Zainer fitou bem o irmão, sem nada dizer, porém saturado de enigma, feito à imagem da perplexidade. E o irmão, vendo-o assim, disse-lhe:

– Fala, meu irmão, que os pensamentos devem ser expostos, sempre que se tornem veículos de motivos superiores. Nunca fizeste nada a bem de melhores conhecimentos... Nunca deste atenção aos problemas do espírito... Entretanto, as leis de Deus vigoram e cumprem-se, independentemente de nossas cogitações, sejam favoráveis ou não.

Zainer fitou bem o semblante sereno do irmão, indagando:

– Se assim é, que elas se cumprem independentemente do nosso querer ou não, para que cogitar de tais problemas?

Félix respondeu-lhe, com bondade:

– Para sofrer menos, pelo menos por isso... Devo dizer, porém, que além disso, temos nós, os filhos de Deus, obrigação de conhecer e usar bem as leis do Senhor. Quanto sabes tu de agricultura, meu irmão?

Zainer explicou:

– Tudo quanto nossos pais nos ensinaram.

– E não achas que muito valem as lições que eles nos legaram?

– Creio que representam tudo, pois temos sabido plantar e colher, com o que estamos vivendo, aumentando a família e cooperando com a nossa parte a bem da felicidade alheia. Talvez que não saibamos reconhecer toda a importância do quanto conhecemos, de tanto usar de tudo de modo prático. Depois que o conhecimento se torna comum, faz-se uso e não mais se tem exato discernimento de sua quantia e valias.

– Muito bem, irmão Zainer. O vício, bom ou ruim, tira de nós a noção de quantias e valores, porque transforma tudo em automatismo. Podemos, entretanto, reconhecer a importância dos conhecimentos, desde que lembremos das épocas de preparação da terra, do plantio, das chuvas, da capinagem, da colheita e dos trabalhos de embalagem e venda. Além do mais, entram de permeio mil e uma particularidades ou minúcias, coisinhas que nem levamos em conta, porque nem sequer delas tomamos conhecimento, visto serem por demais concernentes à vida e suas rotinas.

– E daí? – perguntou Zainer, com olhar aflito.

Félix encolheu os ombros, como quem faz sinal de conclusão, elucidando:

– Assim como devemos aprender a jogar com as leis do meio material em que vivemos, para efeito de aumentar os proventos do trabalho árduo, sob o sol, a chuva, o frio e tudo mais, assim mesmo devemos procurar conhecer as leis espirituais, a fim de extrair aquelas vantagens emancipadoras de que temos notícia. Não é por acaso que se existe, movimenta e se percebe a necessidade de luta contra o Mal e em favor do Bem. Quem não entende das verdades do espírito é como se fosse um barco sem governo, pronto a se rebentar contra as rochas, atirado pela braveza das águas encapeladas.

Aturdido, Zainer murmurou:

– Eu nada entendo... Eu nunca dei atenção a essas coisas...

O irmão falou-lhe, com ternura:

– Agora vamos tratar de enterrar tua mulher... Isto é, o corpo, já que o espírito não foi feito para ser enterrado. Logo mais, se quiseres, poderemos entrar em contato, para fins de estudo. Afinal, sempre foste convidado... Como eras do contra, nunca mais falamos contigo a tais respeitos. Em matéria de verdades espirituais, cumpre a cada um tomar medida e talho, porque a Lei ensina que a cada um será dado conforme suas realizações.

Houve silêncio, porque Zainer emudeceu e Félix entrou quarto adentro, a fim de avisar os seus, que ainda dormiam, porque era domingo. Ao voltar, veio em companhia da esposa e filha, banhadas em lágrimas.

– Vão para lá – disse Félix à mulher e à filha – que eu irei avisar os demais em companhia de meu irmão.

Quando em caminho, Zainer comentou:

– Bem, eu creio na imortalidade da alma...

Félix argumentou, convicto:

– A alma é imortal, evolutiva, responsável, comunicável, e habita os mundos, além de ser reencarnável. Aliás, Zainer, a reencarnação é a válvula redentora e evolutiva do espírito. Portanto, se tu sabes apenas, ou pressentes, que a alma seja imortal, está em grande porcentagem de falha. Tens um ponto a favor e cinco contra. É por isso que sempre fez objeções a tais problemas.

– Acho que ninguém é obrigado a aceitar aquilo que lhe não cabe no poder conceptivo presente. Por isso é que sempre fui do contra.

– Nós todos temos muito jeito para defender nossas próprias convicções, ou pelo menos a versão que mais nos convém. No fundo, Zainer, o que se passa é coisa muito diferente; é que julgamos ter muito mais para ensinar a Deus, do que poderá ter Deus para nos ensinar. Quanto mais se sabe, tanto mais se honra o Senhor e tanto mais se cultivam na vida as leis que nos trazem vantagens; e quanto mais se ignora, tanto mais se acredita que Deus tenha necessidade de nossos conselhos e advertências. Isso é comum, é regra geral, não se passa apenas com você. Eu tenho a minha história para contar... Também fui como tu ainda o és.

– Quem o fez mudar? – perguntou-lhe Zainer.

– Tu sabes – disse-lhe o irmão – que nossos pais foram imigrantes holandeses, gente de boas tradições e acostumada às melhores leituras. Nós, porém, com o tempo fomos perdendo a tradição e o gosto pelos melhores informes, dada a luta árdua com o meio rude onde viemos parar. Tudo em nós se foi brutalizando, tudo em nós se cristalizou na rudeza dos modos e do tratamento. Um dia, porém, depois de mortos nossos pais, recebi em casa a visita de velho amigo deles, homem que tornara à Holanda, sendo na volta portador de alguns livros muito interessantes. Os livros vinham de nossos bisavós e com destino a nossos pais; como estavam mortos, recebi os livros e procurei lê-los, encontrando informes vários sobre o mundo espiritual e alguns modos de tentar com ele a comunhão. Achando interessantes algumas experiências, dei-me a experimentar, até que obtive resultados. Primeiro, comecei a ouvir pancadas, depois fui observando sombras, até que um dia passei a ver distintamente alguns espíritos.

– Nossos parentes?

– Apenas nossa mãe, sendo os outros desconhecidos. Um deles fora o antigo dono da casa, quando comprei a sitiola ao lado e para lá mudamos. Com este me vi em apuros, porque ele berrava que a casa lhe pertencia, impondo que dali saíssemos. E como isto não podia ser, andou fazendo tropelias, até que nossa mãe o encaminhou, em companhia de um grupo de amigos. Para resumir, Zainer, afirmo que temos colhido grandes benefícios, não materiais e sim espirituais, com as práticas espíritas.

Por aquelas alturas da conversa, chegavam ao sítio do irmão, estacando a troca de idéias. Pouco depois, saíram todos, rumando ao domicílio de Zainer, a fim de providenciar o enterramento de Rosália. Minha função, como parente desencarnado, e designado pelos superiores para ficar junto de Zainer, era auxiliar na medida do possível, deixando correr os acontecimentos. Ali havia, entre Zainer e Rosália, fatos antigos a prendê-los, velhos assuntos a serem tratados. Ela nascera em Portugal, ele no sertão de um Estado brasileiro,

ficando o destino, por eles traçado, encarregado de uni-los e fazê-los dar andamento no caso a ser solucionado.

Ensina o Evangelho que aquele que com ferro fere, com ferro será ferido; e a lei de reencarnação nada mais faz do que ofertar meios e recursos. Isto, bem sabemos, independente do modo de pensar das criaturas. Porque aquilo que é por Deus, não fica sujeito ao infeliz cogitar do homem; é e tem execução.

Zainer e Rosália foram outrora amantes muito pecaminosos, pois abandonaram seus respectivos lares, deixando filhos ao abandono e sofrimento. Deviam contas à Lei e à Justiça, mesmo depois de muitos decênios de sofrimento nas trevas. Ao se reencontrarem, desenfreada paixão os unira, ligando-os inapelavelmente. Foi assim que viveram os últimos anos, entre as torturas do mal que minara o organismo de Rosália e as esperanças de uma vida feliz, frustrada agora de todo, com a morte de Rosália, depois de tremendos sofrimentos.

E como a desencarnação viera no tempo, depois dos trâmites normais delineados no plano espiritual, antes de haverem reencarnado, nada mais restava do que providenciar os novos acontecimentos, os fatos que a seguir deviam ter andamento. Os encarnados fariam sempre bem, se jamais olvidassem os que deste lado para eles trabalham, ou deixam de trabalhar, segundo como se fazem ou não merecedores. De todo e qualquer modo, porém, deviam lembrar que nunca estão sós, que sempre estamos vigiando, prontos a entrar em cena, cumprindo ordens superiores, de acordo, é claro, com o que pensam, sentem e fazem.

Uma vez sepultado o corpo de Rosália, fomos com o espírito para o local devido, em esfera bem próxima à crosta, onde teria que enfrentar sério tratamento. É do seu conhecimento, pelos muitos informes transmitidos daqui, sobre como funcionam os diferentes Céus da Terra, do Planeta em que todos habitamos, vocês aí e nós aqui, todos porém buscando colimar a Sagrada Finalidade, que se resume em desabrochar o máximo de Pureza e de Sabedoria.

Por falar nos Céus da Terra, saibam que são faixas concêntricas e superpostas, que se vão melhorando, glorificando, na razão direta em que se vão tornando mais distantes da crosta, de suas radiações materiais, animalizadas e grosseiras. A esfera para onde Rosália foi transladada era e é, portanto, uma cópia da crosta, com a sua natureza quase igual, tão evidentemente relativa ao meio carnal denso, que difícil se torna aos recémdesencarnados aceitarem a mudança de estado.

Ocorre, também, que não se oprime a quem quer que seja; dá-se tempo e oferecem-se elementos indiretos de observação, para que os recém-vindos tenham com que desconfiar de alguma diferença operada. Todavia, falham as ofertas de oportunidade, falham as explicações, tudo falha, muito mais do que possa lhes parecer, dado que a grande maioria, infelizmente, sai da carne em estado de perfeita ignorância das verdades atinentes ao mundo de aquém-túmulo.

Quanto seria bom, irmãos, que ao menos todos os encarnados procurassem saber alguma coisa destas plagas, fazendo mais ainda pela melhora íntima, a fim de virem a merecer imediato recolhimento. É mínimo o número dos que são de pronto recolhidos, sendo mesmo exuberante o número daqueles que ficam, em seguida ao desencarne,

entregues à dor e à cegueira. Como as religiões dogmáticas ensinam as mais erradas lições, afirmam como sendo verdades libertadoras as piores aberrações, a quantidade dos que deixam os corpos físicos e permanecem nas trevas do ignorantismo é assustadora.

Eu também deixei a carne em péssimo estado, não quanto à fé em Deus e ao conhecimento da imortalidade da alma; é que não tratara a sério dos merecimentos indispensáveis, das validades vibratórias. Nunca desconfiei sequer da existência de Deus, como jamais duvidei da imortalidade da alma; porém, isso não é tudo, de pouco ou nada vale, quando não se está equipado daqueles merecimentos que representam o Reino do Céu desenvolvido no íntimo. Aqui, irmãos, é que reside a grande, a total importância, pois quem crê e sabe muito sobre Deus e sua chamada Criação, e não merece imediato recolhimento e bom tratamento, fica penando junto aos encarnados, podendo mesmo suceder que desça aos abismos da subcrosta, onde se passam as tremendas convulsões que deram ensejo aos conceitos infernais.

Não adianta clamar – “Senhor! Senhor!” A questão está em não contrariar a Lei, a fim de não movimentar a Justiça contra nós. Antes de inventar modos e processos de adulação a Deus, ou meios de apresentar ladainhas besuntadas de pieguismo supersticioso, convém fazer questão de executar os Mandamentos da Lei de Deus. A idéia de que gestos e rituais possam quebrantar a Lei e confundir a Justiça, não só é ridícula, como ainda gera piores reações, cria casos que deverão ser de todo ressarcidos. Onde está escrito, na Lei, que tais ou quais formalismos têm o privilégio de nulificar tais ou quais Mandamentos?

Eu também cultivei o conceito de que o sangue de Jesus pudesse ter lavado nossos pecados; também julguei que Ele tivesse vindo ao mundo, segundo as afirmativas dogmáticas, para redimir nossas culpas. E fiz como fazem todos aqueles que se entregam a tais conceitos, de corpo e alma; isto é, confiei nos ritos e vivi a vida sem pensar nos problemas do futuro espiritual.

Em que resultou isso tudo?

Resultou em me reconhecer crente em Deus e na imortalidade da alma, sem contudo estar equipado de virtudes e de bons conhecimentos. Entrei no mundo espiritual vazio, sem o menor conhecimento de causa sobre o futuro ambiente, e, pior ainda, sem os nobres atos que poderiam resultar em galardões de Luz e de Paz. Estive por muito tempo ao lado da família, sofrendo e fazendo sofrer, ignorando a situação e pensando que tudo aquilo fosse jamais ter fim. Como, entretanto, na chamada Criação tudo é por Lei e por Ordem, chegou o meu dia de reconhecimento do estado e dos deveres.

– Renato – disse-me o servidor que me viera recolher – terminou o teu tempo de sofrimentos... Vem comigo, que desde muito não pertences ao mundo dos encarnados. Entregar-te-ei ao plano espiritual de direito, para que em breve saibas o que fazer e sejas feliz segundo os teus merecimentos.

E assim foi que obtive esclarecimentos e paz, vindo a formar, logo mais, entre aqueles que servem a Deus, ao próximo e a si mesmos, através da Lei e da Justiça. Porque nisto repiso, faço questão de reclamar atenção, uma vez que a Deus ninguém serve, nem a si beneficia, sem ser através das leis regentes. Quem ignora leis poderá ter muito boa

vontade, mas fará aquilo que não é o melhor, dará guarida a conceitos e a práticas idólatras e supersticiosas.

Portanto, como a escala hierárquica é vastíssima, aqui me apresento como quem ainda pode e sabe pouco, mas tem segurança daquilo que diz e faz, porque é com o pouco e certo que conta, aquilo que conseguiu trabalhosamente. Sei que verdades infinitamente gloriosas nos aguardam, estão em nós mesmos esperando, a fim de serem expostas. É o Reino do Céu, como Jesus ensinou, que cada um traz dentro de si mesmo, ao qual deve todo o esforço manifestante. Todavia, como não há saltos na Ordem Divina, e pretender saltar poderia resultar em fracassos dolorosos, é muito mais interessante que ande com vagar e segurança.

Vamos ao que nos cumpre narrar, a simples historiação de um irmão, em cujo círculo de família e amizades, como sói acontecer com todas as pessoas, grande número de outros irmãos tomam parte. De resto, tudo é comum, a Origem, o Plano Evolutivo e a Finalidade a ser atingida. E isto basta para que se entenda, de uma vez para sempre, que na história de um indivíduo todos os indivíduos podem se reconhecer. O importante será, por isso mesmo, que se tirem os melhores proveitos da experiência alheia, das lições que passam como sendo teóricas.

Ao enterramento de Rosália seguiu-se um longo período angustioso para Zainer, o seu viúvo; e não foi menor o sofrimento de Rosália neste lado da vida, apesar do quanto sofrera durante a encarnação. É que, para todos os efeitos, prevalece a lei vibratória, a lei do peso específico. Esta lei, íntima e inalienável, cumpre em si mesma a sagrada função, pois é quem representa o filho perante o Pai e o Pai perante o filho!

Sempre disseram, os melhores conhecedores, que entre o Pai e o filho paira a Lei de Equilíbrio, aquela Força que aciona a Justiça, contra ou a favor, assim como os atos do filho sejam harmoniosos ou não. E, na palavra modelar de Jesus, vamos encontrar a total afirmativa, quando ressaltou que veio para cumprir a Lei, porque da Lei nenhum ceitil ficará sem cumprimento!

Ao cabo de três anos de sofrimento, Rosália começou a falar nos ouvidos de Zainer, porque servidores deste lado lhe prepararam as condições. Ela não tinha conhecimento algum de faculdade alguma, e menos ainda de seu estado; por isso mesmo, falando ao marido, queixava-se de dores e de abandono.

– Zainer!... Pelo amor de Deus!... Por que não me ouves?!... Por que não me fazes caso?!... Tu me querias tanto!... Onde está o teu amor?!...

Aflitíssimo, espavorido mesmo, Zainer correu para junto do irmão, fazendo-o saber do que vinha de ocorrer:

– Ou é Rosália que fala nos meus ouvidos ou é que estou ficando louco!

Sereníssimo, Félix observou-lhe:

– Já sabíamos de tudo... Assim tinha que ser...

– Mas eu enlouqueço!... – replicou Zainer, assustado e trêmulo.

– Hoje mesmo Rosália será esclarecida – respondeu-lhe o irmão.

– E ficarei livre? – perguntou Zainer.

Félix explicou-lhe:

– Continuarás ouvindo a tua Rosália e outros espíritos, a fim de que dês algo de bom a teus semelhantes. Deves alguns trabalhos a ti mesmo, em benefício de nossos irmãos, aqueles que no mundo têm menos. Se, porém, não quiseres atender ao compromisso assumido, irás defrontar seríssimas perturbações.

– Eu não sei de haver assumido compromisso algum – replicou Zainer.

– Sabes muito menos do que isso, meu irmão; e a prova tens nisto: nunca fizeste caso das verdades espirituais, nem antes dela partir, nem depois. Cheguei a pensar, quando ela se foi, que virias em busca de melhores conhecimentos. No entanto, Zainer, de nada quiseste saber, exceto agora, porque ficaste sem sossego, porque cuidaste de ficar louco.

Acabrunhado, Zainer balbuciou:

– Sou como sou... Por que, serei assim tão bruto?...

Félix adiantou-lhe:

– Graves registrações do passado, tremendas gravações cármicas. Mesmo quando se é espiritualista, mas se chega a extremos de animalidade, tudo se brutaliza. O espírito deve sublimar-se, não brutalizar-se. Afinal de contas, Zainer, temos em nós mesmos a Lei de Equilíbrio, aquela que nos obriga a ser, tal e qual como nos fazemos.

– Não entendo dessas coisas... Nunca tive jeito para isso...

Sorrindo, Félix observou:

– Mas entendes muito bem quando o sofrimento chega e é preciso recorrer a um dirimente qualquer. Até aquilo que menos poderá ser concebido por nós, quando chega em forma de sofrimento, não há quem deixe de atender. A razão pode não atinar com a coisa, mas a emoção registra e força a uma atitude atenciosa; a inteligência não percebe, não quer perceber, mas a sensibilidade nervosa obriga a que se atenda sob forma de dor. Tu não terias vindo aqui, neste momento, para esse fim, caso a dor não te tivesse feito correr, não é isso?

Aturdido, Zainer assentiu:

– Tortura moral!... A tortura me fez correr aqui...

Com brandura, Félix advertiu-o:

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.