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Capítulo 9 de 13
XII
Carta de um Católico sobre o Espiritismo · Dr. Grand
A fé cega pode, sem dúvida, ter seu mérito, mas creio que se a fizeram uma virtude, foi pela impossibilidade em que se está de fazer melhor; e a prova disso são os esforços inauditos que certos pregadores fazem com o objetivo de elucidar o que, por sua própria admissão, é incompreensível, acumulando comparações e hipóteses, para chegar a essa conclusão banal: É um mistério no qual se deve crer sem compreendê-lo. Mas que poder eles não teriam sobre as convicções, se pudessem se apoiar numa demonstração simples, racional, inteligível, em vez de se perderem num misticismo que deixa sempre na alma do ouvinte uma vagueza, uma incerteza que pode gerar a dúvida, e da dúvida conduzir à incredulidade! Por que, então, a Igreja rejeitaria um meio de levantar essa dúvida quando o tem à mão? Ela ganharia em influência, pois a fé inteligente será sempre mais viva, mais inabalável que a fé cega; isto está na natureza humana. Eu sou um exemplo.
Certamente, antes de conhecer o Espiritismo, eu era católico, mas, crendo sem compreender, confesso que a dúvida frequentemente passava sobre o meu pensamento, e que talvez não fossem necessários grandes esforços para me fazer vacilar; hoje, que graças ao Espiritismo posso compreender, sinto-me protegido contra os argumentos do ceticismo. Se for o demônio que me ensina essas coisas, é preciso convir que ele age de modo singular para fazer recrutas. Eis a ditada que meu Espírito familiar me fez sobre a Eucaristia e a Trindade. "O mistério da Eucaristia, o mais inefável de todos, apresenta-se aos Cristãos com um caráter tão obscuro, tão inexplicável, que, para permanecerem fiéis, devem refugiar-se por inteiro em sua fé. Desde que sua razão tenta balbuciar algo, obscuridades impenetráveis estendem-se sobre suas almas, e se eles persistem, tornam-se quase inevitavelmente incrédulos. Pois bem! O Espiritismo, com seu archote, dissipam essas trevas.
Nós te afirmamos que Deus, o Espírito infinitamente puro, infinitamente poderoso, está em toda parte. Nós te ensinamos igualmente que os Espíritos elevados gozam de um privilégio surpreendente, o de estar à mesma hora em vários lugares diferentes. Vários estão encarregados de um grande número de almas que eles, por assim dizer, nunca abandonam. Para nos tornarmos inteligíveis, empregamos uma expressão que traduz imperfeitamente essa verdade, mas que vos ajuda a compreendê-la. Chamamos irradiação essa maravilhosa propriedade de ubiquidade, apanágio exclusivo dos Espíritos puros. A irradiação de Deus é infinita; a dos Espíritos é limitada. Ora, o que é o sacramento da Eucaristia? A encarnação do Cristo na hóstia. Para vós, espíritas, que conheceis a insignificância do corpo humano, é tão natural admitir a penetração de um Espírito num fragmento de matéria quanto num amontoado de carne e ossos. Pois bem!
Sendo admitido que, por sua qualidade de Espírito puro, o Cristo irradia por toda parte, concebe-se como ele responde cada dia às inúmeras evocações de seus ministros; como ele penetra, encarna-se por assim dizer na hóstia, que se torna seu verdadeiro corpo, para perpetuar o adorável mistério da Redenção. Envolvido no pão e nos vinhos eucarísticos, como nossa alma em nossos órgãos, ele aí está real e positivamente incorporado. Se refletirdes piedosamente, se meditardes sobre a irradiação e a encarnação dos Espíritos, vossa razão e vossa fé, em vez de se combaterem, dar-se-ão um apoio mútuo. (Nota 10) (Nota 10) De muito alto vamos descer muito baixo, pois dos santos mistérios somos reconduzidos às mesas girantes; é que no Espiritismo tudo se encadeia. O fenômeno vulgar das mesas girantes repousa sobre um princípio, e este princípio encerra a lei de todas as manifestações espíritas, como a queda de uma maçã encerra toda a lei da gravitação. Como, com efeito, os Espíritos nos dizem que a mesa se move?
É que a empurram ou a levantam com suas mãos e à força de braços? Não; o Espírito envia para a mesa uma porção da substância de seu próprio perispírito, que, combinada com o fluido animalizado ou perispírito do médium, dá à mesa uma espécie de vida factícia; a mesa está, portanto, momentaneamente animada, e como ela obedece, não a um impulso físico, mas à vontade do Espírito; o Espírito lhe deu, portanto, uma porção de si mesmo, poder-se-ia quase dizer que se encarnou nela. O que se passa de uma maneira relativamente grosseira da parte de um Espírito inferior para produzir um fenômeno acessível aos sentidos, não pode realizar-se de uma maneira menos material da parte de um Espírito infinitamente puro, e ajudar-nos a compreender a presença do Cristo sob as espécies do pão e do vinho?
É ainda a irradiação que vos explicará o mistério da santa Trindade. Um só Deus em três pessoas; o Filho que procede do Pai; o Espírito Santo que procede do Pai e do Filho; cada uma das pessoas sendo Deus, e cada uma sendo distinta das duas outras, mas não constituindo juntas senão um só Deus, o que é isso, senão a irradiação infinita da Divindade? Tudo o que emana da Divindade não pode ser senão infinito. Uma emanação divina irradia em qualidade de Deus Filho: Espírito infinitamente puro, infinitamente poderoso como o Pai, e destinado a encarnar-se a fim de salvar os homens e permanecer eternamente seu soberano juiz; outra emanação igualmente pura, igualmente poderosa, destinada a iluminar as almas, irradia em qualidade de Espírito Santo; os três não fazendo senão um, mas distintos, e possuindo cada um as qualidades do infinito; tal é a santa Trindade, ou pelo menos tal é a fraca ideia que nossa razão tão débil pode fazer dessa verdade que deslumbra mesmo os arcanjos.
Convém, no entanto, apesar da obscuridade com que este mistério permanece envolto, que o Espiritismo lhe lança uma claridade desconhecida dos teólogos e dos filósofos. Pois bem! Um dia virá em que essa claridade iluminará todas as almas; um dia virá, eu to atesto, em que a Igreja estará no Espiritismo, ou então o Espiritismo estará na Igreja. A fé nova terá tantas luzes, que os mais cegos, como os mais endurecidos, abrirão seus olhos e seus corações. Enquanto isso, ó meu filho! Bendize e agradece ao Senhor por te haver feito espírita, como O bendizes e agradeces por te haver feito cristão.” Zenão
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.