Voltar ao livro Carta de um Católico sobre o Espiritismo

Capítulo 6 de 13

VII

Carta de um Católico sobre o Espiritismo · Dr. Grand

Eis agora uma série de comunicações do mesmo Zênon sobre diversos assuntos, tratados espontaneamente ou provocados por perguntas. Entrego-as à apreciação do leitor. "Deveis abandonar-vos um pouco mais à Providência. Quando evocardes, sede pacientes e recolhidos. Orai a Deus e solicitai o concurso dos bons Espíritos: obtereis mais do que ousáveis esperar. Subordinai, no entanto, à vossa razão e sobretudo aos vossos sentimentos religiosos as respostas que vos forem concedidas. Guardai-vos de considerá-las sempre como revelações e desconfiai dos Espíritos mentirosos. Quanto ao critério para distinguir os bons Espíritos, o único que vos pode inspirar uma confiança absoluta, é este: Ímpeto para o bem. " É lamentável que adeptos mal inspirados se obstinem a pedir aos Espíritos revelações que lhes é interdito fazer aos homens. Vossa fé é inabalável, que quereis mais? A eternidade das alegrias celestes vos está adquirida se a souberdes granjear, e para isso vosso Pai que está nos céus não vos comanda senão uma coisa: ser bons. Deixai, pois, as pesquisas, não interrogueis os Espíritos nem sobre a ciência, nem sobre o futuro, nem sobre os sistemas cosmogônicos.

Se vos enganardes por essa via, sereis infalivelmente enganados. Isto significa que é preciso negligenciar a ciência? Não, meu filho, não; mas a ciência adquire-se e não se revela. Seria bem cômodo ter, por todo labor, a reproduzir as respostas dos Espíritos, adquirindo assim, de súbito, conhecimentos que somente o trabalho deve dar. Deus não o permite. Conversar conosco não é um esforço; contentai-vos em nos consultar sobre vossos deveres, e pedi o saber ao trabalho. " Esta comunicação foi motivada por algumas perguntas que eu havia dirigido a propósito de certas teorias científicas e cosmogônicas dadas por Espíritos. Reconheço hoje toda a sabedoria da resposta; mas naquela

época, insisti e perguntei se tudo o que os Espíritos ditaram sobre essas matérias é falso. O Espírito responde: "Não, tudo não é falso; mas podes estar certo de que o falso supera o verdadeiro, porque não é dado a nenhum Espírito descumprir à ordem das coisas estabelecida por Deus; ora, Deus quer que adquirais a ciência pelo trabalho. Sabe bem que os Espíritos que vos ditam essas teorias o fazem para satisfazer vossa curiosidade ou para se darem importância aos vossos olhos; falam na maioria das vezes de acordo com suas ideias pessoais; alguns podem crer no que dizem, como na Terra tendes homens que creem em seus próprios sistemas. Crê em mim; não desvies o Espiritismo de seu objetivo providencial, se queres ter a verdade."

Outra vez, meu Espírito familiar, respondendo ao pedido que eu lhe havia dirigido, concernente à sua opinião sobre uma determinação importante que eu devia tomar, escreveu o seguinte: "Sabe, meu filho, que meus conselhos já estão depositados por mim em teu espírito; no meio de tuas perplexidades sobrenada um pensamento, teu verdadeiro polo magnético: Abandono absoluto à vontade de Deus. E, no entanto, é preciso que uma determinação seja tomada! Sem dúvida, é preciso; mas nada apressa. No momento menos previsto, a ocasião de te fixares apresentar-se-á por si mesma; então, basta de reflexão, basta de hesitação, toma um partido irrevogável e, pleno de confiança em teu destino, marcha. Afasta resolutamente as coisas demasiado fáceis; aceita, ao contrário, os obstáculos, Deus os proporcionará sempre às tuas forças. Supõe o insucesso; será a época das verdadeiras provas, e darás passos de gigante na via do aprimoramento; no caso contrário, estarás perante os perigos espirituais que nascem da felicidade; mas serás prevenido, e tuas boas ações suprirão as ações difíceis.

Assim, meu filho, não tens outra perspectiva senão a felicidade. Felicidade no infortúnio, felicidade no sucesso, eis o que Deus reserva àqueles que sabem amá-lo. “Entretanto, guarda-te de adormecer nas ideias místicas. O lado prático da vida, as condições do trabalho de todos os dias, tuas relações com a sociedade, os deveres e as necessidades de tua profissão, tudo isso constitui um terra-a-terra que tu não podes nem deves evitar. Sem colocar um empenho irrefletido, apressa com todas as tuas forças o momento em que, retomando tua profissão, estarás verdadeiramente em

teu lugar. Mas examina e ora; eu estarei perto de ti; minhas inspirações não te faltarão. Que mérito tem a criança de não cair, quando está segurada pela cinta? O mesmo sucederia com o homem se lhe traçássemos todos os seus passos; ele confiar-se-ia em nós, nada faria sem nos consultar, não teria mais livrearbítrio. É preciso que faça uso de seus membros intelectuais, assim como de seus membros corpóreos, e frequentemente é útil para seu adiantamento que adquira a experiência a suas próprias expensas. Seu anjo da guarda está sempre lá, que lhe inspira o que lhe é mais vantajoso; cabe a ele escutar sua voz. "

Minha esposa, tendo um dia pedido ao Espírito de seu pai que provasse sua presença dando uma assinatura idêntica à que tinha em vida, experimentou uma mistificação. Zênon, interrogado a esse respeito, responde: "Meu filho, acabaste de assistir a uma experiência que tem seu ensinamento. Evidentemente, o pai de tua esposa não respondeu ao vosso apelo; evidentemente também, a boa-fé do médium não pode ser suspeitada. Nova prova do que te repito tantas vezes: fora das lições exclusivamente morais, deves esperar mil decepções. Um sentimento de curiosidade, muito mais que de piedade, preenchia vossos corações. Tratava-se para vós, muito menos de vos edificar por uma comunicação piedosa, do que de vos assegurar da lucidez do médium. Deixa tua esposa te dizer o contrário, tu a conheces melhor do que ela se conhece a si mesma, e convém, por tua própria conta, que se a assinatura desejada houvesse sido obtida, vossa grande alegria teria sido, sobretudo poder, no futuro, consultar o médium com perfeita confiança. Não apreciais suficientemente a graça que Deus vos fez.

O dom da fé vos é concedido, conheceis e vossos deveres e vossos destinos, que desejais mais? Conversar com vossos parentes, vossos amigos de além-túmulo? É muito bom, e eles ficam felizes com isso; mas não sabeis que é preciso buscar as provas de sua identidade alhures que não em sinais materiais que os Espíritos enganadores podem imitar? Esperai pacientemente essas provas, e eles vo-las darão sobremaneira de seu pleno arbítrio, se não as provocardes pela curiosidade.

Evoque-os com um espírito fervoroso, eles virão; sabereis se são felizes ou se precisam de orações. Que isso vos baste. Vamos, meu filho, sonda teu coração, invoca tua verdadeira consciência; não tenho razão? Abençoai, pois, o Céu por haver enviado para a felicidade de vosso pequeno círculo esta encantadora Annette, cujos conselhos são tão proveitosos. Permanecei nesse caminho, e que esses deliciosos colóquios vos tornem melhores. Sim, meu filho, continua e persevera; vive e morre em tua religião. É ela, eu te afirmo, que te aproximará mais de Deus. Se tua consciência se perturbar por ocultar ao piedoso confidente de tuas faltas tuas crenças espíritas, procura, e encontrarás um sacerdote de acordo com teu coração. Mais de um em Paris recebeu de Deus as mesmas graças que tu, e terás a felicidade de ouvir, no tribunal da penitência, palavras que te reafirmarão. "

"Meu filho, a graça de que és objeto deve te penetrar de reconhecimento e amor. Sim, desprende-te cada vez mais da matéria; refreia os maus pensamentos; luta com as inclinações baixas; eleva-te cada dia, e os anos que ainda te pertencem bastarão para compensar os anos inúteis. Tens razão em me amar; deves ser reconhecido, pois fiz muito por ti. Tiveste a felicidade de ser ternamente e religiosamente amado. Espíritos bem mais elevados que o teu, falo mesmo de Espíritos vivendo nesta Terra, oraram por ti; bendize a Deus que, em Sua misericórdia tão plena de ternura, permitiu que orações e boas obras às quais não pensavas, tenham podido te reter na ladeira onde te faziam deslizar tuas inclinações. Quantos rebaixamentos evitaste, e quantas orações deves aos pecadores e aos Espíritos sofredores por aquelas que se elevaram a Deus para teu melhoramento! Esta dívida é sagrada, ela te obriga pelo título mais rigoroso. Eis-te espiritualmente rico; não economizes a esmola; dá-a, meu filho, dáa de coração pleno, e esta caridade será ao menos tão agradável a Deus quanto a do rico que derrama sua bolsa na mão do indigente.

Sabe, pois, bem isso, pratica-o, e possuirás a verdadeira ciência, a verdadeira grandeza, aquela que te elevará, aquela que te conduzirá até Deus.” Zenão

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.