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Capítulo 4 de 13
Alphonse de Grand Boulogne — parte 3 de 3
Carta de um Católico sobre o Espiritismo · Dr. Grand
Constatemos, antes de tudo, que esta doutrina não é uma obra humana. Considerando-a como sistema filosófico, este sistema se apresenta com um caráter de grandeza e de lógica digno do mais sério exame; mas o que lhe dá uma autoridade toda particular, é sua origem, é sua revelação. É preciso, no entanto, levar em conta os fatos maravilhosos que a apoiam. O incrédulo pode zombar, mas aquele que viu não pode afastar esses fenômenos surpreendentes: é preciso contar com eles. Fugir deles, é possível; mas impedi-los de existir, eis o que não podem nem a incredulidade, nem a zombaria, nem o desdém. Uma realidade temível se ergue diante de nós; não se sacodem essas coisas como se sacode um pensamento frívolo; e uma vez que o mundo dos Espíritos se revela, uma vez que vozes de alémtúmulo se fazem ouvir, não pode ser lícito fechar os ouvidos; é preciso ouvir, é preciso responder.
Entre os homens que se gratificam sem rir do título de sábios, alguns, forçados a se render à evidência, dignaram-se a convir que havia algo; e como lhes era necessária uma explicação, buscaram-na, mas não a encontraram, em não sei quais teorias elétricas ou magnéticas, discutíveis talvez numa conversa leve, mas demasiado evidentemente filhas da fantasia para obter direito de entrada no mais complacente dos livros científicos. Uma vez por todas, acabemos com essas objeções pueris. Àqueles que querem absolutamente encontrar no magnetismo ou na eletricidade o que aí não está, o que não poderia aí estar, digamos que nas comunicações com os Espíritos, as respostas obtidas, longe de serem um reflexo do pensamento de um ou de vários dos assistentes, são muito frequentemente, não apenas inesperadas, mas em oposição formal com as ideias do círculo evocador. Fui várias vezes testemunha do fato seguinte.
Uma comunicação começada por uma ou várias frases em francês, terminou por palavras estrangeiras, frases em inglês, alemão, latim, árabe, incompreensíveis aos evocadores e necessitando de uma tradução que o Espírito se apressava a dar. Obtive endereços que eu não conhecia, informações cuja exatidão só podia ser verificada vários dias depois; vi produzir-se a escrita direta (Nota 2) igualmente em várias línguas. (Nota 2) A escrita direta, esse magnífico fenômeno, foi obtida muitas vezes desde o ano 1856. O Sr. Barão de Guldenstubbé publicou a esse respeito um livro muitíssimo interessante. Desde então se viu produzirem-se por outros médiuns, em papéis trazidos pelos assistentes e
simplesmente colocados sobre um móvel, tomando-se todas as precauções necessárias para assegurar-se da realidade do fato. Eu mesmo a obtive em circunstâncias que não podem deixar nenhuma dúvida. Esse fenômeno é, sem contradita, um dos que a charlatanice poderia mais facilmente explorar; por isso a necessidade de se conduzir com bastante prudência. A produção desse fenômeno exige um profundo recolhimento, e sobretudo um médium dotado de uma faculdade especial para esse efeito. Diante desses fatos, o que dirão os amadores de magnetismo e eletricidade? Que não é verdade?... Muito bem; mas se for verdade?... Será preciso convir que aqui a ciência está doravante fora de causa. Para mim, o fato das comunicações de além-túmulo é incontestável; para mim, não é um sistema, uma teoria, é um resultado de experiência, e afirmo que, para se convencer disso, basta um pouco de boa vontade, e sobretudo de boa fé. Pois bem! Uma vez que esses fatos são adquiridos, uma vez que seu número é ilimitado, uma vez que o caráter das testemunhas, sua honorabilidade, seu saber, desafiam as mais malévolas apreciações; uma vez que a negação de um fato não pode infirmar a atestação desse fato, se ele é apoiado sobre provas irrecusáveis, deixemos os céticos se comprazer em sua incredulidade, e coloquemos a questão em seu verdadeiro terreno. Este terreno, é o da religião.
II
O Espiritismo é religioso ou antirreligioso? Ele jamais extinguiu a fé em um cristão, ou será que, por vezes, a reavivou? É corruptor ou moralizador? Melhora os corações ou os torna maus? Introduz nas almas a perturbação ou a consolação? Etc., etc. Colocar tais questões é quase resolvê-las. Examinemos, no entanto, e vejamos se as acusações formuladas contra o Espiritismo são seriamente fundamentadas. Um fato notável é que se pode, resolutamente, lançar um desafio aos nossos detratores para que citem um cristão, católico ou protestante, desviado pelos Espíritos de seus deveres religiosos; enquanto se contam aos milhares os corações reconduzidos a Deus, as conversões, os retornos à fé, as reconciliações, os ódios aplacados, os desesperos acalmados, as mudanças operadas em almas perversas ontem, hoje piedosas e melhoradas. Singular influência de uma coisa má! Como é provável, em verdade, que práticas sacrílegas produzam esses resultados maravilhosos? O Sr. De Mirville, já mencionado, elaborou, para a Academia de Ciências, um livro volumoso que, muito provavelmente, não chegou ao seu destinatário.
Nada perdeu com isso; o público o acolheu favoravelmente e seus numerosos leitores nele encontraram um interesse indizível. Este livro contém o relato de muitos fatos bem observados e, sobretudo, perfeitamente autênticos. As provas da intrusão de maus Espíritos nas coisas deste mundo assumem nele um caráter de irrecusabilidade que desafia as negações mais obstinadas; ora, revoltar-se contra tal evidência acusa, certamente, fraqueza e não força de espírito. Não tive a honra de conhecer o Sr. De Mirville, mas, julgando o homem pela obra, estimo que ele seja honesto, sincero e profundamente convencido. E, no entanto, encontro em sua obra uma lacuna que precisa
ser preenchida. Evidentemente, o livro é incompleto, e o autor se apressou demasiado em concluir. Diante das maravilhas que se multiplicam sob nossos olhos; diante desses fenômenos inauditos, produzidos, por assim dizer, à vontade, e sem outro aparato que não a assistência de um médium, pergunta-se como um homem dedicado à busca da verdade colecionou, por preconceito, todos os fatos favoráveis à sua tese, e rejeitou, como inexistentes, todos aqueles que a condenam sem apelação? O Sr. De Mirville é católico; como, então, passou sob silêncio os inúmeros fatos de que abundam os anais cristãs, e nos quais a Igreja admite a manifestação espontânea de Espíritos superiores, dos anjos, dos santos, da Virgem etc.? Impressionado de súbito por fatos que o aterrorizaram, ele resolveu, categoricamente, que tais fatos eram obra do demônio.
Foi além: sua imaginação alçou voo, e, sem exame, sem discussão, sem estudo, pelo simples fato de ter medo, todas as comunicações espíritas foram declaradas diabólicas e dignas das maldições da Igreja; assim, porque, ao penetrar no mundo dos Espíritos, encontrou alguns maus, conclui que todos são maus: é exatamente como se, ao chegar a um país onde fosse atacado por ladrões, concluísse que todos os habitantes desse país são bandidos. Esta conclusão não o honra. Evidentemente, o Sr. De Mirville nunca praticou o Espiritismo, não o estudou; caso contrário, seria impossível que não tivesse encontrado fatos que lhe demonstrassem a impotência de sua teoria para explicá-los todos. Sua ignorância talvez o desculpe; não o justifica.
Seja como for, é constante que legiões de maus Espíritos, (digamos, se ele quiser, demônios) agitam-se ao nosso redor, conforme nos ensina a Igreja; estes Espíritos comprazem-se no mal; eles nos espreitam, nos surpreendem, acendem em nossas almas as más paixões, às vezes nos penetram, nos possuem, ou para falar mais exatamente, nos subjugam, e em certas circunstâncias, manifestam-se materialmente por atos, por vezes grotescos, por vezes aterradores. Isto enquadra-se perfeitamente na tese do Sr. De Mirville; mas prossigamos. Os Espíritos nos dizem ainda, sempre de acordo com o ensino da Igreja, que cada um de nós tem seu anjo da guarda, seu Espírito protetor; que um número infinito de bons Espíritos nos cerca, que eles nos protegem, nos sustentam, nos inspiram bons pensamentos, e, quando necessário, entram
em comunicação direta e tangível conosco. Eles afirmam que, fora da vida humana, a mãe ainda vela por seu filho, o irmão pelo irmão, o amigo pelo amigo; que as almas que nos foram caras ainda nos amam, e às vezes permanecem invisivelmente ao nosso lado; que em sua bondade infinita, Deus nos permite receber a prova material dessas comovedoras realidades, mas que se Ele aprova nossos contatos com os bons Espíritos, condena esses contatos com os maus. Em uma palavra, Deus exige, (são sempre os Espíritos que falam), Deus exige que nossas evocações tenham como único objetivo o aperfeiçoamento de nossas almas. Ora! Encontra-se no livro do Sr. De Mirville uma única linha que faça suspeitar dessas verdades consoladoras? Apelo à razão, à boa-fé, ao simples bom senso; o que é mais conforme à bondade e à justiça de Deus: permitir exclusivamente aos demônios que multipliquem ao nosso redor milagres para nos enganar e nos perder, ou outorgar aos homens a faculdade de comunicar-se com os Espíritos do além-túmulo, impondo-nos como lei ouvir apenas os bons?
Se o Sr. De Mirville tem razão, é preciso absolutamente chegar a esta monstruosa afirmação: “Deus, julgando que os homens não se condenavam com suficiente facilidade, permitiu que o inferno lançasse em nosso meio milhares de demônios, favorecidos com o dom dos milagres. A esses demônios tudo é permitido: a mentira, a hipocrisia, a oração, a invocação de Cristo, a eloquência, a caridade, a mais pura moral, os divinos conselhos, todas as qualidades aparentes da santidade, e isso para melhor assegurar nossa perdição. Os anjos e os santos podem afligir-se com as armadilhas estendidas à humanidade, mas Deus não lhes permite que intervenham; toda comunicação exterior com os homens lhes é interdita; o Pai infinitamente bom, infinitamente misericordioso, ordena que isso seja o privilégio exclusivo de Satanás.” Desafio o Sr. De Mirville a provar que esta conclusão não é equivalente à que resume seu livro. Digamos, simplesmente, que isso é absurdo. Evidentemente, quando o livro das manifestações fluídicas foi publicado, o autor não conhecia a primeira palavra da Doutrina Espírita. Desde aquela época, provavelmente teve ocasião de instruir-se, e por pouco que tenha aproveitado, por pouco que tenha lido ou visto, não pode escapar à seguinte alternativa:
Ou reconhecer que se enganou; Ou negar categoricamente os fatos que o condenam. Negar, logo se diz; mas se os relatos contidos em seu livro são autênticos, aqueles que lhe são opostos não o são menos; e se ele nega como um acadêmico, o que restam de suas admoestações aos sábios? Esperemos, portanto, que ele não negue, e submetamos-lhe, muito humildemente, a conclusão seguinte: As comunicações que servem de base à Doutrina Espírita sendo inexplicáveis no sistema do Sr. De Mirville, e os fatos relatados em seu livro sendo, ao contrário, perfeitamente aceitos e explicados pelo Espiritismo, este, pela amplitude de seu quadro, e pelo encadeamento lógico de seus ensinamentos, presta-se muito melhor à interpretação dos fatos e às exigências da razão.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.