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Capítulo 8 de 13

VIII — parte 2 de 2

Carta de um Católico sobre o Espiritismo · Dr. Grand

inferioridade e de se tornar feliz. Eminentemente sábia e magnânima é, pois, a lei que rege a duração das penas, porquanto subordina essa duração aos esforços do Espírito. Jamais o priva do seu livre-arbítrio: se deste faz ele mau uso, sofre as conseqüências.” SÃO LUÍS 1007. Haverá Espíritos que nunca se arrependem? “Há os de arrependimento muito tardio; porém, pretender-se que nunca se melhorarão fora negar a lei do progresso e dizer que a criança não pode tornar-se homem.” SÃO LUÍS

1008. Depende sempre da vontade do Espírito a duração das penas? Algumas não haverá que lhe sejam impostas por tempo determinado? “Sim, ao Espírito podem ser impostas penas por determinado tempo; mas, Deus, que só quer o bem de suas criaturas, acolhe sempre o arrependimento e infrutífero jamais fica o desejo que o Espírito manifeste de se melhorar.” SÃO LUÍS 1009. Assim, as penas impostas jamais o são por toda a eternidade? “Interrogai o vosso bom-senso, a vossa razão e perguntai-lhes se uma condenação perpétua, motivada por alguns momentos de erro, não seria a negação da bondade de Deus. Que é, com efeito, a duração da vida, ainda quando de cem anos, em face da eternidade? Eternidade! Compreendeis bem esta palavra? Sofrimentos, torturas sem-fim, sem esperanças, por causa de algumas faltas! O vosso juízo não repele semelhante idéia? Que os antigos tenham considerado o Senhor do Universo um Deus terrível, cioso e vingativo, concebe-se. Na ignorância em que se achavam, atribuíam à divindade as paixões dos homens.

Esse, todavia, não é o Deus dos cristãos, que classifica como virtudes primordiais o amor, a caridade, a misericórdia, o esquecimento das ofensas. Poderia ele carecer das qualidades, cuja posse prescreve, como um dever, às suas criaturas? Não haverá contradição em se lhe atribuir a bondade infinita e a vingança também infinita? Dizeis que, acima de tudo, ele é justo e que o homem não lhe compreende a justiça. Mas, a justiça não exclui a bondade e ele não seria bom, se condenasse a eternas e horríveis penas a maioria das suas criaturas. Teria o direito de

fazer da justiça uma obrigação para seus filhos, se lhes não desse meio de compreendê-la? Aliás, no fazer que a duração das penas dependa dos esforços do culpado não está toda a sublimidade da justiça unida à bondade? Aí é que se encontra a verdade desta sentença: ‘A cada um segundo as suas obras.’” SANTO AGOSTINHO A este respeito, dirigi ao meu guia as seguintes questões: – Um Espírito que nunca se arrependesse seria, portanto, eternamente infeliz? R. Isso vai sem dizer. É como entre vós; o vadio que não se emenda não está sempre sob o golpe da justiça? O preguiçoso que não estuda não é sempre ignorante? Suponde um homem condenado à prisão perpétua, mas ao qual se diz: Se fizeres tal coisa, serás libertado. Pois bem! Se não fizer essa coisa, permanecerá na prisão toda a vida. – Assim, a eternidade das penas não é uma invenção, uma ficção; ela poderia se tornar uma realidade para o homem que nunca se arrependesse, que nunca fizesse nada para se tornar melhor?

R. Sem nenhuma dúvida; mas admirai sobretudo aqui a bondade e a justiça de Deus, que faz sempre depender a duração das penas da persistência da falta, ou da reparação; aquele que nada repara, não pode pretender à indulgência. Aquele que sofresse uma pena eterna, é porque seria eternamente culpado; mas desde que uma centelha de arrependimento aparece nele, Deus lhe abre o caminho da reabilitação; cabe a ele aproveitá-lo. Dai ao dogma da eternidade das penas uma interpretação racional, e todo mundo o aceitará; persistindo em dar-lhe um sentido que a razão repele, gerais a incredulidade (nota 9). (Nota 9) O dogma da eternidade das penas é controverso; mesmo teólogos o entendem hoje no sentido relativo e não no sentido absoluto, dizendo que o fogo (emblema do castigo) é eterno, porque durará tanto quanto houver mal a punir, o que não implica, para cada um, uma condenação perpétua e sem remissão possível. Uma autoridade que nenhum católico ousaria contestar veio hoje sancionar esta doutrina, e esta autoridade é a do próprio Papa.

Com efeito, Pio IX, em sua alocução ao consistório secreto de 28 de setembro de 1860, proferiu estas palavras não equívocas: "Mas sabeis muito bem, veneráveis irmãos, que toda nossa esperança deve ser posta em Deus, nosso auxílio e nosso refúgio em nossas tribulações; em Deus, que fere e cura as feridas, que fere e sara, dá a morte e dá a vida, leva aos infernos E DELES RETIRA."

Segundo a interpretação vulgar do dogma da eternidade das penas, as portas do inferno fecham-se sem retorno sobre o culpado; não há para ele nem esperança de salvação, nem alívio possível a seus sofrimentos. Reza-se pelas almas do purgatório, mas para os infelizes danados, a oração é inútil; para eles, nenhuma consolação: Deus é inflexível. Tal é o dogma em sua acepção rigorosa; mas tal não é, seguramente, a opinião do Papa, pois ele diz: Deus leva aos infernos E DELES RETIRA. É claro que se Deus retira dos infernos, é que a condenação não é irremediável; donde se segue que a eternidade das penas não é absoluta; ela existiria apenas para o culpado que estivesse eternamente sem arrependimento, o que seria de toda justiça; pois, se ele sofre muito tempo, se sofre sempre, não pode culpar senão a si mesmo. Não penso que venha à mente de qualquer católico taxar o Papa de heresia, porque ele crê que se pode sair do inferno. É da sua parte uma opinião pessoal?

Não; pois, ao dirigir-se ao sagrado colégio, ele diz: Sabeis MUITO BEM, veneráveis irmãos, etc.; portanto, uma vez que o sagrado colégio sabe muito bem isso, é que partilha desta opinião. Esta palavra, a meu ver, encerra a questão. Se alguém, para sustentar a doutrina da eternidade absoluta das penas, pretendesse que se interpretou mal o sentido dessas palavras, seria preciso compadecê-lo por querer, a todo custo, tirar de Deus o seu mais belo atributo: a bondade. Aliás, se a eternidade dos sofrimentos não está na realidade, está na crença do culpado, e é ainda para ele um castigo. As evocações espíritas nos mostram os Espíritos perversos na incerteza sobre o termo de seus sofrimentos; eles creem que sofrerão sempre e esta crença é a consequência mesma de seu estado moral. Este termo não poderia ser fixado, pois está subordinado ao arrependimento do culpado; portanto, enquanto o arrependimento não entra em seu coração, o termo da punição permanece no vago; este termo não existindo realmente, ele não pode vê-lo.

A Igreja nos ensina que Deus perdoa ao pecador arrependido; mas, se o arrependimento não chega, o perdão não pode obter-se, e far-se-ia eternamente esperar, se o arrependimento estivesse eternamente por vir. Deus é inflexível apenas para os pecadores endurecidos. Desde que uma centelha de arrependimento penetra neles, eles entreveem, não ainda o termo, mas a possibilidade de um termo para seus sofrimentos; é então sobretudo que a oração e os conselhos são eficazes para sustentá-los na nova luta que vão empreender, pois, à medida que se depuram pela expiação, Deus, na sua bondade infinita, faz brilhar aos seus olhos a esperança primeiro, depois a certeza da reabilitação. O que há de mais belo, de mais grandioso, de mais conforme à soberana justiça do que esta doutrina! Todo mundo a compreende, e quando for ostensivamente ensinada, todo mundo a admitirá, porque ela não fere nenhum sentimento natural, e o racionalismo mais rigoroso não saberia nela encontrar nada a objetar. Que se interrogue a esse respeito a consciência de cada um, e ver-se-á de que lado está a maioria.

XI

Em outra ocasião, meu guia, retornando à dificuldade de fazer aceitar certos dogmas tais como são interpretados, ditou-me a seguinte comunicação: “Toma, um a um, os dogmas da religião, e os mais incompreensíveis encontrarão uma interpretação satisfatória em nossos ensinamentos. Falar-te-ei hoje de Jesus que desceu aos infernos. Antes de seres iniciados na Doutrina, pensavas alguma vez nesse admirável mistério? Ah! Nunca. Que esforços de imaginação por parte dos teólogos! Que explicações infelizes, e frequentemente desprovidas de sentido, davam eles aos fiéis que reclamavam pela luz! E, no entanto, que explicação perfeitamente natural se apresenta hoje à tua alma! Os Espíritos flutuavam, na sua maioria, nas regiões inferiores, e languidesciam no sofrimento; ninguém orava por eles; nenhuma voz partindo da Terra se elevava aos céus para encorajá-los e solicitar a divina misericórdia. Apenas a expiação se cumpria. Pena proporcionada à falta, tal era a lei implacável sancionando a justiça de Deus.

Jesus, o Salvador, cumpriu sua missão; Messias dos mortos assim como dos vivos, ele desce às regiões inferiores, visita as almas que a ausência de todo socorro deixava numa dolorosa erraticidade. A redenção lhes é revelada, e tudo o que, de longe ou de perto, toca à vossa infeliz Terra, experimenta subitamente a influência da cruz. Na ignorância dos primeiros tempos, os Espíritos erravam sem outro alívio senão o seu próprio arrependimento. A caridade cristã não existia. Jesus nasce, vive e morre, dando às gerações o exemplo da dedicação infinita. O Homem-Deus, o mais puro e o mais inocente dos seres, assume para si a expiação material, e, ao mesmo tempo, opera a grande revolução cristã, tanto na Terra quanto no mundo dos Espíritos errantes. Messias de todas as almas encarnadas ou errantes, ele estabelece relações que existirão doravante entre os homens e os Espíritos. Como ele é o vosso

exemplo eterno, a vós também, pobres exilados, ele ensina a descida aos infernos, isto é, a baixar um olhar de compaixão para os Espíritos sofredores e a lhes estender uma mão socorredora; a vós, ele ensina a sublime caridade espiritual: a consolação dos Espíritos no sofrimento. Lei encantadora, desconhecida de vossos pais judeus ou pagãos; caridade exercida pela miséria tanto quanto pela opulência; esmola tão fácil de ser distribuída; dom do coração tão doce e tão consolador; numa palavra: orações pelos mortos, tudo isso está virtualmente contido no mistério da descida aos infernos. E tudo isso se encontra em harmonia com a lei de expiação: Arrependimento e penitência; mas penitência com essa solidariedade tão comovente que faz a comunhão dos fiéis. A lei do amor só é verdadeiramente promulgada após a descida de Jesus aos limbos; é o coroamento de sua missão.

Eis, meu filho, eis a tradução fiel do descendit ad inferos. (*) (*) Expressão latina desceu aos infernos - Doutrina na Teologia Cristã referenciada no Credo dos Apóstolos e no Credo de Atanásio. Que afirma a crença de que Jesus Cristo, após a sua morte e sepultamento na Sexta-feira Santa, desceu ao reino dos mortos. Compreendes agora tudo o que o Espiritismo encerra de sublime? Compreendes quanto são pueris, diante desses grandes ensinamentos, as preocupações daqueles que nele não veem ainda senão um atrativo para sua curiosidade? Que se consomem em vãs experiências para se assegurarem, de quê? Que são realmente Espíritos que se comunicam; ou então, se creem nos Espíritos, para ver o que sabem fazer e se são mais hábeis que os vossos prestidigitadores. Crê-me, meu filho, não te deixes arrastar por esse caminho, que te retardaria em vez de te fazer avançar.

De tudo o que vês, aplica-te sempre a tirar as consequências morais, pois aí está o verdadeiro objetivo do Espiritismo; se ele não te tornar melhor, será para ti inútil, ainda que fosses testemunha dos fatos mais prodigiosos. Sim, digo-te, o Espiritismo é a luz que vai dissipar as trevas; é a nova via de salvação que Deus, na sua bondade, concede aos homens que, a cada dia, se desviam seguindo a senda do orgulho, do egoísmo e da cupidez. Nesses fenômenos que surgem de todas as partes, como para vos afirmar que tudo não termina com a vida; nessa Doutrina que se propaga apesar dos Fariseus do vosso tempo, não reconheces a mão de Deus? Já não é a voz de um só que vos fala, é a de todos os vossos irmãos que vos clamam de todos os pontos do Universo para vos advertir do precipício que está sob os

vossos passos. Deus assim o quis; quem poderia ir contra a sua vontade? Que importa a Deus a negação ou a má vontade de alguns homens! Quando tiverem completado a medida da incredulidade, com um sopro os dispersará, como o vento de outono dispersa as folhas desde o cimo da árvore até à sua base.” Zenão

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.