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Capítulo 10 de 13

XIII

Carta de um Católico sobre o Espiritismo · Dr. Grand

Com a autorização de meu muito honorável amigo, o Sr. Allan Kardec, presidente da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, extraio de uma de suas obras, atualmente no prelo, as páginas seguintes, que me parecem de uma lógica irresistível. "A doutrina da reencarnação parece, num primeiro olhar, contrária a certas crenças religiosas, mas um exame atento logo mostra que essa contradição é mais aparente que real, e provém mais da interpretação que do fundo. Sem entrar aqui nos desenvolvimentos que essa questão comportaria, nós a resumiremos em algumas palavras. Primeiramente, de duas coisas uma: ou a encarnação existe, ou não existe. Se ela não existe, seria preciso prová-lo, não por uma negação, mas pela demonstração patente de sua impossibilidade; se ela existe, é que está na natureza das coisas, e nada fará que assim não o seja. Ora, a nossos olhos, ela está provada pelo raciocínio e por fatos positivos que a tornam evidente.

Quanto à questão de dogma, basta lembrar que certas teorias, tais como o movimento da Terra e os períodos de sua formação, foram tratados outrora de heresias e anatematizadas como contrárias aos textos bíblicos; mais tarde foi preciso render-se à evidência e reconhecer, não que os escritores sagrados se tivessem enganado, mas que se estava equivocado na interpretação. O mesmo ocorrerá com a reencarnação quando sua evidência não puder ser mais contestada, e quando se houver compreendido, sobretudo, que ela é infinitamente mais conforme à justiça de Deus do que a doutrina da unicidade de existência. De resto, estaríamos em erro se encarássemos essa crença como de origem exclusivamente pagã; não somente encontramos seu princípio em mais de um autor cristão, como ela também é nitidamente formulada no Evangelho, nas próprias palavras de Jesus. Com efeito, lê-se no Evangelho de São João, capítulo III, esta passagem característica:

1. Havia um homem entre os fariseus chamado Nicodemos, um dos principais judeus. 2. Esse homem veio, de noite, encontrar Jesus e lhe disse: Mestre, nós sabemos que tu és um doutor vindo da parte de Deus, pois ninguém poderia fazer esses milagres que tu fazes, se Deus não estivesse com ele. 3. Jesus lhe respondeu: Em verdade, em verdade, eu te digo, que se um homem não nascer de novo, ele não pode ver o reino de Deus. 4. Nicodemos lhe diz: Como um homem pode nascer quando ele está velho? Pode reentrar no ventre de sua mãe, e nascer uma segunda vez? 5. Jesus respondeu: Em verdade, em verdade, eu te digo que se um homem não nascer de água e de espírito, não pode entrar no reino de Deus. 6. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do espírito é espírito. 7. Não te espantes, pois, do que eu te disse: É preciso que nasçais de novo. 8. O vento sopra onde ele quer, e tu ouves o seu ruído; mas tu não sabes de onde ele vem nem para onde vai.

O mesmo se dá com todo homem que é nascido do espírito. 9. Nicodemos lhe disse: Como podem se dar essas coisas? 10. Jesus lhe respondeu: Tu és doutor em Israel, e não sabes essas coisas? 11. Em verdade, em verdade, eu te digo dizemos o que sabemos, e que nós rendemos testemunho do que temos visto; mas vós não acreditais nosso testemunho. 12. Se vos falei das coisas terrestres, e não o credes, como acreditareis quando eu falar das coisas celestes? Diz-se ainda no Evangelho de São Mateus, cap. XVII: 10. E seus discípulos o interrogaram dizendo: Porque então os escribas dizem que é preciso que Elias venha primeiro? 11. Jesus lhes respondeu: É verdade que Elias devia vir primeiro, e restabelecer todas as coisas. 12. Mas eu vos declaro que Elias já veio, e eles não o conheceram, e o fizeram sofrer como bem entenderam. É assim que farão sofrer o Filho do Homem. 13. Então seus discípulos compreenderam que era de João Batista que ele falara. Uma vez que João Batista era Elias, há então reencarnação do Espírito ou da alma de Elias no corpo de João Batista.

(Para mais desenvolvimentos, ver Livro dos Espíritos: Pluralidade das existências, nº 166 e seguinte, e nº 222). A comunicação seguinte me foi ditada sobre o mesmo assunto por meu Espírito familiar. “Na doutrina da reencarnação há uma economia moral que não escapará à tua inteligência. É evidente que uma vida não basta para a realização dos desígnios de Deus, quando um Espírito encarna de conformidade com as suas leis. Somente a corporeidade é compatível com os atos de virtude, e sendo esses atos necessários à melhoria do Espírito, este raramente vai encontrar em uma única existência corporal todas as circunstâncias necessárias à sua elevação acima da humanidade. Admitindo-se que a justiça de Deus não pode aliar-se com penas eternas, e devendo a expiação ser proporcional às faltas, a razão deve concluir que é necessário: 1º Um período de tempo durante o qual a alma examina seu passado e toma suas resoluções para o futuro; 2º Uma existência nova em harmonia com o adiantamento atual dessa alma.

Não falo dos suplícios, por vezes terríveis, infligidos a certos Espíritos após sua morte. Eles correspondem, de um lado, à enormidade da falta, de outro, à justiça de Deus. Voltando às reencarnações, compreenderás sua necessidade por uma comparação vulgar, mas de uma verdade impressionante. Após um ano de estudo, o que acontece ao jovem estudante? Se progrediu, se foi laborioso, se aproveitou o tempo, passa para uma classe superior; se permaneceu imóvel na sua ignorância, repete o ano. Supondo faltas graves, é expulso ignominiosamente. Pode andar de colégio em colégio, ser declarado indigno de pertencer à Universidade, e passar da casa de educação para a casa de correção. Tal é a imagem fiel do destino dos Espíritos. Toda existência mal preenchida exige uma nova existência, e nada satisfaz mais completamente a razão; se se quiser aprofundar mais a Doutrina, ver-se-á quão mais perfeita e conforme às grandes verdades que dominam nossa inteligência parece a justiça de Deus, diante dessas ideias.

No conjunto, como nos detalhes, há algo de tão claro e de tão impressionante, que, à primeira vista, o espírito fica como que iluminado. E os murmúrios de reprovação contra a Providência, e as maldições contra a dor, e o escândalo do vício feliz diante da virtude que sofre, e a morte prematura da criança, e, numa mesma família, as qualidades mais encantadoras dando, por assim dizer, a mão a uma perversidade precoce, e o idiotismo, e as enfermidades que datam do berço, e as diversidades infinitas das condições humanas, seja nos indivíduos, seja nos povos: problemas irresolutos até hoje, enigmas que fizeram duvidar não só da bondade, mas quase da existência de Deus; tudo isso se esclarece de uma só vez; um puro raio de luz estende-se sobre o horizonte da nova filosofia, e nesse quadro imenso agrupam-se harmoniosamente todas as condições da existência humana. As dificuldades aplanam-se, os problemas resolvem-se, e mistérios impenetráveis até hoje resumem-se e explicam-se nesta única palavra: Reencarnação. Leio em teu coração, caro cristão: Eis aqui, desta vez, uma verdadeira heresia?...

Não mais, ó meu filho, do que a negação da eternidade das penas; nenhum dogma prático está em oposição formal com esta Doutrina. O que é a vida humana? O tempo durante o qual o Espírito permanece unido a um corpo. O Cristianismo, no dia marcado por Deus, ensinará que a vida do homem é múltipla. Isso nada acrescenta nem muda em vossos deveres. A moral cristã permanece de pé; os preceitos são os mesmos, a lembrança da missão de Jesus paira sempre sobre a humanidade. A religião nada tem a temer deste ensino; e o dia não está longe em que seus ministros, abrindo os olhos à luz, reconhecerão na Doutrina nova os socorros que, do fundo de suas basílicas, pedem ao céu. Eles creem que a sociedade vai perecer: ela vai ser salva." Zenão.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.