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Capítulo 5 de 13

III

Carta de um Católico sobre o Espiritismo · Dr. Grand

Não basta, porém, desconcertar a demonologia; é preciso provar ainda que o Espiritismo alia-se maravilhosamente às ideias religiosas e, sobretudo, concorda com as principais verdades do Cristianismo. Aqui, minha tarefa torna-se fácil. Em vez de me embrenhar em uma longa dissertação teológica, deixo a palavra aos Espíritos. As páginas que se seguem são a reprodução textual de comunicações espíritas obtidas em condições de autenticidade e autoridade, por assim dizer, excepcionais (Nota 3). Coligidas quase ao acaso em volumosos cadernos, estas citações, ainda que poucas, bastarão, espero, para lançar grande luz sobre a questão que nos ocupa. (Nota 3) Um grande número de minhas comunicações foram obtidas por golpes. Ainda que a tiptologia dificilmente se preste às dissertações de longo fôlego, esse modo de comunicação com os Espíritos fornece aos experimentadores os melhores elementos de convicção. Assim, em tudo o que temos obtidos por esse meio, não há uma letra que não tenha correspondido a um golpe ouvido distintamente pelo grupo de evocadores.

Aquelas que atribuo ao meu Espírito familiar e que foram obtidas pela escrita, eram controladas por outros Espíritos por meio de golpes, e, para evitar erros e ilusões, tomei todas as precauções imagináveis. Muitas vezes, quando eu segurava a pluma, as frases eram, por assim dizer, pontuadas por um Espírito por meio de manifestações físicas; golpes bem distintos confirmavam o pensamento e sancionavam a redação, circunstância preciosa que falta à maioria das comunicações escritas por médiuns psicógrafos. Sou católico, não ouso dizer fervoroso, mas seguramente sincero. Pois bem! Declaro-o: a despeito de mim mesmo, dúvidas me afligiam, e em vão buscava, nos ensinamentos que me foram dados, nos esclarecimentos que solicitava, motivos conclusivos para fazê-las cessar; somente o Espiritismo pôde me reafirmar na minha fé. Notar-se-á, como eu mesmo o fiz, que, dentre essas comunicações, algumas emanadas de meu Espírito familiar poderiam, à primeira vista, suscitar algumas objeções; mas, lendo-as com cuidado, reflexão e sem ideias preconcebidas, apreciar-se-á, espero, a pureza da Doutrina, a paternal bondade e a sabedoria dos advertimentos, a profundidade dos

pensamentos, a austeridade da moral e, sobretudo, o sentimento religioso que as caracterizam. Há dois meses, evocamos quase diariamente um encantador Espírito, cuja prudência, sabedoria e admiráveis conselhos frequentemente nos comoveram até as lágrimas. Chama-se Annette (Nota 4); é o de uma pessoa que um de nós conheceu em vida, e que se compraz em vir conversar conosco na intimidade familiar. As comunicações se dão, ora pela tiptologia, isto é, por meio de pancadas, ora pela escrita ou psicografia. Os extratos seguintes não são os mais interessantes das numerosas comunicações, mas sua ortodoxia lhes confere, creio, grande valor. (Nota 4) O Espírito que comunicou conosco sob este nome declarou ser o de uma jovem falecida há cerca de 20 anos em Marselha, onde fora conhecida por meu amigo Sr. De L. Este conserva uma terna e piedosa lembrança dessa jovem pessoa, modelo de virtudes, arrebatada de sua família aos 18 anos. É um Espírito familiar. O Espírito marcou, um dia, a frase seguinte: “Estou sempre convosco para vossa melhoria moral; às vezes, para vossos interesses materiais; jamais, por vã curiosidade.” Pergunta. Queres responder-me sobre algumas questões religiosas? – R. Sim.

P. Faço bem em cumprir meus deveres de católico? – R. Certamente. P. Devo orar a Jesus? – R. Sim. P. Com fervor? – R. Sem dúvida. P. Jesus Salvador? – R. Sim, Jesus Salvador. Aqui, um de nossos amigos, presente ao diálogo, observa que, muito provavelmente, o Espírito daria resposta análoga, se se tratasse de Maomé. Após breve discussão, interpelo Annette. P. Deve-se orar a Maomé? – Nenhuma resposta. P. Queres dizer-me o que pensas de Maomé? – R. Sim: impostor.

Aquele mesmo amigo de que acabo de falar entregou-se a profundos cálculos para demonstrar a possibilidade de triunfar sobre as chances aleatórias; pergunta a Annette se está no caminho da verdade. – R. Quase. P. Devo ir à Alemanha tentar a aplicação do meu sistema? – R. Baixa preocupação. P. É possível; mas, enfim, serei recompensado por meus esforços? – R. Neste mundo, talvez; no outro, decerto não.” Em uma de nossas reuniões, minha esposa consulta Annette sobre o livro que lhe conviria ler para se aperfeiçoar o mais prontamente possível. – R. A Imitação de Cristo. P. Qual capítulo mais particularmente? – R. Livro V, cap. III. P. Que outro livro? – R. As Meditações de Bossuet sobre o Evangelho. P. Qual capítulo? – R. Da primeira à última página.” Annette recomenda igualmente ao Sr. De L., o mais dotado dentre nós três das faculdades mediúnicas, a leitura de A Imitação de Cristo, e designa o capítulo que ele deve meditar com maior assiduidade.

Certa vez, interrogamos Annette sobre a autenticidade de um milagre de que se falou muito na França, há alguns anos; uma magnífica igreja, erguida em memória desse milagre e dedicada à Santíssima Virgem, tornou-se meta de peregrinação e atrai, todos os anos, grande concurso de fiéis. O Espírito responde: “Foi, em seu princípio, uma comédia sacrílega; mas essa peregrinação, feita de boa-fé, é obra meritória aos olhos de Deus. As boas orações nunca se perdem.” Annette ditou, em seguida, a oração seguinte para ser escrita no livro de missa da Sra. De G. B.: “Deus, Pai de misericórdia, Vós que vedes a fragilidade do meu ser; Vós que sois toda indulgência, eu que sou toda fraqueza. Tende piedade de mim, meu Deus. Juro, aos vossos pés, amar o meu próximo, assistir os infelizes e escutar somente as inspirações dos vossos bons Espíritos.”

IV

Os pensamentos seguintes são extraídos de diversas comunicações dadas pelo mesmo Espírito: “Vós não lamentareis a vida; o mundo onde eu estou é menos triste que o vosso.“ “Sede sem desconfiança; eu sou pura; eu vos amo, e me identifico com vossas almas.“ “Cuidado! Os maus Espíritos não têm a minha linguagem.“ “O divino Salvador é verdadeiramente o Filho de Deus; ele morreu na cruz por vós; adorai-o. Orai, orai a sua mãe.“ Amai-vos uns aos outros. Evitai os maus; fugi deles, mas orai por eles.“ Consolai-vos, minha cara amiga; Deus vos curará; orai a ele; tende confiança nele e no bom doutor que é o seu humilde instrumento.“ Esta última frase era dirigida a uma jovem senhora atingida por uma doença reputada incurável se não se praticasse uma operação muito longa, muito dolorosa e raramente coroada de êxito. Hoje, tudo nos faz esperar que a operação poderá ser evitada.

Deveria falar aqui das comunicações de Rémi (Nota 5). Este Espírito foi para nós ocasião de uma doce alegria. A princípio, manifestou uma profunda tristeza: o infeliz estava persuadido de que seus sofrimentos não teriam fim. Nós o consolamos o melhor que pudemos, e oramos por ele. Um dia, ele veio espontaneamente nos dizer esta única palavra: Espero. Logo, nos expressou sua gratidão por nossas orações que Deus havia atendido. Atualmente, ele é feliz, quase nunca me deixa e nos dão todos os dias as provas da mais terna afeição. (Nota 5) Remy A., falecido há 18 anos, foi companheiro de estudos do Sr. De L. Esta felicidade dada a uma alma sofrente pelas orações de um vivo é um dos aspectos mais comoventes do Espiritismo, bem como do Catolicismo, e se há no mundo uma alegria íntima e pura por excelência, é certamente a

certeza de ter dado a um Espírito infeliz sua primeira esperança e seu primeiro consolo. Noutra reunião à qual tenho assistido frequentemente, um Espírito que toma o nome de Maria (Nota 6), e que é o Espírito familiar do médium, deu, tanto por pancadas, tanto pela escrita, numerosas comunicações das quais cito apenas as passagens seguintes: "Tomai o Evangelho; espigai nesse campo celeste; o Mestre é bom: ele deixará cair de seus feixes divinos a espiga consoladora que deve nutrir vossa alma, a qual frutificará e vos dará uma ampla colheita para vos apresentardes diante de seu Pai. (Nota 6) Maria, jovem senhora falecida há 9 anos, outrora amiga da Srta. H., médium que lhe serve de intérprete, e atualmente seu Espírito familiar. Meus amigos, tendes agora sobre vossa terra, o que está dito nos Atos dos Apóstolos, cap. 2, versículos 17, 18 e 19: “E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões.” Tende tanta fé quanto o Centurião de quem fala São Mateus, cap. 8, v.1, 2, 3, 4, 5, e fareis milagres.

"Pregai com coragem; não vos desencorajeis com os obstáculos que se opõem à vossa crença; conheceis a incredulidade dos Apóstolos acerca de Jesus". Aqueles que pedem sempre milagres são os Judeus; aqueles que opõem sua razão são os Gentios; aqueles que creem e que são os loucos são os verdadeiros sábios. São Paulo aos Coríntios; 1ª Ep.; cap. 1º; v. 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25. Muitas pessoas não creem no que seu espírito não compreende; daí, não há sabedoria e não há temor. Eclesiastes, cap. 1º, v. 12 13; cap. 3, v. 22, 23, 24, 25. Combatei vossos inimigos pela oração e não pela zombaria. Moisés venceu Amaleque por este meio e não pelas armas. Judite, cap. 4, v. 13." Relato estas máximas, ainda que banais, porque foram dadas por pancadas, e que, consequentemente, não se podiam atribuir ao pensamento do médium; e ademais, porque estas citações das Sagradas Escrituras, com indicação dos capítulos e versículos, testemunham os conhecimentos do Espírito a este respeito, e da impossibilidade quase material, mesmo para

um médium escrevente, ter todos estes números presentes no pensamento, a menos de uma memória fenomenal, tanto mais que estas citações se multiplicaram às centenas. Sei que se objetarão os prodígios da mnemônica; mas é aqui o caso de levar em conta as circunstâncias nas quais os fatos se produziram; ora, afirmo que bastava conhecer estas circunstâncias para afastar toda a possibilidade de fraude. Demais, eis uma experiência que temos repetido muitas vezes e que desafia toda a suspeita. Um dos assistentes tinha, sem desígnio premeditado, trazido um livro recém-saído, cujas páginas não estavam ainda cortadas, e que era perfeitamente desconhecido do médium. Pede-se ao Espírito se poderia indicar, primeiro o assunto do livro, em seguida a substância do que se encontra numa página determinada; na página 206, por exemplo; e o Espírito citava textualmente o que se encontrava nessa página. Dir-se-á que havia conluio? Mas, repito, é preciso levar em conta a qualidade das pessoas, as causas que as reúnem e as circunstâncias. Se nos mostrassem tais fatos, dirão certos incrédulos, seria preciso render-se à evidência.

Isto não é certo; pois se viu nesta mesma reunião incrédulos obstinados, testemunhas dos fatos mais positivos, levar o ceticismo ao ponto de suspeitar da boa-fé dos assistentes. É verdade que estes indivíduos pertencem à categoria daqueles que não creem ter uma alma, ou pelo menos que dizem não ter certeza; ora, com tais pessoas, é pena perdida falar-lhes dos Espíritos; pois, como diz com razão o Sr. Allan Kardec: "Os Espíritos não sendo outra coisa senão as almas daqueles que viveram corporalmente, aquele que não crê na alma, não pode crer nos Espíritos; aquele que não admite um Espírito em si, não pode admiti-lo fora de si; é em vão que acumulareis diante dele as provas mais palpáveis, ele as negará, ou as explicará segundo suas ideias; não admitindo a causa, não pode admitir as consequências. Com ele seria preciso seguir uma marcha totalmente diversa antes de torná-lo ESPÍRITA, seria preciso antes torná-lo ESPIRITUALISTA."

A experiência me demonstrou muitas vezes a verdade desta asserção; também agora nunca abordo a questão do Espiritismo sem me assegurar previamente se meu interlocutor admite a sua base, que é a existência da alma. O tempo perdido com certos céticos me parece tempo roubado aos homens de boa vontade, e àqueles que têm necessidade de consolações.

Eis ainda alguns pensamentos ditados pelo mesmo Espírito: “Tende a fé de São Paulo quando ele fala ao Filipenses sobre seus laços, seu sofrimento, e sobre o combate interior entre viver e morrer.” “Crede com o coração e não com os sentidos.” “Aprendei a amar a Deus e não o temê-lo, pois o amor atrai e o temor afasta.” “Orai por nós; vossa lembrança nos é agradável. Quando vierdes vos juntar a nós, tereis um cortejo de Espíritos reconhecidos que virão a vós.” “Orai por nós nesse momento; orai por todos. As almas que estão na beatitude verterão esse orvalho divino sobre aqueles que dele necessitam.” “Para ser agradável aos Espíritos bem-aventurados, orai pelos que sofrem; vossa prece será ouvida pelo Onipotente.” “Uni-vos pelo coração; a forma é pouca coisa aos olhos de Deus.” Sobre esta frase travou-se uma discussão; um sustenta que ela é anticatólica, outro, com justa razão, afirma que o verdadeiro catolicismo coloca o fundo bem acima da forma. Consulta-se o Espírito, que dá razão a este último.

Nesta mesma sessão, o Espírito de Fenelon, consultado sobre as peregrinações, dá a seguinte resposta: "Se tendes um pedido especial a fazer a um santo, deveis vos dirigir ao lugar consagrado a esse santo. Este esforço feito com vistas ao vosso pedido já é uma prece; ela é uma prova da fé que a ela conduzis. Quando o Centurião veio encontrar Jesus, ele já estava atendido antes mesmo de pedir; sua démarche havia tocado o Senhor. " Que é o homem? Ele entra na vida para dela sair em breve. Que aquele que está de pé saiba que pode cair morto, sem outra preparação que uma saúde florescente. " Vários Espíritos nos deram frequentemente versos através de pancadas. Um dia, Maria dita o seguinte: "Esperança, Fé, Caridade

E sobretudo grande humildade, É isto que agrada a Deus sobre todas as coisas." As pancadas tendo cessado de se fazer ouvir, pede-se a Maria que continue, ela acrescenta: "Bem o quisera, mas não ouso." Não resisto ao desejo de colocar sob os olhos do leitor as seguintes respostas, obtidas na mesma sessão através de um médium escrevente perfeitamente mecânico: P. Deus se encarnou? – R. Sim; o Cristo era mais que um homem, era Deus. P. Um ser tão grande se fez, portanto, tão pequeno? – R. Sim, e eis aí o sublime desta humildade que vos prego. P. Qual é, então, a necessidade de um sacrifício tão grande? – R. Era para salvar os homens de uma penitência longa e terrível; para isso Deus se fez pequeno; se fez homem para se fazer compreender. A grandeza de Deus ofuscava e fulminava os homens sob Moisés e os profetas: a simplicidade do Cristo os atraiu, encorajou, e não esmagou a frágil humanidade. Pôde-se escutá-lo; pôde-se instruir para seguir Sua lei, que é uma lei de justiça e de amor.

Outra vez, pergunto: Pode-se ser ao mesmo tempo bom católico e bom espírita? – R. Certamente. P. Conheces o trabalho que faço para demonstrar que o Espiritismo concorda com o Cristianismo? – R. Sim. P. Aprovas-o? – R. Seguramente, eu o aprovo. P. Este livrinho fará o bem? – R. Sim. As páginas que precedem bastam para demonstrar que, no número dos Espíritos que respondem às nossas evocações, dois pelo menos são positivamente cristãos e católicos. Apelo-me ao fiel mais inquieto, ao teólogo mais severo: quem ousará assinar as citações anteriores com o nome de Satã? Quem não recuaria ante esta odiosa profanação? Pois bem! Isto concedido, um pouco de razão, um pouco de lógica nos levará muito longe.

VI

As comunicações que se seguem emanam de um Espírito muito elevado. Idênticas aos preceitos do catolicismo no que concerne aos nossos deveres para com Deus e o próximo, deles se afastam em certos pontos que não têm nenhum interesse prático; mas estas divergências, que eu poderia ter feito desaparecer, se não fosse sincero, não escandalizarão ninguém. Que se examine a linguagem, que se esquadrinhe a Doutrina, que se pesem os conselhos, e que se diga se pode restar a sombra de uma dúvida sobre a elevação, a sabedoria, a perfeita pureza do Espírito que as ditou. Elas me foram dadas pelo meu Espírito familiar (Nota 7). (Nota 7) A religião nos ensina que após nossa morte somos punidos ou recompensados segundo nossos méritos; ela nos fala do céu; mas, fora das alegrias infinitas dadas aos puros Espíritos por sua aproximação de Deus, ela se cala sobre sua missão. O Espiritismo é mais explícito; ele nos ensina que a ociosidade não pode aliar-se com as virtudes celestes.

Os Espíritos mais elevados gozam de uma felicidade inexprimível, mas jamais permanecem inocupados. Cada um de nós tem um anjo da guarda; a nosso lado vela um Espírito bem-aventurado, cuja missão consiste em nos inspirar bons pensamentos; é por assim dizer uma segunda consciência, cuja voz, infelizmente, abafamos, e que o orgulho criminoso de nosso livrearbítrio afasta de nós com demasiada frequência. O Espírito familiar que me protege assina Zenão. Todos os Espíritos que consultei me afirmaram que era verdadeiramente Zenão, o Estóico, falecido na idade de cento e cinco anos, dois séculos antes do nascimento de Cristo. Esta afirmação pode fazer sorrir os incrédulos, mas não escrevo nada para convencê-los, dirijo-me aos meus irmãos no Espiritismo, e se insisto sobre este ponto, é que muitos deles, mesmo entre os fervorosos, sem excetuar o Sr. Allan Kardec, contestam a autenticidade de muitas assinaturas.

As precauções que tomei, o controle ao qual submeti todas as comunicações que reproduzo assinadas Zenão, autorizamme a crer que elas emanam verdadeiramente do filósofo célebre, cuja vida foi tão bela e a memória tão venerada. Aliás, se não são dele pessoalmente, são incontestavelmente de um Espírito tão elevado quanto, pois não encerram nada que desminta seu caráter. As pessoas alheias ao Espiritismo surpreender-se-ão talvez de encontrar ideias tão católicas no filósofo pagão; a isso responderei: 1º que a maioria desses filósofos havia antecipado a era cristã na ideia da unidade de Deus e de várias verdades importantes; 2º que, como Espírito superior, ele deve ter seguido as diversas fases do Cristianismo; 3º enfim, que seria possível que desde então ele tenha tido uma existência cristã, mas sob um nome desconhecido que não teria nenhum peso aos meus olhos, enquanto que o de Zenão devia ter uma certa autoridade.

É assim, por exemplo, que parece que Sócrates reviveu no século XVII na pessoa de um sábio e respeitável abade; mas como o nome de Sócrates é mais conhecido, é sob este que ele se comunica. "Ama, ora e faze o bem; a caridade, sempre a caridade, eis a grande lei; eis o que Jesus vos ensinou desde o estábulo de Belém até o cume do Gólgota. Portanto, querido filho, bendize o Senhor que renova hoje as maravilhas dos primeiros dias. Como anjos que levam uma criança para os céus, os bons Espíritos sustentam a tua alma e lhe mostram o caminho que conduz aos mundos felizes. Este favor é imenso, e pensa, meu filho, que se ele decuplica as tuas forças, também duplica os teus deveres. Perguntas por um critério? Ele está na tua consciência; examina friamente os nossos conselhos; interroga o teu coração, e vê se eu te torno melhor ou pior. Nós, demônios?...

Afasta esses ridículos fantasmas; e quando essas misérias te embaraçarem, recorda-te da palavra do Cristo: Vós dizeis que eu expulso os demônios pelo poder dos demônios, ora, qual é o reino que combate contra si mesmo? E se eu expulso os demônios como posso expulsá-los pelo poder dos demônios? Pois bem! Eu te pergunto, o que há de mais antissatânico que a nova Doutrina? Não é ela a consagração do ensinamento de Jesus? Fica, portanto, em paz, meu filho; afasta essas ideias infelizes. Obedece a Deus, e começa corajosamente a tua vida nova. " Após uma comunicação assinada por Zenão, peço-lhe que ateste, em nome de Deus, a sua identidade.

Ele me responde: "Abre a Imitação de Cristo; os teus olhos cairão sobre um versículo que te provará quem eu sou. " Conforme essa ordem, abro e leio: "Meu filho, é assim que deveis vos comportar; se desejais caminhar comigo, deveis estar tão disposto ao sofrimento quanto à alegria; deveis vos ver com igual vontade na pobreza e na indigência quanto na abundância e nas riquezas. " Zenão continua: "Quando oras numa igreja, dirige-te sobretudo a Deus, e dá sempre um pensamento aos Espíritos mais infelizes e mais esquecidos. Tu não sabes os

seus nomes, mas Deus os conhece, e a sua misericórdia sabe bem encontrálos. Nomeia aqueles que queres recomendar mais especialmente ao Pai Celeste, e ora para que todos os bons Espíritos se unam a ti nos teus piedosos desejos. Fica seguro, meu filho, de que esses Espíritos saberão de quem lhes vem, ou a consolação, ou o acréscimo de felicidade. Eles te amarão, e no dia da verdadeira vida, aquele que chamais de dia da morte, a profecia de Maria, aquela que te tornou tão feliz e tão crente, se cumprirá. " Desde que me tornei mais iniciado na ciência espírita, sei que as provas de identidade são muito difíceis de adquirir; que elas são mesmo impossíveis para certos Espíritos, sobretudo para aqueles que viveram em tempos recuados; pode-se apenas constatar que a sua linguagem não desmente o seu caráter.

Sei, além disso, que os Espíritos são tão numerosos, que é impossível que todos tenham pertencido a personagens conhecidos na Terra, e que, para nós, muitos não têm nomes: mas como nos são necessários nomes para fixar as nossas ideias, eles emprestam algumas vezes os dos personagens com os quais simpatizam. Pouco me importa, portanto, que o Espírito que me fala seja precisamente aquele do filósofo grego, desde que ele me fale com uma sabedoria digna dele; para mim é um Espírito superior, e isso me basta. Mas se um Espírito, tomando um nome venerado, dissesse coisas indignas desse nome, ou que traíssem a sua inferioridade, eu reconheceria a impostura, e uma única palavra equívoca bastaria para me abrir os olhos. Se a identidade absoluta é impossível de constatar da parte dos Espíritos antigos, o mesmo não acontece com aqueles que foram nossos contemporâneos, e de quem se conhece melhor o caráter e os hábitos.

Os parentes, os amigos que se evocam dão frequentemente, em detalhes íntimos, provas tão palpáveis da sua identidade que é impossível enganarse; mas não estou a dar um curso de Espiritismo, deixo esse cuidado ao Sr. Allan Kardec.

Eu tinha acabado de ler um livro cheio de fatos interessantes, mas ornado de reflexões pouco ortodoxas. O meu Espírito familiar, consultado sobre este assunto, e a quem eu tinha ao mesmo tempo pedido alguns conselhos, responde:

"Não te preocupes com as doutrinas; examina os fatos, e bendize o Senhor que permite tais milagres para a vossa melhoria. Não deixes vacilar a tua fé; caminharás com um passo mais seguro apoiando-te na tua religião e nas suas práticas piedosas. Nenhuma te é indiferente; precisas de uma regra, e a tua obediência aos mandamentos da Igreja é ao mesmo tempo um ato de humildade e de submissão que agrada a Deus, e do qual serás recompensado. O rigor dos preceitos convém à situação da tua alma. Criança indócil, muitas vezes falhaste; rebaixa-te, portanto, e suporta com alegria esta misteriosa prova. Conselhos, minha criança? Tu já podes dá-los a ti mesmo. Olha dentro da tua consciência; estuda-te a ti mesmo, e aplica-te a combater tudo o que prejudica o teu avanço. A bondade não te falta; falta-te a resolução, a coragem, a atividade no bem. Indolente, mesmo no instante em que pareces mais ocupado, encontras mil pretextos para afastar os trabalhos obrigatórios. Faz um pouco menos de Espiritismo, um pouco mais de medicina.

Tu viste, tu sabes, a tua convicção é perfeita; retoma os teus estudos especiais, e sem correr atrás da glória, volta ao trabalho, e faze o bem. A riqueza talvez te chegue; talvez também os desenganos e as provas pungentes. Sê firme, resoluto e valente; aceita o infortúnio com a mesma serenidade que a felicidade. Se sofreres, pensa na expiação; se Deus puser a alegria na tua alma, agradece-lhe, e ora pelos cegos, pelos endurecidos e pelos Espíritos infelizes. " Um dia interroguei Zenão sobre Annette, esse Espírito de quem falei no início, e que, cada dia, nos dá provas da sua bondade e do seu afeto. Ele escreve o que segue: "O Espírito de quem me falas é puro, mas ainda não pertence a uma ordem muito elevada na hierarquia. Não o poderia comparar melhor que a um amigo dedicado, sério e de bom conselho. As questões científicas e de filosofia transcendente não são da sua alçada; a sua principal qualidade é uma sensibilidade esquisita e uma caridade que não tem limites. "

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