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Capítulo 11 de 13
XIV
Carta de um Católico sobre o Espiritismo · Dr. Grand
Os católicos podem observar que a doutrina da reencarnação explica de modo muito racional certos dogmas que permaneceram até hoje no estado de mistério. Tal é, por exemplo, o do pecado original. Que esforços de imaginação, que sofismas laboriosos para conciliá-lo com a bondade e a justiça de Deus! Como! A humanidade inteira condenada e amaldiçoada pela falta de um só homem! Certamente, esse dogma é embaraçoso para a teologia; não o é para o Espiritismo. No momento designado pelos decretos de Deus, Espíritos foram encarnados nesta terra e foram submetidos a uma lei. Se tivessem obedecido, este mundo teria sido a morada da felicidade, pois os homens só podem ser felizes praticando a lei de Deus; eles desobedeceram; eles desconheceram essa lei; em vez de servir a Deus, só serviram às suas paixões; eles se mergulharam na vida material e sofreram as consequências da violação da lei. A terra tornou-se assim a morada de Espíritos inferiores, submetidos, consequentemente, a duras provas que são, ao mesmo tempo, expiações pelo passado e um meio de progresso para o futuro.
Donde se pode concluir que ninguém tem o direito de acusar a justiça de Deus. Condenados a sofrer, nós expiamos faltas cometidas por nós em existências anteriores, e não a falta cometida por Adão. Somos assim responsáveis por nossas próprias ações e não pelas dos outros, segundo um princípio de eterna justiça, a única que ninguém pode desconhecer. Nós trazemos ao nascer o germe de nossos próprios vícios, daqueles aos quais nos entregamos em outra existência; eis aí o pecado original. Dessa maneira, compreende-se, ele é lógico, racional. Quando a Igreja o ensinar dessa forma, calará a boca daqueles que o criticam. E a Imaculada Conceição? Esse dogma que foi objeto de tantas zombarias e que dividiu o clero; para explicá-lo, é preciso recorrer a tantos raciocínios que chegam a esta conclusão: É um mistério que se deve crer, mas que não se pode compreender? De modo algum; havia apenas uma coisa a dizer: Deus quis que o Cristo, a pureza mesma, nascesse de um ser puro; Ele
escolheu Maria, que não trazia para esta vida as impurezas de uma outra existência; isto é, ela não estava maculada pelo pecado original, não porque Deus a tivesse feito, por exceção, irresponsável pela falta de Adão, mas porque sua vida precedente havia sido santificada pela virtude. Explicado assim, este dogma teria sido compreendido por todos, e ninguém teria ousado torná-lo ridículo. A essas ideias liga-se evidentemente o dogma do batismo, essa purificação da alma no limiar da vida. Eis a esse respeito uma comunicação encantadora obtida em nossa presença pelo Sr. D. filho, um dos médiuns da Sociedade Espírita: “Há uma ficção mitológica que os Antigos consideravam uma ideia moral, e que, pouco a pouco, se materializou. É essa ficção chamada fonte da juventude, água viva por Jesus de Nazaré, e que os poetas chamam ainda de fonte da Juventude. O Cristianismo, que conservou a ideia pura, a denomina batismo ou redenção. Ó prova evidente da reencarnação! Como! Pobre criança, mal entrado na vida, tua consciência já é culpada?
No entanto, quando estás na solidão, quando tua razão começa a distinguir o bem do mal, não tens medo; és inocente, pois a solidão inspira a prece. Donde vem, então, que essa consciência que mal começou a falar já é culpada? Ó mistério! Abismo onde o pensamento se perdia! O Espiritismo vo-lo explica. Com efeito, vós o sabeis, a alma é velha em um corpo jovem; ela já pecou: eis aí o pecado original que a perdeu; e na terra, o batismo é o emblema dessa purificação espiritual que rejuvenesce a alma. Em todos os tempos, vós o vedes, o homem justo e superior buscou essa purificação que leva à virtude. Platão, Sócrates vo-la mostraram; o Cristo mesmo vo-la mostrou por sua conduta e as suaves palavras que dirigia à Samaritana, sob essa figura tão poética da água viva. Essas palavras são, para vós, vossa salvação para todos. O batismo é o emblema da purificação da alma reencarnada. Sede sempre justos, e morrereis purificados como no dia de vosso batismo.” Ronsard.
A doutrina da reencarnação explica então, e posso dizer que somente ela pode explicar, os males e os sofrimentos da Humanidade, de conformidade
com a justiça de Deus. Nós trazemos, pessoalmente, a pena do mal que pessoalmente houvéramos cometido, conforme estas palavras do Cristo: A cada um segundo suas obras. É nesse mesmo sentido que devemos entender estas outras palavras: Quem matou pela espada, pela espada perecerá; isso quer dizer que numa existência nós sofremos o mal que tivermos feito sofrerem os outros: o senhor duro e desumano poderá nascer escravo; o mau rico na miséria; o orgulhoso numa condição humilhante. É assim que a reencarnação se liga perfeitamente às principais verdades da religião de que é o corolário, ou melhor ainda, o primeiro tronco. É remontando à reencarnação que encontramos a verdadeira significação de certos dogmas, e não são precisos grandes esforços para tornar essa ideia concorde com os textos sagrados e fazer desaparecer a aparente injustiça da universal condenação. Nós a encontramos explicitamente expressa nas palavras mesmas do Cristo; acrescentemos que ela se encontra implicitamente no dogma que a Igreja ensina todos os dias, na fórmula mesma do símbolo da fé.
Eis o que se encontra a esse respeito no Livro dos Espíritos: - O dogma da ressurreição da carne é a consagração do da reencarnação ensinada pelos Espíritos? "Como quereis que seja de outra maneira? Dá-se com essas palavras como com tantas outras, que não parecem desarrazoadas aos olhos de certas pessoas senão porque são tomadas ao pé da letra, e por isso elas conduzem à incredulidade. Dai-lhes, porém, uma interpretação lógica, e aqueles a quem chamais livre pensadores admiti-las-ão sem dificuldade, precisamente porque eles refletem; não vos enganeis, esses livres pensadores nada mais pedem do que crer. Eles têm, como os outros, e talvez mais que outros, sede de futuro, mas não podem admitir o que é desmentido pela ciência. A doutrina da pluralidade das existências é conforme à justiça de Deus; somente ela pode explicar o que sem ela é inexplicável; como querer que seu princípio não esteja na própria religião?" - Assim a Igreja, pelo dogma da ressurreição da carne, ensina ela própria a doutrina da reencarnação? “Isso é evidente. Ademais, essa doutrina é a consequência de muitas coisas que passaram despercebidas, e que não se tardará a compreender nesse sentido; em breve se reconhecerá que o Espiritismo ressalta a cada
passo do próprio texto das Escrituras. Os Espíritos não vêm, pois, derrubar a religião, como alguns o pretendem; ao contrário, vêm confirmá-la, sancioná-la por provas irrecusáveis; todavia, como é chegado o tempo de não mais se empregar a linguagem figurada, eles se exprimem sem alegoria, e dão às coisas um sentido claro e preciso, para não dar ocasião a nenhuma falsa interpretação. Eis porque, dentro de algum tempo, tereis mais gente sinceramente religiosa e crente do que tendes hoje.” São Luiz
“A ciência, com efeito, demonstra a impossibilidade da ressurreição segundo a ideia vulgar. Se os despojos do corpo humano permanecessem homogêneos, ainda que dispersos e reduzidos a pó, conceber-se-ia ainda a sua reunião num tempo dado; mas as coisas não se passam assim. O corpo é formado de elementos diversos: oxigênio, hidrogênio, azoto, carbono, etc.; pela decomposição, esses elementos se dispersam, mas para servir à formação de novos corpos; de tal sorte que a mesma molécula, de carbono por exemplo, terá entrado na composição de vários milhares de corpos diferentes (falamos apenas dos corpos humanos, sem contar todos os dos animais); que tal indivíduo tem talvez em seu corpo moléculas que pertenceram aos primeiros tempos do mundo; que essas mesmas moléculas orgânicas que absorveis em vossa alimentação, provêm talvez do corpo de tal outro indivíduo que conhecestes, e assim por diante. Sendo a matéria em quantidade definida, e suas transformações em quantidades indefinidas, como poderia cada um desses corpos reconstituir-se dos mesmos elementos? Há aí uma impossibilidade material.
Não se pode, pois, racionalmente admitir a ressurreição da carne senão como uma figura simbolizando o fenômeno da reencarnação, e então nada que choque a razão, nada que seja uma contradição com os dados da ciência. É verdade que, segundo o dogma, essa ressurreição só deve ter lugar no fim dos tempos, enquanto que, segundo a Doutrina Espírita, ela tem lugar todos os dias; mas não há ainda, nesse quadro do juízo final, uma grande e bela figura que esconde, sob o véu da alegoria, uma dessas verdades imutáveis que não mais encontrará céticos, quando for reconduzida à sua verdadeira significação? Que se queira meditar a teoria espírita sobre o futuro das almas, e sobre a seu sorte após as diferentes provas que devem suportar, e ver-se-á que, com exceção da simultaneidade, o juízo que as
condena ou que as absolve não é de modo algum uma ficção, assim como pensam os incrédulos. Notemos ainda que ela é a consequência natural da pluralidade dos mundos, hoje perfeitamente admitida, enquanto que, segundo a doutrina do juízo final, a terra é tida como o único mundo habitado.”
XV
Às comunicações que precedem, eu poderia acrescentar muitas outras; não vejo, porém, utilidade nisso. Se os dissidentes não estão convencidos, se ousam sustentar que tudo isso não passa da linguagem do demônio, ou se, simplesmente, me opõem uma brutal negativa, volumes inteiros não supririam a insuficiência destas páginas. A mim, elas me parecem perfeitamente categóricas, e se não obtiverem a adesão de todos os meus irmãos católicos, que elas não lhes sejam, espero, nem causa de perturbação, nem motivo de escândalo. Não foi sem hesitação que me decidi a publicá-las; resisti por longo tempo às solicitações insistente de meus amigos, e provavelmente ainda resistiria se meu Espírito Familiar não me houvesse dado os conselhos que se seguirão. “Estes conselhos são uma ordem; obedece, meu filho, atesta tua fé. Nenhum dispêndio de eloquência, nenhum recurso de imaginação; dize, simplesmente, o que sabes, e pensa no julgamento dos homens muito menos do que na glória de Deus.
É inútil expor fatos extraordinários; os fenômenos espíritas apreciáveis pelos sentidos, nestes últimos anos, contam-se aos milhares. Tentar convencer, narrando com a mais inteira boa-fé as maravilhas das quais foste testemunha, nada acrescentará à convicção daqueles que sabem, nada às boas ou más disposições daqueles que ignoram. Na obstinação dos sábios, em sua recusa teimosa em examinar, em seu indizível desdém pelos mais formidáveis fenômenos que Deus entregou às meditações dos homens, há certamente um mistério que nada pode explicar; nada, exceto o castigo de seu orgulho; nada, exceto o fato de que ainda não merecem participar das graças reservadas aos humildes de coração, ou às almas predispostas a receber a semente celeste. Não penses nesses homens, e não escrevas nada para eles. Se pudesses apresentar-lhes um inseto, um musgo, um fragmento de mineral, escapados ao microscópio do sábio, serias ouvido, talvez até admirado;
mas não podes oferecer-lhes senão uma coisa: a prova tangível, evidente, palpável da imortalidade da alma. É muito pouco, serias desdenhado e escarnecido. Ademais, se as manifestações espíritas fossem mais raras; se, nestes últimos anos, apenas alguns fatos se tivessem cumprido, haveria talvez um motivo sério para realizar um inquérito, recolher provas e compor, sobre isso, uma bela memória acadêmica; porém, milhões de homens viram, Deus prodigalizou as maravilhas, e somente em Paris, centenas de reuniões são, quotidianamente, seu teatro. Sua realidade, sua evidência, sua autenticidade são tais, que é seguramente mais insensato negá-las do que negar a existência da antiga Babilônia ou da antiga Roma. Não tentes, portanto, convencê-los; esquece os incrédulos, escreve para os homens de boa vontade. Perante os fatos que deslumbram vossos olhos, não se trata de constatar sua existência, mas de apreciar seu caráter. Trata-se de saber se Deus permitiu estas coisas para enganar os homens ou para esclarecê-los. A questão é, portanto, exclusivamente religiosa, e, admitidos os fenômenos, o primeiro pensamento de um cristão deve ser este: São eles obras da Divindade ou obra do demônio?... Escreve, meu filho, e deixa a teus irmãos cristãos a felicidade de concluir.” Zenão
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.