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Capítulo 12 de 13

XVI

Carta de um Católico sobre o Espiritismo · Dr. Grand

Concluirei com algumas reflexões cujo alcance os homens sérios saberão apreciar. Afirmei e repito que é inútil pretender provar a existência dos Espíritos. Esta verdade, que até os últimos tempos se apoiava na religião e na filosofia, assumiu doravante o caráter de um fato material e acessível aos sentidos. Os incrédulos honestos tornar-se-ão crentes no dia em que lhes aprouver ser convencidos. Os progressos do Espiritismo são tais, e o número sempre crescente das manifestações assume proporções tão inesperadas, que se pode vislumbrar num futuro próximo a realização das predições tão consoladoras contidas em várias das comunicações anteriores. Uma única coisa pode colocar-lhe verdadeiros obstáculos: a imprudência e a leviandade dos experimentadores. Há espíritas amadores mais perigosos, mais comprometedores sobretudo, do que os mais obstinados incrédulos.

Sem fervor, sem recolhimento, eles evocam, não para se instruir, não para se melhorar, mas para satisfazer uma curiosidade quando menos pueril, quando não é culpável; libertinos, ímpios, homens depravados são admitidos no círculo evocador; as comunicações se produzem, e blasfêmias, palavras grosseiras, obscenidades repugnantes respondem às evocações, provocando, ai de mim! Menos frequentemente a indignação do que gargalhadas. É de surpreender que as pessoas honestas se retirem, e que os piedosos vão por toda parte atestando que o Espiritismo é obra do demônio? É da mais alta importância que as pessoas desejosas de evocar sejam prevenidas deste perigo. A experiência provou que os maus Espíritos podem infiltrar-se por toda parte; mas a presença dos bons lhes impõe respeito, e estes estarão sempre em maioria nas reuniões em que dominam o respeito, a piedade e a plena confiança em Deus. O recolhimento e o fervor são as duas condições essenciais das boas evocações.

Reconheçamos, no entanto, que, apesar de tudo, Espíritos malintencionados podem tentar enganar-nos. As substituições não são raras, mas, se devemos acreditar nos bons Espíritos, Deus o permite, seja como prova, seja para exercitar nosso discernimento. Para evitar ser enganado, duas coisas são necessárias: uma, estudar previamente a ciência, a fim de estar premunido contra a intrusão dos maus Espíritos; por ela aprende-se a conhecer suas artimanhas e os meios de desbaratá-las; a outra, não se afastar do objetivo providencial do Espiritismo. Este objetivo é o melhoramento do homem, e não a descoberta de coisas ocultas; quem quer que nele veja um meio de servir a seus interesses materiais deve esperar por mistificações. Seja como for, das experiências boas ou más, do conjunto dos fatos conhecidos, resulta uma verdade definitiva adquirida: é que a mesma diversidade que observamos entre os homens existe, e maior ainda, entre os Espíritos; portanto, há bons Espíritos, assim como há maus.

Visto que os Espíritos são as almas dos homens, seria tão ilógico crer que todos são perfeitos, porque são Espíritos, quanto crer que todos são maus, porque se encontrou alguns mentirosos. Os demonólogos, ou antes os demonofobias, não querem ouvir falar senão de Satã. Parece-me difícil ser de sua opinião, se se leu com alguma atenção as primeiras páginas deste modesto livro; mas católicos fervorosos, consciências timoratas podem, confesso, conservar algumas inquietações. Creio, no entanto, haver demonstrado, apoiando-me em comunicações espíritas, que a nova doutrina se alia maravilhosamente às ideias cristãs e ao dogma católico. Todavia, fiz uma ressalva; devi sinceramente reconhecer que, em três pontos de alguma importância, o Espiritismo parece afastar-se da doutrina da Igreja. Com efeito, esta diz:

Fora da Igreja não há salvação. O Espiritismo: Católicos ou não, sereis julgados segundo as vossas obras. A Igreja diz: O inferno é eterno. O Espiritismo: A expiação é proporcional à falta. A Igreja diz: A vida é uma, e a alma é criada ao mesmo tempo que o corpo. O Espiritismo: A vida é múltipla, e a alma é anterior à formação do corpo. Estes diversos pontos, que se pode dizer os mais essenciais, constituirão uma divergência tal que seja impossível conciliá-los? Não, sem dúvida, pois

a distância que os separa é menor do que parece. Já disse, e repito, que é perfeitamente ortodoxo admitir o fogo como emblema de um grande sofrimento moral, e não como um fogo material. Quanto à eternidade das penas, ela é interpretada mesmo por alguns teólogos de uma maneira menos absoluta e mais aceitável; segundo eles, a eternidade das penas deve entender-se no sentido de que, Deus criando sem cessar, haverá sem cessar almas que se afastarão do caminho do bem e incorrerão em castigos; os castigos durarão, portanto, sempre, o que não quer dizer que serão eternos para cada indivíduo. Se o Espiritismo negasse as penas e as recompensas futuras, é nisso que seria antirreligioso e imoral; mas, longe de negá-las, ele vem prová-las pelo testemunho mesmo daqueles que sofrem ou são felizes; faz mais, a meu ver, apresenta-as de uma maneira racional, o que é um grande ponto para combater a incredulidade. Um cético obstinado, do ponto de vista religioso, disse-me um dia numa discussão: “Vocês se queixam de encontrar tantos incrédulos, mas deem-lhes coisas críveis e eles crerão.” Pois bem!

Esse mesmo cético, que não acreditava em nada, é hoje um bom e excelente cristão, graças ao Espiritismo, que lhe provou o que lhe parecia inadmissível e lhe fez compreender o que nunca havia compreendido. Estes exemplos multiplicam-se todos os dias. O princípio que, à primeira vista, pareceria o mais antidogmático, o da reencarnação, será aceito pela força das coisas. Abstração feita das provas materiais que se pode ter dele, de sua confirmação pelas próprias palavras de Cristo, não se tardará a reconhecer que ele se alia a todos os dogmas; e mais, é que certos dogmas encontram neste princípio uma sanção e argumentos peremptórios. Acrescentemos que o ensino espírita se apoia em revelações que se renovam e se confirmam todos os dias. A Igreja terá de se preocupar com isso, e, assim como em outras épocas seus ensinamentos tiveram de ceder diante das comprovações da ciência, ela deverá forçosamente e invencivelmente assimilar fatos cuja realidade não poderá mais ser recusada, sob pena de ficar sozinha para trás.

Apelo aos homens de boa-fé: as modificações impostas pelo Espiritismo são mais difíceis de obter do que as impostas pela ciência? Custará mais ao catolicismo entrar em acordo com os fenômenos e as revelações espíritas, do que lhe custou renunciar à sua cosmogonia? Enfim, o belo edifício cuja

primeira pedra foi posta por Cristo há dezoito séculos será, pela nova doutrina, abalado ou reafirmado? Para nós, a resposta não pode ser duvidosa. Quando as luzes do Espiritismo iluminarem toda a humanidade, quando vozes celestes autorizadas por Deus vos disserem: Crede no poder, na bondade, na misericórdia infinitos; Crede na imortalidade da alma; Crede no pecado original; Crede na missão de Jesus Redentor; Crede no Evangelho, na penitência, nas provas; Crede na expiação, nas penas e nas recompensas; Crede no anjo da guarda, nos bons e nos maus Espíritos; Crede na virtude dos santos; Crede nas orações pelos vivos e pelos mortos; Longe de ser ameaçada, a religião apoiar-se-á em uma força inesperada; seus dogmas, enriquecidos pela nova revelação, exercerão uma influência irresistível; e, assim como do século XV e XVI data o renascimento das artes, do século XIX datará o renascimento do sentimento religioso.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.