[user_registration_my_account]
Capítulo 9 de 14
Dédalos Históricos — parte 2 de 3
As Margens Do Mar Morto · Osvaldo Polidoro
gozo de tal glória entrasse para o seu patrimônio. Belo, sem dúvida, o catecismo da própria vida! Fundamenta-se na lei de necessidade interna, nunca na sanha dos conchavismos humanos. A igreja de Jesus, tal como o catecismo daqui ensina, reclama da parte do profitente, AMOR, REVELAÇÃO e CIÊNCIA, sem o que não haverá quem possa se dizer autoridade. Se a igreja dos homens professa em contrário, sem dúvida é porque houve adulteração. E houve mesmo! O céu, que vem por evolvimento em AMOR, REVELAÇÃO e CIÊNCIA — o céu do Cristo — não pode ser sectário; mas o céu das religiões, esse nunca deixará de sê-lo. Para o não ser, só mesmo havendo uma filosofia que seja a FILOSOFIA, uma ciência que seja a CIÊNCIA, uma religião que seja o sentimento gerado, a conseqüência do determinado pela FILOSOFIA e CIÊNCIA, o sentimento de UNIDADE com Deus e de FRATERNIDADE entre as partes manifestas do próprio Deus, que é ao que se chama Criação. Religião não é um programa formal. Religião não é amontoado de façanhas convencionais. Religião não é soberba sectária. Religião não é viver à custa da fé. Religião não é servir a culto externo algum. Porque Religião é consciência da origem, é respeito pelo plano geral, é devoção às Sagradas Finalidades. Religião sem FILOSOFIA, sem CIÊNCIA e sem ser conseqüência daqueles dois fatores básicos, não é Religião: é apenas cambalacho de homens, rotulado de Religião, para que estômagos se forrem, bolsos se encham e orgulhos partidários se refestelem. E a prova, têmo-la — cabal e inconcussa — na porcentagem elevadíssima de seres que emergem dos vários painéis religiosos do mundo, em demanda aos planos da inconsciência espiritual, do limbo e das guelras hiantes da dor! Eis o que digo, eis a palavra de um experimentado. Fala a minha experiência. Poderia calar-me; de pé ficariam sempre — intocáveis — as dolorosas realidades! Se o pranto se fizesse sentir em sinal de protesto e se os rincões tredos pudessem apresentar-se à vista dos homens encarnados, falar-lhes como advogado, discutir a falsa lógica dos amontoamentos clericais do mundo, por certo que os homens ficariam a ouvi-los, senão por senso da verdade, pelo menos por temor aos horrorosos quadros, às dolorosas evidências! Qual a razão por que assim afirmo? Porque um dia, livre das demais obrigações, completamente ao dispor dos amigos notórios em serviços consoladores, comecei a receber instruções e a visitar planos erráticos inferiores. De quantas coisas tristes tornei-me conhecedor! Quanto de doloroso medra pelas almas! Como se desviam para monstruosidades tais, espíritos cuja origem já os vota aos gozos indizíveis? E diga quem quiser que as religiões sempre ensinam bem! Ensinar bem é acompanhar a necessidade evolutiva dos seres, palmo a palmo, nos seus avanços. Quem sabota o ensino do qual se faz carente, por evolução, por avançamento do poder assimilativo, nada mais faz que coagir à rebeldia, ao crime e às trevas conseqüentes. Tal tem sido o procedimento dos homens que muito falam em Deus, mas de um Deus engarrafado, um Deus que cabe em pílulas, um Deus que lhes garante louçã vida animal, econômica e exclusivista! — Agora — falou-me um dia Teóclito, que é um espírito muito mais poderoso do que à primeira vista se poderia supor — você irá conhecer o processo usado por nós, de ordem superior, para orientar a tais irmãos. Tendo visto como vivem outros de nossos irmãos, nos mais variantes estados de prostração e dor, facilmente poderá imaginar como teve que viver por muito tempo também. Porque você vem, irá ver, de libertar-se, faz
pouco tempo, de jugo doloroso por encarnações penosas e estadias prolongadas em reinos de pranto e ranger de dentes. — De fato — intervim — pressinto ter cometido qualquer coisa muito grave. O que sentia ao visitar esses planos abismais, parecia-me como reviver tempos lá vividos, angústias bem curtidas por esses países. Tinha como que um quadro por mim mesmo pintado, ante minha visão de espírito e gostaria de fazer alguma coisa pelos que por lá, ainda infelizmente, transitam. Sorriu inteligentemente o bom Teóclito ao ouvir meus protestos humanitários e sensatamente ponderou: — Complexo é o problema. Se bem marche a humanidade para melhores dias, e as doutrinações se dêem em maior escala, com o conhecimento dos homens de boa vontade, e por suas diretas intervenções, também é certo que em Deus não houve nem jamais haverá licenciosidade. Ninguém pena, amigo, sem ser seu, e justo, o penar! Você vem de ser beneficiado, desde algum tempo, com o esquecimento temporário de suas ações passadas, em virtude da recuperação elaborada. Agora, porém, que entrará no domínio das recordações, por via de serviços por prestar ao Consolador, em curso maravilhoso no mundo, não queira saber mais em matéria de justiça do que o próprio Deus. Viu para saber; conserve a sabedoria para produzir, mas faça-o no âmbito das leis de causa e efeito. Não está sendo chamado a servir de juiz junto a irmãos em purgação e muito menos ainda, da Suprema Justiça. Considere que sendo de ordem interna o céu, que pode ser gozado ao infinito, também o é, o inferno; este, igualmente, conta da parte do espírito as mesmas naturais prerrogativas para recalcar ou exaltar. Peço-lhe, porque de mais alto lhe ordenam, saiba fazer o bem, sem, contudo, indispor-se com a Suprema Justiça. Ao ser obrigado a comparações entre o sofrimento de alguém e o rigor da Lei, saiba que o rigor da Lei é aplicado pelo espírito, nunca por Deus! De Deus vem tudo, mas genericamente; despertar para o bem ou para o mal e fruí-los, isso pertence ao próprio espírito. — Mas — obtemperei — e se o espírito não conhecer semelhantes regras fundamentais? Brando, respondeu Teóclito: — De um lado, amigo, por natureza ninguém quer sofrer e isso basta para que saiba e sinta não ter que causar sofrimento a quem quer que seja. De outro lado, deve convir terem vindo todos os ensinos, desde os Vedas, com o sentido de forçar o conhecimento das origens, do plano evolutivo e das finalidades por atingir. Os verdadeiros ensinos, em que pese terem surgido aos poucos e progressivamente, sempre apareceram pela Revelação, pelo intercâmbio entre um plano e outro. Portanto, de que Deus surgiram no mundo cleros formais? Com que autorização levantaram-se organizações profissionais de exploradores da fé? Dizem, os simplórios, que em nome da necessidade de cultivar a idéia de Deus. Nada mais ridículo! Pois se o ser é em si de origem divina; se comporta virtudes; se pode entrar em relações com os do outro plano da vida e assim foram vindos todos os ensinos, onde a autoridade daqueles que, à custa de implantarem formalismos sabotadores do progresso, truncam de fato o modo clássico, puro, leal e insubstituível de cultivo espiritual? Por onde, afinal, deve-se conhecer as coisas atinentes ao espírito? Pelos formalismos forjados por homens e sob cuja dependência vivem cardumes de parasitas da sociedade? Não; um conhecimento sugere outro, ao passo que um
formalismo só a outro formalismo é capaz de estimular! A lei do espírito é a investigação consciente, contínua e ungida de amor. Para tanto, sempre deveria ter ficado de pé o culto moralizado e puro da Revelação! Eis, amigo Licínio, o que se restaura no mundo. Eis o porquê de tanta repetição em torno da mesma questão. Aos trabalhadores inferiores, a esses, pouco ou nada de compreensível se diz e pede... Há, por conseguinte, necessidade de que outros, mais experimentados, compenetrem-se da grande reforma que bate às portas da humanidade da era presente. Queremos; sabemos o que queremos e por isso mesmo tangemos no sentido de libertação de consciências. É hora de saberem os homens que do céu interno, de Deus, ninguém se aproxima sem ser por aproximar-se de si mesmo. E para tanto realizar, só pelos caminhos também internos da moralização e do saber! Eis o que terá que dizer no mundo dos encarnados, ao se comunicar pelos canais mediúnicos. Fez breve pausa, meneou de certo modo a bela cabeça, para acrescentar de modo significativo: — Não se esqueça de que serviço idêntico está sendo feito por muitos daqueles que truncaram, aparentemente, o andamento do Cristianismo nascente. É da Soberana Vontade que todos tenham oportunidades de dar o seu testemunho, no mesmo campo em que tiveram a infelicidade de falir. Ambrósio, aquele que viu na transmissão de idéias, também foi um dos que moveram calcanhares contra a Causa do Mestre. Afianço-lhe que essa regra se irá prolongando, visto os adversários da restauração, mais tarde ou mais cedo, uma vez tornados merecedores, terem também que fazer sua parte... Por mim, estava saturado de ensinos. Como vinha de viver, desde criança, pois da última vez desencarnara com apenas três anos, uma vida alheia a tais cogitações, muito me parecia aquilo tudo. Tinha lido, aprendido, ouvido, cultivado e me dado por satisfeito, com o que era em geral ensinado nos nossos santuários, onde o sentido histórico nunca tinha chegado a ser levado a sério. O fundamental era tudo e este cingia-se a poucas regras e muitas obras, nenhuma formalidade e respeitos integrais aos reconhecidos valores. Muitas vezes, tinha ouvido a Espíritos superiorizados dizerem: — Na face obscura do mundo e nas zonas inferiores, prevalecem leis menos intensas. Muitas vezes, dado as falhas na organização de um caráter, uma grande sabedoria faz um grande negador de soberanas verdades. Tudo, portanto, por semelhantes plagas da vida e do universo, deve partir de baixo para cima, do saber mais tosco rumo aos conhecimentos por vezes apenas empíricos. Aqui, depois de tanto marchar o espírito pelas vielas de vidas e experiências outras, tudo se torna fácil. É como ver-se tudo de cima para baixo, do fundamental para o relativo, do espiritual ao material. Os problemas Deus, Cristo, imortalidade, evolução, reencarnação, comunicação, pluralidade dos mundos habitáveis, etc., com nada se provam, com pouco se sente e muito se vive. Como tudo parte de leis que nos são superiores, cogitar sobre sua justeza seria absurdo; jamais poderíamos assim pensar com respeito aos problemas de ordem moral. Estes tocam-nos diretamente em qualquer tempo e local. Se bem tenhamos mais fortes elementos de cooperação a dispor, já pela evolução feita, já pelo meio ambiente excelsamente favorável, nem por isso deixam de estar, essas responsabilidades, a nos afetar diretamente. E como o mundo material reclama, no presente, a reencarnação de seres superiorizados, eis que, para vencer em meio tão denso quão inferior, cumpre armar-se de toda cautela possível.
Tudo isso, para mim, tinha parecença daquilo que ocorreria com os outros. Não me dei, jamais, depois de ter crescido e ficado adulto por aqui mesmo, ao serviço de pensar que um dia isso me calhasse por turno. Agora, ante as explanações de Teóclito e o cogitar contínuo de tantos vultos, em relação ao caso, sentia-me como avassalado por um novo mundo de coisas por vasculhar. Estava assoberbado de serviço mental! PRIMEIRA VIAGEM À TERRA Um dia, quando um pouco daqueles arroubos pungentes me sacudiram ainda o ser, falei a Teóclito, irmão sob cujas ordens fiquei. Sem perder tempo, o bondoso espírito convidou: — Quer ir até onde está trabalhando aquele nosso irmão? — Quero! — respondi afoito, como se tivesse sido contemplado com divinal graça. Quase sem perceber, vi-me ao lado do irmão que transmitia sua palavra por meio de um homem que se achava sentado junto a uma máquina de escrever. Notei a dificuldade do trabalho, em virtude de o encarnado, como diremos?, viver bem menos depressa que o desencarnado. De paciência, muita paciência, tinha de fazerse ele cultor, para poder transmitir. Levando em conta o quanto de consciente é o homem, pode-se imaginar o trabalho dificultoso e os aborrecimentos, com a diferença de concepções, o que motivava, muitas vezes, estacar por minutos e horas o prosseguimento do relato. — Eis aí — falou-me Teóclito — como se faz uma transmissão aos encarnados, como foi realizada em todos os tempos. Variando, embora, os tons mediúnicos ou mesmo os padrões, a Revelação sempre foi feita na base de intercâmbio dos dois planos. O Senhor que falava no Velho Testamento, os Anjos do Novo e os Espíritos do Novíssimo, com a restauração, tudo significa uma só e mesma coisa, uma lei em curso para um fim emancipador. Dessa lei valeram-se, e valem-se, todos aqueles que viveram e os que se acham presentemente no mundo, lutando para a melhora do planeta em geral. O Cristo veio a esta pesada atmosfera, forrou-se de carne e ossos como os seus irmãos, tendo feito, à custa de ter os dons desenvolvidos ao máximo, tudo quanto já é do nosso conhecimento. Veja bem, portanto, qual a significação do batismo de Espírito Santo, simbolizando a manifestação dos dons e a comunicação dos espíritos. Esse ato proféticosimbólico deu-se no Pentecoste, e não fosse a corrupção vinda posteriormente, onde estaria a humanidade postada, pelo menos em conhecimentos, contando com um lastro de quase dois mil anos de Revelação ostensiva e em bases evangélicas? A assembléia de ponderados vultos que rodeava o espírito relator fez sinal afirmativo com a cabeça. Eu, como de hábito, simples estudante, signifiquei o meu respeito à afirmativa com um silêncio respeitoso. Avizinhei-me e fui ler no papel; o irmão relatava fases de suas vidas, uma delas tendo sido aquela em que foi contemporâneo do Mestre e onde teve a infelicidade de se tornar um dos criminosos da maior tragédia do planeta. Segundo me dissera Teóclito, também tive parte infeliz na dolorosa conjuntura. Hoje, tudo bem revivido, afirmo o acontecimento.
Custou-me isso muitas dores e provas! Um dia, liquidadas as faltas, voltei ao mundo e desencarnei como um menino de três anos. Cresci no mundo astral e prossegui numa vida exclusivamente espiritual. Já relatei como vim a saber de tudo isso, que é o motivo pelo qual me acho presente, leitor irmão, com um pouco de minha história. E você, irmão em origens e destinos, que terá feito? Que ações vantajosas ou desvantajosas pesarão sobre o seu arcabouço de responsabilidade e direitos históricos? Veja, pois, não julgue! E se tiver de julgar, observe este ensinamento: "Não julgueis e não sereis julgado; se tiverdes de julgar, porém, fazei-o com piedade, uma vez que difícil vos é conhecer a reta justiça". CONVERSANDO COM AMBRÓSIO Existem verdades, ou matizes da VERDADE, de que nem por exagerado cálculo podemos ainda cogitar. Estão muito acima de nossas possibilidades de análise; mas, vivem em nós e nós vivemos nelas. Que somos, então? Somos herdeiros de celestes dotes, a que devemos dar todo culto assistencial, para podermos despertá-los e gozálos. Todavia, o que se sente, embora não se entenda ainda, nem por isso deixa de ser sublime em sensações d'alma. Tal se deu comigo, quando pela primeira vez deparei com Ambrósio transmitindo recados deste plano aos ainda imersos nas densidades do mundo físico. Qualquer coisa se me moveu no fundo do ser, provocando incontido desejo de travar relações com ele. Queria saber de onde vinha, o que fazia e por quê; não por mera questão de curiosidade diletante ou comparativa, pelo que dissesse respeito ao mundo psicológico; mas, sim, por um sentimento indefinível de profunda manifestação afetiva e doce arroubo do coração. Emergiam-se d'alma e afloravam nos horizontes da razão, incutindo-me o desejo de procurá-lo, todas essas sensações sublimes. Como não soubesse onde encontrá-lo, mesmo depois do nosso segundo encontro, ao caro amigo recorri, inquirindo: — Irmão Teóclito, onde poderia encontrar-me com Ambrósio? Um sentimento arrebatador impele-me a procurá-lo; parece-me, não sei bem, termos casos em comum para resolver, algo de imensamente interessante. Contando o irmão com vastíssimo cabedal de influências, pelos seus méritos, desejava me proporcionasse um contato, caso não haja determinação superior contrária. — Tudo — emendou ele com afirmativo gesto de cabeça — está sendo guiado de mais alto e você segue o que lhe é inspirado, digo mesmo, quase que inculcado. Gente muito próxima de você, Licínio, está a lhe indicar o caminho certo e passos felizes. Queira, pois, falar a Ambrósio. É um alguém merecedor, de fato, de nossa estima, pelo que tem feito por recuperar-se. Sabe bem, Licínio, valer a embalagem do passado como força incoercível, difícil de ser vencida. Por essa razão, quem à custa de auto-impor trabalhos cristãos faz por resgatar parcela de grandes débitos, muito de respeito merece. Ambrósio é dessa têmpera; faz por vencer-se, por triunfar sobre si, naquilo que em si criou lastro condenável. Veio da carne há pouco tempo; se cometeu alguns delitos, muito mais fez a bem daquela parte do próximo mais carente de amparos e solicitudes fraternas.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.