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Capítulo 4 de 14
Capítulos Da Vida — parte 3 de 5
As Margens Do Mar Morto · Osvaldo Polidoro
as palavras de Furtado, assinalando que ao tempo do Divino Mestre, o que hoje se chamam fenômenos espíritas eram cultivados nos Cenáculos nazireus, a portas fechadas, em virtude de serem proibidos e perseguidos pelo judaísmo. Jesus veio "religar" a Terra ao céu, trazendo para o meio da rua, para o conhecimento e prática de todos, os fatos e a moral que permitia estabelecer essa ligação. Por isso, espiritismo não é apenas uma religião mas A Religião. Disse e reiterou por diversos exemplos, que tudo aquilo de que tratam os livros do Novo Testamento já era do conhecimento e culto dos nazireus, pois eles viviam em perene contato com os espíritos, os anjos esclarecedores, os mensageiros do Supremo Chefe Planetário. A assembléia bebia as palavras da elevada entidade com verdadeiro encantamento, não só pelas revelações feitas como pela sua harmoniosa e agradável maneira de falar, que cativava profundamente. Lembrou ele que o fenômeno do Pentecoste, a eclosão mediúnica denominada batismo do Espírito Santo, era o sistema de culto dos Apóstolos, e tinha conteúdo essencialmente revelacionista. Fez referência à Epístola de Paulo aos Coríntios, primeira carta, capítulos 12, 13 e 14, onde o Apóstolo dos estrangeiros indica o modo básico de reunião para efeito de intercâmbio entre os homens de aquém e além carne. (Os apóstolos realizavam o que hoje se chama sessão espírita. Quem duvidar veja o texto da Epístola!). Quando terminou de falar, todas as mentes estavam profundamente saturadas de um suave magnetismo e bastante instruídas a respeito de espiritismo e cristianismo. Depois da preleção, outra senhora facilitou acesso dialético a outra entidade, uma mulher muito bela em sua vestidura alvíssima, a qual, dirigindo-se às mulheres, lhes recordou quanto a civilização do futuro iria reclamar delas em matéria de cuidados, atenção e esmero moral, para que as extravagâncias de toda ordem não envolvam o mundo em seus tentáculos caóticos. Denotando bons dotes de profetiza, discorreu sobre o que será o terceiro milênio e o que é preciso fazer para auxiliar o seu advento e participar das suas alegrias. Os acontecimentos desenrolados nesse dia — e faz isto quase trinta anos! — vieram confirmar as seguras previsões daquela mulher extraordinária, de beleza e sabedoria desconhecidas na Terra. Também nunca mais a vi. * * * A seguir, Jasmim deixou o corpo, como que adormecido na cadeira, e veio para o nosso lado, onde figura a par e igual com os elementos máximos da falange superior. Furtado também, esse denodado trabalhador, deu entrada triunfal em nosso plano, tendo sido enviado para outras regiões, onde o programa de serviço lhe reclamava a presença. Muitos seres passaram pelo grupo. De muitos servidores do plano físico já me vali, para dar comunicações diversas, nesses vinte e tantos anos de lutas e doces convívios, mas nunca mais vi aquela mulher toda vestida de branco, a refulgir como se fora fanal celeste! VISÃO RETROSPECTIVA
Ao término da sessão, quando aguardava instruções sobre o que me seria dado fazer naquela colméia espiritual, eis que me vem ao encontro simpática figura de mulher, sorridente e feliz, de olhar expressivo e voz branda, como portadora de venturoso convite: — Convide o seu e nosso amigo, porque temos de partir imediatamente. O senhor deve entrar o mais breve possível no conhecimento de certos fatos desenrolados em longínquos dias, cuja recordação lhe é necessária. Como tal ordem vem do Distrito Astral a que o senhor pertencia antes de encarnar, deve-se deduzir que ela encerra um convite para prosseguimento de trabalhos de resgate e progresso. Alegre-se, meu amigo, com a graça que lhe é oferecida de ressarcir débitos do passado e continuar a sua evolução. — Sou grato, senhora — respondi — ao Supremo, por tudo que acaba de me ser revelado. Sou também muito grato a quem não tenho ainda a honra de saber o nome, mas que me convida, mensageira que é de chefes esclarecidos e bondosos, para penetrar portas adentro de saberes, sem os quais nada poderia intentar, quer para melhoria de condições, quer para traçar rumos progressivos. A bondosa senhora primeiro declinou o seu nome, dizendo-se serva pequenina de todos aqueles que apreciam a compreensão e procuram praticar o bem. Depois, franzindo o sobrolho pela primeira vez, como a sentir o contragosto de ter que por em função uma palavra de observação, esclareceu: — Disse estar agradecido ao Supremo por aquilo que lhe transmitimos, como convite a novas realizações e conhecimentos, para si interessantes. De fato, amigo Ambrósio, nossa atitude deve ser de perene agradecimento ao Emanador. Dia a dia, minuto a minuto, deve aumentar nosso amor para com o Pai, que não só nos tirou de Si, como nos mantém e prepara para um futuro feliz, tal como o pai terreno, que (favorece o meio) alimenta, educa, e ensina o filho a viver por si. Porque Deus provê até o ar que respiramos, a conservação do nosso corpo, tudo enfim. Não podemos olvidar, também, que nossa condição de semideuses nos torna artífices das nossas próprias condições, forjadores de situações felizes ou dolorosas. Ninguém deve responsabilizar a Deus, que é em nós BASE e QUALIDADE, por lhe advirem dores no curso da vida. O justo é volver os olhos para dentro e compreendermo-nos autores diretos de situações boas ou ruins. Há explicação para tudo e com o auxílio do espiritismo é possível localizar nossos atos mais remotos que deram causa às atuais condições. No quadro dos valores inatos é que Deus está presente dentro de nós. Temos o poder de criar, e liberdade de aplicar esse poder para o bem e para o mal, arcando porém cada um com a responsabilidade do que fizer. Venho, portanto, ao convidá-lo, transmitir um recado superior; mas, note bem, filtrado o seu mérito íntimo por aqueles que estão colocados, pelas suas altas conquistas, em postos de mando e autoridade, acharam eles que o amigo já está em condições de aproveitar o ensejo que lhe é oferecido. Não fossem seus méritos intrínsecos, suas realizações últimas, e não estaria eu aqui, em nome deles, a convocá-lo para novos progressos. Creio que compreende o que digo: o que Deus nos fez foi tornar-nos capazes de autoconstrução. Caso queira investigar a lógica do que afirmo, como irá mesmo ter tempo de fazer, averigúe nos próprios seres, sofredores ou felizes, onde está localizada a determinante do seu estado. Verá que nas obras pessoais, e nunca nos favores ou nas iras de Deus. Em Deus, tudo é Justiça, e Justiça que, para ser integral, age automaticamente dentro mesmo dos seres e das coisas. É a lei de ação e reação, causa e efeito, chamada lei do Carma ou do destino. Todos os seres e todas as coisas possuem valores íntimos próprios, que devem movimentar e desenvolver. Jesus, o Instrutor
Máximo da Terra, não encarnou para salvar diretamente os homens, mas sim mostrar como cada qual pode salvar-se e ajudar os outros a se salvarem. Cumpra cada um o seu dever e estará trilhando o caminho da salvação. — Essa teoria vale por uma revelação, principalmente para o meu entendimento de homem criado sob moldes adoradores exteriorísticos. Como deve saber, irmã Marta, fui educado num culto onde tudo se busca fora, por milagres, graças, e pouco resta ao homem interno por fazer. Eu não sou culpado de ser idólatra ou antropomorfista, de ser um traidor da doutrina de Jesus-Cristo! A esse tempo, muita gente deste plano rodeava-nos dentro daquele lar humilde, materialmente pequeno, mas que se estendia para além das suas paredes de tijolos. E foi com muito peso na palavra que Marta voltou à fala: — Pois está a findar um ciclo, para efeito de passagem a nova etapa evolutiva. A humanidade precisa pensar um pouco mais nos sublimes valores internos. Tratar deles com mais atenção e carinho, em vez de esperar de fora a salvação. Jesus deixou-nos uma recomendação nesse sentido na parábola das virgens, na qual nos mostra que as pessoas prudentes tomam providências para que não lhes falte luz, enquanto as loucas esperam a salvação do auxílio de terceiros. Adorar a Deus exterior, descuidando o sagrado dever de desabrochar as divinas qualidades internas, seria o mesmo que pretender saciar a fome ou a sede à força de ver os outros comendo ou bebendo. Desbravemos os sertões internos para que, nas terras seivosas da santidade genérica, possamos ostentar florações dignas da mesma. Como ninguém mais falasse, e estando Antônio junto de mim, disse ela em tom que comportava um misto de autoridade e bondade extrema: — Vamos, que nos aguardam. Partimos, de fato, como que arrancados por tremenda força! O grupo, composto de uns vinte e tantos espíritos trabalhadores, mais uns cinco ou seis recém-esclarecidos, inclusive eu, demandou paragens várias do mundo espiritual. Três aqui, dois ali, outro além, e a caravana foi-se desfazendo. Despedidas alegres umas, tristes outras, e chorosas também. Tudo humanamente sentido, superior e inferiormente, de acordo com os transes ou a intensidade dos traumas psíquicos do momento. Naquela mesma noite, muito havia de me acontecer ainda! Coisas muitas se deram, de rir e de chorar. Cenas chocantes, interessantes, doces, amargas. Momentos de entusiasmo! Momentos de quebrantar! Tanto encerra a vida de um homem. Tudo visões do passado! Chegados a uma casa para mim desconhecida, vimo-nos subitamente diante de uma aparelhagem complicada. Marta convidou-me a ocupar lugar em frente à máquina, junto com Antônio e uns poucos espíritos. Uma prece foi feita ao Senhor dos Mundos, finda a qual pude divisar inúmeros seres de alta hierarquia, cuja irradiação balsamizava agradavelmente o ar. Percebi que formavam um segundo círculo e os seus olhares denotavam pureza e mansidão. O ar tornou-se levíssimo, ao mesmo tempo que suave embriaguez me invadia os membros. Noções novas vinham-me à idéia sobre pessoas e fatos da minha vida. Sentia pena de mim mesmo e de todos os seres, bons e maus, grandes e pequenos. E lágrimas começaram a correr dos meus olhos, silenciosamente. Não sei explicar o turbilhão de sensações que me empolgou. Em cima do aparelho
formara-se uma névoa leitosa que, aos poucos, se dissipou, surgindo paisagens de lugares, árvores, pessoas e casas. O cenário, a princípio minúsculo, foi se avolumando e aproximando, a ponto de tomar aspecto natural. Via-se perfeitamente o que faziam e diziam as pessoas exóticas que nele apareciam. Uma delas pareceu-me ser minha conhecida, não sei porquê. Firmando a vista, reconheci-me a mim mesmo! A capacidade, aparentemente mágica, daquele aparelho revelava-me, mostrava-me, fazia-me viver, reviver, sofrer e gozar. Que turbilhão de anseios, de repulsões, de tremores e temores, meu Deus! Gritei, pedi, implorei; e por fim cedi... Não era eu que mandava; eram razões superiores, por erros graves antanho cometidos... Hoje percebo quanto me era necessário passar por aquele cadinho informativo e purgador. Mas, indagarão, o que foi que se deu? Apenas isto: por lei, como devem saber, até os minérios absorvem e guardam impressões vibratórias. É a psicometria? Que seja; mas é bom lembrar que a lei das vibrações age sobre tudo o que vive ou é, seja espírito ou matéria. É certo que, em princípio, tudo é ESSENCIALMENTE ESPÍRITO, por ser Deus ESSÊNCIA UNIVERSAL, ponto de partida de tudo e todos. Tudo, pois, é em base um mesmo elemento, variando os estados de manifestação e as condições de aglutinação molecular. Como criou Deus esse elemento base, ninguém sabe. Constatase a sua existência e ninguém de bom senso dirá que Deus foi buscá-lo aqui ou ali. O segredo das origens pertence ao número das coisas que não nos é dado saber, ainda. Recebendo, portanto, a matéria, como sabemos, influências vibratórias, como não guardaria em si o espírito, em sua matéria quintessenciada, os seus registros históricos? Que é a memória, senão a faculdade de entrar em contato com esses registros? Digo mais: não pode ela evitar essa influenciação, que independe da vontade. Quantos desejariam esquecer certos fatos e não o podem? A psicometria, ou seja a prospecção da alma, permite saber tudo o que aquela alma fez ou presenciou, embora ela mesma disso não tenha consciência, no momento. Revi, pois, fases diversas de vidas passadas, num misto estranho: ora apreciava os fatos de fora, como espectador, ora revivia aquelas situações, sentindo emoções fortes e passando de novo bons apuros. Presenciei meu nascimento na Palestina, pouco antes da vinda do Senhor à Terra. Mudei-me depois, com o meu grupo familiar, para os lugares onde em tempos remotos tinham existido as cidades de Sodoma e Gomorra, condenadas a desaparecer sob o fogo celeste devido aos seus crimes. Espalhadas pelo chão, algumas ruínas quase cobertas pela vegetação rasteira atestavam a execução dos decretos divinos. Rebanhos pastavam calmamente, na pradaria extensa. Poucas casas. Ao lado, o mar, histórico e sepulcral Mar Morto, assim chamado devido ao excesso de salinidade, que não permitia a presença de peixes. De permeio, para a direita, no confim do Lago Salgado, as benfeitorias dos Nazireus, com o seu Cenáculo. Terras, campos, hoje estéreis, praias, templos, tudo revivido, tudo renovado para que um criminoso — eu! — pudesse inteirar-me de feios cometimentos! Qual o móvel de tudo? Permitir ficasse eu sabendo que por tais bandas, como homem formado, senhor de terras, parente de padres, inimigo fidagal da Seita Profética, pus em jogo, por ignorância e em defesa de interesses de parentes, uma trama contra quem viria a marcar, por todos os tempos, o valor máximo no cômputo dos merecimentos humanos. Endurecido e egoísta, não havia nazireus que me topassem bem! Achava que os sacerdotes e fariseus tinham sobras de razões para perseguir aqueles feiticeiros, portadores de idéias revolucionárias, cúmplices do diabo! Mal andavam as autoridades
em apenas afastá-los de suas funções. Cumpria persegui-los por todos os meios! Nada com a gente que infringia e corrompia a Lei de Moisés! Aqueles elementos tinham contato e conversa com os mortos! O que cumpria era persegui-los de todos os modos! Lapidálos! Exterminá-los! Tal era o meu modo de entender. CENA ESTÚPIDA E COMPROMETEDORA Sei bem o que pregam hoje católicos, protestantes e espiritistas, sobre o nascimento do maior espírito da demografia terrícola. Sei que afirmam ter ido o Precursor, em criança, para o deserto, lá vivendo de mel e gafanhotos. Isto é o de menos, pois ainda se come bichos pelo mundo afora. Porém, que admitam ter sido o menino enviado para o deserto, isso é absurdo. Foi, sim, para um Cenáculo nazireu na fronteira do Egito, remanescente das escolas do profetismo hebreu. Naquela região desértica florescia ainda a mais profunda escola espiritualista de todos os tempos, aquela que contou em seu seio com o que de mais importante deu Israel, a escola então ocultista, que foi reerguida por Samuel, o grande vidente. Suas portas foram escancaradas, mais tarde pelo Cristo, que tornou seus ensinos e suas práticas de direito geral das gentes, a quantos queiram conhecer a Verdade. As práticas mediúnicas eram mal vistas pelo judaísmo, como ainda o são por todos os que vivem para a matéria e nada querem com a espiritualidade. Escudavam-se os sacerdotes na proibição das evocações, estabelecida por Moisés em virtude do desvirtuamento das finalidades do intercâmbio, por parte da população. A moral evolui. Ao tempo de Moisés imperava o "olho por olho, dente por dente". Jesus substituiu essa fórmula pela do perdão. Os livros da antiguidade consideravam que "o temor de Deus é a base da sabedoria", ao passo que o Cristo, fazendo novas todas as coisas, mostrou que a base da sabedoria é a caridade. Que pensem o que quiserem os que me lerem, se quiserem ler. O que digo é claro como o sol meridiano. João Batista, e também o Divino Mestre, freqüentaram aquele Cenáculo, (embora em épocas diferentes), tal como convém a todo missionário que, reencarnando, submete-se à lei do esquecimento e necessita despertar ou completar conhecimentos históricos e doutrinários, para sobre essa base edificar a sua obra. Não é exato que o Cristo tenha desaparecido aos doze anos, como não é certo que o Precursor tenha vivido sozinho no deserto até se tornar homem, e capaz de cumprir o mandato que, em tempo, lhe seria indicado pelo Alto. Igualmente me lanço hoje a falar, assistido por agentes mensageiros do plano astral, em cumprimento de lei, de superiores desígnios, mau grado minhas pequenas capacidades. Muitas podem ser as concepções na Terra e no astral, mas a realidade total é uma só, e esta independe de concepções. Sei perfeitamente bem que ninguém tirará proveito libertador do fato de computar o Mestre entre os Nazireus, ou do seu aparecimento ou desaparecimento aos doze anos, ou coisa que o valha. Todos são livres de aceitar uma ou outra versão, ou de recusar as duas. Tudo redundará inútil, se o estudioso não se resolver a levar à prática, a incorporar os ensinos do maior dos vultos da Terra, o seu Diretor Planetário, o seu Guia, em viagem
instrutiva para todos os homens, de todas as épocas, o cumpridor celeste da promessa
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.