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Capítulo 6 de 14

Capítulos Da Vida — parte 5 de 5

As Margens Do Mar Morto · Osvaldo Polidoro

— A questão é que não há clero algum. Deus por aqui não é vendido nem comprado. De pregar o Evangelho há muita gente capaz; e gente que não faz da fé, própria ou alheia, meio de vida. A mesma coisa se dá com a interpretação das Escrituras, que segundo São Pedro não constitui privilégio de ninguém. Os cargos são eletivos e rotativos, para todas as funções, nesta região. Há muita gente capaz para toda e qualquer função. Quem quer exercitar-se em administração, tem ensejo de o fazer, bastando apresentar qualidades e vontade. Entrementes, dávamos entrada no grandioso templo; por dentro, como por fora, a beleza estava na simplicidade. Um profundo silêncio ali dominava, facilitando o ingresso mais perfeito às regiões profundas do eu, onde Deus pode ser adorado como ESPÍRITO E VERDADE que é. O que se sentia ali, verdadeiramente, é que Deus, para ser bem compreendido e adorado, (no que é possível ao ser relativo compreender e adorar o que é infinito), é como VERDADE INTERIOR a tudo e todos. Nunca em minha vida senti, como ali, que para bem amar a Deus não basta seguir à risca o ritual de preces e cerimônias. Antes de tudo, é preciso usar ao máximo a inteligência e a consciência, a razão e o sentimento. Para sentir é preciso também compreender, e vice-versa. Só assim poderemos amar ao próximo como a nós mesmos. E concluí que a humanidade terrícola está muito longe de poder amar verdadeiramente a Deus. De rótulos estão cheias as religiões terrenas, pois todas ensinam a procurar Deus longe da Terra, e mais distante ainda dos corações. De outro modo, como poderiam supor, e cem por cento aceitar, haver irmãos predestinados à perdição?! Uma vez dentro do templo, de pé, pôs-se minha mãe a ensimesmar-se. Depois, vagarosamente, dirigiu-se para um banco, onde se sentou. Eu a segui, compenetrado. Uma estranha sensação de bem-estar começou a invadir-me. A própria respiração tornara-se uma função agradável! Em pouco, não sei de onde, sublimes harmonias se fizeram ouvir, penetrando-me a alma, no que de mais puro pudesse eu ser atingido. Eu conhecia de nome o estado chamado êxtase, mas nunca o sentira. Agora, começava a compreendê-lo. Não há alegria no mundo que se compare à felicidade desse estado! Repleto dessa euforia, comecei a divisar celestiais criaturas em torno de nós. As suas irradiações iluminavam o templo! De repente, um ponto mais brilhante formou-se no meio da seráfica multidão e eu vi surgir o Mestre, talqualmente como o havia visto na visão retrospectiva que já descrevi. O seu olhar exprimia uma paz imperturbável, infinita! Os pés descalços, os cabelos repartidos, do mesmo modo que a barba, o semblante infinitamente doce e inteligente. Era a expressão pura da simplicidade gloriosa! Com naturalidade, foi-se avizinhando, deslizando. Sua presença impunha ao mesmo tempo respeito e amor, no mais alto grau. Lágrimas de comoção brotaram-me dos olhos. Sem sentir, ia dobrando os joelhos. Ele, porém, fez-me levantar, acenando com a mão direita, num gesto suave. Depois, bem pertinho já, falou com simplicidade, como de amigo para amigo: — Onde estiver a VERDADE, aí estarão a mansidão, a tolerância e o perdão. É do que precisará o homem para ser feliz. Ao que se armar de Verdade, jamais ocorrerá apelar para as ações indignas, para a vontade de vencer a qualquer custo. A VERDADE é Deus. Num instante, revivi todas as mazelas da minha última vida, parecendo-me haver atravessado vidas e vidas para lembrar erros praticados. Tive vontade de sumir de mim

mesmo. Tive desejos de ser nada. Minha mãe levantou-me o semblante, dizendo coisas agradáveis. Olhei e vi que Ele havia desaparecido, mas a multidão celestial ali permanecia. Aqueles seres angélicos entoavam agora um hino de beleza arrebatadora, que lembrava aquela sentença evangélica que diz haver mais gozo nas alturas pelo arrependimento de um pecador do que com a perseverança de noventa e nove justos. Eu estava de pé; minha alma ainda estava de joelhos! Quando tudo havia desaparecido, fomos saindo eu e minha mãe. Ela me trouxe à beira do leito, e foi então que dei acordo de mim, depois de mais de 20 horas de profundo sono, disseram os guardas da casa. Quando contei a Antônio o meu sonho, ele imediatamente me disse: — Que vontade de ir à carne, resgatar o que me falta!... MARTA ME VISITOU Sucumbir na carne e chafurdar nos pantanais, é coisa da vida. Também o é emergir dos lodaçais fétidos e tenebrosos. O que a mente mais imaginosa não seria capaz de criar, nestes lados da vida é coisa comezinha. Fui visitado, no dia seguinte, por Marta, aquela mensageira já citada. Transmitiu-me ordens do instrutor chefe, no sentido de ficar ao dispor de um dos trabalhadores do grupo de Jasmim. E assim fiz. Fiquei à disposição de Manoel, aquele devotado amigo do bem, por muito tempo, por muitos anos. Antônio também permaneceu por prazo assaz longo na mesma residência. Tornara-se bom conhecedor dos préstimos socorristas. Um dia, porém, fomos convidados a visitar a Terra, mas em lugar muito diferente, em país estranho, seio de um povo cuja linguagem não entendíamos. — No meio desta família reencarnarás, dos seus bens há de tirar proveitos para o resgate final. São baluartes do Consolador, em função progressiva. Precisas disso, Antônio, em virtude de teres tomado parte no martírio do seu Ínclito Propugnador. Grandes coisas poderás conseguir, pois faculdades ser-te-ão concedidas para, em sofrendo pelos irmãos, iluminar-te na Luz do Senhor. Depois da palavra breve e concisa do amigo espiritual, Antônio sorriu o seu mais feliz sorriso, de quantos cultivara no mundo espiritual. Sua alma pedia mais uma oportunidade! Sua inteligência confiava no plano superior! Sua espiritualidade vislumbrava o Cristo a aguardá-lo de braços abertos! Depois de mais algumas palavras elucidativas, disse-lhe o mentor: — Aí também estão outros tantos adversários do Cristo, naquele tempo. Porque dentre os trabalhadores do Consolador, uns são os mesmos colaboradores de então, sendo outros dos grandes adversários, compenetrados hoje da sublimidade do ideal cristão, e em serviços reparadores. Não há favor nem despotismo em Deus; o que há é justiça e oportunidade para todos que se fizerem disso merecedores. E volvendo à nossa região-moradia, foi Antônio entregue ao círculo de atividades preparatórias do reencarne. Volveria à carne, mais uma vez, em serviços de auto-

redenção. Julgue quem quiser, se fazer o mal é ou não é perder tempo, por desvirtuar o sentido progressivo da própria existência.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.