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Capítulo 3 de 14
Capítulos Da Vida — parte 2 de 5
As Margens Do Mar Morto · Osvaldo Polidoro
— Estou desolada, minha amiga, tudo vai mal. Estão se passando coisas no sítio, que não posso entender. Brigam os que eram mansos, saem os mais velhos empregados. Ninguém mais pode dormir sossegado. Até parece que as almas do outro mundo andam por lá... Há quem diga, o Belarmino, que tem a mania dos espíritos, que são os dois que andam juntos, a fazer estripulias por estarem precisando de esclarecimentos... Que acha você disso tudo? — Eu — confidenciou a interpelada — acho que devemos procurar um meio, um modo, um recurso qualquer para por termo ao que se está passando. Lá em casa também, principalmente no laboratório... — Credo! — exclamou a interlocutora, arregalando os olhos e fitando ansiosa a amiga. — Pois é. Eu não ia contar nada, para não lhe impressionar; mas, como você falou primeiro, vou lhe dizer o que anda acontecendo por lá: meu marido anda mexendo em tudo lá na farmácia... — Virgem Santíssima! — murmurou Rosa — Estou toda arrepiada. — Não é para menos. Escute o que lhe digo. O Gaspar, o nosso velho empregado, já por diversas vezes saiu correndo do laboratório com os olhos fora das órbitas! É horrível!... — Estamos perdidas se isso continua! — gemeu Rosa, empalidecendo. — Com fama de casa mal assombrada, quem mais irá à farmácia?! Se não dermos um jeito, Rosa, ficarei sem ter com que criar os filhos!... E o silêncio desceu por instantes sobre ambas. Entregaram-se por alguns minutos à meditação, até que Maria indagou, súplice: — Por que você não fala com o Belarmino, que é metido em coisas de espíritos, sobre alguma reza que se possa fazer para nos livrar deles?... Mas, Rosa, seria bonito deixá-los entregues ao sofrimento?... Como é desagradável pensar que sofrem, quando, em verdade, foram bons maridos e bons pais!... É certo que Antônio... Mas, deixemos isso... Ante a exposição de Maria, viúva do farmacêutico, Rosa comentou, satisfeita, como quem acha o que de muito vinha procurando: — É isso mesmo que eu vinha pensando! O Belarmino, que eu saiba, é fraco no entendimento dessas coisas: ele bebe, fuma, joga, diz coisas... Apenas, é instruído. Há, porém, aqui, um senhor chamado Furtado, que é homem de bens, embora seja ainda novato em espiritismo. Segundo me disseram, para essas coisas o caráter é mais importante que a leitura. Poderíamos falar com ele. O Belarmino é muito chegado a esse senhor. Além disso ele é meu freguês de leite, verduras, etc. Ao cabo de alguns minutos estava resolvido: Rosa mandaria recado ao Sr. Furtado pedindo para fazer uma sessão na casa de qualquer delas. As duas mulheres procuravam, assim, uma solução favorável para os problemas que as defrontavam. Eu e Antônio, vez que outra, conversávamos sobre o assunto. Embora sabedores da nossa condição de desencarnados, levávamos uma vida triste de encarnados. Que fazer, quando o desgosto de ser incompreendido, de sentir falta de paz, de ansiar por tudo,
torna a vida uma tragédia? Ah! Mil vezes a vida na carne, mil vezes, a uma vida de incerteza, inquietação, sofrimentos morais e angústias intelectuais. Foi quando resolvemos orar, pedir a Deus um socorro. Rezávamos, chorávamos, redobrávamos os pedidos! Tínhamos no espírito o grande pesar de viver parasitariamente, subtraindo aos encarnados um pouco de tudo, e algumas vezes não pouco... até mesmo em coisas inconfessáveis, em atos de premência bem animal!... Ao sabermos, portanto, que nossas esposas iam lidar conosco por meio do espiritismo, exultamos. O contentamento invadira-nos corpo e alma! Corpo, sim, pois é corpo mesmo o que temos. O grau de densidade é que varia e o torna invisível ao homem terreno, mas é corpo para todos os efeitos, para todas as sensações, para todos os gozos e para todos os sofrimentos. Naquele tempo, pouca diferença notávamos entre ele e o corpo anterior, a não ser a sua transparência. Servia-nos quase que só para causar-nos tristeza, chumbar-nos ao solo, para gemer e chorar. O desespero freqüentemente assaltava-nos. Tempo de incertezas! Parecia-nos perceber falanges numerosas de seres na mesma condição que nós, a rondarem os encarnados e a lhes sugarem os elementos com que saciavam a fome e as paixões, e começamos a temer pelo resultado dos trabalhos dos espíritas. Conversamos, desconversamos, apreensivos e desejosos de saber mais, de conhecer algo que nos desse mais segurança, para que aqueles que nos eram caros no mundo não viessem a nos custar maiores zelos, por se porem em contato com duendes das trevas, ou pelo menos romeiros sem sorte da vida! E foi por ouvi-la falar em Belarmino e Furtado, que nos veio a idéia de os sondar. Saímos à procura deles. O primeiro com que topamos foi Belarmino, que conversava na rua com uma senhora de cor preta. Era a primeira vez que o víamos depois de "mortos". Naquele momento foi que tivemos, ou pelo menos tive, pela primeira vez, a agradável e singular impressão do que fosse uma conversação sobre coisas de doutrina dos espíritos. Quando era vivo, tinha tido ocasião de trocar idéias com ele sobre esse assunto; nada de anormal, porém, sentira em mim nem ao redor de mim. Eis que agora, com o desenrolar da conversação, eles vieram a tocar no meu nome. Imediatamente fui atraído para os dois por tremenda força invisível! Parecia-me que ia chocar violentamente em Belarmino, quando, no último instante, outra lei ou força interveio, desviando-me para o lado esquerdo da senhora de cor com quem ele proseava. Ela sentiu-me imediatamente, porque percebi que me dizia, repetidas vezes: — Deus te dê compreensão e paz, irmão! Deus te dê compreensão!... E fazia-o com tal simpatia e sinceridade, que me comoveu. Como ninguém tivesse tocado no nome de Antônio, nada lhe ocorrera, sem ser que, assustado, saíra de perto dos amigos encarnados, com medo de ser arrebatado pelo mesmo furacão. Ficou à espreita, de longe, desconfiado, até mesmo intrigado. Quanto a mim, nada pude fazer que ser forçado a acompanhar aquela senhora! Por mais que quisesse, não podia afastar-me dela! Ela sabia que me conduzia, e me enviava mensagens confortadoras, que eu às vezes compreendia integralmente, e outras, apenas sentia. Contudo, fiquei satisfeito com o acontecido, porque a companhia dela me causava um raro e delicioso estado de paz. Era como se eu tivesse tomado algum sedativo... Seus fluidos faziam-me um bem enorme. Sentia-me curado de corpo e alma! Coisa interessante deu-se ao chegar ela à sua residência. Um senhor do nosso plano, muito alto, rodeado de dois outros de menor estatura, veio a mim, dizendo-me coisas
sobre a conduta que devia manter enquanto estivesse ao lado da médium, até o dia seguinte, quando haveria uma sessão de espiritismo naquela casa. — Os senhores são da família? — perguntei — Folgo em encontrar quem queira conversar um pouco comigo, pois preciso de muitos esclarecimentos. Tenho também um amigo que deve andar aí pelas cercanias... Nós desencarnamos juntos... E enquanto desfiava o meu palavreado, expondo as nossas necessidades e anseios, o homem alto, com extremos de bondade me atalhou: — O seu amigo está ali, olhe, entre aqueles dois servidores desta casa espírita. Ele também está no programa dos trabalhos, por ter o nosso amigo Belarmino falado ao presidente de mesa deste grupo, o Sr. Furtado. Suas esposas estão aguardando a oportunidade de contato convosco. Contudo, pode estar certo, ainda não poderá falar com ela amanhã. Nem o seu companheiro. Antes, sabemos já que terão de trabalhar um pouco pelos outros, por essas levas de espíritos sofredores que vocês devem ter visto ou reconhecido quando perambulavam pelas ruas desta cidade. Precisamos ajudá-los. Quem não se eleva durante a vida terrena, ao morrer fica chumbado à Terra, em tristes condições, e nós temos de ir ajudando, esclarecendo e encaminhando esses infelizes. Fiquei imensamente satisfeito de ver Antônio no mesmo programa de recuperação que eu. Conseguimos sorrir, pela primeira vez, um para o outro, contentes com o rumo que os acontecimentos estavam tomando. Tanta ventura enterneceu-nos e, pensando nos horrores passados, demos graças a Deus do fundo da alma, por haver atendido aos nossos rogos. Foram os primeiros momentos de felicidade espiritual, depois de quase seis meses de angústias, desde o trágico dia em que despencamos pela ribanceira abaixo, mergulhando nas águas revoltas do rio depois de sofrermos choques, quebras de ossos e boléus tremendos. De tudo havendo de chegar a hora, também disso e de nós chegaria. Hoje sei e bendigo que possuímos em nós, por leis fundamentais, o poder de precipitar acontecimentos e fenômenos, bons ou ruins. É por ignorância que vivemos a pedir aos céus precisamente aquilo que pela vontade do céu, digo do Deus interno, temos o poder de realizar. Melhor, portanto, do que pedir sempre e de fora, é esforçarmo-nos e desenterrar os recursos que temos dentro de nós. Em lugar de reclamar terras distantes para lavrar, mais judicioso e necessário é lavrarmos a seara íntima, onde muito há que fazer. Para ter é preciso conquistar e a suprema conquista é de ordem totalmente íntima. NA NOITE SEGUINTE Repleta de acontecimentos interessantes foi a noite que passamos na residência daquela irmã de pele negra. Os guias e trabalhadores auxiliares trataram de múltiplos casos. O que nos foi dado ver naquela noite ficará inesquecível em nossa retentiva. Seres sofrentes vinham haurir, em contato com espíritos bons e no ambiente de paz e saúde, amor e compreensão, o descanso e as noções necessárias para os seus estados. Estropiados eram devolvidos à normalidade física; quebrantados de ânimo voltavam a sorrir; dementes e perturbados recobravam a calma e o equilíbrio. Aquela casinha humilde era uma sucursal do céu na Terra! Mais tarde, estudando compêndios de nossas
bibliotecas, é que entendi ser o céu externo mera decorrência do céu interno. Quem alcança regiões distantes da crosta, e por isso mais felizes, por menos eivadas pelas vibrações grosseiras aqui dominantes, é quem internamente já se elevou e purificou e fez por merecer. Aqueles, portanto, que vinham extrair do ambiente as virtudes de que falei, delas necessitavam por não terem em vida se preocupado com as mesmas. Em vez de amar, tinham odiado e recolhiam ódio; em vez de perdoar, tinham nutrido rancores e encontravam hostilidade; em vez de praticarem a caridade, cultivaram o egoísmo e topavam com a indiferença, e assim por diante. Quem planta espinhos não pode esperar colher flores. Infringindo as leis da Harmonia Universal, tinham por si mesmos se colocado em desequilíbrio e sofrimento. O mais interessante foi que vimos a irmã de cor deixar o corpo em estado de perfeita consciência. Já havíamos presenciado isso, é certo, mas aqueles que víramos, em nossos dias de tortura, saíam e vagavam como sonâmbulos, tal a pobreza de consciência. Como é pobre, ou se torna tal, o ser que só vive para a matéria, para a sensualidade, as vaidades mundanas, o egoísmo mais estreito! Sabe que amanhã, ou depois, terá de deixar o corpo e enfrentar a realidade da sobrevivência. Mas, prefere não pensar nisso e continua a alimentar as paixões que, bem sabe, um dia deverão perdê-la. É como o viciado. Sabe que vai ficar sem dinheiro, que sua família economiza tostões e vive na miséria, sabe que o seu procedimento é indigno, vil, desonroso, mas... alimenta o seu vício! Assim as almas encarnadas... esquecem tudo, sua origem, seus deveres, seus prazeres espirituais, para escravizarem-se aos desejos do corpo e suas paixões grosseiras. É natural que ao desencarnar tenham muito de animal e pouco de humano. A irmã de epiderme escura, todavia, saiu sorridente e feliz do casulo físico. Sua aura branca, alvinitente, contrastava com a cor do seu pigmento. Chamava-se Jasmim, essa bondosa criatura, e o perfume da flor desse nome parecia envolvê-la, conferindo-lhe forte poder de atração. Sua personalidade irradiava bem-estar celestial! Assim dizia um dos guias e eu pude comprovar a exatidão do seu acerto. Foi dela que recebemos, Antônio e eu, as mais carinhosas palavras, repassadas de sincero sentimento de fraternidade, de encorajamento, estímulo, de auxílio de fato. Seu corpo, distendido no leito, denotando cinqüenta e tantos anos, era como fonte de forças sutis, de recônditos poderes da natura! Sob a pressão poderosa de um dos guias, vi que correntes fantásticas de fluido cósmico penetravam nela pela esquerda saindo pela direita com nova coloração; isto é, aquele corpo aparentemente gasto por uma vida trabalhosa, havia atravessado o ciclo inferior e, dominado em seus instintos animais, servia a um pensamento sublimado; cedendo a sua poderosa organização eletromagnética, predispusera-se à causa do bem, até tornar-se filtro e conduto de poderosas leis. Era um laboratório minúsculo mas fortíssimo, a espargir curas e santos chamamentos do Senhor. A capacidade de captação e irradiação daquele ser espiritualizado, havia se colocado por sublimação em um grau superior de funcionamento, e entrava em contato com as vibrações curadoras do Cosmo! A noite seguinte chegara, como chegam todas as coisas que independem da vontade dos homens, com a precisão que torna marcante o que faz parte do imensurável mecanismo do universo. E a casa pobre foi se enchendo de gente, de criaturas de ambos os planos da vida, de todas as latitudes sociais, culturais e hierárquicas. Foi nesse ambiente de mista contextura, de variadas situações de ânimo, que Furtado chegou,
arrastando em pós de si todo um turbilhão de seres em aparente promiscuidade. Aparente, sim, porque ao detalhar as condições de uns e de outros, notava-se que havia entre eles gente do serviço de orientação a dirigi-los. Milhares de pessoas, de irmãos, compunham a assembléia espiritual. O número maior era de carentes de paz e venturas. Eram "sofredores", como diz a gíria doutrinária, de acordo, aliás, com o Evangelho. Em pouco tudo estava organizado. Todos dispostos por zonas. Uns mais próximos, outros mais afastados da mesa. Em redor desta, uma trintena dos melhores elementos de direção formavam como um círculo de guarda e a sua presença respeitável bastava para manter a disciplina e a ordem na heterogênea assembléia. E foi nessa atmosfera de recolhimento espiritual, de contato com o que de mais dadivoso havia no recesso da natureza, que teve início a sessão. Furtado, abrindo o Evangelho ao acaso, leu um pouco sobre a vida de João Batista, explicando aquela afirmativa que faz crer tenha ele sido enviado para o deserto, criança ainda, ou adolescente, lá vivendo de mel e gafanhotos. Mostrou como João Batista pertencia à Seita dos Nazireus, de onde haviam saído todos os grandes vultos de Israel, a contar de Enoch, a sua maior figura da antiguidade patriarcal. Fez entender que aquela seita era de ordem superiormente revelacionista ou cultora do mediunismo, e que a ela se deve a esplêndida floração de médiuns conhecida na Bíblia por profetas. O próprio Divino Mestre parte dessa grande escola de virtudes, a qual freqüentou para receber do mundo aquilo que o mundo deve conferir a todo missionário e que são: os conhecimentos formais, ambientais, históricos, nos quais deverá vazar, em seguida, o que lhe advier como mandato reencarnacionista. Prosseguindo, Furtado chamou a atenção dos presentes para as contínuas referências do Novo Testamento ao nazireismo, o qual não era bem visto pelo clero da época em virtude dos seus postulados: perfeita pureza, castidade, abstenção de bebidas alcoólicas, simplicidade, pobreza, tolerância, etc. Os nazireus usavam cabelos compridos. Comparou o que fizeram os vultos de Israel com o que fazem os médiuns de hoje, quando são bem intencionados e fiéis executores do sagrado mandato. Citou muitas passagens da vida de Jesus que o mostram curando pelo passe, expelindo obsessores espirituais, mantendo colóquio com os espíritos bons, deixando como vestígio da sua passagem pela Terra o exemplo de melhor mediunismo jamais nela praticado. Jesus — disse o diretor — era médium, o mais completo que se possa imaginar, visto possuir todas as faculdades desenvolvidas ao máximo. Jesus tinha, disse, o Espírito expandido sem medida; era médium completo! Não fez milagres, provocou fenômenos através de leis. Lembrou que Jesus mesmo disse: "tudo isso que faço, e mais ainda, podereis fazer" e mais: "Se tivésseis a fé do tamanho de um grão de mostarda, nada vos seria impossível." Frisou que sobre Jesus foram escritas para mais de oitenta obras, no primeiro século, sendo de notar que mais tarde, homens houve, sectários, estreitos, mesquinhos, fanáticos, incapazes de respeitar as verdadeiras exposições dos documentos, que alteraram e falsificaram muito, com o fito de garantir autoridade apenas para as suas afirmativas interesseiras, onde prevalecia o cunho político-financeiro. O Jesus que viveu o Cristo, foi um homem cheio de dons naturais bem despertos. Nós também os possuímos, por natureza, mas em estado embrionário e precisamos despertá-los e desenvolvê-los. Vimos, em seguida, ir saindo o espírito da senhora de cor, para que, por intermédio dela, se comunicasse um dos mais luminosos seres do ambiente. Era um homem de aparência muito jovem, mas que causava forte impressão pelo seu todo psíquico. Seria de todos talvez o mais velho, o mais amadurecido, aquele que mais havia realizado e colhido na árvore da vida, a custa de bem orientadas experiências. O espírito confirmou
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