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Capítulo 2 de 14
Capítulos Da Vida — parte 1 de 5
As Margens Do Mar Morto · Osvaldo Polidoro
O homem vive entre "porquês". O "porquê" da vida, por exemplo, interessa a todos e freqüentemente interrogamos`-nos sobre fatos com que deparamos e que nos deixam perplexos. A Filosofia incumbe, sem dúvida, senão explicar cabalmente esses fatos, ao menos apresentar possíveis explicações, hipóteses racionais, teorias razoáveis, etc. Mas a vida zomba desses esforços e os "por quês?" continuam a desafiar respostas exatas. Nenhuma ciência pôde ainda informar convenientemente o homem. O homem é o que é; mas, disso, conhecimento perfeito não tem. Tudo quanto lhe é dado saber, por ora, tendo por acréscimo o soberbo contingente das revelações espiritistas, não vai até o ponto de poder afirmar estar de posse dos principais e indiscutíveis conhecimentos. Vejamos: que se poderia dizer de justo, de insofismável, ao se ver um homem, jovem ou velho, sábio ou ignorante, são ou doente, rico ou pobre, à margem de um regato, empunhando uma vara de pescar? De onde vem, ao certo, aquela criatura? Que é em si, no rol das coisas e dos seres? Qual o seu grau perante a infinita escala hierárquica das personalidades? Em que ponto da escalada estará fadado a estacar? Existirá um possível termo na senda dos escalões sem fim e sem número, desse turbilhão de turbilhões de mundos e agrupamentos demográficos do infinito? Não obstante, um homem com o seu caniço imóvel à beira de um regato ou de um caudaloso rio, jamais deixaria de ser alguma coisa, de ter a sua história, de aspirar a um fim, de sentir dentro de si um mundo, de ter idéias e atuar no universo infinito que o cerca. Esse homem pouco sabe do conjunto da chamada criação, das origens e dos processos de manifestação da Vida; porém, não deixa de ser partícipe da grande Verdade e parte integrante da Unidade. Quem saberia tudo a respeito do leiteiro Ambrósio, aquele homem de 50 anos que voltava a penates, afoito, chicoteando os animais, correndo o perigo de rolar a ribanceira e cair dentro do formidando rio que deslizava lá embaixo? Que pensava ele, nesse momento, no quadro do quanto já teria pensado, no curso das vidas e das preocupações? O certo é que, animado do desejo de chegar à casa, fustigava os cavalos que, também ansiosos de descanso, puxavam facilmente o galope. O sítio de Ambrósio distava uns 20 quilômetros da cidade, onde residiam os seus fregueses. Que poderíamos dizer, também, sobre o farmacêutico Antônio, residente na cidade e que, tendo ido levar remédios a uma fazenda próxima, apertava o acelerador do seu Fordeco, na esperança de chegar mais cedo ao lar, confiando, como Ambrósio, metade na sorte e metade na sua habilidade, para evitar algum desastre? Quem poderia prever o que lhes sucederia dentro em pouco, mais além, numa curva mais fechada da estrada, ou num ângulo mais agudo do caminho? Como poderiam imaginar aqueles amigos de infância que, minutos depois, teriam de enfrentar o transe mais augusto das suas vidas: a morte? O certo é que os fados, os fados com ou sem fatalismo, haviam tramado o fim de ambos e decretado que os dois amigos causariam a morte, um do outro. Foi por isso que, vindo ambos em sentido contrário, viram-se de improviso frente a frente, em seus respectivos veículos, fazendo cada qual o máximo para diminuir o alcance da tragédia iminente. Tudo quanto conseguiram foi aumentar a intensidade da mesma. Reconhecendo-se mutuamente, Ambrósio e Antônio quiseram dar passagem ao amigo
e, abriram a curva. Com isso apenas conseguiram chocarem-se violentamente e rolarem juntos o abismo. A voragem tragou-os! A estrada era por demais estreita e os veículos desequilibraram-se, tombando aos trambolhões na medonha perambeira. Lá embaixo, no rodopiar sem fim das águas em torvelinhos, uniram-se em triste destino os destroços das viaturas e dos seus condutores. Algumas pedras, deslocadas dos seus lugares, juntaram-se aos sinistrados, em seu destino. Dois homens, uma carroça, um automóvel e dois eqüinos poucos sinais deram de si, por alguns minutos. Depois, o cenário voltou à calma habitual. A rotina tomou conta do assunto. A natureza amorfa assiste indiferente à morte do homem e do inseto. Nada foi considerado no seu caderno, com relação às vítimas, aos seus descendentes e aos seus problemas. Tudo é e tudo passa. É a lei do mundo em que vivemos. Aparentemente, Deus não se interessa com o que sucede no mundo. Há milhões de anos os lobos devoram os cordeiros e ambos são tratados com igual desvelo pela Providência. Estava reservado ao Espiritismo explicar como opera a Justiça Divina. As compensações são maravilhosas e longe estamos de poder compreender os processos todos de se operar a reparação. Consignemos apenas que o aperfeiçoamento das espécies exige o sacrifício dos indivíduos menos aptos, segundo a Lei da seleção natural. A luta pela vida e pela sua conservação traz sofrimentos, mas estes também são aproveitados, para o aperfeiçoamento do espírito. Destarte, por impiedosa, a Natureza ajuda a evolução das formas corpóreas e incorpóreas. As injustiças? Oportunamente serão sanadas. No dia seguinte, ao local do acidente compareceram autoridades e povo. Sulcos no chão haviam sido deixados pelas rodas e patas de animal. O chapéu de um deles estava, como testemunha muda de uma falante tragédia. Era, disse dona Maria, o do seu falecido marido, o farmacêutico Antônio. Ambrósio nenhum pormenor de si deixara, a não ser o rastro forte das rodas de ferro da sua carroça. O burburinho na cidadinha foi de pasmar! Comentaristas os mais fantasiosos surgiram, de improviso. Jornalistas exagerados puseram-se em função. A imprensazinha falada e escrita do local não imaginava que os dois amigos, invisivelmente, fizessem comentário de tantos supostos motivos. Mas, tudo foi, como sempre se deu e se dará, tomando rumo às planuras da normalidade. O inquérito aberto pela polícia concluiu pela prova do acidente e com o seu encerramento fechava-se o livro da vida terrena de Ambrósio e Antônio. Dentro em pouco seus nomes eram citados sem entusiasmos nem pieguismos espontâneos ou afetados. Outros acontecimentos, outros desastres, desses que proliferam aos milhares, todos os dias em toda a parte, ocupariam a atenção dos vivos. Tudo é, tudo passa. O Sol não pára. Os mundos descrevem pelo éter a apoteose do Cosmo. E os espíritos vivem, vivem sempre, para o todo e para si mesmos, como partes integrantes do mesmo Cosmo. Vida é movimento, e os mundos, os seres, as leis e os destinos são outros tantos acidentes no desdobrar da sua manifestação. Acidentes, passageiros uns, outros eternos, tudo segue um rumo e obedece a um destino. Básica apenas é a VIDA, em sua singeleza indiscernível. Por isso, tudo é e tudo passa sob condições. Mas do SUPREMO ESTADO, que é fundamento íntimo de tudo e todos, quem poderá dizer algo de positivo? Os seres e as coisas são partículas do TODO a caminhar com rumo, na vastidão insondável do próprio TODO. As leis e os destinos são, não duvidemos, razões fundamentais inerentes ao fato de existirmos. A possibilidade, que todos têm, de se divinizar, por sublimação, prova que emanamos de Deus e n’Ele vivemos. Fundamentalmente, porém, só Deus É. Porque nós somos o que ELE quer que sejamos.
No seio do ABSOLUTO, nosso livre arbítrio também é determinismo. Existimos, temos valores inatos. Desenvolvemos tais valores e usamo-los, mas no círculo que o Supremo nos traça. Nenhuma ação humana exorbita do que leis lhe facultam; e o homem não faz leis! O homem é uma lei do TODO e age como pode dentro do seu quadro, que vai até poder influir nos acontecimentos e nas ações de outros homens. NO RAMERRÃO DA VIDA Desde quando os seres desencarnados vivem ao redor dos encarnados? Quem poderá dizê-lo? Sabe-se apenas que o ESPÍRITO BÁSICO semeou de casas o infinito de si mesmo e com isso, pulverizou de almas o universo, Sua manifestação mais exterior. Desde esse sempre, almas vivem e ligam-se entre si, visível e invisivelmente. Tudo, porém, segundo leis. Até onde chegam as interinfluências é o que ninguém sabe. Sabemos que tudo paira em campo vibratório, variando todavia até ao infinito as freqüências, os fatores sintonizantes, para efeito de atração e repulsão. Bem considerado, o homem é um ser que se enquadra simplesmente nos valores vibratórios, fora dos quais nada há. O ser, o poder, o agir, tudo não vai além de vibrar, de pertencer ao plano fundamental da manifestação, onde as leis de sintonia imprimem diretrizes e determinam acontecimentos. Um bom conhecimento dessa verdade seria, para o homem, resolver o "conhece-te a ti mesmo". Despojados dos seus corpos densos, nem por isso Ambrósio e Antônio deixavam de viver e participar da vida do plano que deixaram. Mais do que imaginavam, seus defeitos e qualidades eram conhecidos dos outros. Palmilhando juntos as ruas da cidadela, ouviam as conversas de terceiros, em que comentários eram feitos, a meia-voz, em torno do procedimento de ambos os ex-vivos, um pondo água no leite e o outro introduzindo alterações nos receituários, no que havia muito de veracidade. Tomaram parte nas missas rezadas em seu favor e contemplavam desolados o choro das viúvas, dos órfãos e demais parentes. Ao cabo de algum tempo a situação tornou-se intolerável para os dois pobres desencarnados. Viam-se perfeitamente um ao outro, falavam, escutavam como sempre; no entanto, a não ser o seu companheiro, ninguém mais lhes prestava atenção. Sem saber mais o que fazer, nem a quem se dirigir, lembraram-se de Deus. Debulhados em lágrimas de sincera compunção, puseram-se a orar, rogando aos céus recursos para sair daquele estado. * * * Sou Ambrósio, um dos personagens do relato, e quem relata. Falarei doravante na primeira pessoa. O auxílio não se fez esperar, porque a Misericórdia Divina aguarda tão somente que o homem se arrependa, para intervir em seu favor. Com os olhos ainda enevoados de pranto, vimos formar-se ao nosso lado a figura simpática de um homem dos seus quarenta anos, que nos sorria. Sentimos que fôramos atendidos, embora não estivéssemos na presença de um anjo, mas sim de um homem comum. Explicou-nos ele que a nossa situação não era das piores, em vista de possuirmos regular acervo de merecimentos, decorrente de boas ações praticadas em vida. Viemos a saber, mais
tarde, que vínhamos de muito longe na esteira dos séculos e das obrigações. Diferentes graus de parentesco nos haviam unido, em várias encarnações na Terra, assim como estávamos ligados por atos bons e maus praticados em comum, por entre os dédalos da afeição mais profunda e dos erros mais fortes. Mais uma vez a profundidade mecânica da justiça Superior nos colocara frente a frente, para solvência de novas equações dentro do problema intérmino da vida! Aparentemente, tudo comum, tudo corriqueiro, no movimento contínuo dos seres e das coisas. Falando com franqueza, não sei suportar as idéias de caráter místico, misterioso e milagreiro, dos cultos religiosos terrenos. Para que tornar confuso e difícil o que é simples e claro? Se tudo é tão normal! Se tudo é tão lógico! Pois que leis sábias e sereníssimas a tudo presidem, sem favoritismo nem perseguição! Porque então essa quantidade tremenda de bajulação e servilismo, pieguice e hipocrisia com que se besuntam os religiosismos, para adorar a Deus? Sempre entendi que faltava lógica aos cultos, porque, embora atribuindo a Deus todas as perfeições, pretendem suborná-lo e enganá-lo com cerimônias de falsa reverência. Coerência, eis o que falta à maior parte das religiões. Sendo o homem uma lei, derivante da Suprema Lei, e sabendo que todo e qualquer fenômeno obedece a leis, qual a razão de recorrer a atos e palavrórios que, por exteriores, não podem influir nos acontecimentos e não passam de repulsiva superstição? Haverá coisa mais nobilitante, ação mais respeitável, meio evolutível mais eficaz, que conhecer as leis divinas e pô-las em função? De que ornamento mais belo pode ataviar-se o homem, que não seja conhecer e desenvolver os soberanos valores internos de que é dotado por Deus? Herdeiro de faculdades divinas, pode o homem divinizar-se, da mesma forma que a semente pode tornar-se a árvore frondosa, se for cultivada. Substituindo a prática das virtudes pela das cerimônias, onde se colocam os credos? A serviço da evolução? Por certo que não. Por isso, está escrito: "Caridade quero e não homenagens". Deus quer que o homem seja bom e na bondade está a melhor homenagem a Deus. Indulgências e absolvições só servem para fazer olvidar sacrossantos deveres e urgentes necessidades de aprimoramento. Aparentar conhecimentos misteriosos e exclusivos, eis o que sempre me pareceu exploração das seitas. A Terra, porém, no que diz respeito ao montante da capacidade intelectual do homem, medra em seara opaca. Falta lucidez. E falta porque o homem tem procurado fora o que tem dentro, pede a outros o que já possui por natureza divinal. Seus poderes latentes não se desenvolvem por se ter brutalizado, de corpo e alma. De corpo, em virtude da ânsia pelos prazeres terrenos, e de alma, em virtude das religiões idólatras, parcas em verdades. Religiões que criaram no homem o nefando vício de olhar demais para fora e de menos para dentro. Não fora isso, e tivessem sempre lembrado ao homem a sua origem e destinação divina, e já teria ele, por certo, procurado desenvolver as suas qualidades superiores. E ao profligar tal conduta por parte dos ritualismos sectaristas, que no mundo se dizem religiões, nada mais faço que protestar contra um amontoado de erros crassos, comprados a bom preço pelos incautos e por eles guardados com zelo no seu arcabouço mental. Mais tarde, vêem eles o conto em que caíram e pranteiam o tempo perdido e a oportunidade desbaratada. É o que sucede a quem procura acender uma vela a Deus e outra ao diabo. Em vez de adaptar-se à vontade de Deus, o homem adapta Deus à sua
vontade e aos seus interesses materiais. É cômodo para o corpo, mas funesto para o espírito. Pus água no leite, do mesmo modo que Antônio, o comparsa de querelas de tantos séculos, e irmão bondoso de dias que longe vão, pôs alterações nas receitas médicas, a bem de pessoais e inconfessáveis interesses. Mas, direis, não nos bradava a consciência em defesa dos santos princípios do bem? Sim, mas a tradição ritualista dizia, também, bem alto nos ouvidos da crença cega, que as confissões seguidas de comunhões a todo pecado desfariam. E, demais, quem não julga que uns tantos atos menos dignos sejam, tão somente, recursos do ganha-pão e não pecados seriamente computados? Raros são os que não se aproveitam de um engano que os favorece. É muito fácil dizer hoje, graças às luzes derramadas sobre a humanidade pelo Consolador (o espiritismo cristão), que todo acerto, como todo erro são realizações internas, onde por natureza e para vantagem ou desvantagem do ser, provocam situações de paz ou tormento. É pouco o pedir-se hoje a alguém que medite no alcance interno das ações aparentemente externas. O homem experimentado nas coisas transcendentes sabe sentir, mais do que simplesmente pensar, ser seu estado, ou condição de ânimo, produto de sua atuação em obras, antes que efeito de sacramentos e títulos pagos a bom preço, ou donativos feitos em tom meloso... Outra, porém, é a escola que se cursa no mundo! E foi nela que me formei... Por isso mesmo aqui me acho como testemunha de fatos acontecidos, que a todos interessam, pois a todos são comuns o programa evolutivo e os santos destinos. Toda lei é de caráter universal. Ninguém é especial, nem freqüenta escola à parte, neste mundo. A todos incumbe desenvolver as qualidades morais e intelectuais que hão de um dia, torná-lo autor do seu próprio destino. Tire pois o homem de dentro de si tudo quanto possa e queira para engrandecer-se, de vez que há de angelizar-se por seu trabalho e esforço e não pelo de terceiros. Quando o ensinamento recebido for bom, ser-lhe-á proveitoso, mas não deixará de ser inferior ao proveito gerado da ação espontânea. Lanternas exteriores, singelas ou fantasiosas, policolores ou não, jamais poderiam iluminar o templo de fato que é o da Individualidade. Quem desejar luz, acenda-a por si mesmo no seu mundo interior. PROCURANDO UM RUMO Tenho por certo que eu e Antônio durante muitos dias molestamos as nossas respectivas famílias, não sendo igualmente inverdade que tangemos mal a alguns dos nossos melhores amigos, causando-lhes mal-estar, tudo na ânsia de conseguir melhora. Foi só depois de passar pelo cadinho de aprendizados muitos, que viemos a ter conhecimento da extensa série de leis que estão ao dispor do homem, na carne ou fora dela, para efeito de influenciações, benéficas ou maléficas, espontâneas ou exercidas de propósito. Nós dois, porém, fa-lo-íamos por incompreensão. Nada sabíamos dessas coisas. E foi por isso que um dia, quando Rosa e Maria, as duas viúvas, se encontraram, uma disse à outra com ares tristes e pensamentos descrentes:
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