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Capítulo 10 de 14

Dédalos Históricos — parte 3 de 3

As Margens do Mar Morto · Osvaldo Polidoro

Como se fazia sublime esse homem, quando falava ungido de amor, de esperança e fé, com relação a um irmão que lutava por soerguer-se! O seu todo, embora o esforço em contrário, refulgia em luzes de cambiantes colorações, que dele pareciam partir, em demanda a outras paragens do infinito! Quem sabe, amigo, focalizado por ondas mentais tão excelsas, que manifestações não estaria a sentir Ambrósio, achasse onde se achasse? Já sei que, muitas vezes, quando sentimos a presença de Deus mais intimamente, outra coisa não está ocorrendo a não ser que um Seu filho, mais avançado, com o seu pensar e sentir divinizados, esteja a nos tocar com o cinzel do amor! Felizes daqueles que fazem por merecer amor! Muito mais felizes, porém, são aqueles que já sabem amar muito! E Teóclito terminou, num adorável convite: — Sentirei muito prazer em apresentá-lo a Ambrósio. Uma parte me cabe em tudo quanto vocês andaram fazendo... Conheço-os de muitos dias... Acompanho seus passos há muitos séculos... Estive ao seu lado nos dias torturantes e nos momentos de alegria e recolhimento...

Vi-os, muitas vezes, cair e levantar, levantar e cair, tornar a levantar e prosseguir na jornada... Contei suas blasfêmias e decorei seus agradecimentos... Quer, pois, ter contato com Ambrósio? Ninguém mais do que eu gozará esse momento de felicidade celestial, ao ver que dois irmãos carnais de outros tempos, novamente se apertam entre os braços, depois de uma separação de séculos!... De quase vinte séculos! Nossos olhos estavam marejantes; bem no fundo do meu ser, alçado nas sublimidades de pensamentos tão evocadores, parecia-me ver deslizar personagens pelas estradas poeirentas do mundo, seguindo caminhos variantes, a perder de vista na esteira dos tempos... Pareceu-me um autodespertar, tudo aquilo! Teóclito, imóvel à minha frente, fitava-me com firmeza com seus olhos meigos; suas faces eram banhadas continuamente por cristalinos filetes. Nesse momento uma nuvem doirada apareceu diante de mim, foi tomando forma e uma glória inexprimível fez-se presente!... Nem sei como lhes relatar tão grandioso acontecimento: haverá um modo de exprimi-lo? Não posso assegurar que sim; só sei é que parecia desfazer-me em pranto feliz!

O céu interior, mais intenso, afigurava desabrochar em mim, e o infinito, como vindo todo ele em procissão de mundos e belezas, a dar-me parabéns, pela prenda de Deus recebida! Sentia, então, dentro de mim, a infusão divinal: eu, o espaço e o tempo, identificávamonos integralmente!... Passado o momento emocional, foi o Mestre o primeiro a falar; sua voz era como uma melodia vinda dos confins da eternidade e das distâncias siderais; sua personalidade como que se desfazia em luzes e amores indiscerníveis; seu aspecto moral impressionava como se fora a Lei de Deus personificada!... Tudo nele era superiormente maravilhoso e tive a impressão de elevar-me aos píncaros de celestiais moradas!... Logo tudo se modificara. Estava como que na Terra. Tudo havia se transformado; o cenário era uma realidade já vivida — uma paisagem de mim bem conhecida. Eu tudo sabia, tudo sentia, tudo via, embora não estivesse sonhando e soubesse estar sendo obrigado a tais cometimentos; gozava o prazer espiritual de tamanha realidade a revelarse. Eu era juiz, expectador e réu, a um só tempo, ante aquele perpassar de panoramas, tempos, personalidades, fatos vividos! Que maravilhoso modo de rever todo um passado de erros e reconquistas!... Em seguida, de novo volveu o Mestre; mas lá ao longe,

incrustado no zimbório celeste, a ombrear-se com os astros da mais bela noite deste mundo e de toda minha história de habitante do infinito! Teóclito sorria, não sei se com os lábios ou com o espírito alcandorado. Percebi que olhava para o alto, para as regiões mais extratefeitas, para as zonas interestelares, enfim, para as regiões mais puras, por serem mais afastadas das grosserias da crosta; sua boca balbuciava uma prece que eu não ouvia, e por isso não a compreendia, mas que minha alma experimentava, ufana e rendendo graças. Não sei qual a causa ou influência, mas Teóclito brilhava como se fora um Sol espiritual! Aos poucos, volvendo a si, fez o que era do seu conhecimento e poder, restringindo-se. Quando me igualou, disse com simplicidade: — Recebemos a visita do mais amigo dos amigos. Há qualquer coisa de significativo em toda a manifestação do Mestre. Pense bem e estude a seus próprios sentimentos, pois não duvido de que algo esteja por acontecer. Deve ser uma oportunidade, seja no sentido que for.

A todos que muito erraram contra Ele, jamais deixou de manifestar-se em tempo, demonstrando ser perdoador pessoal e Mestre geral. Jesus nos acompanha, sempre e amorosamente; consolados seriam os homens das baixas regiões e da crosta se se lembrassem dessa circunstância! Afastam seus pensares, afastam seus sentires e alegam não serem visitados... Quando lhes falam os espíritos de Deus e lhes brada a consciência, atribuem o fato à mecânica dos fenômenos de ordem psicológica rampeira... Não concebem que em tudo aquilo que tange a razão e o sentimento, esteja o zelo de um Sentido Superior, a bênção de uma ocasião de estudo, a oferta orientadora de uma Autoridade Amiga; afinal, Licínio, por todos Jesus espera e poucos esperam a Jesus. Meditava na frase, quando ele disse, com ares de quem não olvida uma obrigação: — Vamos até a região onde habita Ambrósio. Tenho pressa em me desfazer de um compromisso. A companhia de alguém bem superior, em certos casos, significa não precisarmos ter vontade...

Todavia, saltamos para uma cidade e região bem diferentes, inferiores em tudo um pouco, mas lugar de paz, trabalho e progresso. Nossos corpos — digamos assim — por nossa vontade de identificação, ficaram mais pesados, mais animalizados e menos universais. Admirava como a densidade do corpo tangia o espírito a sentir menos, a vibrar frouxamente. Afinal, manifestava-se a lei de relação entre o ser e o meio ambiente. Não é só por encarnar que um espírito se vê constrangido a embotamento, forçado à lei restritora; descer na escala das hierarquias astrais também é submeter-se à mesma lei. Digo mais: havendo necessidade ou vontade, esta em certos casos, fica-se acima dessa lei. Tudo, portanto, mera questão de poder, querer e precisar. O que para baixo limita faculdades, para cima chega a constranger. Muito para baixo, procurando igualar condições, sente-se amargura por inferioridade, por dor, por perigos e riscos; para cima, então, forçamo-nos por superioridade — torna-se insuportável. A felicidade é sempre composta, constituindo-se no produto de uma aliança de fatores. O céu interior, pelo menos, deve estar em boas condições de sintonia com o céu de fora.

Quando um espírito dá preferência a um plano inferior, por querer auxiliar a alguém inferior, ou servir de um modo geral, compensa-se com a satisfação moral daí decorrente. Há, portanto, sempre uma recompensa para aqueles que se fazem merecedores. Fomos andando pelas ruas da bela cidade, em busca de Ambrósio. Minha alma exultava! Parecia-me andar à cata de séculos de vida e história. Quando chegamos frente a bela moradia, falou Teóclito, acompanhando as palavras com suave gesto de cabeça:

— Aqui está ele escrevendo aquilo que depois transmite. Vamos aborrecê-lo um momento. A seguir, como nos convém e ao serviço, tratemos de deixá-lo em paz. Os trabalhos que está prestando são por demais superiores em valor coletivo; merecem todo o nosso respeito. Fiquei triste, muito triste! Pensava ter o amigo, o irmão de outros dias e o companheiro de tantas ações corretas e outras tantas erradas, por horas a fio ao meu dispor; todavia, como acabara de saber que a filosofia é de uso vantajoso em todos os momentos da vida, pus-me a pensar na justeza do alvitre. Faça o servo aquilo que seja bom ao Senhor, porque em seu benefício redundará.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.