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Capítulo 8 de 14

Dédalos Históricos — parte 1 de 3

As Margens Do Mar Morto · Osvaldo Polidoro

Nenhum homem, por não saber no presente nem quando venha a possuir conhecimento exato, poderá fazer afirmativa qualquer com relação às leis a que se acha jungido. É o ser um centro convergente e divergente, um mundo espiritualmente capaz de captar e transmitir, nem ele sabe o que, de forças e poderes. Está, por natureza, devido a valores ingênitos, capacitado a manter relações com o todo interior, com o infinito exterior, e por isso mesmo, predisposto ao íntimo arrolamento dos feitos. Não sabe e não pode ainda, com certeza, equilibrar-se de maneira elegante na justaposta realidade integral, relativamente à origem e ao fim; mas, é um centro do infinito e possui em si as leis de relação, que lhe facilitam agir, reagir, captar, elaborar, transmitir, autogravar, etc. Onde está postado o homem? Falhas são as concepções humanas sobre espaço e tempo, isto é, pouco pode o homem quando quer saber de si, de si alheando-se. O ideal é, portanto, partir de dentro para fora, começar da célula-mater. É difícil? Não, pois as leis de reação nos levam às melhores concepções. Diz o latim que quem pensa é. De fato, ser, pensar, sentir, agir, reagir, captar, elaborar, transmitir, etc., são leis poderosas demais para serem negadas ou renegadas por simples, possíveis e deselegantes meneios negativistas. A sofística da negação é frágil por demais ante a catadupa de maravilhas realísticas! Para pensar-se é preciso ser-se, e quem é, certamente, parte e relação do infinito e para o infinito, muito é! Bem se faz, pois, em estudar-se o homem. Aquele que de si parte em autodesbravamentos, grandes conquistas labora na vastidão do universo! Como partícula infinitesimal, mas inteligentizada e consciente de um bom passado histórico-evolutivo, passei a ser abalado por fortes repuxos intelecto-morais, acontecimento que muito me fez meditar, forçando-me, por fim, à consulta de mentores mais esclarecidos, meus técnicos e outros tantos especialistas no assunto. Assim como os ventos assolam os campos, os bosques, as cidades e as nuvens, ora devastando, ora renovando, ou de qualquer modo forçando renovos, assim foi, deu-se comigo, tangendome a um acabrunhamento, a algumas introspecções. Era como se forças tremendas do Cosmo, poderosamente íntimas, me tivessem apanhado por capricho de seus irrecorríveis segredos. Vi-me, cidadão pacato de uma cidade astral, incrustada esta, por sua vez, no mecanismo infinito do Cosmo, presa de cruéis cataclismos internos! Como podia ser? Por que isso, sem prévio aviso de autoridades superiores? Afinal, como para tudo há explicação, apressei-me à inquirição necessária. Busquei chefes e, por estes, com muito carinho, fui mandado aos técnicos do assunto. EXPLICAÇÃO NECESSÁRIA Sacudido por esquisito vendaval interno, fiz todo o trajeto entre uns e outros, até chegar ao local e pessoa indicada a fazer o possível, e que no caso era o suficiente. Teóclito foi o homem do momento, o técnico, o instrumento por onde Deus me facilitou entrar num saber que, por sua vez, valeu como medida de salvação. Quando digo técnico,

não quero entendam a quem tenha feito um curso de competência, mas de ordem formal, como se dá no mundo das configurações; é para o lado fundamental que desejo pensem; esta técnica seria impossível pelo processo de absorção formal de um conhecimento. Para o exercício em causa, seriam precisos os valores dimensionais superiores, a capacidade de penetração, o avanço rumo a outras medidas de extensão de leis. E Teóclito argüiu-me bondosamente, havendo-lhe eu feito a seguinte explicação, que me pareceu acertada: — De dias a esta parte, caro senhor, sem perceber nada no meu mundo exterior e nada fazer para a modificação no interior, sinto-me presa e vítima de uns arrebatamentos insuportáveis! Estivesse lá pelas raias da vida mais animal, por superstição ou qualquer coisa, diria estar sendo rondado pela morte, ou visitado por presságio menos feliz. É como se tivesse dentro de mim um vulcão tétrico, um formidando revolver de angustiosos e inexplicáveis acontecimentos. Sinto vontade de correr, de afrontar e buscar tudo, contanto que venha a ter uma explicação do que acontece, do porquê que o motiva. E é por isso que venho de percorrer uma senda que me trouxe a incomodá-lo. E o bom Teóclito, sorrindo, teceu estas considerações: — Bem sabe que nunca nos julgamos incomodados ao ter que servir. É lei, ou de lei, que as partes entre si tenham de auxiliar-se, para que a Vontade Suprema seja servida. Quem não auxilia ao menor, ou àquele que assim julgue, não serve ao Máximo Espírito, à Essência Total, base de tudo, que é Deus. No seu caso, também e por acréscimo, conto com o pedido de muitos amigos, de muitos irmãos junto a quem tenha elevados débitos a saldar, compromissos d'alma. Farei o pouco que me pede e com o desvelo que me seja possível. Apanhou-me pelo braço e conduziu-me a um belo salão, de cuja janela se divisava uma paisagem lindíssima. Fechou as janelas, fazendo questão de escurecer o mais possível o ambiente. Depois, falou-me sobre o mundo das forças sutis que nos regem. Disse-me que todos estamos a caminho de leis sublimes, marchando lenta e seguramente, as quais estão em nós e as ignoramos. Que nem por isso deixamos de ser por elas tangidos, quer para efeito de relações em geral, quer para efeito de influenciar e ser influenciado. Falou do espírito superiorizado, como sendo aquele já de posse do conhecimento dessas leis e capaz, ainda, de manejá-las à vontade. Disse de mil coisas do mundo sublime que antevemos intimamente, que está em nós por natureza, por sermos emanação divina. Depois, com palavras simples, convidou-me a pensar firmemente nos acontecimentos que vinha de me julgar vítima, esclarecendo que, pelas ondas mentais por mim emitidas, iria ter conhecimento com a causa. Pus-me, mentalmente, a serviço do amigo. Nesse momento, como em fenômeno de bi-locação, via dois homens, um ao lado do outro, sendo um desencarnado e outro encarnado, estando o desencarnado a transmitir seu pensamento ao outro, o qual, por estranho mecanismo, o passava ao papel. Notei estarem os dois plenamente conscientes e rodeados de outros agentes do mundo astral; estes mui seriamente encaravam o serviço em curso. Tomei a postura severa de todos, tendo ficado por longo tempo sob o domínio daquele absorvente acontecimento. Logo após, ouvi alguém chamar-me pelo nome: — Licínio! Licínio!...

Ao dar por mim de novo, era Teóclito quem me chamava insistentemente. Fiquei, por momentos, como aturdido. Em seguida, uma grande tristeza invadiu-me a alma; era tão bom tomar parte naquele conclave, onde um homem morto falava aos vivos por meio de um cérebro para tanto disposto! Acima de tudo, a santidade do acontecimento; e esta fora revelada pelos elementos componentes da reunião. — Era isso! — disse Teóclito muito satisfeito. — Mas isso o quê? — perguntei, pois de nada me inteirava em vendo aquilo ou tomando parte, mesmo por pouco, em tão augusta assembléia. E Teóclito esclareceu: — Aquele homem, deste plano, que falava pelo encarnado em linguagem escrita, está relatando um feito que em muito lhe toca também. É uma narrativa biográfica e histórica — uma confissão. Como em tudo aquilo você tem parte e responsabilidade, eis que poderosos contingentes de forças sutis punham-no em contato com o feito, embora inconscientemente. Agora, sabedor do que está ocorrendo, procure enviar apoio ao homem relator, quer para auxiliá-lo, quer para colocar-se em terreno positivo, isto é, dominando leis, para o serviço ser feito, também, com o seu concurso. Isto trar-lhe-á vantagens várias, vindo, ao que fiquei sabendo, a relatar a parte que lhe cabe como partícipe que foi do grande acontecimento. Eu estava maravilhado! Iria ter que falar? Na Terra? Cercado de tanta gente nobre destes planos da vida? Mas — que iria falar?... Inquiri a Teóclito; ele me olhava de alto a baixo como quem descobre novidade num alguém sem outra significação que não seja ser vivente e desejoso de progressos. Depois de breve pausa, respondeu: — Hoje aconteceu, sem dúvida, algo interessante para mim e para você que é um daqueles que tomaram parte na crucificação do Divino Mestre, de modo mais ou menos saliente e significativo. Isso vai nos dar grandes oportunidades para belos estudos e felizes empreendimentos. Teremos muito a rever com o nosso trabalho. Essas informações bastaram para me por a alma em angústia. Eu o matador do Cristo?... Como poderia viver, até aquele instante, na santa paz de Deus? É bem verdade que em matéria de encarnações passadas, de personalidades vividas, não recordava tal tempo. Quando muito, conhecia apenas uma vida em que havia sido surdo-mudo; além dessa etapa, tudo ignorância! Tudo mutismo! Tudo treva! — Não deve se deixar sobressaltar por isso. Afinal, como viu, o homem que tangia ao encarnado também é um dos culpados. Ninguém tem o direito de pensar temerariamente com relação a um erro qualquer, cometido pelo seu irmão de origem e jornada. Lastimar o erro e procurar saná-lo, eis o dever de todos. Tudo o mais provém da inferioridade. Quem se coloca na condição de juiz e situa-se como argüidor enérgico, pode bem estar a preparar-se maus bocados; ao que lhe convido, amigo Licínio, é estudar a questão a fim do seu testemunho constituir boa instrução aos irmãos de aquém e além carne. O dever é sempre no sentido de mais para o alto e mais para a frente. Como ele fosse abrindo as janelas e saindo em seguida, acompanhei-o. Descemos para os jardins da residência, havendo-nos sentado debaixo de frondosa árvore. Em frente estava localizado um grande lago. Os peixes saltavam, espadanavam, pondo à vista suas colorações nos saltos dados. Tudo ali era e é belo, sem ser um plano muito superior. Respira-se paz por tais paragens e já é o bastante.

Quando me despedi de Teóclito, estava comprometido. Ele, por sua vez, falaria aos chefes para conseguir-me mais tempo, a ser aproveitado nos serviços de que vinha de se tornar sabedor. Deixei-o nos jardins e fui para minha casa, situada bem mais no centro da grande cidade. Ao chegar ao lar, fui para o quarto sem pronunciar qualquer palavra a quem quer que seja. Queria orar, pôr-me em contato com Deus, bem lá nas profundezas de mim mesmo, depois de mergulhar o mais possível nos domínios de minha consciência. A seguir, dormi umas horas. Quando acordei e fui para a sala, minha irmã Darci contou-me o que eu havia falado durante o sono. Embora possa parecer aos encarnados um pouco estranho nós possuirmos um corpo para tais fenômenos, essa é a verdade: temo-lo. Esta vida é prolongamento dessa, em tons os mais variantes, isto é, variando as intensidades fenomênicas ao infinito. Aqui há de tudo e mais aquilo que aí não se pensa ainda! Quem quiser certificar-se, espere um pouco. Mas, muita prudência! Para que lhe não toque, por seu turno, ficar a par somente dos planos abismais, onde a Terra pareceria, em confronto, lindíssimo paraíso! DE NOVO COM TEÓCLITO Qualquer coisa de superior devia estar se passando, julgava eu, então, para explicar a facilidade com que me colocavam ante acontecimentos interessantes. Fiquei ao dispor de Teóclito desde o dia seguinte àquele em que pela vez primeira estivera em sua residência. Passei a tomar parte em reuniões, cujos membros falavam de serviços junto aos encarnados, acentuando no falar, no sentir, e fazendo respeitar, ser o mister uma como missão de bem alto determinada. A prosa era boa, os novos amigos muito atenciosos, a causa elevadamente santa! Tudo era matizado com pureza, tudo era respeitável! Falavam de coisas desconhecidas para mim, pondo em evidência sempre, a significação do próprio Evangelho! Fazendo amizade, fui penetrando nas questões. Eram trabalhadores do Consolador restaurado, daquela igreja do Cristo de fato consolidada sobre a Revelação, no dia de Pentecoste, com o chamado batismo de Espírito Santo. Ganhei um livrinho intitulado: "O ALICERCE DO CRISTIANISMO" e nele aprendi tudo quanto de melhor poderia saber quem bem lesse e melhor entendesse, no mundo, todos os textos sobre o derrame do Espírito, tal como vêm de ser expostos, a começar do Velho Testamento. Estão expostos os textos descritivos de um derrame de dons sobre a carne, e o autor explica o espírito do texto, separando o despertar dos dons e, por estes, a possibilidade de relações interplanos. Não confunde entre os dons e os espíritos comunicantes, como é comum entender-se pela leitura de textos, visto cada autor sacro ter entendido e contado à sua maneira. Pelos textos explicados, Jesus veio a ser o derramador do Espírito, o Homem- Símbolo que abriria à humanidade uma nova era, onde a Revelação, tornada de conhecimento público, faria um serviço de informante progressiva. Fiquei ciente da missão do Precursor, que era anunciar a chegada do batizador em Espírito, daquele derramador de dons e revelações, tão aguardado. Soube ter tudo seguido uma trilha pura e francamente integrada nas disposições do Supremo Senhor. O Cristo sucedeu ao Precursor na hora exata, começando a evidenciar os poderes dos dons

despertos. A seqüência de feitos, diz o livrinho, é atestado da prova que o Mestre oferecia, dos valores efetivamente representativos dos dotes internos. Tudo queria dizer: DESPERTAI-VOS! Depois do Cristo ter feito uso dos dons despertos, reclamando para eles toda a atenção — pois sem esse despertar ninguém se tornará superior — fez notório o fato de haver, para depois da crucificação, um acontecimento que seria o qualificado de batismo. Os Apóstolos aguardavam o batismo! Esperavam um acontecimento, para eles de Revelação superior, testemunhante da volta do Cristo em Espírito — aquele que era, de há muito (desde os Profetas) aguardado como o fenômeno testemunhador do próprio Cristo. O livrinho especificava bem ser desse dia em diante vigente a igreja do Cristo, sem donos e sem formalismos, mas à base pura de AMOR e REVELAÇÃO. Desse acontecimento em diante, é que os Apóstolos saíram apregoando, ter-se de fato dado o batismo de Espírito, o testemunho de Jesus ter sido o Cristo. E como os textos estão todos na Bíblia dos homens, quem quiser estudar é só lê-la na parte referente ao batismo de Espírito, a contar da promessa, isto é, do que se lê no Velho Testamento. Informa o livrinho que predicara muito o Mestre em torno da corrupção que os homens lavrariam na igreja; que um dia haveria restauração, citando mesmo o nome do agente por meio de quem esta se daria. Faz citações em torno das questões corrompistas, colocando Roma como centro corruptor, por banir a Revelação, o culto puro e simples, e estabelecer em nome do Deus Único e do Cristo, aquela onda de formalismos vendáveis, aquela avalanche de fraudes, idolatrias e burlas, que de então passaram a medrar pelo mundo como se fosse Cristianismo! Após tantas informações a respeito do tempo de duração da corrupção, entra a falar na restauração, tecendo considerações sobre o Espiritismo, como sendo a igreja do Pentecoste restabelecida. Com esses princípios, disseram-me, estava capacitado a saber mais. Era o que eu desejava, dado não me sair da mente a oportunidade de comunicar-me com os irmãos da carne. DIAS DE RECONHECIMENTO O dever do homem, encarnado ou desencarnado, é subir sempre na escala dos conhecimentos e da purificação, para poder dar, praticamente, testemunho de ser cooperador feliz no movimento de progresso das almas irmãs. Quantos são os modos e meios de progredir? Por quantas gamas se filtra o saber integral? Ninguém precisa assustar-se com a vastidão do programa, porque a vida é programa infinito e ninguém é aluno, obrigado a aprender de hoje para amanhã, a lição que lhe seja dado estudar. Basta não se percam oportunidades sadias, para estar-se quites com a lei de progresso contínuo. O fulcro da questão é MORAL; aliada ao SABER, eis que surge o indivíduoautoridade, eis que desponta à claridade do sol da existência, a divindade característica da lei de origem! O que é, por natureza, evidenciou-se; o que estava a cargo do sagrado direito de auto-organização, por labor interno, pela proficiência do ser, patenteou-se. Procrastinado foi o homem inferior pela chama interna do homem-Deus! É o Cristo revelado por Jesus, como interior ao homem, que foi pelo homem exposto, para que o

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