Voltar ao livro Uma Visão de Cristo

Capítulo 8 de 13

Parte 8 de 13

Uma Visão de Cristo · Osvaldo Polidoro

Livro_CRISTOv6.indd 133Livro_CRISTOv6.indd 133 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro tro, porque, afinal, todos são padres. Eu penso que sim... E você? Deu-se por satisfeito e acrescentou: — Também pode ser, patrão. Mas eu sei, que há gente séria no mundo. Conheço quem sabe, e sabendo age como servo de Deus, vivendo para o próximo, não medindo esforços e nem tempo. E eu aprendi um pouco... Quando outra coisa não faça, porque não posso, pelo menos procuro ser verdadeiro. Meu mestre dessas coisas, tinha lá seu modo pessoal de interpretar certas escritas, afirmando que Jesus, em primeiro lugar, mandou ser verdadeiro. Ora, veja o senhor, o verdadeirismo ainda está por ser vivido na Terra. E quem sabe quando virá a sê-lo? — Vê como eu tenho razão, Gumercindo? — Concordo, patrão. — Mas estamos chegando. E continuo sentindo uma tristeza imensa na alma... É mesmo da alma que me vem esta tristeza. Que será? Por que será? Olhou-me de banda, como era seu natural quando queria significar mais do que aquilo que a palavra proferida podia valer, e emendou:

Livro_CRISTOv6.indd 134Livro_CRISTOv6.indd 134 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo — Antes, para que será? Notemos que os incidentes da vida podem nos trazer grandes doses de experiências e variantes modalidades de ensino. Quando a criatura é dócil aos desígnios de Deus, mesmo que não se prenda a culto exterior qualquer, ou que não tenha religião, envia-lhe Ele, pelos acontecimentos da vida, mensagens de sabedoria e advertência. Eu creio que o senhor deve procurar saber mais um pouquinho sobre o mundo que nos cerca, tange e solidariza. Afinal de contas, patrão, nem o senhor é à margem do mundo e nem ele é à sua revelia, mas sim, por natureza, cada um de nós é parte do TODO, e o TODO, por sim ou por não, é parte de nós mesmos. — Essa filosofia vai muito longe, Gumercindo. Pode ser que nalgum outro mundo, ou no Céu, as coisas se passem de outro modo. Aqui na Terra, entretanto, uma luta tremenda se trava entre tudo e todos. E admitir tudo isso como normal e razoável, pelo simples fato de dizerem os credos que Deus assim quer, para mim não serve. Há qualquer coisa de errado em tudo isso... Ou, então, há falta de explicação para isso tudo. Cravou-me o vaqueiro fuzilante olhar, reptando-me: — O senhor já, embora tenha de pedir desculpas pela indiscrição, o senhor já leu alguma coisa

Livro_CRISTOv6.indd 135Livro_CRISTOv6.indd 135 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro sobre Espiritismo? Creio que, se tivesse lido, teria encontrado explicação para os fenômenos de que fala; para o mesmo não existem milagres e nem mistérios, consequentemente não havendo que temer o quer que seja, por desejar saber muito ou pouco de qualquer departamento da Verdade. Antes, segundo o Espiritismo, crime comete aquele que despreza as oportunidades de aprendizado. — Eu não li coisa alguma sobre Espiritismo, nem sobre outros credos, senão que tenho lido muito sobre filosofia, ou antes, sobre filosofias. Os credos fazem empenho para atrair as criaturas, achando cada qual que é o verdadeiro, enquanto que as correntes filosóficas até mesmo as mais contrárias, toleram- -se e até admitem-se. Por isso é que sinto uma certa aversão pelas religiões. Além de se guerrearem umas às outras, que fizeram elas, até hoje, pela melhoria do homem? Os que esposam credos são iguais ou piores do que aqueles que os não esposam, e os que vivem à custa dos credos, esses, então, pelo menos para mim, são muito piores do que... Justino deu um brado, lá da porta de sua casa, fazendo voltar os cães que vinham latindo e em correrias contra nós. Com isso, terminamos o colóquio, ficando o vaqueiro com direito à réplica.

Livro_CRISTOv6.indd 136Livro_CRISTOv6.indd 136 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo Como não havia luar à noite, pois findava-se a minguante, só saindo a lua em tarda hora, depois de entregue o gado, e tomado um suculento lanche, demos com os cavalos na estrada. Menos a marcha compassada e dolente dos bois, em pouco atingimos a fazenda. Ao nos despedirmos, para que Gumercindo não pensasse mal de minha urbanidade, e muito menos calculasse em contrário minha disposição mental para com a questão em vista, convidei-o: — Gumercindo, a nossa discussão ficou em caminho, não é? Pois venha amanhã, à noite, tomar um café e prosseguir no debate. Hoje não, que me sinto triste e moído. E esteja certo de que saberei respeitar qualquer verdade, desde que se apresente de modo racional...

Livro_CRISTOv6.indd 137Livro_CRISTOv6.indd 137 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro Ele nada disse, mas sorriu, quando falei em ‘modo racional’. E como eu estava, a falar verdade, encantado com as suas teorias e modos, interpelei-o sobre o sorriso, tendo ele se explicado: — Patrão, o conceito de racional varia de tempo para tempo e fase para fase. A máxima hipótese intuitiva de hoje, por certo que será racional amanhã, quando outros forem os alcances evolutivos da humanidade ou do indivíduo em particular. Por isso mesmo, penso ser devido, a quem procura cogitar das questões do espírito, admitir como normal e necessário o processo hipotético ou para-racional. E o senhor, que dá preferência aos filósofos profanos, tanto mais deve admitir esta norma de conduta intelectual. Apanhado em cheio, concordei: — Muito bem. Não deixa de ser verdadeiro, que muito das realidades de hoje foram sonhos e quimeras no passado. Realmente, sem a utopia nunca teria havido um verdadeiro idealista, um precursor de fato. Venha, portanto, para um café e um troco de prosa. Se não der certo, claro que continuaremos amigos... Cada qual ficará no seu barranco e o mundo continuará, com os seus altos e baixos, com as suas lágrimas e os seus sorrisos.

Livro_CRISTOv6.indd 138Livro_CRISTOv6.indd 138 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo A questão, porém, é que não suportei aguardar a hora marcada. Quando foi pela tarde seguinte, passando Gumercindo pela frente da chamada ‘Casa Grande’, que era onde eu morava, trazendo no colo um bezerrinho recém-nascido, que nascera com um defeito, chamei-o para dentro, depois de fazê-lo entregar o animal a outro empregado. — Vamos conversar um pouco, que fazendas havia quando nascemos e fazendas restarão quando morrermos. — O senhor é que manda, patrão. Eu, de minha parte, em se tratando de coisas boas, fico com o pouco que posso. E se é como o senhor diz, muito gostaria de trocar ideias com o seu compadre, o senhor Santelmo, de quem muito ouço falar, mas a quem não tenho a felicidade de conhecer. Notifiquei-o, então: — Santelmo casou-se com uma moça filha de portugueses. Como tenha falecido o progenitor, lá foram tratar do inventário e tomada de posse. Estamos aguardando cartas, pois se tudo sair bem, isto é, se as posses derem, Santelmo comprará a fazenda ao lado com o produto da venda. Porque é intento seu vender a herança.

Livro_CRISTOv6.indd 139Livro_CRISTOv6.indd 139 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro — Assim o permita Deus! — interveio minha esposa — Nora, a comadre, muita falta me faz. Acima de tudo, é mulher inteligente, e com alguma instrução, pessoa com quem se ganha em falar, alma com quem se aproveita em ter contacto... Atirou ela seu olhar para o campo indecifrável da saudade, suspirou tristemente e num gemido balbuciou: — Como ela teria valido um pouco!... Seus olhos se encheram de lágrimas. Foi então que medi a extensão dos sentimentos do vaqueiro Gumercindo. Aquele homem rústico de físico, bem maduro de idade e armazenado de bons conhecimentos, era antes de tudo uma alma simples e dócil, um coração afeito às dores e às lágrimas. Curvou a cabeça e deixou que uns filetes cristalinos lhe rolassem pelas faces. Quando, depois de limpar o rosto, olhou-me de frente, pausadamente confidenciou: — Eu também perdi... Mas perdi tudo quanto tinha... Intimei-o, então, a falar. E ele contou-nos, cheio de tristeza: — Nasci no sertão baiano, em lugar de muita seca,

Livro_CRISTOv6.indd 140Livro_CRISTOv6.indd 140 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo onde até a miséria ganhava foros de fartura. Onde ter um pouco era possuir bastante. Meu pai não queria vender as terras, e nem sei quem as compraria, sendo como eram, tão sujeitas à falta de chuvas. Oh! Mas se não fosse isso! Quanta prodigalidade nos anos bons!... Depois de uma fugaz alegria, retrovisão de alguns dias melhormente vividos, o vaqueiro tornou à fala e à tristeza: — ... Mas o tempo da seca veio, nenhuma nuvem no céu, nem para os lados do mar... Tudo foi secando, mirrando, virando palha e pó. Meu pai dizia que ainda era tempo de se salvar alguma coisa, que um dia Deus se lembraria de nós, de toda aquela gente, dos animais e das plantas. Mas as chuvas não vieram em tempo... E quando deixamos o sertão, eu que havia por lá conhecido uma cabocla, com ela casando e tendo uma filhinha, quando de lá saí foi em companhia de meu pai e de uma irmã. Os mais lá ficaram... A Terra está lá, e lá estão, devem estar, os ossos de minha gente... O homem chorava copiosamente e repetia: — Eu os trago comigo... A saudade que sinto os atrai a mim... Vejo-os sempre...

Livro_CRISTOv6.indd 141Livro_CRISTOv6.indd 141 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro Condoído, compungido, fiz-lhe a oferta que me estava ao alcance e no dever: — Gumercindo, nesta casa pode você contar com a familiaridade de que necessita. Não pense em sair daqui, menos que seja por motivo superior à sua vontade e à nossa obrigação de solidariedade. Vamos dar um jeito na sua vida, criar um modo para que possa levantar a cabeça e enfrentar o mundo. O vaqueiro agradeceu, limpou os olhos e fez menção de sair. Não o deixei. Uma empregadinha o levou a banhar o rosto, e, quando voltou, tomou parte no café, passando em seguida a conversar sobre a Doutrina que com tanto respeito e carinho admitira. — Então, — lembrei-o, — você costuma ver os seus parentes já mortos? — Sim. Mas convenhamos com o Cristo, que morto ninguém é e todos vivem para Deus e para si mesmos. No tempo de Jesus, como viesse Ele fazendo espiritismo, com ou sem endossos filológicos e históricos, mas fazendo mesmo, pois expelia os maus, confabulava com os bons, aplicava passes; enfim, como viesse de contínuo em relação com o mundo espiritual, sabendo os clérigos que assim fazia, ou que por esse processo operava maravilhas,

Livro_CRISTOv6.indd 142Livro_CRISTOv6.indd 142 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo logo passaram a lançar-Lhe culpas, a imprecá-Lo, lembrando-Lhe textos proibitivos. Mas o Divino Mestre, que vinha para ser acima de todas as velhas Revelações, porque vinha tornar franca a verdade revelacionista, respondia-lhes que a morte só existe no conceito dos tolos e daqueles que procuram ignorar a fim de continuar negando. Toda vez que alguém Lhe dizia ser proibido manter relação com os mortos, Ele indagava: Quem são os mortos? E quem são os vivos? Por certo que ninguém morre, pois os vossos pais não morreram, nem podiam morrer, porque para Deus ninguém morre. Eu porém faço isto, diante de todos, bem à vista de quantos queiram ver e compreender, porque foi para isso que vim ao mundo. Minha máxima é Batizar no Espírito, como vos disse o Batista, porque assim é da Vontade do Pai. E o Batismo de Espírito é o meu testemunho, para que fique convosco, para que tenhais sempre um aviso e um advogado. Pelo Batismo de Espírito sabereis que de fato o Pai me enviou. O semblante de Gumercindo se iluminava quando dizia estas coisas. Por isso, vendo-o tão feliz, nós aparteávamos, para que ele falasse mais. — Então, Gumercindo, Jesus veio para esse fim? — Veio e fez o que devia. Se o senhor quiser ler

Livro_CRISTOv6.indd 143Livro_CRISTOv6.indd 143 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro um pouco, eu lhe fornecerei uns tantos livros, onde encontrará os motivos do Espiritismo, que são as promessas do Velho Testamento, cumpridas pelo Cristo através do Seu divino exemplo e do Consolador. O Espiritismo é, a um tempo, tudo quanto foi vindo no decurso das Revelações, e mais aquilo que fará, no domínio das instruções, pelos milênios a fora. — É bem grande a sua convicção, Gumercindo, — observou-lhe minha esposa. — É apenas uma fé consciente, que decorre da verdade evangélica. Não há, de fato, na obra do Cristo, lugar para as mistificações chamadas mistério e milagre. Tudo para o Mestre era segundo leis fundamentais, e, conseguintemente, de conformidade com o Plano Superior as coisas se têm passado e hão de passar. É por isso que o verdadeiro cultor da Doutrina de Kardec concita sempre ao máximo de estudo. Ninguém poderia reconhecer no Espiritismo o Consolador, sem ser por estudá-lo. Bem assim como não lhe poderia aprender as lições, sem estudar. Tudo é por si mesmo concludente, não acham? — Eu acho formidável, Gumercindo. — disse- -lhe eu, pois estava entusiasmado. Ele repetiu o conceito de Pedro, como se acha no

Livro_CRISTOv6.indd 144Livro_CRISTOv6.indd 144 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo Capítulo dois do Livro dos Atos dos Apóstolos: — Assim disse Pedro, quando arguido — “Porque para vós é a promessa, e para vossos filhos, e para todos os que estão longe, quantos chamar a si o Senhor nosso Deus”. — Tudo, portanto, está ao dispor de quem quer que se interesse pelas verdades do Cristo, que devemos tornar nossas, pelo conhecimento e prática. No dia em que Pedro assim se pronunciou, nesse dia, pela grande eclosão mediúnica, consolidou e epilogou Jesus a Sua missão. Estava lavrado o Batismo de Espírito, tornava-se de direito geral o conhecimento e culto da Revelação. Admirada, minha esposa lhe indagava: — Mas São Pedro fez Espiritismo? Primeiramente Gumercindo sentenciou: — Toda a Bíblia versa sobre a Revelação. Subtraindo-lhe esta, o que restará? Demorou-se um pouco, mediu-lhe a extensão do interesse e emendou: — Não só Pedro, mas sim o Colégio Apostolar. O sistema de reunião sempre foi cópia do fenômeno

Livro_CRISTOv6.indd 145Livro_CRISTOv6.indd 145 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro do Pentecoste. Leia com atenção o Capítulo catorze da Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios. Tomou um ar meditativo, sacudiu a cabeça afirmativamente e concluiu: — Faça-se como o faziam os Apóstolos; isto é, reuniões simples, sem vestes fingidas, sem ídolos, sem cultos exteriores, sem clerezias, enfim, sem paganismos. A chave da questão é a Revelação e, para isso, podem-se dispensar tudo quanto é formal ou inferior, todas as formas obsoletas de culto. Sofregamente, perguntou-lhe Maria, novamente: — E como se pode saber quem tem faculdades? — Experimentando, senhora. Os dons se acham repartidos pela humanidade, assim como o afirma Paulo, na mesma Epístola, Capítulo doze. Ele aponta nove faculdades principais. Todavia, cumpre dizer, um só é o dom, que se manifesta de vários modos pela humanidade. Um dia, quando formos bons, teremos o dom sem medida, como o tinha o Mestre, de conformidade com o que diz a Escritura. — Isso é maravilhoso! — exclamou minha esposa — Mas a questão é arranjar as coisas como convém.

Livro_CRISTOv6.indd 146Livro_CRISTOv6.indd 146 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo Haverá aqui na fazenda gente capaz? Seria interessante tentar, não acha o senhor? — Depende, senhora. — ponderou ele — Depende de vossa vontade. São os proprietários e sabem como agir. Eu, para meu gasto, faço como posso. Tenho por graça um pouco de vidência e para mim é o bastante. Quando através dela posso servir, faço-o como todo o prazer. Curiosa, minha esposa avançara: — E poderia ver alguma coisa para nós? Quem sabe, sobre o menino... Lembrei-me do que ele dissera sobre uma senhora idosa, e da criança, meu filho, que tinha ao colo, propondo-lhe: — Poderia indagar alguém sobre o menino e a senhora, que disse ter visto? — Pretender sempre é lícito. — respondeu-me, com bonomia. — Então, faça-o, por favor. — intimou minha esposa, acomodando-se na poltrona.

Livro_CRISTOv6.indd 147Livro_CRISTOv6.indd 147 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro Gumercindo, sorrindo, pediu: — Pretendamos todos, que é o certo. — Que é preciso fazer? — volveu ela, prontificando-se. Gumercindo convidou: — Venha para a mesa e vamos fazer uma prece. Seja o que Deus quiser. Mais do que pressurosa, Maria veio por-se ao meu lado, agarrando-me pelo braço. Gumercindo balbuciou uma prece, o mesmo fazendo nós. Dentro de um minuto, se tanto, disse ele estar presente a senhora idosa, sustendo ainda o menino ao colo. — Que nos quer ela dizer? — perguntei. — Diz ser o seu nome Marília e ser avó do menino. — respondeu. — Marília era o nome de minha mãe. — informei-o — Ela diz que sim. E diz que o menino quer falar... Que necessita falar.

Livro_CRISTOv6.indd 148Livro_CRISTOv6.indd 148 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo Nessa hora eu tremia, por dentro e por fora, de expectante interesse. — Ela colocou o menino sobre a mesa. — informou o vidente. — Procure ouvir bem o que ele disser. — recomendei. — Ele vai falar... Minha esposa prorrompeu em pranto. — Diz ele, para que o senhor transforme a fazenda, de pecuária em agrícola. É um crime matar, tudo aquilo que não é daninho ao homem. Muito mais crime é criar para matar. Suspirou o homem profundamente, terminando: — Foram-se. . . Foram-se. Eu estava estupefato. Uma ordem dessa monta, para quem vivia, havia anos, de criar gado para corte. Olhei para o semblante de Gumercindo, estando ele em serenidade plena. Parecia um santo. Seus olhos estavam brilhando, felizes, bem se via que gozando uma inefável alegria. Perguntei-lhe, então, mais para

Livro_CRISTOv6.indd 149Livro_CRISTOv6.indd 149 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro forçar o assunto: — Que diz, Gumercindo, de tudo isso? — Nada. Por que? — Acha pouca coisa transformar uma fazenda de pecuária em agrícola?! — Não é pouca coisa... Mas é possível. Jesus deu a vida, o que é muito mais, e não fez objeção ao Céu. Pediu a passagem do cálice, por ser dever do espírito combater a dor através de seus motivos. Mas, uma vez sabendo como tinha de ser, isto é, que sem um testemunho de sangue não podia legar o Seu Testamento, imediatamente atendeu ao chamado do Céu. E com o Seu ato, consumou a Sua missão, legando às gerações a Carta de Alforria, encimada a seguir, com o Batismo de Espírito, ou da Revelação tornada livre. Recordei-me dos relatos sobre o episódio, observando: — Lembre-se, Gumercindo, de que o Cristo foi assistido por um anjo. Se me não engano, diz Lucas que Lhe enviou Deus um anjo, para O consolar no doloroso transe.

Livro_CRISTOv6.indd 150Livro_CRISTOv6.indd 150 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo Soltou ele uma verdadeira gargalhada, numa confiante atitude, emendando a seguir: — E a si enviou Deus dois anjos... Sua mãe e seu filhinho. Que quer mais? E olhe que não é para ser preso, manietado, espancado, cuspido, dolosamente julgado e por fim crucificado. É apenas para continuar fazendeiro. — Ele era o Cristo, Gumercindo. — Nós somos cristãos ou não? Afinal, patrão, um espírito vale pelo seu quantum de pureza e ciência que consegue armazenar e cultivar. Todos sendo iguais em natureza e destino, o mais é desabrochar poderes. O Divino Mestre não se fez por favores do Céu, mas por evoluir, naturalmente, através a esteira das vidas. E assim mesmo com todos os Cristos de todos os mundos, e com aqueles que dirigem as galáxias e as meta-galáxias. — É duro, então, ser cristão... — murmurou minha esposa. Quem mete as mãos no arado, que não olhe para trás, disse Ele. — E se eu não fizer? — redargui.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.