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Capítulo 5 de 13
Parte 5 de 13
Uma Visão de Cristo · Osvaldo Polidoro
Livro_CRISTOv6.indd 78Livro_CRISTOv6.indd 78 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo bedoria. Eu, o que sou, é aquilo mesmo que tendes obrigação de procurar ser. Não vim procurar, não vim buscar o amor das criaturas para mim. Não necessito disso. Quero que vos ameis uns aos outros, porque esse é o caminho da glorificação interna. Aqueles que dizem, e são muitos, que eu procuro ser amado como Deus, enganam-se; eu não tenho necessidade disso, porque o Pai sabe como sou e como Lhe obedeço. Do homem quero a compreensão para os deveres íntimos, a iluminação interna, o desabrochamento do Cristo. Porque cada um encerra um Cristo a despertar, e, infelizmente, esquece-o. Quando Sua voz cessou, a natureza parecia repeti-la. Depois de um pouco, continuou: — A advertência é esta: a humanidade está às portas de uma nova era, e, isso coloca seus indivíduos em dura expectativa. É lastimável que haja tanta inconsciência do homem a respeito do destino do mundo e do seu próprio destino. As religiões têm desvirtuado o sentido da fé, que é, em natureza, encaminhar o homem para o conhecimento das leis da vida. Sem saber, como pode o homem aplicar-se bem? É urgente que se compenetre do dever de amar a Deus com toda a força do coração e de toda a inteligência. Ai de quem
Livro_CRISTOv6.indd 79Livro_CRISTOv6.indd 79 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro olvidar esta obrigação. Infeliz daquele que não atender a esta minha advertência. Fez um brevíssimo silêncio e acrescentou: — A oferta é o cumprimento da promessa antiga, o derrame de Espírito sobre a carne. O mundo me irá supliciar e tirar a vida. Mas eu voltarei, como espírito, e completarei minha obra. Essa autoridade eu a tenho, delegada por meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus. Assim se dará, porque aquilo que é de Deus não cessa em virtude dos erros e desmandos de homens. Para Deus não existe um agora ou nunca, porque para Deus tudo é sempre e presente, e Sua Lei é imutável e eterna. Os homens, quando souberem o que vim fazer, compreenderão que lhes vim lembrar os mais sagrados deveres — amarem-se mutuamente e procurarem saber o quanto possível das leis da vida. Cessando a fala, pôs-me a destra sobre o ombro e disse-me: — Vai e não te esqueças disto. Vive esta lição, que é do Céu, e procura passá-la aos irmãos. O mundo precisa de verdadeiros apóstolos, a humanidade necessita de obreiros do bem. Procura
Livro_CRISTOv6.indd 80Livro_CRISTOv6.indd 80 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo dar dignos frutos pelo exemplo, e um dia, quando menos pensares, estaremos juntos no regaço de Deus. Vai... Vai... Ele ia dizendo vai, e eu me afastava, olhando para trás e derramando copiosas lágrimas. Que misto vivi, de dor e alegria! Que estado de mágoa, meu Deus! Quando acordei, tinha as minhas faces de espírito banhadas e os olhos num ardor delicioso, bem-aventurado. Eu todo, fremia de uma intensa alegria.
Livro_CRISTOv6.indd 81Livro_CRISTOv6.indd 81 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro
Livro_CRISTOv6.indd 82Livro_CRISTOv6.indd 82 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo Pela manhã fui visitado por Salmo, relatando-lhe o ocorrido. À tarde veio minha mãe, trazendo consigo três outras mulheres, às quais fui apresentado. Eram servas do bem e trabalhavam nos círculos espíritas, arrebanhando criaturas e encaminhando-as às sessões. — Fazem, — informou minha mãe, — um duplo serviço; concorrem para o esclarecimento de uns e para a bem-aventurança de outros. Esse é, verdadeiramente, o serviço que cabe ao Consolador. — Tenho muito prazer em conhecê-las, senhoras. Elas sorriram e uma adiantou-se: — De muito que nos conhecemos, irmão Palmério. Trabalhamos nos grupos de estudos, onde
Livro_CRISTOv6.indd 83Livro_CRISTOv6.indd 83 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro missionários encarnados, de vós conhecidos, preparam a obra que ficará como marco fundamental da doutrina organizada. Apenas, como os trabalhos são complexos, de várias ordens de serviçais há mister. Enquanto uns agem no campo intelectual, outros procuram curar, outros arrebanham sofredores nos planos inferiores do astral e na própria crosta, agindo outros, ainda, em muitos outros departamentos de ação. Você irá ver, e compreender, o quanto a restauração do Cristianismo importa em comoções de ordem geral. Tudo será abalado, com o advento da era do Consolador, podendo-se dizer que nada ficará no lugar, pois onde quer esteja um homem, ali estará a ideia de renovação. — Dou graças a Deus de ter pertencido aos quadros da nova ordem espiritual. — De ter pertencido? E não vai continuar a obra? Que lhe foi encomendada pelo Mestre? Ou pensa tenha sido aquilo apenas um sonho? — E teria eu merecido uma visita do Senhor? — Não importa saber como a lição do Senhor tenha vindo a si; o que importa é saber que ela veio do Mestre e pelos altos recursos do Mestre. Na Terra e nas esferas astrais, milhares de criaturas,
Livro_CRISTOv6.indd 84Livro_CRISTOv6.indd 84 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo diariamente, têm contatos assim com o Mestre e Dele recebem instruções. Que julga você, de Seus poderes e do mecanismo de que dispõe para estar sempre a par de tudo, amparando e assistindo? — Eu pouco ou nada sei. Mas tenho presente a contínua advertência de um irmão, instrutor de um grupo, que repete sempre aquela sentença da Sabedoria Antiga, ou como a chamam — “Quando o discípulo está pronto o Mestre aparece”. — É realmente assim. Conhecemos esse instrutor e cedo o terá como companheiro de serviços. Ele foi, na última encarnação, um estudioso das ciências orientalistas. É um profundo conhecedor de cultos e doutrinas, que agora estuda o esquema da nova ordem espiritual, que compreende a restauração do Cristianismo e seus avanços. Um fim de ciclo bate às portas da humanidade e tremendas convulsões vão assaltá-la, sendo por isso mesmo necessário esclarecê-la, a fim de que o desmoronamento seja apenas de ordem material. Isto é, que não se percam grandes valores adquiridos através de milênios. Porque perdas, e muitas perdas, hão de se dar. A lavratura do Consolador não é com o fim de eliminar da Terra o que ela atraiu, está atraindo e decididamente provocará; é apenas para amenizar o choque, pois há necessidade de choque para o
Livro_CRISTOv6.indd 85Livro_CRISTOv6.indd 85 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro rompimento do coscorão tradicional, dos conceitos e preconceitos que tanto a prendem à involução, que tão acirradamente a envolvem nas tramas do ronceirismo divisionista e comprometedor. A conversa desandou por múltiplos ângulos do conhecimento e a tarde tombou sobre a região, entregando-a aos embalos de suavíssimo êxtase. Quando o crepúsculo assomou às fronteiras da noite encantada, minha mãe convidou: — Filho, vamos à crosta. Temos muito o que fazer. — Eu?!... — Sim, é hora. — Que maravilha, mamãe!... Eu vou andar? — Sim, vai entrar aleijado e sair curado. Deus o quer. Senti em mim, então, tremendas convulsões íntimas. Parece que o não lembrado sistema magnético, veio à tona de minha constituição e reclamou toda uma soma de considerações. Correntes elétricas, assim se me afigurava, varriam-me dos pés à cabeça e vice-versa. Um pranto feliz inundou-me o rosto de lágrimas, e fui sentindo, aos poucos, aquele
Livro_CRISTOv6.indd 86Livro_CRISTOv6.indd 86 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo êxtase que havia sentido durante a visão do Mestre. Era um estado de gozo, era um deslumbramento. Desci do leito, como rastejante; mas minha alma estava de pé. Acompanhei aquelas quatro mulheres até o pátio ajardinado daquela mansão recuperadora, sendo em seguida convidado a pensar em Jesus Cristo, a fim de auxiliá-las no serviço de transporte até a crosta. Foi pensar, querer e realizar. Numa fração de minuto estávamos na crosta, fazendo companhia, num recinto familiar, a um elevado número de irmãos destas plagas, e de cinco irmãos encarnados, inclusive Allan Kardec. Observei com atenção o ambiente em geral, principalmente o espiritual, notando que eram muitos os que ali estavam, como eu, necessitando de cura. Alguns irmãos eram verdadeiramente de notável elevação. Ou porque suas vestes fossem brilhantes, ou porque tivessem suas cabeças envoltas em auras fulgurantes, ou porque seus traços fossem distintíssimos, eles revelavam majestade e força moral. Tendo eu feito referência a eles, disse-me minha mãe: — Eles estão reduzidos em si mesmos, pela vontade, a fim de se tornarem suportáveis pelo meio em que se acham. Se quisessem se apresentar, tal
Livro_CRISTOv6.indd 87Livro_CRISTOv6.indd 87 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro qual como são e podem, quem os olharia? Você sabe que este trabalho resume, enfim, a restauração do Cristianismo do Cristo, do Batismo de Espírito, estando a intervir, portanto, a vontade e autoridade do Divino Mestre, bem assim como o trabalho de Seus mais imediatos colaboradores. Faz-se, de um modo geral, a restauração e a síntese das Revelações. Do Cristo Planetário partiram os Grandes Mestres da antiguidade, e no Seu Batismo de Espírito se encerram todas as verdades fundamentais, uma vez que a Moral é a mesma e a Revelação também. Apenas, o propósito é, agora, levar o conhecimento dessa verdade a todos os recantos do Planeta, na crosta e nos seus domínios espirituais. Depois, com o amadurecimento das ideias, e o evolver dos tempos, começarão os trabalhos de minúcia, os detalhes, a penetração nos matizes da Verdade. Primeiro, porém, cumpre apresentar a plataforma básica. De quando em quando chegavam agrupamentos de elementos espirituais; alguns vinham como flechas de luzes multicores, outros davam entrada lentamente, conversando, tratando de assuntos vários. Chamou-me a atenção, em dado momento, alguém que se postou ao nosso lado, bem afastado da mesa, e que era um senhor, um espírito, deveras en-
Livro_CRISTOv6.indd 88Livro_CRISTOv6.indd 88 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo canecido, de cabelos brancos como a neve, todo encurvado, rosto espichado para a frente, com toda a característica do puro sofista. Ele olhava, sorria com desdém, sacudia a branca e pontuda cabeça, resmungava não sei o que. Suas mãos nervosas, postas para trás, tinham os dedos em movimentação contínua. Via-se que tinha em mente um plano qualquer. Em dado momento, parece que ignorando a presença de outros e mais categorizados irmãos, foi para o redor da mesa, onde estavam os encarnados e alguns mentores, dando-se a girar para um lado e outro, sempre nervoso, cada vez mais nervoso, até que começou a perguntar, em voz alta, pensando que o haviam de escutar: — E então? Como é isso? Respondem ou não? Existe alguma verdade fora dos Livros Sagrados? E são mesmo Sagrados esses Livros? Quem poderia provar que o são? Como ainda não tivessem dado início à sessão, não lhe deu acesso uma senhora, muito respeitável médium, em quem se encostou, fazendo-a ressentir-se de sua aproximação. Ele, bem se via, era um inconsciente de seu estado. Como ninguém lhe respondesse, continuou:
Livro_CRISTOv6.indd 89Livro_CRISTOv6.indd 89 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro — Errados! Quereis responder-me ou não? Se não merece resposta o homem, respeitai ao menos aquilo que chamais a Verdade! A vossa Verdade... Porque eu acredito na Natureza e em mim, eu que sou parte dela. Punha-se nervoso, berrava suas razões, gesticulava. E foi nessa hora, que um dos mentores dele se aproximou, tocou-lhe no ombro e disse-lhe: — De que lhe vale esse nervosismo todo? Não sabe que são encarnados, que o não podem ouvir? Olhou-o bem, sacudiu os braços e reclamou: — Outro com a mania dos desencarnados!... Aqui só disso se ouve falar! Os que aceitam as conversas são encarnados e são razoáveis; os que não aceitam e nem aturam as patacoadas que apregoam são desencarnados e tolos... Muito bem! E o senhor o que é? — Eu sou um desencarnado, e você também. E não se trata de ser encarnado ou desencarnado, quando se faz alusão ao que é Verdade, isto é, ao que é verdade genérica ou fundamental. A Verdade é uma só para todos; nem todos, porém, são os mesmos para com a Verdade. Uns lhe estão mais
Livro_CRISTOv6.indd 90Livro_CRISTOv6.indd 90 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo próximos, outros mais distantes. O de que você carece, irmão, é de uma boa orientação. Precipitadamente, advertiu ele: — Boa orientação? Mas à vossa moda? Eu quero é outra coisa... — O que? — perguntou-lhe o mentor. Ele mediu-o muito bem e respondeu: — Eu quero que vocês se convençam de que tudo isso que pregam é imaginação. É a quinta vez que aqui venho e ninguém me permite falar a todos e livremente. Que significa isso? Ao que é que chamam de Verdade? Todos aqui falam na Verdade e ninguém me quer ouvir!... Tenho ou não o direito de falar?... Olhou e apontou para Allan Kardec e disse, revoltado: — O mandalhão! Ali está quem fala e vale sempre! Por que não me responde, se vive a dizer que todas as questões atinentes à Verdade devem ser livremente discutíveis? O mentor observou-o:
Livro_CRISTOv6.indd 91Livro_CRISTOv6.indd 91 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro — A sua vez chegará, eu prometo. Mas agora vá lá para trás. Muitas criaturas mais estão aqui a quem não pode ver. Do contrário, é claro, havia de se portar de modo mais recomendável. Ele soltou uma gargalhada e resmungou: — Pronto! Pronto! Volte para trás. . . Não sei o que lhe tenham feito, nem como, mas sei que o homenzinho, num repente, calou e foi para o seu cantinho, lá permanecendo até ser convidado. Isto, depois de ter eu passado pela minha reforma geral, graças a Deus. Eu necessitava de cura para o meu corpo de espírito; ele tinha carência de outras e mais profundas curas. A minha entrada foi anunciada antes, tendo eu recebido jatos luminosos de todos os presentes. Depois de falar, apresentando-me, Allan Kardec pediu preces em meu favor. Tudo, então, em mim se comoveu! Minha mente, ela só, ficou de pé, permaneceu intacta, o restante passou por uma reviravolta, sofreu um tremendo abalo, teve de amolgar-se de novo. Depois de curado, disse-me um mentor: — Conserve a mente em harmonia, para que seu corpo também possa estar em ordem. O homem
Livro_CRISTOv6.indd 92Livro_CRISTOv6.indd 92 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo cuja mente se corrompe, consequentemente terá seu organismo exterior deformado. O espírito age sobre as gamas mais íntimas da estrutura magnética, passando daí para as mais grosseiras ou densas. E assim mesmo, por escala, vem atravessando os gazes, os vapores, os líquidos, atingindo os sólidos. Não há pensamento que não atinja, pouco ou muito, mais ou menos depressa, todo o corpo humano, na carne ou aqui. É de notar, também, a presteza com que certas glândulas reagem aos impulsos das ondas mentais, variando imediatamente a qualidade de suas secreções. Daí, portanto, poder-se a criatura, na carne como aqui, curar-se ou envenenar-se pelo pensamento. Sorriu amigavelmente e finalizou: — Você foi, em certa época, o seu maior algoz. Pensou tão revoltadamente, e tão continuamente, que volveu, como espírito, cujo corpo é mais sensível às ordens mentais, a uma forma inferior, dando azo a que seu corpo tenha sofrido tamanha deformação, na última encarnação. Ainda bem que conservou a forma humana, pois muitos chegam a nascer com pronunciadas formas animais inferiores, vindo a morrer em seguida ao nascimento ou pouco tempo depois. A teratologia demonstra, não apenas os efeitos das taras hereditárias, mas também a in-
Livro_CRISTOv6.indd 93Livro_CRISTOv6.indd 93 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro fluência das corrupções e deformações perispiritais. E se não fosse o controle de irmãos prepostos, zelando o quanto possível pelas reencarnações, monstruosidades tais teriam acesso ao plano carnal, como ninguém por lá seria capaz de conceber. — Li o meu relatório e sei o quanto me prejudiquei, descendo em geral, em perda de tempo, em dores inúteis, em atrofias físicas. Não foi Deus a me castigar, nem tampouco foi bem-aventurada a dor que sofri, pois foi ela o produto de minhas corrupções em geral. Como para tudo é necessário haver classificação, certamente pelos motivos devem ser classificadas as dores. E a minha foi, então, por demais estúpida para ser qualificada melhor. A dor pelo próximo é bem-aventurada; é a dor missionária. A dor como prova também pode ser assim designada, pois não sabe a culpa e resgate. Mas a dor expiatorial ou purgativa é malfadada, porque em si é afrontosa. Eu não sofri e aprendi muito, nesta última encarnação, embora tenha sido um aleijado ou deformado, porque não tinha dores, porque nada me podia deter. E tenho certeza que há de aparecer, um dia, quem faça o mundo compreender a necessidade de especificação a respeito da dor. Esse conceituismo generalizado e doentio, que vaga pelo mundo, não pode ficar para sempre, por ser falho demais. O espírito que louva a dor em
Livro_CRISTOv6.indd 94Livro_CRISTOv6.indd 94 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo detrimento da razão, por certo que blasfema. Eu já não suporto tais melopeias. Que acha o irmão? Ele meditou algum tempo e a seguir teceu comentários ponderosos. — O mundo vive ainda em período de generalização. O tempo das especificações está por vir. Portanto, assim como a respeito de outros fenômenos, também a respeito do fenômeno dor há que haver melhor conhecimento e outras classificações. O que mais me faz pensar, é o fato de tanto servir ela para tornar submisso como revoltado. Você, por exemplo, tornou-se um revoltado, desceu mais, atrofiou-se, perdeu muito tempo. Agora, como aleijão, mas sem dor, pôde aprender e servir, resgatando por inteligência e trabalhos úteis. É de se pensar bem na questão... Fez silêncio, fitou-me bem e considerou: — O espírito vem subindo das gamas inferiores, vem atravessando os reinos e as espécies. Quando entra no reino hominal, chamamos de um reino à parte à espécie humana, por atingir o grau da razoabilidade e da consciência individual; ao atingir o reino hominal, portanto, passa a ter em mãos, diremos ao seu alcance, o poder de fazer-se feliz ou
Livro_CRISTOv6.indd 95Livro_CRISTOv6.indd 95 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro infeliz, segundo as obras, assim como queira dispor de seus poderes de raciocínio, de vontade e de ação. De Deus tem os poderes; e de si o direito de aplicá-los. Tudo é, ou passa a ser, daí em avante, uma questão de elaboração de poderes e liberdades. — Isso mesmo. Como, então, chamar bem-aventurada a dor, de um modo geral, sem distinção, sem observar e respeitar a ordem motivadora? Como julgar, em identidade de condições, a dor de um Cristo e a dor de um grande culpado? Chegou-se para junto de nós um senhor, pedindo para intervir e opinando: — Ainda bem que se procura discutir questão de tamanha significação. Já ouvi comentários a respeito e confesso que se levanta entre os diferentes conceitos uma questão de mérito e de ordem. Eu, acima de tudo, fico do lado deste irmão, pois prefiro honrar a inteligência, sem o que nada de valoroso e sublime se consegue, do que honrar a dor, pelo menos a dor expiativa, aquela que é em si mesma a testemunha da falta, podendo vir a ser a mãe da pior revolta. No lapso feito a seguir, apontou este senhor para mim e para o ex-sofista, articulando a questão pelo prisma seguinte:
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