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Capítulo 7 de 13
Parte 7 de 13
Uma Visão de Cristo · Osvaldo Polidoro
Livro_CRISTOv6.indd 113Livro_CRISTOv6.indd 113 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro acontecimento de minha história. Isto porque, tendo reencarnado a seguir, poucos anos depois, cumpri regularmente o mandato, merecendo a entrada imediata no rol histórico. E, quando não seja para lembrar aos meus irmãos a vantagem de um recolhimento sublime, faço por reverência aos planos diretores, afirmar o quanto aquele acontecimento me tem valido. Nas minhas lutas, nos meus lances de empenho, trabalhando muitas vezes junto de irmãos tristemente sofridos, ou violentamente arredios ao bem, a simples concentração mental, a rememoração imediata daqueles Altos Guias da Humanidade, muito me auxilia, conferindo-me um poder que eu sinto ainda não ter de fato, não ser íntimo, mas sim adventício, que se derrama sobre mim como uma bênção celestial.
Livro_CRISTOv6.indd 114Livro_CRISTOv6.indd 114 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo 2ª PARTE Amor e Sabedoria
Livro_CRISTOv6.indd 115Livro_CRISTOv6.indd 115 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro
Livro_CRISTOv6.indd 116Livro_CRISTOv6.indd 116 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo Aquele menino nascera sob maus auspícios. Viera ao mundo com certo defeito físico, uma perna retorcida, mais curta, e que nunca pudera ser ajeitada. Depois, um ano e meio se passara, dezoito longos meses de dor, de agonias, de vai- -não-vai. E, agora, ali estava de novo, gemente, contorcido, arrastando após de si toda a família. Naquela hora, quando a tarde cor de ouro se envolvia no manto lânguido que o crepúsculo espargia pela natureza escampa, embebendo seres e coisas duma saudade triste, dera ele o seu último suspiro na Terra dos encarnados, e um suspiro de alívio, bem se percebeu, uma nota final de “adeus”, parece que uma despedida vinda dos confins da vida, e dos motivos que a impelem a ser.
Livro_CRISTOv6.indd 117Livro_CRISTOv6.indd 117 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro Ao lado dele, naquela hora estávamos eu, seu pai, minha mulher e dois irmãozinhos. Tanto o víramos sofrer, que apesar do lance doloroso, um sentimento de graça nos envolvera o coração, por achar que no seio de Deus, encontraria mais ventura e menos cruezas. Lá ficaram, a chorar, sua mãe e seus irmãozinhos. Eu saí à porta, e como desse ela de frente para uma camparia imensa, fitando aquela majestade agreste, fiz considerações em torno da pequenez humana. Pensei no homem, é claro, mas no homem matéria, no homem somático, não no homem espírito, no homem transcedente, no ser eterno e herdeiro de divinos bens. Todavia, naquele momento e para aquela conjuntura, pois eu não sabia de melhores verdades — e a situação era de angústia — o homem em questão era aquele que passava, deixando o mundo, suas campinas, seus mares e suas fantásticas belezas telúricas. Que miséria o ser humano! Quanta pobreza na inteligência! Vieram amigos. Velou-se o corpinho defeituoso, tenro e inerte. A noite tépida e a lua tardia corroboraram a fim de que um certo encanto de todos se apossasse e as horas aparentemente se tornassem menos longas e cansativas. O palor lunar emoldurava a natureza e contaminava as criaturas com um suave magnetismo. Diante do pequenino morto, e em face
Livro_CRISTOv6.indd 118Livro_CRISTOv6.indd 118 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo da beleza natural, sentia-se, ora Deus muito longe, ora Deus muito perto, até mesmo no imo de tudo e todos. Frente à vida e frente à morte, a alma humana e pouco educada, não pode manter-se fiel a um princípio. Crê e descrê a um só tempo, ou pelo menos, num vai-e-vem de tempo que quase não pode ser contado. Entretanto, hoje, o nosso conceito de vida implica no de morte, por ser o fenômeno apenas irreal e transitório. Isto é, é real, sendo transitório. Pela transição do que é exterior, força o evolvimento do agente interior, e nisso é que reside a grandeza moral do fenômeno. Menos essa razão, abstenção feita desse acordo entre as partes, a passageira e a estável, e acordo pela Suprema Inteligência, de que valeria a morte? Antes seria um escândalo do que uma lei! Poucos serão, porém, os espíritos que, nas graves horas, conseguem raciocinar a contento da Causa Fundamental. Quase todos caem vencidos pela dolorosa rudeza do impacto, alguns poucos encontram, em si mesmos, valores adquiridos com que defrontar o choque e avançar, de porte hirto, em busca da meta final. Eu, por aqueles dias, pertencia à falange dos últimos... Os meus conhecimentos eram parcos e, consequentemente, a minha fé, de periclitante, flutuava ao sabor de negações as mais obsoletas. Se piores coisas não disse, foi porque a minha filosofia de matuto me informara de que tudo era pela natu-
Livro_CRISTOv6.indd 119Livro_CRISTOv6.indd 119 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro reza liquidado e de nada adiantaria brandir a mente contra o seu incomensurável poderio. Tive a alma em contradição, a mente em torpor e as esperanças abaladas. Vi-me ao léu da vida, de olhos fechados e inteligência entorpecida, frente àquela morte. Realmente, embora a morte compreenda apenas um resumido episódio da vida, há momentos em que a suplanta, chega a hora em que assume o posto de ordem e faz se abalem e caduquem os mais exatos, sólidos e estabelecidos princípios. Foi assim que me senti naquelas horas, foi naquelas horas que o Universo e seus valores se tornaram, por premissa vácuos e por epílogo inócuos. À hora de saída do féretro, fui apanhado de uma comoção profunda, caindo em letargia. Quando voltei à consciência, quase duas horas depois, estava febril e atacado de tremenda fraqueza orgânica. Ao lado estava o médico, que haviam chamado, o Dr. Ribeiro, que me fez umas prescrições, afirmando que havia estado em coma e que devia evitar comoções nervosas, se não quisesse deixar, no mundo, viúva e órfãos. Naquela hora, para mim, toda e qualquer conversação seria incômoda. Por isso, dei graças a Deus quando ouvi dizer: — Vou dar-lhe uma boa dose de sedativo, para que durma algumas horas. Não o interrompam, por favor.
Livro_CRISTOv6.indd 120Livro_CRISTOv6.indd 120 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo Minha esposa, que foi um anjo feito mulher, veio banhar-me com suas lágrimas, misturando as de mãe aflita com as de esposa sobressaltada. Tendo-a rente a mim, naquela hora de infortúnio e lassidão geral, senti um profundo arrependimento, um remorso terrível, pelo que lhe havia causado. Eu devia, por ela, ter sido mais forte, muito mais capaz de vencer a crueza do transe. Todavia, suas palavras de carinho me pareceram de perdão. — Maria, você é um anjo... Sempre foi e será, não é assim? Com a cabeça reclinada em meu peito, ela balbuciava: — Nunca morreu ninguém em nossa casa... Teófano foi o primeiro... E é muito triste perder alguém... Chorando gemia, e arrazoava: — Mas eu penso em você, penso nos outros. É necessário vencer, não acha? Ela prosseguiu, terna, torturada e gemente, enquanto eu cedia ao império do sedativo. Dentro em pouco, não podia impor minha vontade contra o assédio artificial de Morfeu, caindo em cheio e pleno no mundo da inconsciência.
Livro_CRISTOv6.indd 121Livro_CRISTOv6.indd 121 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro
Livro_CRISTOv6.indd 122Livro_CRISTOv6.indd 122 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo Acordei quando a tarde caía, dolente e saudosa, no regaço triste do crepúsculo. Tive vontade de me levantar e o fiz, indo parar debaixo de um caramanchão, onde me vieram encontrar, para reclamar carinho, os dois meninos. Estavam aflitos, penalizados, de olhares longos e rostinhos confrangidos. Olhando-os, fui tomado de imensa compaixão, pelo que os tomei ao colo, acariciando-os com a alma em pena. Senti vontade de lhes pedir desculpas, mas pensei que era inútil, que de nada adiantaria, além de marcar desagradável impressão em suas mentes. Eu sabia, tanto quanto eles, sobre ligações remotas e apegos históricos. Eles sabiam, tanto quanto eu, a respeito de sentimentalismos extremados, doentios, deprimentes. Por isso, reprimi meus sentires e desviei o rumo do assunto. O mais velhinho, entretanto, queria saber:
Livro_CRISTOv6.indd 123Livro_CRISTOv6.indd 123 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro — O Téo foi para o Céu, não foi, papai? Téo era a abreviatura de Teófano, assim como Teófano fora um nome lembrado pelo padrinho, que era um tanto versado em coisas teístas. Disse-lhe, então, da conveniência de não falar no maninho, para o não molestar, estivesse onde quer estivesse. Foi quando o outro, com os seus olhinhos vivos, quis saber: — Papai, o que se faz no Céu? Eu não conhecia, a tal respeito, mais do que ele. O meu compadre, padrinho de Teófano, sabia muitas coisas, ou julgava sabê-las, mas sobre esse assunto nunca abrira a boca. Que lhe podia eu responder? O recurso, no momento, foi repetir-lhe que não desejava falar no maninho. E foi uma boa saída. Começamos a falar num carrinho, instrumento que vinha sendo cogitado de há muito, para que brincassem os três, quando Teófano sarasse, se fosse da Vontade de Deus. Prometi o carrinho e fui ao encalço de tábuas, serrote, martelo, pregos, etc. Foi quando chegou-se um vizinho, um velho amigo de infância, propondo a compra de alguns bois, pois era eu, na ocasião, fazendeiro criador. Chamei um rapazinho, filho de um empregado, passando-lhe a incumbência da feitura do carrinho, a fim de sair ao negócio.
Livro_CRISTOv6.indd 124Livro_CRISTOv6.indd 124 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo Por essa altura, o azul profundo do céu cobria-se de tênue nevoeiro, fazendo ver fugidiamente algumas estrelas, dentre as quais Vênus se excedia em grandeza e formosura. O mugido de alguns bois, ao longe, emprestava um tom nostálgico ao ambiente em geral. A impressão que se tinha, era de que o mundo inteiro ali estava presente, reunido e resumido. O amigo, cujo nome era Justino, convidou a fazer silêncio, pois queria ouvir, o cântico da noite sertaneja. — Ouçamos a voz da boca da noite. Já reparou como é encantadora? — É e não é, Justino. — Por que, não? Repare como uns lamentam o fim do dia, enquanto outros saúdam a entronização da noite. Uns se aprontam para dormir, outros despertam a fim de viver da vida mais uma etapa. Olhe bem, e aguce os ouvidos, porque a natureza tem sempre hinos próprios para todas as horas e todas as circunstâncias. — Sei... Uma eterna luta de vida e morte entre uns e outros representantes da mesma natureza. Entredevoram-se os animais, os insetos, os homens. Até os vegetais travam entre si lutas titânicas. Pode haver
Livro_CRISTOv6.indd 125Livro_CRISTOv6.indd 125 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro cânticos, mas não da parte de todos... Creio que os cânticos de uns representam apenas os prantos de outros. A Terra, digam lá o que bem quiserem, aqueles que se julgam aptos a decifrar as leis de Deus, não pode ser a melhor coisa feita pelo Criador. Se é, que Deus me desculpe, me perdoe, mas tudo está errado... Isto não é coisa de Deus!... Ou então, foi para outros fins que Deus fez isto. — Você, Flávio, tem hoje razão de sobra para estar amargurado. Compreendo. — Justino, a minha razão de hoje existe desde os confins da história. A natureza vive em luta de morte desde sempre. Você está vendo essa camparia sem fim? Esses ares cheios de curiangos e morcegos? Essas matas onde vivem animais sem conta? Pois tudo isso quer dizer lutas, entredevoramentos, crueldades! Essa é a mesma natureza que canta, que ergue a Deus sua sinfonia... — Você está contra Deus, Flávio?... — Não. Eu pretendo que sejam outros os objetivos de Deus. Uma explicação há, e, sem dúvida, à altura da inteligência humana. Nós somos partes integrantes de Deus, logo o somos de Sua Obra, que é a natureza, e podemos vir a saber sobre os
Livro_CRISTOv6.indd 126Livro_CRISTOv6.indd 126 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo porquês de tudo isso. Eu nunca dei para ser religioso, você sabe muito bem, mas se tivesse que ser, por certo não havia de ser contemplativo ou supersticioso. Ou há inteligência nisso ou isso está tudo errado! Eu penso assim e sou sincero. E se Deus estiver contra mim, por pensar livremente, e com sinceridade, é porque mais erros existem ainda. Que vou fazer? Cada qual com o seu bestunto, não é lá como diz o refrão? O nevoeiro tênue transformou-se em sereno grosso e logo mais em garoa. Um sudário espesso e gotejante envolveu a natureza, pelo que saímos do tempo e fomos nos abrigar em casa, onde discutimos o preço dos bois. Dali a pouco Justino saiu, levando um guarda-chuva emprestado. — É muito bom levá-lo, Flávio. Assim, amanhã poderei voltar, para mais um bocado de prosa. E quero trazer a Lourdes, sabe? Anda muito triste desde que perdeu a mãe... Faz pena vê-la. Precisa de um pouco de distração... Mas nem filhos pode ter... — Então, não tenho razão quando digo que a natureza canta e chora ao mesmo tempo? — Pelo menos, de tudo chega a hora, neste mundo de Cristo.
Livro_CRISTOv6.indd 127Livro_CRISTOv6.indd 127 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro — E não adianta suspirar fundo... É assim mesmo. Disse o seu ‘boa noite’ e perdeu-se na bruma úmida, quietante e envolvente.
Livro_CRISTOv6.indd 128Livro_CRISTOv6.indd 128 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo O dia seguinte veio, cinzento e frio, apesar de ser outono. Todavia, não havendo chuvisqueiro, mandei separar os bois comprados por Justino, pois pretendia levá-los à tarde, quando por outra razão não fosse, pelo menos para distrair as ideias tristes e recalcadas, que me bailavam na mente, que me torturavam o ânimo e me compeliam a uma apatia impertinente. Eu pensava ser assim, julgava aquela apatia um produto das contingências sofridas, do campo emotivo abalado, túrgido e lesado pela crueza do golpe. Cedo compreendi, entretanto, que outros motivos a ocasionavam, que alguém mais, no rol de minha vida, fosse Deus ou fosse algum agente a Seu mando, havia de estar tramando outros rumos para o meu pensamento e diferentes atividades para os meus sentimentos.
Livro_CRISTOv6.indd 129Livro_CRISTOv6.indd 129 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro É que, amigos, aquela caminhada conduzindo bois não fez surtir efeito benéfico qualquer. Não que o céu fosse de chumbo, não que os animais marchassem dolentemente, não que matas e campinas se mostrassem já esmaecidas, com as características outonais, amarelecidas e desfolhadas. Não, que disso sabíamos, pois havíamos nascido e atravessado os dias de toda a vida no sertão, sabendo compreender e sentir as épocas. Não vi o que me causasse, já não digo satisfação, mas ao menos um momento de indelével espairecimento. Foram quase cinco quilômetros de marcha, ouvindo o canto de um vaqueiro e o mugir do gado, o latido dos cães e alguma corrida de galheiros assustadiços, o que era comum. Minha alma estava mergulhada em agonia, meus pensamentos, que não eram maus, pairavam no campo estéril de indomável tristeza. Eu tinha a sensação de que, para bem ser e estar, conviria não ser e não estar, ou, se possível fosse, experimentar o prazer de nada! — Patrão, — lembrou-me um vaqueiro, — levante a cabeça e enfrente a vida. O senhor tem mulher e dois filhinhos para tratar. Perder alguém é muito triste, lá isso é, mas Deus manda e servo bom aceita a ordem. Depois, como dizem, a gente não morre, vive sempre, torna a nascer, continua subindo...
Livro_CRISTOv6.indd 130Livro_CRISTOv6.indd 130 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo — Você acredita nisso? — interrompi-o. — Eu não acredito, patrão, porque eu sei. Quem sabe não precisa andar crendo, que crença ou descrença é para quem cogita, é para quem pode dizer hoje que sim, amanhã que não, assim como lhe andem bem ou mal as coisas. Admirado do alcance intelectual do vaqueiro, indaguei-o: — Como sabe você discutir essa questão? Onde aprendeu essas lições? Ele sorriu, olhou de banda, deu uma torcidela de pescoço e explicou: — Eu venho da Bahia, patrão... E em Bahia não há quem não saiba, pelo menos um pouco, de certas verdades... Também sei ler um bocado, para o gasto que mal chega, compreende o senhor? — Muito bem, Gumercindo. Assim é que deve ser. Um homem deve saber o quanto possa de tudo aquilo que o cerca. Eu tenho minhas crenças em Deus, mas desconfio dos programas do homem. Acho que andam contradições entre o que é de Deus e o que calculam e preceituam os credos do
Livro_CRISTOv6.indd 131Livro_CRISTOv6.indd 131 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro mundo. Meu pai começou muito bem, ia ser padre, já estava bem avançado no seminário, depois, um dia sumiu, andou mundo, padeceu, até que resolveu parar e constituir família. Sempre dizia, e olhe que era homem de uma palavra só, que entre o mundo da Verdade e o mundo dos homem havia mais léguas do que distância há entre a Terra e o Sol. Nunca explicou nada para os filhos, porque dizia que um Deus existe, e que as almas não morrem, mas também nunca fez cara lisa para os que se dizem... Bem, vá lá, cada um arranja de viver como pode, gosta e quer. Eu não sei bem como pensar, mas acho que em Deus tudo é certo e justo, sendo que os homens não podem atingir a profundeza das leis. Você já viu alguma alma? Como é que vocês faziam? — Patrão, — consertou ele, — a alma é a centelha divina... Ninguém vê a alma, mas sim o seu revestimento, o seu corpo astral ou fluídico. Isso eu já vi, tenho visto, porque assim quer Deus. Hoje mesmo, bem cedo, pouco antes de levantar, em frente de minha cama, de pé, sorrindo, e com o menino ao colo, estava uma senhora, toda de branco, acenando com a mão, para que eu a visse. O menino era o seu, o Téo, que parecia estar feliz, muito feliz, bem agarradinho no pescoço da senhora. Eu não sei quem seja ela, nem palavra ela me disse, mas bem pode ser alguém da família, quem sabe a avó do menino, quem sabe algum espírito amigo...
Livro_CRISTOv6.indd 132Livro_CRISTOv6.indd 132 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo — Gumercindo, isso foi mesmo assim? Você não estaria inventando? Cravou-me ele os seus olhos pardos, fez uma terrível carranca e disse, num tom seco, áspero o quanto podia sê-lo: — Patrão, desta boca não sai basófia a respeito dessas coisas. Pobreza sim, mas pobreza do mundo, porque de Deus me tenho como rico, bem rico, para não mangar com a Verdade e nem trair quem em mim confia. Se é intenção sua descrer, porque não consegue saber, e nem é possível que eu saiba para si, vamos então calar, nem fazer pio, porque eu com essas coisas não brinco. Minha mãe me fez, dizia ela, e com todo o tamanho de alma que tinha, votado a São Jorge! E veja o senhor, que é homem de bem, chefe de família e... Como a descompostura fosse prolongada, intervi: — Ora! Ora! Vamos, que isso basta, Gumercindo. Eu não sei mesmo, e não tenho obrigação de saber. Mas não quero ser tapeado... Você é sério, eu aceito o que me diz, mas fico de pé com o meu direito de não confiar em todos. Você sabe como o mundo é. Demais, se uns padres enganam de um modo, outros podem enganar de ou-
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