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Capítulo 2 de 13

Parte 2 de 13

Uma Visão de Cristo · Osvaldo Polidoro

Livro_CRISTOv6.indd 23Livro_CRISTOv6.indd 23 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro posso garantir-lhe, sinto-me feliz... Eu sou feliz, compreende? Ela sorriu, um sorriso que era a expressão da bondade e aparteou: — Inconsciência dos sagrados desígnios da vida não é felicidade. — Se a alma é imortal, senhora, aprenderei o suficiente depois da morte. Afinal, para alguma coisa deve servir a imortalidade. E se tiver de sofrer, por não fazer de mim uso condigno, sofrerei. Se tantos sofrem, por que eu não posso sofrer? Todavia, saliento, tenho repugnância por essa gente que vive fazendo cantilenas à dor. Ou são covardes, ou são simplórios, ou são apenas tardos de entendimento. Porque em nenhum Livro Sagrado está escrito que se deve procurar a dor, mas quando muito suportá-la, quando se faz intransferível. Seu semblante iluminou-se e inquiriu-me: — Tens lido, rapaz? — Tudo quanto trata de religião, senhora. Gasto o meu dinheiro como posso. O meu prazer seria outro, bem outro... Mas, como cada um vive o que

Livro_CRISTOv6.indd 24Livro_CRISTOv6.indd 24 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo vive, de acordo com a natureza que tem, eu fico bem comigo mesmo vivendo assim. — Quem te ensinou a ler? — Minha mãe. Ela dizia que ser analfabeto era ser pobre duas vezes, mesmo que possuindo grande fortuna. Depois de saber ler, punha-me nas mãos os livros que julgava capazes de me soerguer o ânimo. E como alguns vizinhos me ofertaram livros, fui organizando uma biblioteca, podendo dizer que possuo uma e bem vasta, constituída quase toda de obras filosóficas e religiosas. As pessoas têm a mania de querer dos outros, pelo menos daqueles que julgam infelizes, que se façam crentes por temor ao sofrimento. Eu deploro os que adulam a Deus por medo ao sofrimento, bem assim como os que se curvam ao sofrimento por temor a Deus. Minha teoria é a do homem objetivo, prático, racional, completamente livre de peias religiosistas. Os donos de religiões muito lucram com tais absurdos, e por seus lucros responde hoje uma humanidade de supersticiosos e decrépitos mentais, uma gentalha que não pode conceber um Deus que não seja maldoso, carniceiro, praguento e traiçoeiro. — Entre as leis fundamentais e os conceitos humanos, paira mesmo uma grande diferença. Toda-

Livro_CRISTOv6.indd 25Livro_CRISTOv6.indd 25 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro via, há um Supremo Determinismo, que percute de dentro do ser, facilitando-lhe subir ou descer, sofrer ou gozar, assim como se dê a proceder. O Deus que é, segundo a Doutrina do Consolador, não particulariza indivíduos e nem leis. Tudo é geral. O indivíduo, em qualquer tempo e local, é livre para tomar ação contra ou a favor da Lei Suprema, vindo por isso a lavrar dentro de si mesmo, sentença de paz ou de tormenta. Você, que leu muito sobre religião, nunca apanhou nas mãos uma obra de Kardec? — Já ouvi falar... Mas estou farto de tais leituras. A humanidade, e falo nela pensando nos seus vultos proeminentes, por mais que engendre programas filosóficos de escol, vive mal, muito mal, sempre em triste expectativa. Por mais que a cabeça funcione a bem do Céu, vive com os pés no lodo da terra. O cérebro e o coração não conseguem prescindir de contributos do bolso e do estômago. O espírito, se é que há, tem podido menos do que o corpo, porque enquanto ele aspira o Céu subjetivo e distante, o corpo, a carne, necessita e se regala com o que é presente e fácil. Eu já lhe disse, minha senhora, que o Céu custa muito caro. E o que é pior, tanto mais caro quanto hipotético. — E se houver provas de que não é hipotético?

Livro_CRISTOv6.indd 26Livro_CRISTOv6.indd 26 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo — Ainda assim, senhora, resta saber se convém a troca. Muitas coisas existentes não são convenientes. O bem futuro pode não valer o sofrimento presente. Eu estou duvidoso de quase tudo quanto se propala a muitos respeitos. E a culpa não é minha... — E se for, em parte, sua? — Eu não fiz e nem sou a humanidade inteira, senhora. Ela abanou a cabeça negativamente e afirmou: — Fê-la Deus, por extraí-la de si, conferindo a cada elemento a devida dose de poderes auto-determiníscos. Por esses poderes, entenda, todo aquele que procede mal é culpado das faltas alheias. Pela lei das incidências, todos influímos sobre alguém, marcando num próximo qualquer a nossa característica, o nosso modo de ser, certo ou errado. E é você quem diz, que é isento de culpas? Como é, então, que ao seu redor bailam monstruosas ações do passado? Que desmandos você andou cometendo em outras vidas? Que vícios são esses que o envolvem? Que sanhas são essas que o assaltam? Onde foi arranjar companhias astrais tão repugnantes? E por que razão pede o espírito de sua mãe para que o leve a uma sessão?

Livro_CRISTOv6.indd 27Livro_CRISTOv6.indd 27 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro — Minha mãe? Que diz minha mãe? — Que é um grande devedor do passado, contra quem nem a dor malfadada pôde, isto é, que não cedeu nem mesmo à dor-expiação. Diz, também, que vive a filtrar o modo de pensar e sentir de seus companheiros de outrora, enquanto pensa estar sendo senhor de seus pensamentos. — Onde está minha mãe? Ela apontou e disse: — Ali. Não se aproxima, porque tais elementos não lhe permitem. — Que mais diz ela? — Nada. Está silenciosa. Espere... Vai dizer, está fazendo sinal... Diz que o seu irmão está à morte, que deve ir vê-lo. Chama-se F... Está certo? Apanhei-me de espanto e quis sair, como pude, arrastando-me pela calçada. A senhora chamou-me e perguntou-me o nome e o endereço, tendo anotado em um caderninho. Quando eu ia a uns metros, disse-me: — Se quiser, irei visitá-lo.

Livro_CRISTOv6.indd 28Livro_CRISTOv6.indd 28 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo Volvi e disse-lhe que sim. Em boa hora o fiz. Por essa hora feliz, porta de entrada ao conhecimento, rendo meu humilde preito de gratidão ao Divino Mestre. E já o disse, não é por favor algum que me tenha prestado, como Ele mesmo me asseverou, mas sim por ter, daí em diante, podido compreender a vastidão de vantagens que o Seu batismo de Espírito me prodigalizou.

Livro_CRISTOv6.indd 29Livro_CRISTOv6.indd 29 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro

Livro_CRISTOv6.indd 30Livro_CRISTOv6.indd 30 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo Meu irmão trabalhava numa estrada de ferro e, ali, entre dois vagões, a morte o apanhou. Deixara mulher e cinco filhos. Em face do seu cadáver, e daquela mulher que pranteava, e daquelas crianças que ficavam órfãs, sem arrimo, fiz mil e uma cogitações a respeito da Justiça Divina. Hoje, sei muito mais e afirmo que tudo veio a tempo. Pelo menos a tempo de eu começar a minha escalada pelas sendas do bem, porque me fiz o arrimo, e tutor o quanto possível, daquelas criaturas sem marido e sem pai. Posso dizer, entretanto, que por inteligência e bondade venci. Direi que aquela mulher veio ao meu encontro, numa hora marcada pelo Céu, quando tudo estava em ordem para tomar novo rumo. Francamente, não sei dizer o que teria acontecido, se ao invés dela outra pessoa tivesse atravessado o meu

Livro_CRISTOv6.indd 31Livro_CRISTOv6.indd 31 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro caminho, incutindo-me outras ideias, referindo-me conceitos de que o país então andava saturado. À noite, aí pelas nove horas, estando ainda o cadáver presente, aquela senhora entrou e nos pediu para fazer uma sessão. Vinha acompanhada de cinco ou seis outras pessoas, que nos apresentou, estando no meio delas Allan Kardec, um homem que se destacava pela simplicidade, deixando os circunstantes à vontade, e por qualquer coisa que em si havia, uma absorvente simpatia pessoal. — Querem fazer a sessão aqui? — perguntei-lhes. — Não é necessário ser aqui, mas em qualquer parte. — respondeu ela. — A casa é muito pequena... Só a cozinha está vazia... Allan Kardec interveio, fazendo um gesto de assentimento: — Jesus Cristo fez nas ruas da Palestina; os cristãos dos três primeiros séculos fizeram nos porões e nas catacumbas. Nós podemos, também, fazer na cozinha. Minutos depois, onze pessoas reunidas em torno

Livro_CRISTOv6.indd 32Livro_CRISTOv6.indd 32 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo de uma mesa, na cozinha da casa de meu irmão, faziam uma sessão espírita. Foi para mim como que abrir as portas de um novo mundo. Falaram espíritos, conclamaram ao bem, desentronizaram a morte do seu pedestal temeroso. Falaram comigo, concitaram-me ao dever, lembraram-me sagrados compromissos. Ouvi uma sentença feliz, pois um deles disse, textualmente — “É mais aquele que pela inteligência vence a dor, do que aquele que só pela dor faz funcionar a inteligência”. Quando de saída, aí pela meia noite, aquela senhora deixara uma quantia em dinheiro e Allan Kardec prometera mandar-me buscar para algumas sessões. — Eu quero ser espírita. Os senhores foram muito bondosos e os espíritos disseram palavras consoladoras e inteligentes. Agradeço e aceito a oferta. Deus, um dia, lhes dará o pago. Allan Kardec disse, enquanto me apertava a mão: — Mais uma vez, no curso da história, o Cristo procura facilitar ao homem o conhecimento da Verdade, através da Revelação. O que fazemos é dar curso ao restabelecimento da Doutrina do Cristo. Temos de nos esforçar, porque o tempo é chegado e os recursos são poucos. O Cristo necessita de colaboradores fiéis.

Livro_CRISTOv6.indd 33Livro_CRISTOv6.indd 33 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro O seu semblante, no momento, era de muita preocupação. Há uma normalidade para toda e qualquer situação. Dias depois, embora os prantos e as queixas, tudo se encaminhava e tomava ordem. Minhas esmolas redobraram, muita gente nos visitava, e com as idas ao Centro nossos corações se enchiam de conforto e esperanças. Nalguns momentos vivíamos verdadeiros êxtases, nossas almas antegozavam o Céu, pairavam num mundo ideal e deslumbrante. A vida, então, não era um viveiro de prantos, como diziam minha cunhada e meus sobrinhos, cujas inteligências despertavam para a vida, cujos corações se voltavam para a mística do amor. Sempre que se podia, ouviam-se palestras do missionário da restauração. Tudo para ele era fácil, ele se transfigurava quando começava a falar, seus olhos, de comum serenos, passavam a ostentar um brilho sublime, de fulgor místico, como se das brumas da Terra antevisse as claridades do Céu. Vinte e dois anos depois, casados os sobrinhos, e minha cunhada sendo por todos bem quista, fechei os olhos para o mundo terrícola. Não sofri lapso algum, entre a visão de um e outro plano. Não havia bem cerrado os olhos

Livro_CRISTOv6.indd 34Livro_CRISTOv6.indd 34 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo para a Terra e já o Céu se fazia representar a meus olhos; eram familiares e amigos, espíritos servidores, que sorriam e convidavam. Do meio daquela multidão, revestida de luz e transbordante de alegria, minha mãe afluíra. Corri para seus braços, rastejante ainda, e me senti livre da carne mais densa, leve qual pluma, gozando uma inebriante sensação, um indefinível prazer espiritual. Vieram uns, aproximaram-se outros, cada qual dizendo palavras de conforto e louvor, de estímulo e de agradecimentos. — Que me felicitem, muito bem. Mas ao que vêm os seus agradecimentos? — inquiri de um deles. — As preces que fez por mim... Eu sou M..., aquele que lhe pediu esmolas aos pobres em seu nome. E você orou por mim, dando esmolas e pensando em mim. Que o Céu lhe seja propício, porque suas dádivas muito bem me fizeram. — Vamos embora. — disse minha mãe, tomando-me pelo braço. — Vou continuar assim, mamãe? Ela olhou-me com profundo enternecimento, meditou e concitou:

Livro_CRISTOv6.indd 35Livro_CRISTOv6.indd 35 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro — Espera, meu filho, que tudo vem a tempo. Deus sabe o que faz. E é notório compreender uma verdade: não basta receber, é preciso saber como se recebe. Não existem milagres e nem mistérios em Deus, e devemos conhecer as leis que regem os fenômenos da vida, sejam os agradáveis, sejam os dolorosos. — Confio em Deus, confio em todos. Sinto-me muito feliz. — Confiar em Deus é um modo indireto de confiança própria, assim como a confiança própria é um modo indireto de confiar em Deus. O normal, para a melhor eficiência, é cultivar o dialetismo — cultivar as duas confianças. Isto, porque determinismo e livre-arbítrio sempre marcharão paralelamente, na vida e nas necessidades de todas as criaturas. — Então, confio em tudo e em todos. — Mas sempre procurando discernir os fatores, não é assim? O Universo total é ação, e ação demanda inteligência e ordem. Não pode haver caotismo integral; é impossível que haja automatismo cem por cento; logo, não só devemos conhecer as forças regentes, como devemos aprender a ser forças determinadoras. Os espíritos são os agentes de Deus. O Universo e tudo quanto ele comporta é movimen-

Livro_CRISTOv6.indd 36Livro_CRISTOv6.indd 36 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo tado por espíritos. Ninguém tem, portanto, direito a negligenciar. Com apenas agentes negligentes, como conduziria Deus o Universo manifesto? — Estou sentindo um sono, uma vontade de dormir... — Logo estarás à vontade. Num abrir e fechar de olhos, eis-me em uma terra muito mais bela! —Aqui vais ficar, por algum tempo, até que te cures de todo. Entrar por um enorme portal, atravessar uns corredores, penetrar um cômodo e ser convidado a deitar, tudo foi obra de segundos, me pareceu.

Livro_CRISTOv6.indd 37Livro_CRISTOv6.indd 37 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro

Livro_CRISTOv6.indd 38Livro_CRISTOv6.indd 38 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo Quando acordei, isto é, depois de estar acordado, mas quando me dispus a abrir os olhos, vi que um irmão, pessoa de mim não conhecida, aplicava-me passes aspersivos. Era um homem jovem, de rosto alegre, de modos familiares, sorridente e feliz, que na primeira oportunidade forçou diálogo: — Sabe quantas horas dormiu, senhor Palmério? — Não. Creio que algumas horas. Não é isso? Entressorrindo, disse: — Alguns dias... Necessitava um longo sono. — Sei. Sinto-me leve como uma pluma. Mas... Ainda sou um aleijado, não?

Livro_CRISTOv6.indd 39Livro_CRISTOv6.indd 39 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro Deu uma encolhida de ombros e opinou: — Acho que deve confiar na Suprema Justiça. Afinal, está em paz de consciência e nada lhe dói. Não sei muita coisa a seu respeito, nada lhe posso dizer de certo, nem mesmo de cogitativo, mas tenho certeza de que lucrou muito com a última passagem pela carne. Deve sentir-se feliz, porque havendo resgatado culpas e acumulado valores construtivos, a cura corporal ou física, a nosso modo, terá de vir como consequência lógica. Se comigo tivesse acontecido assim, ainda que necessitando andar de rastos ficaria contente... — Que aconteceu consigo? Fez aquela fisionomia característica de quem projeta o pensamento ao longe, investiu-se de ares tristes e numa surda frase dedilhou a explicação: — Eu falhei em tudo, senhor. Calei-me, pois senti que não devia esgaravatar suas chagas espirituais. Ele, entretanto, passados uns segundos, e fazendo um gesto de alerta, comentou: — Bem! Mas não devo pensar assim. As ordens são para trabalhar, pensar bem, aprender cada vez

Livro_CRISTOv6.indd 40Livro_CRISTOv6.indd 40 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo mais e ser o mais alegre possível. Devo reconstruir o meu mundo através da criação de uma psicologia favorável. O Céu interior, como aprendi e ainda estou aprendendo, não se levantará jamais sobre o inferno; o lugar ocupado por um, deve ficar vago, para logo ser habitado por outro. Eu hei de fazer isso! Por que não devo fazê-lo, se eu sinto que posso? O senhor não acha? Francamente, julguei estar na presença de algum doente mental, ali chegado casualmente, aplicando-se aventurosamente ao passe. Fiquei aborrecido, pois acima de meus próprios males, cogitei, teria ainda de atuar algum desequilibrado? O que me tirou do apuro foi a chegada de minha mãe, cuja primeira ação foi apresentá-lo. — Salmo fê-lo acordar, porque a ele incumbi dessa função. É um recuperado, um filho de Deus que abusou de certos poderes mediúnicos, mantendo colação com agentes astrais inferiores e lançando-se desbragadamente pela feitiçaria. Envolvido por uma falange infernalmente animada de sádicos propósitos, cultivou o mal pelo gosto do mal, descendo a mais não poder. Depois de dois séculos e meio de martírios, foi aparecendo na fronteira de socorros, atraído pela relativa claridade, vindo a ser recolhido, não sem antes fazer a sua profissão de

Livro_CRISTOv6.indd 41Livro_CRISTOv6.indd 41 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro propósitos ressarcitivos. Agora, cinco anos depois, começa a usar bem daqueles mesmos dotes que tão desastradamente aplicara. — Dois séculos e meio! — exclamei, admirado, assustado. — Sofrendo o cerne das zonas infernais. — informou minha mãe. — Perdendo tempo! Perdendo tempo! — repetiu ele, todo convulso. — Sim, empatando tempo em não progredir e tudo sofrer. Quem poderia, em sã consciência, endossar aí a filosofia da flagelação como bem-aventurada? Um sofrimento culposo é nódoa e não virtude. — O pior, — disse-me ele, — é que eu tinha a impressão do sem fim... Tudo em mim era uma infusão de eternidade e maldição! Que estado, meu Deus!... Eu... — Pensemos em outras coisas. — convidou minha mãe, percebendo-o muito mal. — É um favor. — concordou ele. Aproveitando a oportunidade do vazio em maté-

Livro_CRISTOv6.indd 42Livro_CRISTOv6.indd 42 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo ria de assunto, indaguei: — Quando poderei andar como os outros, ou como um ser humano? Minha mãe fez uma fisionomia de piedade e concitou-me: — Tenha paciência, meu filho. E nunca mais pergunte isso, compreendeu? Cumpre-lhe saber, como cultor da doutrina do Consolador, ou do Batismo de Espírito, que na Justiça Divina não existe falha. Espere, portanto, que em tempo tudo chegará a ter. — E minha família? — Logo sentirá o quanto fizeram por si, amigos e familiares. Posso dizer que as preces foram reservadas para logo mais... Você não sabe como, talvez que eu mesma desconheça o mecanismo da fenomenologia, mas a verdade é essa mesma. Sua vida, seus feitos, sua personalidade, foram citados como exemplos de regeneração, de fé, de trabalho. — Mas foi o povo quem deu tudo! Eu, recebendo o dinheiro e as ofertas, cuidei do quê? Fiz o que qualquer um faria, não é exato?

Livro_CRISTOv6.indd 43Livro_CRISTOv6.indd 43 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro Ela abanou a cabeça e ventilou: — Se está registrado que recebeu o dinheiro e os bens do povo, também está registrado que, depois de aprender Espiritismo, começou a distribuir a outros, deu-se a pensar sério no problema da dor alheia. Tivesse ficado no campo restrito da família, não houvesse ampliado o seu campo de visitas e ofertas, e pouco teria conquistado em face do Céu. Por isso, muita gente faz preces por si. E aquele que no mundo trabalha para organizar o alicerce científico-filosófico-religioso da Doutrina do Batismo de Espírito, em obras fundamentais, muito instou junto a irmãos deste lado, a fim de que não lhe faltasse todo a apoio possível, no âmbito da Suprema Justiça. E você sabe o quanto ele é estimado pelas falanges do Senhor. — Merecerei tudo isso, mamãe? — O bom senso nos indica o dever de simplicidade. Logo, se se julga pouco merecedor, faça questão de sê-lo mais. É a regra infalível, meu filho. — Saberei esperar, procurando, também, ao receber alguma coisa, ser merecedor da oferta e dos ofertantes.

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