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Capítulo 10 de 13
Parte 10 de 13
Uma Visão de Cristo · Osvaldo Polidoro
Livro_CRISTOv6.indd 170Livro_CRISTOv6.indd 170 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo pregarmos a carne numa cruz, fazendo do espírito uma oferta perfeita ao Senhor da Vida. Segundo os Evangelhos, o Mestre nasceu à meia noite e foi pregado na cruz ao meio dia, trinta e três anos mais tarde. Vejamos, portanto, a significação, pelo menos a significação simbólica, desse grande trajeto, dessa imensa jornada compreendida em uma meia noite e um meio dia. No polo mais escuro havia esperança e divinos propósitos, anseio e expectações de toda ordem. No zênite solar de um dia, trinta e três anos depois, o maior dos homens, o máximo espírito da demografia terrestre, tendo vencido o mundo, estava pronto para cinzelar no corpo histórico do planeta, imprimindo-lhe vida, conferindo- -lhe o mágico poder evocativo, a máxima lição de ordem geral, aquela que abrange toda a estrutura funcional do homem, porque, incorporando em Si o Amor e a Ciência, levantou-se acima das gentes, e das suas diretrizes, em fundo de abnegação, de renúncia e de perdão! Encerrando sua palestra, lembrara: — Um novo dia surge, no limiar da humanidade futura, do segundo ciclo do Cristianismo. Virá ele, sem dúvida, sob os embalos de tradições de toda ordem, marcado pelos senões pretéritos, cheirando a sangue e a horrores. Mas há de se levan-
Livro_CRISTOv6.indd 171Livro_CRISTOv6.indd 171 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro tar uma voz, e essa voz dirá ao mundo, às gentes, que bem-aventurada é aquela dor que se levanta da obra fiel a Deus e aos homens. Num extremo está a dor sofrida pelo Divino Mestre, feita de amor e de perdão, servindo de estandarte a todas as gerações. Esta dor, amigos, não pode ser confundida com outras ordens de dores. E lá no outro extremo, distante e coberta de vergonha, está a dor filha do crime, expiatória, o pranto sem conforto moral! Surge, pois, o momento, senhores, em que os homens de critério se devem levantar, para terçar armas contra toda e qualquer conceituação menos feliz, e acima de tudo, contra a dor em geral. Importa, a bem do futuro da humanidade, que se proponham os homens a vencê-la. Ou damos testemunho, em face da Lei de Harmonia, de que somos discípulos Daquele que banhou uma cruz com o Seu sangue inocente, para servir de lição fiel e amorável, ou, então, estaremos seguindo o exemplo de Seus algozes, daqueles que numa infeliz iniciativa, se fizeram sequazes da traição e do assassínio. Já devia não ser mais tempo, a bem de nossos foros de cristandade, de andarmos a louvar aquilo que devêramos combater, por ser a marca exposta de crimes cometidos! Porque, amigos, existem dores e dores, e nem todas elas podem ser bem-aventuradas... Tenhamos a dosagem suficiente em dignidade, a fim de não continuarmos a cobrir o que é vergonhoso,
Livro_CRISTOv6.indd 172Livro_CRISTOv6.indd 172 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo com o véu enganoso da falsa obediência aos divinos mandamentos. Muito mais digno é se não cometam erros, do que, depois de cometê-los, andar por aí a proclamar a excelência de certas deprimentes posturas. Afinal, onde devemos colocar os inatos poderes de amor e inteligência? No cimo, na crista de nossas demandas sagradas, ou no chão, no sopé, a servir de escabelo ao crime? Se o Céu deseja do homem alguma coisa, nesta época transitória e triste, que faz pensar com seriedade nos avisos do Evangelho, essa coisa é esta — que os homens, pelo menos aqueles que falam em Deus, apresentem mais nobres ações e menos desculpas piegas e repugnantes!
Livro_CRISTOv6.indd 173Livro_CRISTOv6.indd 173 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro
Livro_CRISTOv6.indd 174Livro_CRISTOv6.indd 174 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo Terminadas as palavras de Santelmo, minha esposa começou a se sentir mal, assim como naquele dia, quando eu e Gumercindo tivemos a primeira discussão. Todos os sintomas eram idênticos, em aflição e até desespero. Gumercindo pôs-lhe a mão sobre a cabeça, convidando todos a uma firme concentração de pensamento, pois devia tratar-se da presença de alguém que não conseguia ver, apesar de estar vendo outras entidades do plano espiritual. Depois de minutos, estando ela ainda a gemer, foi a esposa daquele trabalhador da fazenda tomada de um espírito, o qual anunciou: — Estão subtraindo fluidos da irmã, para que um espírito possa se apresentar materializado. Tenham firme desejo nesse sentido, porque, pelo que man-
Livro_CRISTOv6.indd 175Livro_CRISTOv6.indd 175 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro dam dizer, será o fenômeno muito grato a todos. O espírito despediu-se e deixou a médium, tendo cada um de nós feito o possível a bem da melhor concentração. Um minuto depois, se tanto fora o tempo gasto, ouvimos dizer: — Graças a Deu! Acendam todas as lâmpadas! Olhamos para o lado de onde vinha a voz, tendo visto perfeitamente o nosso filhinho Teófano, que se sustentava no ar, como que agarrado a alguma coisa, pela disposição dos braços. Inquirido por Gumercindo, respondeu ele que estava no colo da vovó. Depois de Nora ter aceso as lâmpadas, estando ele sempre na mesma postura, deslocou-se entretanto para o outro lado da mesa, ficando de frente para a sua mãe. Olhou-a com uma ternura indescritível, exclamando com fervor: — Mamãe! Mamãe! Olhe, eu estou aqui!... Ele não estava mais doente, seus bracinhos eram alvíssimos e viçosos. Seu semblante irradiava uma felicidade celestial. Pouco depois, tão divinamente co-
Livro_CRISTOv6.indd 176Livro_CRISTOv6.indd 176 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo movido, derramando copiosas lágrimas, eu não podia mais vê-lo. Curvei-me sobre a mesa, e com o meu coração de homem do mundo, e com a minha mente de homem de trabalho, procurei vislumbrar o Supremo Senhor no âmago de mim mesmo, para em surda linguagem protestar meus agradecimentos. Eu sei que não precisava falar. Minha alma era um discurso sublime, encantada que estava com a oferta do Senhor. — Téo, — disse-lhe Santelmo, — você veio a nós como mensagem do Céu. Permita o Senhor que se repita isto por toda a nossa vida... Ele o interrompeu, observando: — Não, padrinho. Olhe como sofre minha mãe... Eu não quero mais fazer isso. — Padrinho? Téo, você acha que tem isso importância? Eu creio... Ele, de novo, interveio: — Eu sei. Vovó também pensa assim. Os sacramentos que salvam são o Amor e a Ciência. Mas os pensamentos de amor nos alcançam e atraem fortemente. Estou sempre aqui, porque estou bem e porque tenho uma função, como vovó está mandando dizer.
Livro_CRISTOv6.indd 177Livro_CRISTOv6.indd 177 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro — Uma função? — Sim. Papai deve transformar a fazenda... Não criar mais gado para matar. Outros farão isso, ainda, por muitos séculos, talvez... Mas o papai deve não fazer mais isso... É Deus quem quer... É Deus... Eu não o vi mais, desde aquele dia, durante a minha vida. Ele se desfizera e se fora, só vindo, de quando em quando, mas por incorporação. Sua mãe, minha esposa, desenvolvera a mediunidade de incorporação, e era de ver como tinham um só modo de pensar e sentir. A seguir comunicou-se outro espírito, havendo abordado o tão importante assunto. Com ele mantivemos prolongada conversa, debatendo a questão, não já por oposição minha, mas simplesmente para penetrar a fundo no propósito da ordem vinda. Fez o espírito o seu paralelo: — A predestinação tem sua raiz nos motivos preparados pelo espírito no curso das vidas. Num caso de predestinação há sempre a infusão de dois fatores, pelo menos, e que são o mérito do espírito e a ordem administrativa superior. Isto é, o Céu determina um elemento capaz. Esse, pois, o seu caso, nesta conjuntura histórica.
Livro_CRISTOv6.indd 178Livro_CRISTOv6.indd 178 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo — E se eu não quisesse aceitar o convite ou a ordem? — Qualquer indivíduo pode falhar e responder pela falha. Outro faria o serviço, porque vasta é a seara do Senhor. Como eu dizia, são necessários trabalhadores múltiplos, para múltiplos serviços e em variantes tonalidades intensivas. A sua função, agora, é dar cabo da ordem e vencer. — Receio das vantagens do ato, como exemplo a ser seguido. A humanidade continuará criando para matar e comer. A antropofagia ainda perdurará muito. . . Ele avançou, dizendo-me: — Não convém pensar assim, porque assim não pensaram os Grandes Reveladores, aqueles que em tempos primevos deram exemplos de fidelidade ao Céu. — A humanidade ainda está embrutecida. — Mas eles venceram. Faça cada um a sua parte, assim como possa e deva, que a Justiça Suprema se impõe devidamente. Os precursores não devem discutir ordem recebida, conscientes que devem es-
Livro_CRISTOv6.indd 179Livro_CRISTOv6.indd 179 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro tar do mandado celestial. O reino do Céu é ordem geral, mas para efeito de gozo, compreenda-se bem, é de ordem pessoal. Está escrito, com palavras de Lei, na estrutura fundamental de cada um, que por suas obras poderá gozá-lo ou não. E quem poderia desfazer semelhante determinação? — Estou apenas discutindo, mas é meu intento cumprir a ordem. — É um exemplo. No curso da história fará efeito e produzirá bens imorredouros. É como o espírito em face do reino do Céu — chega a crescer tanto, que se vem a tornar útil a quantos dele quiserem se valer. Não é o reino do Céu que cresce, que ele é fundamental, imutável e completo; é o espírito que cresce para ele, por desdobrar seus poderes latentes. Uma vez desperto, torna-se poder e filtro da Soberana Vontade. Quem cresce para a Lei, a seguir, em ações, vale pela Lei. É o caso dos Cristos Planetários, que por se unirem à Lei, valem por ela e a executam. Eis porque digo, que vos cumpre agir, não com os olhos fitos nas cogitações humanas, e sim com a certeza do apoio superior. Largai a semente na terra que o Céu dela há de cuidar. Longe estão ainda os bons dias da humanidade terrícola, mas é certo que virão. Sendo assim, portanto, bem-aventurados aqueles que lhes emprestam valores e esforços.
Livro_CRISTOv6.indd 180Livro_CRISTOv6.indd 180 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo — Qual o vosso nome? — Sou apenas um irmão, que trabalha e quer trabalhar, que serve e ama o ato de servir. Até um dia, quando o Senhor dos Mundos determinar. Deus vos cobrirá de bênçãos, assim como acatardes os Seus Mandamentos. Saído esse, deu entrada minha mãe, que disse ser ele uma “Luz do Senhor”, assim como os chamavam na sua esfera de vida, aos elevados mentores. Consultei a opinião de minha mãe sobre a questão: — Que pensa a senhora, mamãe, sobre o caso? Ela sorriu e respondeu: — Eu não penso, quando a ordem vem de tão alto. Faço apenas questão de cumpri-la, como melhor possa. Sei que é o primórdio de uma reforma, ou da reforma de costumes, pois em muito há que haver transformação na face da Terra e no caráter do homem. Mas, é necessário começar. E não tenha receio do que possam dizer os homens, pois há os sempre dispostos a tudo menosprezar e criticar. Lembre-se disto — se o Divino Mestre voltasse, para cumprir nova missão, e o fizesse no seio de
Livro_CRISTOv6.indd 181Livro_CRISTOv6.indd 181 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro um povo agora dito cristão, por certo que não seria aceito e, eivado de apupos, passaria a vida. Os que se dizem cristãos, convém lembrar, são-no de modo superficial, contemplativo quando muito. Em obras, pouca coisa se salva na Terra! Infelizmente, meus amigos, é assim. — Verdadeiramente, estamos longe do modelo enviado pelo Céu. —Em obras, sim. Em fantasias, não. Sobram os formalismos por toda parte, não havendo tempo para o curso das obras dignificantes. E como já o disse elevado irmão, cada qual crendo no seu próprio modo de crer, pensa estar completamente certo, desprezando melhores aprendizados e mais sublimes aplicações. Seria hora de lembrar aos homens, que deixar sectarismos é a melhor divisa de ordem auto-administrativa. Quem livra é a Verdade. A ela se pode ir pelos caminhos do Amor e da Ciência. E quem se fanatiza, ou até mesmo quem se entusiasma, não pode vasculhar à vontade esses maravilhosos caminhos. Somos forçados a dizer, encarando o problema espiritualista em geral, ou qualquer das chamadas Grandes Revelações, que a religião fez mais fanáticos do que libertos. E por quê? Apenas porque há falta de senso crítico na criatura. Apenas por involução. Apenas porque o homem deste sécu-
Livro_CRISTOv6.indd 182Livro_CRISTOv6.indd 182 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo lo, ainda transporta consigo lastros de superstição, cheiro de lama e tendências primitivas e idólatras. Seu muito olhar para trás, por certo que o inibi de olhar para a frente, naturalmente o torna espiritualmente recalcitrante e obsoleto. — Reconhecemos, — interveio Santelmo, — que há muito primitivismo no modo de conceituar as verdades espirituais. Num tempo em que as maravilhas do Céu se fazem manifestas, por real atavismo, e por vício adquirido, o homem olha para a furna, encara amedrontado a idolatria, curva-se ao imperativo do que é retrógrado, julgando mal ao que é superior. Se o natural é ascender, é subir, é vencer a inferioridade, é sair da lapa, em matéria de religião o homem ainda crê e confia nos ídolos em geral e nas formas grosseiras em particular. Sentir Deus presente, saber-se uma partícula divina, e realizar em si os naturais desabrochamentos, isso é para poucos. O grande número pensa de maneira primitiva; para ele Deus está longe, mostra-se através de formas inferiores, faz-se valer por farândolas de homens e condena quem busca, pelo conhecimento saber, crer e cultivar os altos ideais, as nobres virtudes despertas. Para um homem com lastros primitivos, quando o ídolo deixa de ser um planeta, ou uma árvore, ou um animal, ou um amuleto, passa a ser uma sentença, um livro, uma forma de fé. Por isso mesmo, temos
Livro_CRISTOv6.indd 183Livro_CRISTOv6.indd 183 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro o mundo religioso eivado de fanatismos, de entusiasmos, contando com pouco ou nada de elevação espiritual de fato. O Cristo diria, de novo, que as coisas formais foram feitas para o homem, e não o homem para as coisas formais. — Entretanto, meus queridos, aí está o tempo em que os dois planos da vida se hão de penetrar, de modo cada vez mais intenso, fazendo saber de uma vez por todas, que o Céu a ser cuidado é o interior, aquele que se erguerá em fundo de Amor e de Ciência, isto é, de Paz e de Autoridade. E como vimos de transmitir a um servo do trabalho e do bem, uma ordem no sentido de iniciativa feliz, lembramos a necessidade de reforma de fato, em pensamentos, palavras e atos. Quem neste mundo reencarna, ou lhe é pertence demográfico, por razão de escala hierárquica o faz. Comprova-se com isso inferior em evolução, demonstra ser falho, carente de progressos reais. É alguém que ainda cria para matar e mata para comer, portando-se para com os irmãos inferiores, daquele modo que não é devido a um filho regularmente conscientizado das elevadas finalidades do espírito. Cumpre, portanto, entendamos a vasta caminhada que ainda nos resta, nos rumos da espiritualidade superior. E para entendermos assim, antes de mais nada devemos considerar o valor da vida, seja a dos seres humanizados, seja a daqueles
Livro_CRISTOv6.indd 184Livro_CRISTOv6.indd 184 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo de nossos irmãos, que ainda mundeam pelas esferas animais inferiores. Distingo bem, no âmbito da questão, a luta que o homem deve travar contra os assaltos à sua faina. Neste caso, que é ou compreende a luta contra os animais daninhos, e quando não sejam de uso alimentício, matar não é crime. A ordem, pelo menos por ora, não encerra esse preceito, não proíbe a defesa do que é assegurado ao homem. Santelmo volveu à fala, para argumentar: — Muito há que fazer o homem, para vencer tamanha luta. Suprir-se em alimentos sem a contribuição das carnes é para a sociedade contemporânea um problema profundamente sério. — Nos mundos superiores ninguém pensa em alimentar-se à custa do sacrifício alheio. Em nossas esferas de vida, jamais se pensaria em comer carne, sendo exato que se faz exercício de abstenção em geral, a fim de alcançar mais em forças espirituais. Portanto, como já vem de longos milênios a convicção de que as carnes são prejudiciais, não é muito pedir a alguém, que se lance ao respeito pela vida dos menos evoluídos. E como quereríeis lutar contra a dor, sem ser lutando contra os desejos assassinos? Ou, por que sofrem tanto os cidadãos deste mundo? Julgais, porventura, que viver bajulando a
Livro_CRISTOv6.indd 185Livro_CRISTOv6.indd 185 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro dor possa resolver alguma coisa? Pensais, então, que mentir à própria consciência venha a se tornar um ato de triunfo contra o maior dos fenômenos com que se defronta o homem? Sabei, de uma vez por todas, que os sofrimentos do homem são na razão direta daquela dor que a outros impõem! Pareceu ter ouvido alguém, que lhe lembrara alguma coisa, para a seguir recitar o texto bíblico: — No Velho Testamento está dito — “Quando fordes mansos e humildes, increparei os animais daninhos e retirarei do vosso meio os espíritos imundos” — Creio que fala por si o grande aviso, pois não? — Não deixa de ser excelsa a advertência. — respondeu Nora. Em tom meigo, volveu minha mãe: — Tenho que vos deixar, meus queridos. Outros afazeres me estão afetos. Lembrai-vos, entretanto, que sem amar a vida ninguém chega a ser vitorioso e feliz. E não digais que é tradição, que o mundo sempre foi assim, ou que Deus tenha deixado uns para serem devorados pelos outros. Todos vêm surgindo das gamas inferiores da vida, e cada qual, à medida que se torna mais consciente, deve empreender a luta contra
Livro_CRISTOv6.indd 186Livro_CRISTOv6.indd 186 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo a inferioridade. É para a frente que se deve olhar, não para trás. As glórias finais são psíquicas e não instintivas. Compreenda cada qual o que tem, e aquilo que lhe falta, sopesando severamente a necessidade de amar cada vez mais, porque fora do amor não há vitória de fato. Antes de elogiar a dor, faça-se alguma coisa por eliminá-la. Uma nova era surge para a humanidade, reclamando mais Amor, mais Ciência, muito mais sinceridade do homem para consigo mesmo. Desculpas falazes não levantam o reino de Deus no íntimo do homem! Ou se arranca o mal desde a sua raiz, ou se faz obra de tolo encobrindo-o com dísticos piegas e desculpas de falsa observância. Não se teçam elogios às punições, que isso significa ignorância ou covardia; antes meus amigos, procuremos sondar-lhes as causas, descobrir-lhes os motivos, encetando luta fundamental a fim de liquidá-las pela base. É hora de darmos conta, também, e acima de tudo, daquilo que os milênios de fé viciosa erigiram! Enfrentar a realidade, face a face, e reconhecer tão profundos e recalcados erros, e terçar as armas do espírito com o fito de vencer, pode ser porventura deprimente para alguém? — Não, está visto. — dissemos. — Pois então, queridos, fazei o máximo bem e evitai todo e qualquer mal. Que os nossos irmãozinhos, aqueles transeuntes dos reinos inferiores, vos
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