Voltar ao livro Uma Visão de Cristo

Capítulo 1 de 13

Parte 1 de 13

Uma Visão de Cristo · Osvaldo Polidoro

Uma visão do Cristo OSVALDO POLIDORO (reencarnação de Allan Kardec) Uma Visão do Cristo 1ª Edição Instituto Divinista São Paulo

www.divinismo.org

Livro_CRISTOv6.indd 1Livro_CRISTOv6.indd 1 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro Copyright desta edição INSTITUTO DIVINISTA C.N.P.J.: 09.344.266/0001-26 Rua Professor Artur Ramos, 404 – Térreo – Jardim Paulistano www.divinismo.org CEP: 01454010 – São Paulo – SP Todos os direitos reservados Tiragem: 1.000 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Polidoro, Osvaldo Uma Visão do Cristo / Osvaldo Polidoro (reencarnação de Allan Kardec). -- São Paulo : Instituto Divinista, 2021. ISBN 978-65-993307-1-1 1. Doutrina espírita 2. Espiritismo I. Título. 21-62653 CDD-133.901 Índices para catálogo sistemático:

1. Espiritismo : Doutrina espírita 133.901 Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427

Produção Gráfica: Assahi Gráfica e Editora Ltda. Capa: A. Sergio Grell ( ilustração feita a partir de arte de Gustave Doré). Diagramação: Rodolpho Vasconcellos

Livro_CRISTOv6.indd 2Livro_CRISTOv6.indd 2 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo DEUS Eu Sou a Essência Absoluta, Sou Arquinatural, Onisciente e Onipresente, Sou a Mente Universal, Sou a Causa Originária, Sou o Pai Onipotente, Sou Distinto e Sou o Todo, Eu Sou Ambivalente. Estou Fora e Dentro, Estou em Cima e em Baixo, Eu Sou o Todo e a Parte, Eu é que a tudo enfaixo, Sendo a Divina Essência, Me Revelo também Criação, E Respiro na Minha Obra, Sendo o Todo e a Fração. Estou em vossas profundezas, sempre a vos Manter, Pois Sou a vossa Existência, a vossa Razão de Ser, E Falo no vosso íntimo, e também no vosso exterior, Estou no cérebro e no coração, porque Sou o Senhor. Vinde, pois, a Meu Templo, retornai portanto a Mim, Estou em vós e no Infinito, Sou Princípio e Sou Fim, De Minha Mente sois filhos, vós sereis sempre deuses, E, marchando para a Verdade, ruíreis as vossas cruzes. Não vos entregueis a mistérios, enigmas e rituais, Eu quero Verdade e Virtude, nada de “ismos” que tais, Que de Mim partem as Leis, e, quando nelas crescerdes, Em Meus Fatos crescereis, para Minhas Glórias terdes. Eu Não Venho e não Vou, Eu Sou o Eterno e o Presente, Sempre Fui e Serei, em vós, a Essência Divina Patente, A vossa presença é em Mim, e Quero-a plena e crescida, Acima de simulacros, glorificando em Mim a Eterna Vida. Abandonando os atrasados e mórbidos encaminhamentos, Que lembram tempos idólatras e paganismos poeirentos, Buscai a Mim no Templo Interior, em Virtude e Verdade, E unidos a Mim tereis, em Mim, a Glória e a Liberdade. Sempre Fui, Sou e Serei em vós a Fonte de Clemência, Aguardando a vossa Santidade, na Integral Consciência, Pois não quero formas e babugens, mas filhos conscientes, Filhos colaboradores Meus, pela União de Nossas Mentes.

Livro_CRISTOv6.indd 3Livro_CRISTOv6.indd 3 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro

Livro_CRISTOv6.indd 4Livro_CRISTOv6.indd 4 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo ÍNDICE Deus ................................................................................................... 3 Índice .................................................................................................. 5 Nota ao leitor ................................................................................ 7 Uma Visão do Cristo............................................................ 11

2 Parte - Amor e Sabedoria ......................................... 115 A Série do Céu ................................................................... 225 Livros Indispensáveis .................................................... 229

Livro_CRISTOv6.indd 5Livro_CRISTOv6.indd 5 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro

Livro_CRISTOv6.indd 6Livro_CRISTOv6.indd 6 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo NOTA AO LEITOR Caro amigo, se você se interessou por Uma Visão do Cristo é porque já está em busca do verdadeiro caminho... A primeira edição, da presente obra, saiu do prelo em 1953, fazendo parte da “Série do Céu um conjunto de livros de Osvaldo Polidoro que trata da continuidade da vida além do túmulo”. Na verdade, a narrativa feita na primeira pessoa pelo personagem central, serve de fundo ou pretexto para que o autor trate de questões fundamentais da vida humana, que na maioria das vezes pareceu sem respostas satisfatórias. Sempre andou o homem em busca da sua origem, da finalidade da sua vida, do porquê dos seus sofrimentos, ou se quiser o tão propalado “de onde vim?, por que vim?, para onde vou?.” Nesta obra, através do caso individual de Palmério, o nosso herói, o grande mestre Osvaldo Polidoro leva-nos não só as respostas dessas perguntas básicas, fundamentais, mas também fala-nos a respeito de outros assuntos correlatos e de suma importância para a compreensão de nossa existência. Atenção, por exemplo, ao que foi ensinado sobre a

Livro_CRISTOv6.indd 7Livro_CRISTOv6.indd 7 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro dor. O leitor atento, que procura a Verdade, encontrará, no decorrer da leitura “um retrato fiel... vivo e amplo das verdades astrais”. Quem já não se perguntou:- “Que é o Céu?”, - “Qual a estrutura da vida além do túmulo?”, - “Como agem as falanges socorristas?”. Leia com cuidado, e encontrará nesta extraordinária obra respostas às suas indagações mais íntimas. Osvaldo Polidoro, o autor, em todos seus escritos tem evidente preocupação de focalizar problemas de ordem doutrinária, pois, afinal foi para isso que reencarnou: completar a obra iniciada no século dezenove como Allan Kardec. Este espírito, é bom que se diga, assim como Jesus, cristificou-se em outros mundos e entre nós, teve várias encarnações historicamente conhecidas, tais como: Zoroastro, Platão, Elias, João Batista, Francisco de Assis... e dele disse Jesus: “Quando Elias vier de novo, restaurará todas as coisas”. Assim é que cumprindo-se a profecia nasceu ele em São Paulo a 5 de junho de 1910. Quem lhe conhece a vida sabe que desde menino tinha excelsos contatos com o mundo espiritual; era sem dúvidas dotado de extraordinários dons mediúnicos. Já adolescente, começou a escrever sobre a Doutrina Divinista e foi logo considerado um fenômeno, dada a rapidez com que o fazia

Livro_CRISTOv6.indd 8Livro_CRISTOv6.indd 8 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo (30 obras num período de 5 anos). E não parou mais... Agora, decorrido quase um século de vida, considera sua tarefa de Término da Restauração, finalmente concluída. Desse modo, leitor amigo, que você possa através de Uma Visão do Cristo, dar um passo a frente no Caminho da Verdade, pois como verá, não se deve estacionar, a evolução tem de ser contínua e ela é sem sombra de dúvidas, pessoal e intransferível. Boa caminhada!

Lucy Pinheiro Abril - 2000

Livro_CRISTOv6.indd 9Livro_CRISTOv6.indd 9 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro

Livro_CRISTOv6.indd 10Livro_CRISTOv6.indd 10 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo Antes de iniciar minha narrativa, através da qual terei oportunidade de expor eventos de minha vida, e comentar acontecimentos, e focalizar o problema de ordem doutrinária; digo, antes de cogitar de meus problemas, quero fazer um breve estacato, e, assim acometido de poderoso fervor espiritual, deixá-lo dominar a minha pobre estrutura intelectual, a fim de, em suas asas místicas, mas de um teor místico positivo, levantar em mim mesmo, em minha consciência, um altar onde poder erigir um culto, oferecer a oblata do meu devotamento à Causa de Nosso Senhor, o Cristo Planetário. Por que? Porque eu, que agora me apresento no torvelino das transações interplanos, do câmbio de ideias e influências entre os dois hemisférios espirituais, por menos compreender um dia, um vasto dia, uma

Livro_CRISTOv6.indd 11Livro_CRISTOv6.indd 11 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro grande etapa de minha vida de espírito, tive a ousadia, o topete infeliz de levantar contra a Causa do Senhor, que é a nossa Causa, todo o poder influencial de que era senhor e capaz movimentador, desfazendo nas almas irmãs, nos irmãos de jornada, nos herdeiros da mesma sagrada finalidade, aquele gérmen sacrossanto, aquela semente que o Senhor, com a Sua Magnitude, um dia lançara e regara com o Seu próprio sangue. Tecendo agora a minha própria coroa de vitória, por ter vivido e sofrido minhas profundas desditas, e experimentado um dia o sabor feliz de uma prolongada entabolagem doutrinária, quero também assinalar o meu agradecimento àqueles que, de mais alto, por terem vivido e aprendido mais, desceram até o meu triste fadário, a fim de se constituírem a voz da mais oportuna advertência. — Palmério, — disseram-me, — que pretendes fazer das glórias que a vida encerra? Onde queres dar com o sagrado direito de autodeterminação? Dos fundões de minhas borrascas espirituais, tornado quase um monstro em fundo e em forma, porque de mal pensar e sentir me havia restituído a uma forma animal antanho vivida, respondi, com uma voz que devera ser cavernosa:

Livro_CRISTOv6.indd 12Livro_CRISTOv6.indd 12 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo — Não entendo de glórias e direitos! Não quero entender! Que esse Deus, que esse tal de Jesus Cristo, ou quem quer que seja, venha conversar comigo de outras coisas... Quero dinheiro! Quero poder! Quero mulheres! Quero a vida cheia! O já e o agora é que me interessam! Enquanto me revolvia num turbilhão de homens e mulheres em promiscuidade, vendo a terra porejar vinhos e o céu envolver-se em nuvens que tomavam as formas femininas, e se apresentavam em sensuais meneios e sinuosidades, a mesma voz ressoava, conclamando: — Palmério, olha que atingiste um grau lamentável de retrogradação. Daqui em diante, se continuares nessa ronda infeliz, sabes onde irás parar e o que te custará o caminho de volta? — Que me importa! — respondi — Por que Deus não me advertiu antes? A voz tornou, complacente: — A advertência de Deus sempre esteve contigo; a consciência individual e as Revelações que representam? Tu, entretanto, nunca deste crédito a nenhum valor interno ou externo. O homem carnal

Livro_CRISTOv6.indd 13Livro_CRISTOv6.indd 13 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro avassalou o homem espiritual e o tornou miserando escravo. Tudo o que cheira animalismo te convém e arrebata. No entanto, Palmério, estás nas divisas de um plano vibratório. Ou te arrependes ou te darás com os costados na mais tremenda dor. Falo como irmão e amigo, falo como emissário de Jesus Cristo, que por sua vez o é da Divina Essência — Deus. — Sofrimento! Sofrimento! Dor! É só do que sabem falar esses místicos. . . A vida já não é uma onda de dor? Não poder ter tudo quanto se quer já não é um imenso e contínuo sofrimento? Porventura vocês não sofrem? São senis? Senti em mim um repelão, e ouvi aquela voz como se estivesse dentro de mim: — Existem alegrias e alegrias, assim como dores e dores, Palmério. Para ti é chegada a hora de melhor compreensão das sagradas finalidades da vida; e para os homens em geral é chegada a hora de melhor discernimento sobre o fenômeno dor. A dor, como tudo o mais, ou como todas as verdades fundamentais, é um todo que se fraciona ao infinito. Deixemos os misticismos supersticiosos, vividos por ignaros ou por sábios, e convenhamos em que é preciso penetrar o âmago dos fenômenos e captar- -lhes a razão direta. Portanto, não basta que se fale

Livro_CRISTOv6.indd 14Livro_CRISTOv6.indd 14 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo em dor ou dores, e sim que se saiba conhecer o sentido moral e judicial de suas possíveis manifestações na criatura. Genericamente, a dor pode ser acidental, de prova, de expiação e de missão. Ninguém pode, em sã razão, confundir a dor sofrida pelo Cristo, que foi moral e judicialmente missionária, com a dor do Judas, em seguida ao reconhecimento da falta, que foi moral e judicialmente dor de culpa. — E que tenho eu com isso? — respondi, gritando, mesmo sabendo que a voz estava dentro de mim, como se fosse uma ruidosa duplicata de minha consciência. Docemente, mas sempre grave, a voz advertia e elucidava: — Todos somos um em face das leis fundamentais. É por isso que convém saber cada vez mais e melhor. Até hoje, de muitos anos para cá, tens ofendido a Lei no teu próprio íntimo... Tens descido vibratoriamente... Estás esbarrando numa fronteira, e numa divisa que, uma vez transposta, muito te irá custar! Palmério, é a Lei que te fala, não sou eu. Vim em seu nome, porque todos somos advertidos antes de darmos certos passos. — Por que não o fui antes?

Livro_CRISTOv6.indd 15Livro_CRISTOv6.indd 15 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro — Não tens falado contra Deus e contra o Cristo? — Tanto mais razão tenho de queixa; deviam advertir-me duramente. — Assim o foste. Quem quer falar mal dos Supremos Poderes precisa lembrar-se deles. Quem lembra para blasfemar podia lembrar também para obedecer. Não é justo que existam diferentes lembranças, mas sim uma só para todos os efeitos, isto é, para que seja usada a gosto do seu cultor. És, portanto, integral responsável pelo que tens feito. — Irei pensar nisso... E nas diferentes categorias de sofrimento ou dor. Deixem-me em paz. Quando penso em Deus aumenta o meu sofrimento. E a voz me rebateu, num tom brando e convidativo: — A tua dor é dor-culpa. O Cristo, entretanto, pensando em Deus vencia o mundo e seus horrores. Pergunta, a ti mesmo, que categoria de dor é a tua. Consulta a tua consciência, mesmo que a não tenhas preparado para uma pergunta dessa ordem. — Vivi como vivi. — Começas a convencer-te de que és o único

Livro_CRISTOv6.indd 16Livro_CRISTOv6.indd 16 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo responsável. Continua. — Tenho vontade de outras coisas... Poder, vinho, mulheres... — Mais dor-culpa? — Não sei. Quero isso. O Céu é muito difícil. — Fica-te, infeliz. Um dia, quando te lembrares da Lei, pensa em mim. — Não pensarei na Lei. — Palmério, tu pensarás na Lei, mesmo que seja para blasfemar contra ela. — E então? — Não perguntes. Vê que sentes um fogo no íntimo? — É que me estou pondo neurastênico. Tu me fazes mal! Vai-te daqui!... A voz emudeceu e eu desci até não sei que abismos. Dezenas de anos se passaram. Fui aleijado, monstrengo, débil mental; vivi ou vegetei a valer,

Livro_CRISTOv6.indd 17Livro_CRISTOv6.indd 17 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro sugando o veneno dos infernos, quer na carne, quer nos abismos astrais.

Livro_CRISTOv6.indd 18Livro_CRISTOv6.indd 18 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo Eu disse, de início, que desejava prestar a minha humilde homenagem ao Cristo Planetário. Não Lhe agradeço a dor que colhi por ter sido eu mesmo o seu infeliz cultivador. Nem a mim agradeço o ter sofrido, porque se Ele sofreu a Sua dor, foi ela consagrada pela Lei, por ser dor-missão, e não como a por mim sofrida, que foi dor-expiação, auto-expiação, auto-imposta, filha de culpas acumuladas, mãe de outras blasfêmias, consequência de outras e mais perigosas quedas. É necessário ponderar sobre tão importante questão, para que não continue no mundo religioso a haver confusão em torno de fenômeno de tão amplos alcances o quão infinitas aplicações. Deve-se falar na dor, simplesmente? Não, que isso é ignorar muito. O que se deve fazer é medir-lhe as extensões, principalmente no sentido moral.

Livro_CRISTOv6.indd 19Livro_CRISTOv6.indd 19 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro Em que, então, cingirei minha homenagem ao Cristo? É simples expô-lo. Um dia no curso do século dezenove, sendo um francês, e estando a gemer o produto de minhas obras, na forma de um rastejante cidadão do mundo, um estropiado físico, vim a conhecer uma senhora espiritista, admiradora da obra de Allan Kardec, por quem me apeguei de amizade, e a quem agora lembro, enviando-lhe os mais felizes augúrios. Esta senhora, devotada serva da doutrina consoladora, olhou para mim, franziu o cenho, derramou lágrimas e disse-me coisas de espantar. — Meu irmão, — começou a dizer, — vejo em tua aura uma procissão de ações menos felizes. Tem ferido a Lei no seu interior, e se devia ela, por bem servida, garantir-lhe paz e ventura, por ter sido ofendida, faz o contrário. Nós, meu irmão, é que acionamos a Lei, dentro de nós mesmos. E assim colhemos, em nós mesmos, tal como semeamos. O Céu não vem de graça, por favor, por mistérios quaisquer. Ele deve ser erigido dentro de nós mesmos e por nós mesmos. Você, porém, no curso de algumas vidas tem ferido a Lei no mais íntimo...

Livro_CRISTOv6.indd 20Livro_CRISTOv6.indd 20 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo Soltei um longo gemido; ela cessou a fala por alguns segundos. Depois, sempre a me fitar de maneira penetrante, continuou: — Tem vivido dolorosamente. E não deve favorecer a si mesmo pelo que tem feito, porque nem sequer teve inteligência para se aproveitar da dor. Ela, que compreendida podia ter sido bem-aventurada, foi por si lançada no rumo da blasfêmia, da rebeldia, do embrutecimento. Teve que cair na inconsciência. Necessitou dormir para a razão. Foi projetado automaticamente para vidas as mais rudes. Perdeu as melhores oportunidades de avançamento. É um grande inimigo de si próprio. Assustado, perguntei: — Que espécie de esmola me dá a senhora? Eu pedi uma esmola pelo amor de Deus e a senhora me diz palavras tão duras? Olhou-me com ternura e disse-me: — Filho, não é o teu corpo que carece de esmola, mas sim a tua alma que necessita de esclarecimento. É fácil vestir o corpo e fornir o estômago, mas é trabalhoso revestir o espírito de valores gloriosos. A dor jamais te curará, porque arrastas contigo

Livro_CRISTOv6.indd 21Livro_CRISTOv6.indd 21 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Osvaldo Polidoro tremenda aversão por certos conceitos. Necessitas de usar bem a inteligência, para que o pensamento, sendo bem dirigido, force o teu poder-ação no sentido conveniente e tuas obras tornem-se dignas. Lembra-te, filho, de que é mais decente evitar erros, do que pedir desculpas depois de tê-los cometido. És capaz de te lembrares disto? — Não sei, senhora. Não poderia auxiliar-me? Peço esmolas ali na porta da igreja... Não poderia, de quando em quando, falar comigo? Vejo que sabe muitas coisas. Ela olhou-me com piedade e advertiu-me: — Sou velha demais para prometer-te isso. Entretanto, filho, sê inteligente, aproveita a sujeição, pensa na Lei, dá bom rumo a ti mesmo, pois de muitos séculos vens alimentando mal o teu foro íntimo. Pedes esmolas pelo amor de Deus... E no entanto és contra Deus. Vives como um réptil e sustentas vícios de variada ordem. Quando irás compreender o que vale a inteligência? — Minha mãe me chamava “cínico”, senhora; eu acho que sou mesmo cínico. Tudo me faz rir, pouca coisa ou nada me faz pensar sério. Eu queria gozar a vida, ter muito dinheiro, ser autorida-

Livro_CRISTOv6.indd 22Livro_CRISTOv6.indd 22 21/09/21 10:4121/09/21 10:41 Uma visão do Cristo de, possuir... Ora, possuir. . . Mas que mulher se casaria comigo? — O Céu está dentro de ti mesmo. Entretanto, quanto estás longe do Céu! Os prudentes e os covardes, os tímidos e os místicos, de um modo ou de outro, valem-se da dor, ao menos da dor, e de tanto valorizá-la conseguem alguma coisa, ou até mesmo muita coisa. Mas tu, filho, nem da falta de lógica consegues valer-te, nem sequer transformas a dor em veículo de restauração. Ela te fez blasfemar e a tua inteligência não bastou para compreender os poderes da vida. Estás rastejando de corpo, e tua alma rasteja mais ainda. Onde irás parar, repito, sendo forte para não curvar em face da dor, e sendo fraco a ponto de não respeitar os valores do espírito? — Eu não estou sofrendo, senhora. Vivo a minha vida. Cada coisa, cada ser, só vive a vida que pode viver. A senhora tem certeza de que olha para baixo, para cima, para os lados, e observa o que se passa? Muita gente bem intencionada vive pior do que eu, não acha? Meu vizinho é milionário e tem um câncer na perna. Ele cheira mal, quase ninguém quer visitá-lo. Conheço também muitos outros que sofrem e fazem sofrer. Eu não sofro, sou apenas um aleijado. Nada, entretanto, me dói. Por isso,

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.