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Capítulo 23 de 30
Ante os Tempos Novos — parte 23 de 29
Missionários da Luz · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz
A planta estranha revela suas características e oferece seus frutos particulares, mas a árvore enxertada não perde sua personalidade e prossegue operando em sua vitalidade própria. Ali também, Dionísio era um elemento que aderia às faculdades de Otávia, utilizando-as na produção de valores espirituais que lhe eram característicos, mas naturalmente subordinado à médium, sem cujo crescimento mental, fortaleza e receptividade, não poderiam o comunicante revelar os caracteres de si mesmo, perante os assistentes. Por isso mesmo, logicamente, não era possível isolar, por completo, a influenciação de Otávia, vigilante. A casa física era seu templo, que urgia defender contra qualquer expressão desequilibrante, e nenhum de nós, os desencarnados presentes, tinha o direito de exigir-lhe maior afastamento, porqüanto lhe competia guardar as suas potências fisiológicas e preservá-las contra o mal, perto de nós outros, ou à distância de nossa assistência afetiva. A nossa atmosfera de harmonia, porém, não conseguia sossegar a perturbadora expectativa dos companheiros encarnados.
Entre nós, prevaleciam o controle, a disciplina, o autodomínio; entre eles, sopravam o desequilíbrio e a inquietação. Exigiam um Dionísio - homem pela boca de Otávia, mas nosso plano lhes impunha um Dionísio - espírito, pelas expressões da médium. A família humana aguardava o pai emocionado e ainda submetido a paixões menos construtivas, mas auxiliávamos o irmão para que sua alma se mantivesse calma e enobrecida, em benefício dos próprios familiares terrestres. Falava o comunicante sob forte emotividade, mas Alexandre e Euclides, ocupando-se respectivamente dele e da intermediária, fiscalizavam-lhe as atitudes e palavras, para que se manifestasse tão somente nos assuntos necessários à edificação de todos, responsabilizando-o por todas as imagens mentais nocivas que a sua palavra criasse no cérebro e no coração dos ouvintes. Em vista disso, o comunicante portou-se, em todos os pontos da mensagem falada, com admirável dignidade espiritual, fazendo, porém, verdadeiros prodígios de disciplina interior, para calar certas situações familiares e conter as lágrimas estancadas no coração.
Depois de falar quase quarenta minutos, dirigindo-se à família e aos colegas de luta humana, Dionísio despediu-se, repetindo tocante oração de agradecimento que Alexandre lhe ditou, comovido. Nosso concurso decorrera com absoluta harmonia. O manifestante ofereceu os possíveis elementos de identificação pessoal, mas a pequena congregação de encarnados não recebeu a dádiva como seria de desejar. Interrompida a concentração mental com o encerramento, iniciaram-se as apreciações, verificando-se que quatro quintos dos assistentes não aceitavam a veracidade da manifestação. Somente a esposa de Dionísio e alguns raros amigos sentiram-lhe, efetivamente, a palavra viva e vibrante.
Os próprios filhos internaram-se pela região da dúvida e da negativa. Interpelado por um dos companheiros, expressou-se o mais velho: - Impossível. Não pode ser meu pai. Se fosse ele o comunicante, teria naturalmente comentado nossa difícil situação em família... Outro dos filhos de Dionísio ajuntou, levianamente: - Não acredito em semelhante manifestação.
Se fosse o papai, teria respondido às minhas interrogações íntimas. Será que no outro mundo os pais não mais se recordam do carinho devido aos filhos? No grupo em palestra, formado num dos recantos da sala, começou a insinuação maledicente. Apenas a viúva e mais três irmãos de ideal se mantinham juntos da médium, incentivando-lhe o espírito de serviço, através de palavras e pensamentos de compreensão e alegria. No agrupamento, onde os filhos externavam ingratas impressões, um amigo, tocado de cientificismo, afirmava, solene: 'I - Não podemos aceitar a pretensa incorporação de Dionísio.
Otávia conhece todos os pormenores de sua vida passada, permanece quase que diariamente em contacto com a família, e o Espírito comunicante não revelou particularidade alguma, pela qual pudesse ser identificado. E depois de lançar a cinza do cigarro em pequenino vaso próximo, acrescentava, mordaz: - O problema da mediunidade é questão muito grave na Doutrina; o animismo é uma erva daninha em toda a parte. Nosso intercâmbio com o plano invisível está repleto de lamentáveis enganos. Um dos rapazes presentes arregalou os olhos e perguntou, de súbito: - Considera, porém, o senhor que Dona Otávia seria capaz de enganar-nos? - Não, conscientemente - tornou o cientificista com um sorriso superior -, entretanto, inconscientemente, sim. A maioria dos médiuns é vítima dos próprios desvairamentos emotivos.
As personalidades comunicantes, em sentido comum, representam criações mentais dos sensitivos. Tenho estudado pacientemente o assunto para não cair, como acontece a muita gente, em conclusões fantásticas. Há que fugir do ridículo, meus amigos. Continuando a sorrir, sarcástico, acentuava, triunfante: - As emersões do subconsciente nas hipnoses profundas conseguem desnortear os mais valentes indagadores. E, como se as palavras difíceis e as referências preciosas representassem a derradeira solução do assunto, prosseguia, enfático: - A fim de corrigir os desbordamentos da imaginação no Espiritismo, criou-se a Metapsíquica para dirigir as nossas pesquisas intelectuais e não podemos esquecer que o próprio Richet morreu duvidando.
Não lhe bastaram dezenas de anos consecutivos no estudo sistemático dos fenômenos. As próprias materializações não lhe asseguraram a certeza da sobrevivência. Portanto... A reduzida assembléia escutava-lhe a palavra importante, como se ouvisse um oráculo infalível. Noutro recanto do salão, comentava-se o mesmo assunto, discretamente. - Não acredito na veracidade da manifestação - afirmava, em voz baixa, uma senhora relativamente moça, dirigindo-se ao marido e às amigas. - Afinal de contas, a comunicação primou pela banalidade...
Nada de novo. Para mim, as palavras de Otávia procedem dela mesma. Não senti qualquer sinal concludente, com respeito à possível presença do nosso velho amigo. Seria muito desinteressante a esfera dos desencarnados, se apenas proporcionasse aos que nos precedem as frivolidades que o suposto Dionísio nos trouxe. - Talvez tenha havido alguma perturbação - disse o esposo da mesma senhora. - Não nos achamos livres dos mistificadores do plano invisível... O grupo abafava o riso franco.
Nunca experimentei tanta decepção como nesses instantes em que examinava o processo de incorporação mediúnica. Ninguém ali ponderava as dificuldades com que Euclides, o bom cooperador espiritual, fora defrontado para trazer a casa o conforto daquela noite. Ninguém ponderava sobre a luta que o acontecimento representava para a própria médium, interessada em servir com amor na causa do bem. Os companheiros encarnados sentiam-se absolutamente credores de tudo. Os benfeitores espirituais, na apreciação dos presentes, não passariam de meros servidores dos seus caprichos, a voltarem do Além-Túmulo tão-somente para atender-lhes ao gosto de novidades.
Com raríssimas exceções, ninguém pensou em consolo, em edificação, em aproveitamento da experiência obtida. Ao invés do agradecimento, da observação edificante, cultivava-se a desconfiança e a maledicência. Alexandre percebeu que Euclides acompanhava a cena com justificado desapontamento, agravado pelas advertências da véspera; mas, praticando o seu culto de amor e gentileza, o instrutor recomendou-lhe o afastamento, confiando-lhe aos cuidados a entidade comunicante, que deveria regressar, sem perda de tempo, ao lugar de origem. O instrutor acercou-se de mim, compreendeu-me o espanto e falou: - Não se admire, André. Nossos irmãos encarnados padecem complicadas limitações.
Mostrou a fisionomia confiante e sorridente, e acentuou: - Além disto, como você observa, a maioria tem o cérebro hipertrofiado e o coração reduzido. Nossos amigos da Crosta, comumente, criticam em demasia e sente muito pouco; estimam a compreensão alheia; todavia, raramente se dispõem a compreender os outros... Mas o trabalho é uma concessão do Senhor e devemos confiar na Providência do Pai, trabalhando sempre para o melhor. Em seguida, fez algumas recomendações a alguns amigos que ficariam na tenda de realização espiritual e falou: - Vamo-nos. Ao nos afastarmos, rente à porta um cavalheiro dizia ao diretor dos serviços: - Todos nós temos o direito de duvidar.
Não ouvi a resposta do interlocutor encarnado, mas Alexandre considerou, com a expressão fisionômica dum pai otimista e bondoso: - Quase todas as pessoas terrestres, que se valem de nossa cooperação, se sentem no direito de duvidar. É muito raro surgir um companheiro que se sinta com o dever de ajudar. 17 - Doutrinação Terminavam os trabalhos de uma das reuniões comuns de estudos evangélicos, quando uma entidade muito simpática acercou-se de nós, cumprimentando o meu instrutor, que respondeu com espontânea alegria. Tratava-se de mãe afetuosa, que expôs, sem rebuços, as preocupações dolorosas que lhe assaltavam o espírito, solicitando o concurso valioso de “Alexandre, logo após as primeiras palavras”: - Oh! Meu amigo, até hoje permaneço em luta com o meu infortunado Marinho. Não obstante meus ardentes esforços, o pobrezinho continua prisioneiro dos poderes sombrios.
Entretanto, esperançada agora em sua possível renovação, venho pedir-lhe a cooperação no serviço de auxílio à sua alma infeliz! - Uma nova doutrinação? - interrogou o mentor, solícito. - Sim -- disse a mãe angustiada, enxugando os olhos -, já recorri a diversos amigos que colaboram na oficina de trabalhos espirituais, onde conheço a sua atuação de orientador, e todos se prontificaram a prestar-me concurso fraterno. - Nota em Marinhos sinais evidentes de transformação interior? - perguntou Alexandre. Ela respondeu num gesto afirmativo, com a cabeça, e prosseguiu: - Há mais de dez anos procuro dissuadi-lo do mau caminho, influenciando-o de maneira indireta. Por mais de uma vez, já o conduzi a situações de esclarecimento e iluminação, sem resultado, como é de seu conhecimento. Agora, porém, observo-lhe as disposições algo modificadas. Não sente o mesmo entusiasmo, ao receber as sugestões malignas dos infelizes companheiros de revolta e desesperação.
Sente inexprimível tédio na posição de desequilíbrio e, vezes diversas, tenho tido a satisfação de conduzi-lo à prece solitária, embora sem conseguir furtá-lo ao fundo de rebeldia. A venerável entidade imprimiu ligeira pausa à conversação, continuando em tom de súplica: - Quem sabe terá chegado para ele o divino instante da luz íntima? Muito venho sofrendo por esse pobre filho, desviado da estrada reta, e é possível que o Senhor me conceda, presentemente, a graça de reintegrá-lo na senda do bem... Para esse fim, estou congregando as minhas afeições mais puras. Em seguida, fixando o mentor, com estranho brilho nos olhos, implorou: - Oh!
Alexandre, conto com o seu apoio decisivo! Preciso trabalhar por Marinho, de cuja desventura me julgo culpada, até certo ponto, e confesso-lhe, meu amigo, que me sinto cansada, em profunda exaustão espiritual!... - Compreendo-a - exclamou o interlocutor comovido -, a luta incessante para arrebatar um coração amado, prisioneiro das trevas, dá para esgotar a qualquer um de nós. Tenha calma, porém, se Marinho permanece agora entediado diante dos companheiros de criminoso desvio, então será fácil ajudar-lhe o espírito, recolocando-o a caminho da verdadeira elevação. De outro modo, não me abalançaria ao concurso ativo. Confie em nossa tarefa e façamos por ele quanto estiver ao alcance de nossas possibilidades.
Tudo está pronto no campo preparatório? - Sim - elucidou a respeitável matrona desencarnada -, alguns amigos me auxiliarão a trazê-lo, enquanto outros se encarregarão de ajudar Otávia, encaminhando convenientemente o assunto, no agrupamento. - Pois bem - concluiu Alexandre, atencioso -, na noite aprazada, estarei presente, cooperando a favor dele, quanto seja possível. Depois de comovedores agradecimentos, estávamos novamente a sós. - Porque a doutrinação em ambiente dos encarnados? - indaguei. - Semelhante medida é uma imposição no trabalho desse teor? - Não - explicou o instrutor -, não é um recurso imprescindível. Temos variados agrupamentos de servidores do nosso plano, dedicados exclusivamente a esse gênero de auxílio. As atividades de regeneração em nossa colônia estão repletas de institutos consagrados à caridade fraternal, no setor de iluminação dos transviados. Os postos de socorro e as organizações de emergência, nos diversos departamentos de nossas esferas de ação, contam com avançados núcleos de serviço da mesma ordem.
Em determinados casos, porém, a cooperação do magnetismo humano pode influir mais intensamente, em beneficio dos necessitados que se encontrem cativos das zonas de sensação, na crosta do Mundo. Mesmo aí, contudo, a colaboração dos amigos terrenos, embora seja apreciável, não constitui fator absoluto e imprescindível; mas, quando é possível e útil, valemo-nos do concurso de médiuns e doutrinadores humanos, não só para facilitar a solução desejada, senão também para proporcionar ensinamentos vivos aos companheiros envolvidos na carne, despertando-lhes o coração para a espiritualidade. O mentor fixou um sorriso e prosseguiu: - Ajudando as entidades em desequilíbrio, ajudarão a si mesmos; doutrinando, acabarão igualmente doutrinados. Satisfeito com as elucidações recebidas, passei a considerar o caso pessoal da terna entidade que nos visitara. Porque permaneceria um Espírito iluminado em serviços consecutivos por alguém que se comprazia nas sombras?
Seria justo acorrentar corações maternais a filhos impenitentes? O orientador, contudo, veio ao encontro de minhas interrogações, explicando: - A dedicada amiga que nos visitou é uma pobre mãe, em luta depois da morte física. - A quem se refere na intercessão? - perguntei. - A um filho que foi sacerdote na Crosta. - Sacerdote? - indaguei, profundamente surpreendido. - Sim - esclareceu Alexandre. - Os desvios das almas que receberam tarefas de natureza religiosa são sempre mais graves. Existem padres que, contrariamente a todas as esperanças de nosso plano, se entregam completamente ao sentido literal dos ensinamentos da fé. Recebem os títulos sacerdotais, como os médicos sem amor ao trabalho de curar, ou como os advogados sem qualquer espécie de devotamento ao direito. Estimam os interesses imediatos, requisitam as honrarias humanas e, terminada a existência transitória, se encontram em doloroso fracasso da consciência.
Habituados, porém, ao incenso dos altares e à submissão das a1mas encarnadas, não reconhece, na maioria das vezes, a própria falência e preferem o encastelamento na revolta lamentável, que os converte em gênios das sombras. Neste particular acentuou o instrutor, modificando a inflexão de voz -, devemos reconhecer que semelhante condição, neste lado da vida, é a de todos os homens e mulheres, de inteligência notável, com primores de cultura terrestre, mas desviados do verdadeiro caminho de elevação moral. Comumente, as pessoas mais sensíveis e cultas criam o mundo que lhes é peculiar e esperam furtar-se à lei de testemunho próprio, no campo das virtudes edificantes. Acostumadas à fácil aquisição de vantagens convencionais na Crosta, pretendem resolver, depois da perda do corpo físico, os problemas espirituais pelo mesmo processo, e, encontrando tão-somente a Lei, que manda conceder a cada um segundo as suas obras, não raro agravam a situação, internando-se no escuro país do desespero, onde se reúnem a inúmeras companhias da mesma espécie. Dentre as criaturas dessa ordem, sobressai a elevada percentagem dos ministros de várias religiões.
Referindonos apenas aos das escolas cristãs, verificamos que a maioria não pondera na exemplificação do próprio Mestre Divino. Cerram olhos e ouvidos aos sacrifícios apostólicos. Simão Pedro, João Evangelista, Paulo de Tarso, representam para eles figuras demasiadamente distantes. Apega-se às decisões meramente convencionais dos concílios, estudam apenas os livros eclesiásticos e querem resolver todas as transcendentes questões da alma através de programas absurdos, de dominação pelo culto exterior. Erguem basílicas suntuosas, olvidando o templo vivo do próprio espírito; homenageiam o Senhor como os orgulhosos romanos reverenciavam a estátua de Júpiter, tentando subornar o poder celeste pela grandeza material das oferendas.
Mas ai! Esquecem o coração humano, menosprezam o espírito de humanidade, ignoram as aflições do povo, a quem foram mandados servir. E, cegos aos próprios desvarios, ainda aguardam um Céu fantástico que lhes entronize a vaidade criminosa e a ociosidade cruel. Alexandre, neste ponto das elucidações, como se fora chamado a meditações mais profundas, silenciou por momentos, continuando em seguida: - Para estes, André, a morte do corpo é um acontecimento terrível. Alguns enfrentam, corajosos, a desilusão necessária e proveitosa.
A maioria, porém, fugindo ao doloroso processo de readaptação à realidade, precipita-se nos campos inferiores da inconformação presunçosa, organizando perigosos grupamentos de almas rebeladas, com os quais temos de lutar por nossa vez... Quase todas as escolas religiosas falam do inferno de penas angustiosas e horríveis, onde os condenados experimentam torturas eternas. São raras, todavia, as que ensinam a verdade da queda consciencial dentro de nós mesmos, esclarecendo que o plano infernal e a expressão diabólica encontram início na esfera interior de nossas próprias almas. O orientador amigo fez novo intervalo, e, depois de pensar a sós, durante alguns instantes, considerou: - Você compreende... Os que caem por ignorância aceitam com alegria a retificação, desde que se mantenham em padrão de boa vontade sincera.
Os que se precipitam no desequilíbrio, porém, atendendo à sugestão do orgulho, experimentam grande dificuldade para ambientar a corrigenda em si mesmos. Precisam edificar maior patrimônio de humildade, antes de levarem a efeito a restauração imprescindível. Observando que o mentor silenciara novamente, perguntei: - Mas se o erro voluntário pertence ao sacerdote, no caso em exame, como explicar o sacrifício materno? Alexandre não hesitou. - Há renunciações sublimes, em nosso plano - exclamou, sensibilizado -, dentro das quais companheiros existem que se sacrificam pelos outros, através de muitíssimos anos; mas, no processo sob nossa observação, a nossa amiga tem a sua percentagem de culpa. Na qualidade de mãe, ela quis forçar as tendências do filho jovem.
Em verdade, ele renascera para uma tarefa elevada no campo da filosofia espiritualista; contudo, de modo algum se encontrava preparado para o posto de condutor das almas. A genitora, entretanto, obrigou-o a aceitar o ingresso no seminário, violentando-lhe o ideal e, indiretamente, colaborou para que o seu orgulho fosse demasiadamente acentuado. Interpretando suas tendências para a filosofia edificante, à conta de vocação sacerdotal, impôs-lhe o hábito dos Jesuítas, que ele deslustrou com a vaidade excessiva. Claro que a nossa irmã estava possuída das mais santas intenções; todavia, sente-se no dever de partilhar os sofrimentos do filho, sofrimentos, aliás, que ele mesmo ainda não chegou a experimentar em toda a extensão, em vista da crosta de insensibilidade com que a revolta lhe vestiu a alma desviada. Porque Alexandre fizesse uma pausa mais longa, interroguei: - Mas se o filho foi conduzido a situação difícil, para a qual não se encontrava convenientemente preparado, será tão grande a culpa dele?
O instrutor sorriu, em vista das minhas reiteradas argüições, e esclareceu: - A genitora errou pela imprevidência, ele faliu pelos abusos criminosos, em oportunidade de serviço sagrado. Alguém pode abrir-nos a porta de um castelo, por excesso de carinho, mas, porque tenhamos obtido semelhante facilidade, não quer isto dizer isenção de culpa, caso venhamos a menosprezar a dádiva, destruindo os tesouros colocados sob nossos olhos. Por isso mesmo, a carinhosa mãe está efetuando a retificação amorosa de um erro, enquanto o filho infeliz expiará faltas graves. Essa explicação encerrou a palestra referente ao assunto. Na noite previamente marcada, acompanhei o pequeno grupo que procurou Marinho para o auxilio espiritual.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.